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Nota (real) mental sobre os dias em que a vida exige mais paciência do que eu tenho...

25 de abril de 2016 2

Foto: Joatan Preis Dutra

nao_fume

Fui ao correio e, em vez da fila que sempre há na agência do meu bairro, decidi abusar de todo o meu conhecimento como local e ir a um postinho credenciado do lado da minha casa. Quando entro no estabelecimento – uma mistura de banca de revista, lotérica, correio, loja de cigarros e guloseimas – me lembro porque sempre evito aquele lugar. A dona mais consome do que vende os cigarros da estante, dentro do cubículo. Eu, que odeio o cheiro, começo a somatizar minhas alergias todas. Só duas pessoas na minha frente: inspiro, expiro, vai dar. Aqui na Alemanha as leis antitabaco são extremamente permissivas e há muitos bares e danceterias onde ainda se fuma dentro, para o meu desespero. Sou do tipo que liga pro bar pra saber se é de fumante antes de sair de casa. Se for, já nem vou.

Perdida em pensamentos, chega a minha vez. Quero postar duas cartas registradas para o Brasil. “Que tipo de carta registrada a senhora quer?” Normal, apenas registrada. “Normal como? Todo o tipo de registro é normal”. Inspiro, expiro. Registrada apenas, com aquele número para ver na internet onde ela está. “Então a senhora não quer com aviso de recebimento?” Não, não preciso do aviso, apenas o registro. “Ah ta, então a senhora quer normal?” Respiro fundo. Cheiro de cigarro fumado entrando na mente. Sim, apenas normal, como falei. Me entrega dois papeis: uma declaração para a aduana que devo preencher e colar em cada carta especificando seu conteúdo. Pego as coisas, vou ao balcão ao lado para preencher.

Outras duas pessoas entraram na loja e estão na minha frente. Seguram caixas para serem postadas. Espero novamente na fila. Entrego as duas declarações da aduana. Ela cola uma em cada carta. “Posso fazer as duas no mesmo recibo?” Pode, se o recibo tiver os dois números de registro, já que elas são para destinatários diferentes. “Mas não são as duas para o Brasil?” Sim, são as duas para o Brasil, mas não para a mesma pessoa. “São 2,30 euros”. As duas? “Não, uma só, eu falei que ia fazer separado”. Respiro fundo. Entrego uma nota de 50. “Não tem trocado?” Não, mas eu quero pagar as duas cartas e jogar na loteria, se a senhora cobrar tudo junto, facilita o troco. “Não, uma coisa de cada vez”. Resmunga e me entrega o troco da primeira carta. Começa tudo novamente. Me entrega o recibo da segunda carta.

Pego os recibos, tento entregar a ela o cartão da loteria, já preenchido, com os números de sempre. O Mario Quintana já dizia que quem compra o bilhete compra, na verdade, o direito de sonhar. Sempre penso nisso quando jogo. Movi a mão para chamar a atenção da atendente para o cartão com as dezenas marcadas. Ela para, bebe um gole de chá da xícara que estava no balcão, me olha e diz: “Aqui não é lotérica. Aqui é o correio. A lotérica é ali”, apontando para o mesmo balcão, dois passos para o lado. Vou para o lado e estendo o cartão. Ela olha para mim, incrédula e diz: “tem gente na fila da lotérica, a senhora tem que esperar sua vez”. Bufo.

Pensei em desistir, mas como no fundo tenho minhas crenças, fiquei pensando que podia ser a sorte testando meu merecimento ao prêmio e, já com a roupa exalando a murrinha do tabaco alheio, voltei ao fim da fila. Esperei outras três pessoas jogarem, comprarem revistas e cigarro. Por sorte não apareceu nenhum cliente na fila do correio. Entreguei meu cartão, paguei e sai sem dizer obrigada ou adeus. Tô aqui, agora, escrevendo isso para me lembrar o porquê de a fila da agência do bairro não ser tão ruim assim. E, honestamente, pensando que eu merecia ganhar na Lotto.

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comentários

Comentários (2)

  • Rudi diz: 26 de abril de 2016

    Ao menos uma coisa em que o Brasil dá de 7×1 na Alemanha: a legislação antifumo.

  • Marlon Ruttmann diz: 28 de abril de 2016

    Visitei a Alemanha a trabalho no final de 2014, e também me espantei (apesar de já ter lido muito a respeito) com a permissividade que o fumo tem aí. Me lembro muito bem do primeiro jantar que fiz aí. Ao entrar no restaurante, dei de cara com muita gente fumando, parecia até uma sauna de tanta fumaça pairando pelo ambiente. Felizmente o restaurante tinha áreas separadas, apesar da de fumantes ser bem na entrada do restaurante.

    Com o tempo acostumei com tudo isso (passei 3 meses lá). Até com os colegas de trabalho de lá sempre convidando entre uma reunião e outra pra ir fumar. E fiquei muito surpreso ao perceber que a Alemanha tem mais vending machines de cigarros do que de refrigerantes ou comida nas ruas e estações de trem.

    Enfim, cortesia realmente não uma das principais qualidades dos alemães. Principalmente dos que trabalham com atendimento ao público. Mas com certeza eles compensam com várias outras qualidades… ;-)

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