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Cinquenta tons de... ops! Dois tons de política

18 de março de 2016 1
Achar que a situação só tem dois lados não é opinião, é burrice

Achar que a situação só tem dois lados não é opinião, é burrice

Sempre que me sinto mal, eu escrevo. Sempre que me sinto bem, eu escrevo. Muitas vezes eu publico, outras não. Tenho mais textos de gaveta do que nos blogs porque escrevo como quem pensa alto e, nem sempre, o que digo nessas horas de calor é o que sou ou o que quero. Me julgue quem, em um momento de raiva, nunca pensou “que esse filho da p… devia morrer” ou “que vontade de matar esse cretino”. Mas eu não quero que ninguém morra e muito menos mataria alguém, é obvio.

Por isso escrever funciona como uma espécie de terapia, como uma forma de consolidar pensamentos em conceitos que vão nortear minhas decisões. Escrevo basicamente para me convencer das coisas. Mas nem isso tenho sido capaz de fazer direito: cada texto tem mais palavrões do que uma transcrição de grampo do Lula. Esse bloqueio é minha versão pessoal de autocensura: é como ter que tomar cuidado na hora de escolher o que vestir no guarda-roupa das ideias. De repente, todas as cores se resumiram a vermelho e amarelo.

Eu sei que falar em polarização é chover no molhado, mas não estou nem aí se começar uma enchente. Me responda uma pergunta com sinceridade: existe coisa mais burra do que achar que existem apenas dois lados dessa história? O mais engraçado é que todo mundo que foi para a rua no domingo tem a certeza absoluta de que quem estava lá compartilha do mesmo pensamento. Tem certeza mesmo?

Nem nessa divisão daltônica existe unanimidade. No mundo amarelo, há quem queira o impedimento da presidente, há quem ache que a linha sucessória é pior que ela. Há quem lute conta a corrupção, há quem tenha roubado muito e que faz pose em fotos de apoio ao judiciário representado por magistrados que não respeitam a própria constituição. Há quem queira votar em fascista, há quem não entende que as manifestações só ocorrem porque não vivemos em uma ditadura, mas muitos a pedem. Entre os vermelhos e muitas paixões exacerbadas, é igual. De fato, estamos todos fritos: coxinhas, mortadelas e o cardápio inteiro.

Em essência, eu compartilho com bandeiras da esquerda: sou a favor de direitos trabalhistas, distribuição de renda, cotas. Mas nem assim tenho minhas causas contempladas por completo: sou feminista, pró-aborto, defendo a descriminalização das drogas, para citar algumas.  Me assumir de esquerda não me impede de achar que o atual governo é um dos piores que o Brasil já teve. Mas não me cega para a situação global dos mercados e nem me priva de entender que nada acontece, em grande parte, por culpa de um parlamento povoado por fichas sujas que não querem mudar nada para não suprimir direitos (imorais) que possuem. Não fazem e nem deixam fazer. São igualmente culpados (ou mais!) “por tudo isso que está ai”. Em um único exemplo: o pacote anticorrupção está engavetado no congresso há mais de um ano e isso diz muito sobre quem manda nas casas legislativas.

No entanto, me assumir como esquerda não me impede de querer que todos os mandatários sejam investigados, como também não me impede de ver que a justiça tem sido seletiva e que os mesmos crimes têm sido averiguados de forma diferente, que os mesmos ritos jurídicos não se aplicam a todos os envolvidos.  Eu não me importo em ver a Dilma impedida, o Lula preso, o Mercadante inelegível desde que existam provas (e delação não é prova), que haja um julgamento nos ritos da lei, que haja condenação de fato e não apenas um linchamento moral e midiático. Mas eu quero que o Cunha seja igualmente julgado, que o Aécio seja investigado, que o Renam seja passado a limpo, que o FHC responda por tudo o que está embaixo do tapete. Eu tenho uma lista enorme de quereres.

Mas eu não fui para a rua de amarelo, embora eu tenha uma camiseta da CBF. Como você, eu quero que a corrupção acabe, mas quero que a democracia e os direitos civis e sociais sobrevivam e há gente que organiza essas marchas que não quer nada disso. Eu posso caminhar ao lado de quem quer o fim da corrupção, mas não aceito fazer número para ideais que não me representam. Mas é seu direito fazer isso.

Também não posso aceitar que a voz dos protestos seja invalidada pelo discurso de que os manifestantes são brancos e ganham mais que outros: mesmo que o perfil fuja ao brasileiro médio, não quer dizer que essas pessoas não tenham o direito de ir à rua e lutar pelas causas que acreditam. Podem não ser a média nacional, mas são a média dos descontentes dispostos a ir para rua. No entanto, também não posso ignorar a violência e as tentativas de linchamento porque alguém passou de camisa vermelha ou “tinha cara de petista”. São casos extremos? São, mas não são mais isolados: estão acontecendo cada vez em maior número.

O meu desejo por justiça não me cega a ponto de achar que se possa passar por cima do Estado de Direito para isso. É esse tal de Estado de Direito que nos assegura o direito de ter direitos. É a constituição que nos assegura o direito de sermos iguais perante a lei, de termos acesso a defesa. E todo mundo tem que ter: eu, você, políticos, religiosos, ladrões e mesmo estupradores ou pedófilos. É isso que faz de nós uma sociedade civilizada. É o que nos diferencia do Estado Islâmico cortando cabeças na televisão. Todos têm que ter assegurado o seu direito a um processo idôneo e promovido por pessoas que não se deixem tocar emocionalmente pelas circunstâncias. A justiça cobra fatos e legalidade: o resto é fofoca e má fé.

O perigo dos tempos atuais é que se as regras não valem para uns, não valem mais para ninguém: nem para você que se considera um cidadão de bem, pagador de impostos. A situação toda não tem mocinhos e se você acha que existe um lado bom e um lado ruim, você é muito ingênuo: leia Maquiavel, entenda como Goebbels trabalhava. Saia da zona de conforto intelectual: o momento exige uma compreensão com todos os tons de cinza, com toda a paleta do pôr-do-sol: do amarelo ao vermelho.

Faça um favor a si mesmo: assista tevê, mas não se resuma a ela. Leia notícias de sites de esquerda e de direita, não de uma fonte ou de uma linha só. Cheque as informações que recebe para saber se pode ou não acreditar. Compartilhar rumores é um desserviço a qualquer causa e faz você parecer muito burro. Mas sobretudo, entenda de uma vez que as pessoas que estão a sua volta não são a maioria: a maioria dos brasileiros sequer tem Facebook.  Sobretudo, saiba que não há uma viva alma nesse país que seja 100% idônea. E, na verdade, nenhum de nós é, tenho certeza.

Entre quatro paredes e dentro das gavetas da nossa memória, temos muito mais que cinquenta tons de cinza.  Achar que esse emaranhado de coisas que está acontecendo agora pode ser definido por tons de vermelho e amarelo, não é opinião, é deficiência. O daltonismo político resume o cenário (e as soluções) a duas cores e desbota a diversidade da aquarela brasileira que (ainda) é o que o país tem de melhor.

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comentários

Comentários (1)

  • Lauro diz: 23 de março de 2016

    Oi Ivana! Acho seu blog muito interessante. Também morei fora do Brasil por muitos anos. Compartilho muitas das suas opiniões. Votei no Lula no primeiro mandato, mas, me decepcionei bastante com ele. Compartilho da opinião dos que entendem que não temos polarização entre esquerda e direita no Brasil. Sou um operador do Direito, sem ligação alguma com o Dr. Sérgio Moro, mas apoio 100% sua atuação na operação lava jato; gostaria, que ele estivesse na alma de cada magistrado, aliás de cada cidadão de minha Pátria. Desejo que todos, absolutamente todos os envolvidos nestes e em outros esquemas de corrupção sejam severa e exemplarmente punidos, independentemente de partido político. A pior defesa é aquela que tenta desqualificar a vítima ou os acusadores. Quem cometeu crimes pode e deve apontar seus comparsas ou inimigos, mas deve pagar pelo que fez, e é isso que eu espero de todos os envolvidos nesses esquemas de corrupção, inclusive daquele em que outrora depositei minhas esperanças o Sr. Luiz Ignácio Lula da Silva.

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