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Você tem certeza de que a maioria pensa como você?

15 de março de 2016 6
Criamos uma bolha digital e achamos que ela reflete a verdade

Criamos uma bolha digital e achamos que ela reflete a verdade

O velho ditado que diz que toda a generalização é burra nunca foi tão atual. A facilidade com que acessamos informações e, especialmente a forma como temos acesso a elas por meio das redes sociais, transforma o mundo em uma espécie de sala dos espelhos de parque de diversões, onde tudo o que vemos em volta são imagens distorcidas da realidade. Vou explicar com números e exemplos para não perder o leitor logo de início.

A maioria dos meus amigos no Facebook é branca. A maioria do Brasil, não é: 47,5% dos brasileiros se declararam brancos no senso de 2010. Logo, a maioria é a soma de negros, pardos, amarelos e indígenas. A maioria dos meus amigos tem curso superior e eu arriscaria dizer que boa parte tem mestrado e, como eu circulo no meio universitário, muitos, muitos mesmo são doutores e pós-doutores, a ponto de me fazer achar que isso é algo muito comum. Mas não é. No Brasil, apenas 8,31% das pessoas tem nível superior.

Os meus amigos viajam muito e eu também tenho essa sorte (que não é mérito, mas a soma de uma série de condições que me favorecem muito acima da média): boa parte da minha linha do tempo tem fotos lindas de todos os cantos do mundo, mas a maioria dos brasileiros nunca entrou em um avião e nem saiu do país. Os meus amigos falam duas, três, cinco línguas até, mas 7% dos brasileiros são analfabetos e outros 68% são analfabetos funcionais. Nesse caso, posso afirmar categoricamente que os 75% representam uma maioria que não entende o que está lendo, não consegue interpretar informações. Para não correr o risco de aumentar a estatística, repito a fim de deixar bem claro: apenas um em cada quarto brasileiros é plenamente alfabetizado.

Esses dados todos estão aí como uma chamada à reflexão. Para dizer que quando abrimos o Facebook, o Whatsapp, o Snapchat ou o Twitter temos a sensação de que a maioria absoluta compartilha o nosso pensamento, a nossa opinião. Mas estamos equivocados. Nos últimos três apps, somos nós que escolhemos quem seguir, nós que participamos de grupos com pessoas com as quais temos afinidades. No primeiro, selecionamos os nossos amigos e o Facebook se encarrega de construir uma versão peculiar da realidade.

O algoritmo da rede é um dos segredos mais bem guardados da indústria de tecnologia: a grosso modo, é possível dizer que ele faz a seleção do conteúdo que vai aparecer para cada um de nós. Eu, por exemplo, tenho quase dois mil amigos na rede (e uns 30 na vida real). Interajo sempre com as mesmas 50 pessoas que não incluem, necessariamente, essas 30 pessoas com quem compartilho a minha vida e tudo o que elas fazem aparece para mim.

Quanto mais eu curto, comento ou, agora, com as novas funções, choro, rio ou esbravejo com o que uma pessoa publicou, mais conteúdo dessa pessoa aparece na minha linha do tempo. O algoritmo aprende que eu interajo constantemente com a senhora X ou o senhor Y e vai sempre buscar formas de me fazer interagir ainda mais. A rede social vive de publicidade, venda de informações e se agiganta pelo número de usuários, especialmente pelo tempo que cada um passa nela. Por isso, a ferramenta tenta entender os meus gostos, hábitos e oferecer cada vez mais coisas que eu gosto, pessoas com as quais eu interajo para que eu fique mais tempo conectada.

Assim, é fácil imaginar que a maioria das notícias (e nem vou questionar as fontes e a ética aqui!) confirma o que acredito. Ou seja: quando lemos apenas notícias que chegam até nós pelas redes sociais, temos basicamente um lado da história (que não tem dois: tem infinitos!). É uma fonte muito limitada, precária e perigosa de informação. Some-se isso ao novo esporte nacional que é “desamigar” quem não concorda com a gente, nesse mundo que, por alguma razão que até agora eu não sei explicar, ou se é mortadela ou se é coxinha: não existe nenhuma outra opção no cardápio.

É só olhar com um pouco de distanciamento para entender a bolha em que nos envolvemos: nos cercamos digitalmente de gente com um perfil parecido com o nosso, que vive uma realidade similar a nossa, que tem opiniões parecidas e passamos a acreditar que isso realmente representa uma amostragem válida da vida real. Enchemos a boca para dizer que a nossa opinião é o que a maioria acha ou que apenas alguns gatos pingados defendem algo diferente do que pensamos e isso é irreal.

Os institutos de pesquisa (sérios) oferecem um recorte um pouco mais ampliado e, certamente, um pouco mais conectado com a realidade do país. As pesquisas de intenção de votos, quando feitas com ética, também. Mas mesmo esses institutos se resumem em ouvir os brasileiros das capitais, quando em mais de 200 milhões de pessoas, 150 milhões estão no interior. Se mesmo as tentativas mais honestas de se definir o que a maioria pensa em um país continental como o Brasil não cumprem com exatidão esse papel, é muita burrice achar que a maioria pensa como nós só por conta do que estamos vendo no Facebook.

Aliás, há estimativas de que a maioria dos brasileiros já use sim internet, 20 anos depois de a rede se tornar comercial no país, mas essa mesma maioria não tem sequer uma conta no Facebook. E esses brasileiros que muito provavelmente nem saibam usar um computador ou sequer tenham um smartphone têm os mesmos direitos e devem ter acesso as mesmas condições de vida com justiça social, direitos humanos e civis do que eu, você e qualquer um. Nesse caso, ainda não alcançamos a maioria, mas essas pessoas tem opinião e voto como todos nós.

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comentários

Comentários (6)

  • Alex diz: 15 de março de 2016

    Muito boas colocações Ivana. Não temos uma exata noção do todo. Soube recentemente que a (ruidosa) classe média brasileira, na qual me incluo, representa apenas cerca de 8% da população.

  • Jorge diz: 15 de março de 2016

    Me surpreendo com o cuidado e sensatez que você coloca as palavras desses textos……Aprendo muito com eles, oque é um privilégio já que por você ser mais estudada e viajada que eu, certamente têm os horizontes mais abertos também…….Muito bom, parabéns e continue trazendo coisas novas de fora e produzindo esses textos.

  • Marco diz: 15 de março de 2016

    Respondendo ao título do post: não tenho certeza, e nem quero ou preciso ter… É este o ponto. Aliás, um bom ponto de continuidade para abordar este assunto é falar da “síndrome de manada” (deve haver um nome científico mais adequado para isto), que faz com que as grandes massas tendam a ir atrás do mais popular (ou do mais votado…), como se pensar diferente fosse um defeito. Abraços.

  • Isabel diz: 16 de março de 2016

    O que eu percebo é muita preguiça mental tanto de jovens como de adultos. Polarizam demais. Ou é tudo ou nada. Ou é um lado ou outro. Ou é céu ou inferno. Isso pode ser explicado como efeito de mais de 20 anos de ditadura de direita, quando pessoas conversando na praça era sinônimo de complô e passível de prisão. Então, vai demorar ainda um tempo até que o povo sinta-se livre para expressar o que realmente pensa. Conheço muitos que ainda tem receio de expressarem suas opiniões e se escondem atrás de frases como: ¨Li no Face¨…¨Vi no Twitter¨. Antes, era: ¨Vi na televisão¨; ¨Li no jornal¨; ¨Meus pais me disseram¨; ¨Meu avô contava¨. Com a tecnologia, só trocaram a lavagem cerebral da televisão e da família pela das redes sociais. Nenhuma novidade. A história escancara que popularidade não é sinônimo de BEM ou MAL. Jesus Cristo, POPULAR BOM, foi preso e torturado. Morreu crucificado porque os poderosos POPULARES MAUS daquele tempo temiam que ele pudesse conduzir o povo para uma vida melhor. Hoje não seria diferente. Se JC não fosse um POPULAR BOM, seria poupado como tantos POPULARES MAUS da atualidade que para certas Varas da justiça, ¨não vem ao caso¨.

  • Luiza diz: 20 de março de 2016

    Ivana, parabéns!
    Acabei aqui no blog por acaso e fiquei surpresa com a lucidez das tuas (muito bem colocadas) palavras. Um texto bem escrito é, infelizmente, artigo raro atualmente.
    A alienação construída pelas plataformas digitais me amedronta profundamente. A busca por “justiça” e “moral” do conceituado “cidadão de bem” e a ensandecida necessidade de encontrar um messias, seja político ou religioso (ou – salve-se quem puder! – um combo) são outros dois pontos nevrálgicos dessa nossa crise social. E esses dois últimos são engatilhados por essa abrangência circunscrita dos círculos de mídias sociais.
    Excelente texto, imparcial e atento a um problema conjuntural atualizadíssimo, ainda que de longe.

  • Isabel diz: 29 de março de 2016

    Tenho curiosidade em saber como esse episódio seria tratado pela imprensa alemã. Aconteceu no Ceará mas poderia ter acontecido em Santa Catarina (se já não aconteceu). Madrugada de quarta-feira (16/03), ex-ministro da Educação Cid Gomes discutiu com um grupo de manifestantes que estavam protestando na frente do Palácio da Abolição. Cid Gomes perguntou ao grupo: “O que vocês querem?”, os manifestantes disseram: “queremos o Lula na cadeia e Dilma fora”. Ex-ministro: ¨E quem vocês querem no lugar da Dilma? Manifestantes gritaram: “Bolsonaro, Bolsonaro, Bolsonaro”.

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