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Mesmo que profissão esteja quase extinta, os alemães acreditam que o limpador de chaminé traz sorte

27 de maio de 2016 4

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Ele tocou na porta de surpresa, hoje de manhã e disse que precisava da chave para entrar no porão. Fiquei desconfiada. Como assim, entrar no porão? Falou qualquer coisa em chaminé e eu, ainda meio sonolenta, não entendi direito. Perguntou de onde eu era. Sou do Brasil. Ai o riso veio fácil e disse: no Brasil as pessoas desconfiam de todo mundo? Ele não estava de todo errado.

Era um homem alto, corpulento e usava preto da cabeça aos pés. Olhei, medi e decidi descer com ele aos porões, como se eu, armada de uma chave, pudesse evitar um roubo caso esse fosse o intento. Aliás, porões são parte importante da cultura alemã. Toda a casa tem. Todo o prédio tem. É lá que ficam as malas esperando as férias em Mallorca, lá que ficam os pneus de neve que precisam ser colocados no carro a cada inverno. Lá ficam aquelas coisas quebradas e que nunca vão ser arrumadas, mas que o apego não deixa irem para o lixo de imediato.

Ele navegava pelos corredores poeirentos do porão com uma habilidade que ainda me falta. Nunca desço sozinha e acho que, se as luzes se apagarem, ainda vou ouvir gemidos de alguma anônima Annie Frank. Tenho um medo irracional. Então ele começou a aula e me explicou cada cano, cada porta. Na parede de tijolos com algumas centenas de anos estavam os buracos de chaminés há muito apagadas, mas que pela ordem vigente, precisam ser verificadas de tempo em tempo.

Cada portinhola tinha uma história. A maior, da cozinha, mostrava um duto de ventilação paralelo, necessário para assegurar a remoção de toda a fumaça. A portinhola principal, quando aberta, exibia um caminho escuro. – Eu costumava entrar aí. Entrar aí? – Sim. Foi para a isso que eu estudei (sim, para tudo se estuda nesse país). Eu estudei três anos para ser um limpador de chaminé e, na época em que eu comecei, eu conseguia passar por essa portinha. Tinha que ser: precisava limpar a chaminé toda.

Se perdeu em memórias. O azul dos olhos faiscava de lembranças. – Naquela época muita gente cozinhava com lenha e a cozinha era, muitas vezes, a única fonte de calor da casa. No inverno, para economizar lenha, muitas famílias até dormiam por lá. Contou que naquele tempo ele usava calças de veludo com patacas de couro nos joelhos, para não rasgar, e na cintura, para prender o equipamento. Ainda tinha o cinto: mostrou a fivela que cintilou no escuro do porão, mas não vi direito o relevo. – Era uma profissão reconhecida por todo mundo e nós andávamos na rua usando cartolas.

Seguiu para outra portinhola, arrastou duas bicicletas cheias de poeira, abriu a tranca meio emperrada e suspirou satisfeito. – A senhora está vendo? Está cheia de fuligem. É por isso que eu preciso verificar todas. Com uma espátula, recolheu tudo e foi vestindo as mãos de preto. Coçou o nariz, que também mudou de cor. Estava feliz com o achado como quem cavoca e encontra um tesouro. E porque cada um não limpa a sua chaminé, quis saber. É contra a lei, retrucou de imediato. – Tem uma lei que regulamenta a limpeza das chaminés (claro que tem, se não essa não seria a Alemanha) e ela serve para prevenir que as saídas fiquem entupidas e as pessoas se intoxiquem no inverno. Também ajuda a evitar incêndios. De fato, faz sentido.

Apagamos as luzes, deixamos o porão, ajudei a jogar as cinzas há muito apagadas na lixeira. Perguntei se queria lavar as mãos. Disse que aceitava um copo de água. Perguntou de que cidade do Brasil eu era. Blumenau. Perguntou se tinha muitos neonazistas por lá, já que ele ouviu isso em uma reportagem na TV e ficou muito chateado. Falei que tinha, mas que eu não era. Sorriu.

Aceitou o copo de água com as mãos pretas. Pediu um segundo. Ofereci café, mas ficou só na água. Perguntou o que fazíamos, meu marido e eu. Contei que estávamos no fim do doutorado e resolveu mostrar que sabia falar inglês.

O inglês saia arrastado, complicado, mas queria mostrar que ele também sabia do mundo. Contou mais do tempo em que os limpadores de chaminé eram uma verdadeira instituição cultural alemã. Trabalhavam em grupos e, no fim do dia, com a cabeça coberta por suas famosas cartolas, bebiam canecas de cerveja em grupo. Eram muitos os limpadores. Hoje ele trabalha sozinho. Disse que está velho, mas não concordei. Disse que vai se aposentar e passar o resto da vida na casa de campo que comprou, onde planta tomates e pepinos.

Dei a ele uma garrafa de cerveja feita em casa. – Não acho que seja uma boa ideia beber agora, mas posso fazer isso no fim de semana. Agradeceu, me estendeu a mão coberta de fuligem, deu um aperto sincero e saiu. – Eu só lavo a mão uma vez por dia, quando acabo. É tradição. Falou que vai voltar para limpar a chaminé ano que vem, mas talvez passe antes para trazer uns tomates. Foi uma visita surreal.

Desde que cheguei na Alemanha, sempre ouvi histórias sobre os limpadores de chaminé. A cada Réveillon, as floriculturas ficam lotadas de vasos de trevos com bonequinhos de cartola. Eles são considerados um dos maiores símbolos da sorte, mas achei que fossem apenas uma memória afetiva de outros tempos. Hoje fui atropelada pela história e por tudo o que ela representa. Umas horas depois, ganhei 35 euros de vale presente e achei, são e salvo, meu celular que eu já estava dando por perdido. Não é lenda não. O limpador de chaminé ainda existe e traz mesmo sorte!

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comentários

Comentários (4)

  • Pedro Moritz de Carvalho Neto diz: 27 de maio de 2016

    Sem palavras. Parabens pelo texto e pela sensibilidade, Ivana.

  • Bel diz: 29 de maio de 2016

    Quanta diferença cultural! Na Alemanha, estudam 3 anos para ser limpador de chaminé. Em Santa Catarina, isso seria chamado de ¨frescura¨, tal a falta de consideração pelas profissões que não são realizadas com caríssimo terno preto ou terno branco, ou vestido de gala. E essa parte do texto diferencia ainda mais: ¨Perguntou de que cidade do Brasil eu era. Blumenau. Perguntou se tinha muitos neonazistas por lá, já que ele ouviu isso em uma reportagem na TV e ficou muito chateado¨. Pior que tem mesmo e se acham democráticos!

  • Ellen Gomes diz: 8 de junho de 2016

    adorei a história. Seu blog é muito útil e interessante

  • Vitor diz: 12 de junho de 2016

    Sensational

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