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Eu mudo, tu mudas, ele muda: as redes sociais e a maldição das amizades-fantasmas

31 de março de 2016 0
Mantemos ao nosso lado fantasmas de amigos que seguem vivos, mas já não são as mesmas pessoas

Mantemos ao nosso lado fantasmas de amigos que seguem vivos, mas já não são as mesmas pessoas

Sabe aquela criança fazendo birra, chorando sem motivo e que não se acalma com nada? É só uma fase. E aquele menino tão bonzinho que, de repente, virou um adolescente rebelde? Outra fase. Há fases para tudo na nossa vida e, como quem avança em um videogame, vamos coletando objetos, melhorando nossas armas, deixando para trás aquilo que já não precisamos. Se não fizermos isso, não progredimos, não chegamos a almejada fase seguinte. A medida que avançamos e fazemos esses upgrades, também vamos deixando para trás as outras versões de nós mesmos. Quem chega a adolescência, já não é mais criança. Quem terminou a universidade, não foi a mesma pessoa que passou no vestibular. Quem escreve esse texto hoje, não é a mesma jornalista que começou antes dos 20 anos na redação do jornal.

Viver é basicamente o processo de nos reinventarmos de inúmeras maneiras, de mudar de gostos, de posturas, de ideias. De rir de fotos antigas e questionar nossa sanidade ao lembrar de paixões eternas que duraram um mês ou dois. Pensar diferente do que pensávamos há um ano ou há um mês pode ser o sinal mais evidente de que adquirimos mais conhecimento, de que temos mais instrumentos para avaliar situações complexas e de entender por novos ângulos coisas que antes víamos de forma limitada. Acontece com política, com amores, com amigos. Não há nada de errado em mudar de ideia. Ao contrário: é preciso maturidade para ter a coragem de fazê-lo.

Eu já mudei de ideia muitas vezes. Levou tempo até tomar posições que hoje me definem: ser feminista, ser ateia, de esquerda, pró-aborto, defender direitos LGBT, ser a favor das cotas e por aí vai. Sei que a grande maioria dessas visões não vai mudar. No entanto, eu poderia abandonar alguma se houvesse razão mais forte e informações comprovadas me fizessem enxergar determinada crença sob uma perspectiva mais sólida, com mais embasamento científico, jurídico ou ético.

Mudanças em descompasso

Apesar de mudar muito ao longo dos anos, sempre tive a mania de cultivar amigos.  Só que hoje, percebo que, neste caminho, arrastei muita bagagem desnecessária em nome de histórias que já não fazem mais sentido. Então, estou me dando ao direito de mudar mais uma vez e parar de arrastar bolas presas aos meus pés. Não se trata de arrogância e nem mesmo de ingratidão, tenho certeza, mas de um descompasso, pode acreditar.

Quando eu nasci, não havia internet. Fui a adolescente que fazia agendas, que trocava bilhetinhos em sala com as amigas. Comecei a namorar antes dos chats e do Tinder: funcionava também. O que acontecia era que as relações eram mais facilmente identificáveis: havia os amigos de verdade e os circunstanciais. Os primeiros, que iam ficando, ano após ano, com poucas variações. Os outros, muitos outros, que chegavam por conta da mudança de sala, das aulas de inglês, do clube de jovens e sumiam, sem um adeus formal, com novas rotinas e hábitos. As relações pertenciam a um espaço e tempo: aconteciam e “desaconteciam”. As pessoas se perdiam no mundo sem dor e viravam memórias românticas de momentos felizes.

Encontros sem desencontros

A diferença de hoje é que essa ordem natural de encontros e desencontros que vivíamos desde que o mundo é mundo se desfez. As redes sociais, e em especial o Orkut e agora o Facebook, inverteram a lógica das coisas e agora ninguém mais se vai: todo mundo fica para sempre em volta, naquele mundinho virtual. Acontece que aquele colega do jardim de infância que foi seu melhor amigo nos jogos de queimada não é alguém que seria seu amigo hoje em dia. Quando você foi deixando de ser as pessoas que foi em cada uma das fases da vida, esses amigos fizeram o mesmo e, hoje, passamos horas e horas de nossas vidas convivendo com esses estranhos fantasmas em nome de uma amizade verdadeira entre duas pessoas que, de fato, já não existem mais.

Nesses tempos em que a paciência acaba rápido demais essa convivência pode ser extremamente desgastante. Claro que, para pessoas como eu, que estão há muitos anos fora, esse pode até ser o único contato com muitos amigos de verdade, mas o preço é alto. Na média, são muito mais assombrações do que pessoas com as quais, de fato, sinto o prazer em conviver. E nem todas aquelas que me fazem rir ou me inspiram reações de simpatia eu conheço bem ou quiçá pessoalmente, confesso. É uma nova fase, provavelmente. Só que nessa fase, resolvi deixar a vida seguir seu curso do jeito que era antes e dei uma forcinha para ajudar o tempo a perder uns e outros pelo caminho.

Na verdade, nas minhas divagações tecnológicas, já pensei até em escrever para o dono da rede sugerindo a criação de um mausoléu: não só para os perfis póstumos, mas um lugar onde nós mesmos pudéssemos congelar o tempo para reunir versões anteriores dos amigos, aquelas versões de quem, de fato, gostávamos muito. Uma espécie de prateleira virtual para as boas lembranças, onde pudessem jazer os amigos já idos, mas ainda vivos, quietinhos, sem nenhum tipo de atualização, sem compartilhamento de notícias falsas, de ideias fascistas, de demonstrações públicas de ignorância. Eles ficariam lá da mesma forma que estariam se vivessem apenas na nossa memória. Desamigar, bloquear, deixar de seguir são alternativas, claro, mas o desapego das afeições é um pouco mais complicado do que o dos objetos. 

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