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Feminista ou feminina? Nos pelos do meu sovaco (e no meu corpo!) mando eu!

24 de março de 2016 1
Se eu vou ou não usar o barbeador azul é escolha minha

Se eu vou ou não usar o barbeador azul é escolha minha

Outro dia uma pessoa a quem quero muito, muito bem disse para o meu marido, com uma voz meio desconfiada: a Ivana é bem feminista, né. Ele disse que sim e que isso era bom. Depois comentou a história comigo. Fiquei com isso martelando na minha cabeça, especialmente por vir de uma jovem mulher que, como eu, acredita em igualdade. Porque em algum momento ela poderia achar que me chamar de feminista seria ofensivo? Fiquei imaginando estereótipos, situações ou histórias que pudessem tê-la feito pensar assim.

Hoje, uma amiga querida postou em sua linha do tempo que era feminista e logo apareceram homens para corrigir: você não é feminista, é feminina. Não me contive. Comprei a briga no Facebook alheio. Um homem dizer que uma mulher não é feminista, é feminina é uma das piores formas de machismo. Corrigir a forma como uma mulher se define é uma tentativa de fazê-la caber nos conceitos que esse alguém julga adequados.

Juntei as duas situações em uma: Qual o problema em se definir como feminista? Porque algumas pessoas se incomodam tanto com o rótulo? Para mim, é um baita elogio: significa ser uma mulher que não aceita ser tratada como menor por seu gênero, que busca direitos e salários iguais, que busca o fim da violência doméstica, o direito sobre o próprio corpo. Tem a ver com ter chances iguais mesmo que “corra o risco de engravidar e com isso prejudique a empresa”, como vociferam fascistas que têm assento no congresso.

Ser feminista é lutar pelo direito de ir e vir sem medo de ser assediada, estuprada ou morta. De poder vestir o que quiser e não ser rotulada por isso. Tem a ver com casar com quem escolher ou simplesmente não casar: a ter um parceiro ou uma parceira para vida toda, a ter muitos amores, poucos ou nenhum. Está diretamente relacionado a não aceitar abandonar um sonho de criança, “porque isso é coisa de menino”, a poder brincar de carrinho, se sujar na lama, subir em árvore sem ter que cuidar com os gestos “porque isso não é coisa de mocinha”. É poder escolher o brinquedo (e o cabelo) azul e não obrigatoriamente o cor-de-rosa.

Feminismo fala de parceria em casa, no trabalho, na vida. Fala de pessoas que dividem o mesmo teto e têm responsabilidades iguais com a manutenção, limpeza e zelo do espaço. Fala em filhos feitos por duas pessoas que dividem igualmente a responsabilidade de cria-los, mantê-los e educá-los. Fala no direito de não ter filhos também e em não ser criticada por isso. Fala do acesso a informação e a anticoncepção.

O feminismo está ligado a ser dona do próprio nariz, olhar, flertar, ficar, beijar, dar para quem quiser e não ser rotulada de forma pejorativa por isso. E a não dar também e ter o seu não respeitado em qualquer circunstância. Porque sexo sem consentimento é estupro e não, ela não estava pedindo: se disse não, é não. Feminismo tem uma relação direta com liberdade, segurança e igualdade.

Se você concorda com essa linha de pensamento, você é tão feminista quanto eu e pode ser, ao mesmo tempo, feminina, masculina, assexuada, sexy, freira, puta, hétero, lésbica, bi, gay, pan, “whateversexual”. Pode ser mulher cis, mulher trans, homem de nascimento ou transformação. Pode ser coxinha, mortadela, amarela, vermelha, apolítica: só não pode ser acéfala. Pode ser alta, baixa, gorda, magra, preta, amarela, branca, índia, misturada e até azul, religiosa, ateia, coroinha da igreja, missionária ou bruxa: pode ser quem você quiser e essa é a essência de tudo.

As pioneiras do movimento feminista podem até serem lembradas como aquelas que queimaram sutiãs, mas nós sabemos exatamente quantas horas a mais que um homem precisamos trabalhar para comprá-los: por isso, não se preocupem, podem se assumir feministas que não vai ter fogueira, mas vai ter luta. Não fuja do rótulo e nem da busca por um mundo mais igual. Feministas sim, com orgulho. Com ou sem pelos no sovaco, coisa bem normal aqui na Alemanha: mas cada uma de nós é quem vai decidir isso.

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comentários

Comentários (1)

  • Fátima diz: 13 de abril de 2016

    Parabéns,texto sensacional,inspirador!!!!

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