Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
 

Mesmo que profissão esteja quase extinta, os alemães acreditam que o limpador de chaminé traz sorte

27 de maio de 2016 4

chamine2

Ele tocou na porta de surpresa, hoje de manhã e disse que precisava da chave para entrar no porão. Fiquei desconfiada. Como assim, entrar no porão? Falou qualquer coisa em chaminé e eu, ainda meio sonolenta, não entendi direito. Perguntou de onde eu era. Sou do Brasil. Ai o riso veio fácil e disse: no Brasil as pessoas desconfiam de todo mundo? Ele não estava de todo errado.

Era um homem alto, corpulento e usava preto da cabeça aos pés. Olhei, medi e decidi descer com ele aos porões, como se eu, armada de uma chave, pudesse evitar um roubo caso esse fosse o intento. Aliás, porões são parte importante da cultura alemã. Toda a casa tem. Todo o prédio tem. É lá que ficam as malas esperando as férias em Mallorca, lá que ficam os pneus de neve que precisam ser colocados no carro a cada inverno. Lá ficam aquelas coisas quebradas e que nunca vão ser arrumadas, mas que o apego não deixa irem para o lixo de imediato.

Ele navegava pelos corredores poeirentos do porão com uma habilidade que ainda me falta. Nunca desço sozinha e acho que, se as luzes se apagarem, ainda vou ouvir gemidos de alguma anônima Annie Frank. Tenho um medo irracional. Então ele começou a aula e me explicou cada cano, cada porta. Na parede de tijolos com algumas centenas de anos estavam os buracos de chaminés há muito apagadas, mas que pela ordem vigente, precisam ser verificadas de tempo em tempo.

Cada portinhola tinha uma história. A maior, da cozinha, mostrava um duto de ventilação paralelo, necessário para assegurar a remoção de toda a fumaça. A portinhola principal, quando aberta, exibia um caminho escuro. – Eu costumava entrar aí. Entrar aí? – Sim. Foi para a isso que eu estudei (sim, para tudo se estuda nesse país). Eu estudei três anos para ser um limpador de chaminé e, na época em que eu comecei, eu conseguia passar por essa portinha. Tinha que ser: precisava limpar a chaminé toda.

Se perdeu em memórias. O azul dos olhos faiscava de lembranças. – Naquela época muita gente cozinhava com lenha e a cozinha era, muitas vezes, a única fonte de calor da casa. No inverno, para economizar lenha, muitas famílias até dormiam por lá. Contou que naquele tempo ele usava calças de veludo com patacas de couro nos joelhos, para não rasgar, e na cintura, para prender o equipamento. Ainda tinha o cinto: mostrou a fivela que cintilou no escuro do porão, mas não vi direito o relevo. – Era uma profissão reconhecida por todo mundo e nós andávamos na rua usando cartolas.

Seguiu para outra portinhola, arrastou duas bicicletas cheias de poeira, abriu a tranca meio emperrada e suspirou satisfeito. – A senhora está vendo? Está cheia de fuligem. É por isso que eu preciso verificar todas. Com uma espátula, recolheu tudo e foi vestindo as mãos de preto. Coçou o nariz, que também mudou de cor. Estava feliz com o achado como quem cavoca e encontra um tesouro. E porque cada um não limpa a sua chaminé, quis saber. É contra a lei, retrucou de imediato. – Tem uma lei que regulamenta a limpeza das chaminés (claro que tem, se não essa não seria a Alemanha) e ela serve para prevenir que as saídas fiquem entupidas e as pessoas se intoxiquem no inverno. Também ajuda a evitar incêndios. De fato, faz sentido.

Apagamos as luzes, deixamos o porão, ajudei a jogar as cinzas há muito apagadas na lixeira. Perguntei se queria lavar as mãos. Disse que aceitava um copo de água. Perguntou de que cidade do Brasil eu era. Blumenau. Perguntou se tinha muitos neonazistas por lá, já que ele ouviu isso em uma reportagem na TV e ficou muito chateado. Falei que tinha, mas que eu não era. Sorriu.

Aceitou o copo de água com as mãos pretas. Pediu um segundo. Ofereci café, mas ficou só na água. Perguntou o que fazíamos, meu marido e eu. Contei que estávamos no fim do doutorado e resolveu mostrar que sabia falar inglês.

O inglês saia arrastado, complicado, mas queria mostrar que ele também sabia do mundo. Contou mais do tempo em que os limpadores de chaminé eram uma verdadeira instituição cultural alemã. Trabalhavam em grupos e, no fim do dia, com a cabeça coberta por suas famosas cartolas, bebiam canecas de cerveja em grupo. Eram muitos os limpadores. Hoje ele trabalha sozinho. Disse que está velho, mas não concordei. Disse que vai se aposentar e passar o resto da vida na casa de campo que comprou, onde planta tomates e pepinos.

Dei a ele uma garrafa de cerveja feita em casa. – Não acho que seja uma boa ideia beber agora, mas posso fazer isso no fim de semana. Agradeceu, me estendeu a mão coberta de fuligem, deu um aperto sincero e saiu. – Eu só lavo a mão uma vez por dia, quando acabo. É tradição. Falou que vai voltar para limpar a chaminé ano que vem, mas talvez passe antes para trazer uns tomates. Foi uma visita surreal.

Desde que cheguei na Alemanha, sempre ouvi histórias sobre os limpadores de chaminé. A cada Réveillon, as floriculturas ficam lotadas de vasos de trevos com bonequinhos de cartola. Eles são considerados um dos maiores símbolos da sorte, mas achei que fossem apenas uma memória afetiva de outros tempos. Hoje fui atropelada pela história e por tudo o que ela representa. Umas horas depois, ganhei 35 euros de vale presente e achei, são e salvo, meu celular que eu já estava dando por perdido. Não é lenda não. O limpador de chaminé ainda existe e traz mesmo sorte!

Comente

comentários

Nota (real) mental sobre os dias em que a vida exige mais paciência do que eu tenho...

25 de abril de 2016 2

Foto: Joatan Preis Dutra

nao_fume

Fui ao correio e, em vez da fila que sempre há na agência do meu bairro, decidi abusar de todo o meu conhecimento como local e ir a um postinho credenciado do lado da minha casa. Quando entro no estabelecimento – uma mistura de banca de revista, lotérica, correio, loja de cigarros e guloseimas – me lembro porque sempre evito aquele lugar. A dona mais consome do que vende os cigarros da estante, dentro do cubículo. Eu, que odeio o cheiro, começo a somatizar minhas alergias todas. Só duas pessoas na minha frente: inspiro, expiro, vai dar. Aqui na Alemanha as leis antitabaco são extremamente permissivas e há muitos bares e danceterias onde ainda se fuma dentro, para o meu desespero. Sou do tipo que liga pro bar pra saber se é de fumante antes de sair de casa. Se for, já nem vou.

Perdida em pensamentos, chega a minha vez. Quero postar duas cartas registradas para o Brasil. “Que tipo de carta registrada a senhora quer?” Normal, apenas registrada. “Normal como? Todo o tipo de registro é normal”. Inspiro, expiro. Registrada apenas, com aquele número para ver na internet onde ela está. “Então a senhora não quer com aviso de recebimento?” Não, não preciso do aviso, apenas o registro. “Ah ta, então a senhora quer normal?” Respiro fundo. Cheiro de cigarro fumado entrando na mente. Sim, apenas normal, como falei. Me entrega dois papeis: uma declaração para a aduana que devo preencher e colar em cada carta especificando seu conteúdo. Pego as coisas, vou ao balcão ao lado para preencher.

Outras duas pessoas entraram na loja e estão na minha frente. Seguram caixas para serem postadas. Espero novamente na fila. Entrego as duas declarações da aduana. Ela cola uma em cada carta. “Posso fazer as duas no mesmo recibo?” Pode, se o recibo tiver os dois números de registro, já que elas são para destinatários diferentes. “Mas não são as duas para o Brasil?” Sim, são as duas para o Brasil, mas não para a mesma pessoa. “São 2,30 euros”. As duas? “Não, uma só, eu falei que ia fazer separado”. Respiro fundo. Entrego uma nota de 50. “Não tem trocado?” Não, mas eu quero pagar as duas cartas e jogar na loteria, se a senhora cobrar tudo junto, facilita o troco. “Não, uma coisa de cada vez”. Resmunga e me entrega o troco da primeira carta. Começa tudo novamente. Me entrega o recibo da segunda carta.

Pego os recibos, tento entregar a ela o cartão da loteria, já preenchido, com os números de sempre. O Mario Quintana já dizia que quem compra o bilhete compra, na verdade, o direito de sonhar. Sempre penso nisso quando jogo. Movi a mão para chamar a atenção da atendente para o cartão com as dezenas marcadas. Ela para, bebe um gole de chá da xícara que estava no balcão, me olha e diz: “Aqui não é lotérica. Aqui é o correio. A lotérica é ali”, apontando para o mesmo balcão, dois passos para o lado. Vou para o lado e estendo o cartão. Ela olha para mim, incrédula e diz: “tem gente na fila da lotérica, a senhora tem que esperar sua vez”. Bufo.

Pensei em desistir, mas como no fundo tenho minhas crenças, fiquei pensando que podia ser a sorte testando meu merecimento ao prêmio e, já com a roupa exalando a murrinha do tabaco alheio, voltei ao fim da fila. Esperei outras três pessoas jogarem, comprarem revistas e cigarro. Por sorte não apareceu nenhum cliente na fila do correio. Entreguei meu cartão, paguei e sai sem dizer obrigada ou adeus. Tô aqui, agora, escrevendo isso para me lembrar o porquê de a fila da agência do bairro não ser tão ruim assim. E, honestamente, pensando que eu merecia ganhar na Lotto.

Comente

comentários

Alemanha de A a Z: um guia prático para entender o país e suas peculiaridades

13 de abril de 2016 1

Foto: Cristiano Prim

Alemanha em resumo: respeito, história, cultura e qualidade de vida

Alemanha em resumo: respeito, história, cultura e qualidade de vida

Alemanha – O país coleciona ódios e amores na mesma proporção. Bom, não exatamente. A liderança econômica da Alemanha na união europeia coloca o país – e em especial a chanceler Angela Merkel – no centro das críticas pela crise econômica. Não raro a governante é retratada como nazista, embora dentro do país goze de prestígio (demonstrado nas urnas nas últimas eleições). Más línguas dizem que a Alemanha conquistou com a economia e com a criação da EU aquilo que o Nazismo almejava e fracassou. Por outro lado, a Alemanha tem mudado sua imagem na Europa por conta da recepção aos asilados, política mantida pelo governo apesar da posição pública contrária de sua própria base. Críticas à parte, é o país de um povo ordeiro e que tenta superar as marcas do passado. Uma economia de índices fortes apesar da crise e um lugar onde se vive com estabilidade e segurança.

Berlin – É capital alemã desde a reunificação, em 1991 (antes era a capital da Alemanha comunista – a DDR e Bonn era da Alemanha “Ocidental”, a BRD) e uma das cidades mais cosmopolitas da Europa, um epicentro criativo e, para muitos, um lugar que não representa o que a Alemanha é. Apesar dos seus 4,4 milhões de habitantes, ainda é um lugar relativamente tranquilo e seguro. O sistema de transporte de Berlin é certamente um dos mais eficientes do mundo – embora seja difícil se conformar com os frequentes (10 minutos) atrasos dos trens que cruzam a região metropolitana. Tem lugares lindos mas, como um todo, não é exatamente o modelo europeu de beleza. Berlin encanta por ser história viva: a guerra, o muro, a divisão das Alemanhas transformam a capital germânica na cidade mais rica em história de todo o país. Imperdível.

Cerveja – A Alemanha pode até não ser o maior consumidor mundial de cerveja (com 143 litros por pessoa a cada ano, tchecos ocupam essa posição, seguidos dos austríacos, com 108). Os alemães estão em terceiro, com a média de 107 litros por pessoa por ano. No Brasil, que ocupa a 17ª posição, são 62. Mas as cervejas produzidas na Alemanha garantem a fama internacional. Existem incontáveis marcas produzidas por 1274 cervejarias registradas. Fora as artesanais e quem faz em casa. Os tipos variam muito, mas para serem chamadas de cerveja, todas devem seguir a lei de pureza na fabricação, a Reinheitsgebot. Somente água, malte, lúpulo e fermento podem ser usados no fabrico. Comparando as cervejas alemãs do tipo Pils com as brasileiras – que são quase sempre dessa categoria – fica fácil diferenciar: as cervejas alemãs são mais “fortes”. Tem um sabor mais marcante de malte e uma variação grande na lupulagem. São servidas um pouco menos geladas que no Brasil para que se possa apreciar o sabor em todas as suas notas.

Domingo – Todo sábado parece que o país está às vésperas de uma guerra, especialmente nos supermercados. No domingo – com raríssimas e recentes exceções nas cidades maiores – NADA abre no país. Não tem mercado, não tem loja, não tem shopping aberto. Padarias fazem plantão em sistema de rodízio, como as farmácias. Cada final de semana é uma que “faz o favor” de abrir em um determinado horário para vender. Mas as portas abertas são por pouco tempo. É melhor planejar o domingo com antecedência, fazer a lista de compras bem completa para não faltar nada.

Educação – O sistema de educação alemão causa estranhamento em quem chega. No final do que seria a quarta série no Brasil, os professores dividem os alunos em três grupos: os mais inteligentes, estudiosos e com boas notas; os intermediários, e os mais “fracos”. Cada grupo segue para uma escola diferente. Os “espertos” vão para o Gymnasium, onde serão preparados para entrar na universidade. Os do meio, passam a frequentar a Real Schule, que acaba mais cedo e conduz, geralmente, a um curso técnico ou a um curso superior do tipo tecnólogo. Já os “burrinhos” são encaminhados para a Hauptschule, onde recebem um ensino elementar e são encaminhados cedo para cursos profissionalizantes em áreas de ocupações menos especializadas: jardineiros, zeladores, padeiros, condutores de ônibus e afins. Isso porquê, na Alemanha, até para assentar tijolos em uma obra é preciso um curso técnico. Geralmente são três anos de preparação para qualquer atividade.

Mercado de Natal: cada cidade tem o seu e esse é um dos de Bremen

Mercado de Natal: cada cidade tem o seu e esse é um dos de Bremen

Feiras de Natal – As celebrações de Natal na Alemanha são pura magia. Em todas as cidades são organizados mercados que vendem comidas típicas do inverno e o tradicional vinho quente temperado com especiarias, o Glühwein. O cheiro da bebida se soma com as amêndoas carameladas, a neve e todos os cantos parecem cenário de filme. Sem exagero. É lindo demais. Já o réveillon, Silvester, como se diz aqui, é o oposto disso. Algumas cidades fazem queima de fogos, mas no geral, são apenas as pessoas que levam seus fogos para a beira de um rio, se houver. Aliás, os espaços tradicionais são verdadeiras praças de guerra: o cenário é apavorante, com bombas e rojões explodindo por todos os lados. Isso porquê os fogos são proibidos no país o ano inteiro e só podem ser comprados e usados nos dias 31 de dezembro e 1º de janeiro. Ou seja: são 48 horas para dar vazão a todo o fetiche bélico de um país inteiro. Além disso, o frio espanta qualquer ânimo. Pode ser divertido passar na rua, mas é preciso ter um programa para depois, porque meia hora depois da virada a multidão já estourou seus fogos, deixou toneladas de lixo para trás e se dispersou. Abaixo de zero, só mesmo com um bar quentinho para comemorar!

Geração de energia – A Alemanha sempre viveu de energia termoelétrica (do carvão) e nuclear, mas está trabalhando duro em um plano ambicioso: mudar sua matriz até 2020. Muito tem sido feito e já se pode escolher comprar energia de fontes renováveis. Placas solares e turbinas eólicas estão espalhadas no país inteiro e isso não sai barato. No entanto, quem vive aqui aceitou pagar o preço de cuidar do meio ambiente. Além da energia, alemães consideram a separação do lixo quase uma religião. Veja o verbete Lixo.

Hauptbahnhof – Cada cidade tem a sua estação central de trem, que interliga os mais distantes recantos do país. A malha ferroviária alemã é de dar inveja. As conexões são geralmente precisas: é normal ter-se apenas três ou quatro minutos para trocar de um trem para o outro. Por isso qualquer atraso é catastrófico. Mas tem para quem se queixar e as queixas são ouvidas. Mais de 60 minutos de atraso significa receber dinheiro de volta. Quem vive aqui reclama constantemente da Deutsche Bahn, mas quem vem de fora geralmente elogia: os serviços são bastante organizados em comparação a outros países, mas se paga bem mais caro por isso. Um cálculo bom (mas não preciso!) é saber que cada hora de trem custa aproximadamente 10 euros quando os tickets são comprados com antecedência. Se comprar na hora, pode ser o dobro disso. Existem muitas formas de economizar e encontrar tickets mais baratos.

Imigrantes – Estatísticas de 2011 apontam que 19,5% da população total alemã (81,75 milhões de pessoas) é imigrante ou descendente de imigrantes.  Mas em muitas cidades a sensação é de que esses números são bem mais altos. Turcos são a larga maioria. Oficialmente, 1,575 milhão no final de 2012. Mas é preciso levar em conta que as novas gerações – filhos e netos dos turcos que imigraram no pós-guerra para trabalhar na reconstrução do país – já são nascidas na Alemanha e, portanto, alemães. Poloneses aparecem em segundo na lista: 532 mil. São seguidos dos italianos (529 mil), gregos (298 mil), croatas (224 mil) e romenos (205 mil). Brasileiros são muito menos, mas ainda assim 34.945 estão registrados no país. Essa mistura cultural pode ser vista no rosto das pessoas, na lojas de todas as nacionalidades, nos bairros de imigrantes. Mas nem tudo são flores e, mesmo com um passaporte alemão na mão, estrangeiro será para sempre estrangeiro.

Joaninhas são símbolo de sorte na Alemanha

Joaninhas são símbolo de sorte na Alemanha

Joaninha – Elas são símbolos de boa sorte aqui na Alemanha. Mas se você morar perto de um parque ou tiver um jardim grande, podem bem ser um azar! No final da primavera e começo do verão elas surgem aos milhões e não raro você passeia por um jardim e escuta um barulho “crocante” sob os pés… das joaninhas que vai amassando involuntariamente pelo caminho.

Kirche ou Kirsche – Igreja ou cereja? Alemão é mesmo um idioma complicado. Complicadíssimo. Mark Twain já dizia que “A vida é muito curta para aprender alemão”, mas aprender o idioma é a principal chave para a integração. Costumo brincar que a universidade pode ser em inglês, mas a vida real segue sendo em alemão mesmo. Fora isso – e de volta a cereja! – a frutinha toma conta dos mercados no verão e faz o inverno todo ter valido a pena.

Lixo – Separar o lixo é o verdadeiro esporte nacional da Alemanha. E é bom fazer isso direito antes que um vizinho carrancudo apareça na porta para dizer que você separou isso ou aquilo errado. Existem toneis de coleta de lixo reciclado nas casas ou em algum local próximo. Sempre. Então, o negócio é memorizar a cor dos contêineres: azul é para papel; amarelo para embalagens e metais; marrom é para lixo orgânico e o preto para o que não se pode reciclar. Vidro é separado por cor: há um contêiner para o transparente, outro para o marrom e outro para o verde. Até hoje não sei o que fazer com garrafas azuis e, por via das dúvidas, deixo de decoração em casa.

Mau humor – Eu não diria que os alemães são necessariamente mal-humorados. Prefiro dizer que eles têm um senso de humor peculiar, diferente do brasileiro. É uma questão de costume. Tem gente que acha que sinceridade é grosseria e por isso acha que todo mundo na Alemanha é mal-educado. Eu acho a vida mais simples. Se você recebe um convite e não pode ir, diz que não e pronto. Não promete e depois falta. Essa sinceridade quase em excesso é parte da personalidade do país e ajuda a construir a má fama. Claro que tem momentos em que a paciência some, especialmente naquelas temporadas de chuva, quando para sair na rua é obrigatório vestir uma cara azeda. Mas ai vem o sol… ah, o sol. E o humor muda e a vida segue.

Nazismo – Esse é um tema proibido na Alemanha. Um tabu. Nunca, jamais faça qualquer piada sobre o assunto. Não tem graça nenhuma em nenhum contexto ou situação. Não fale sobre a guerra em uma festa. Os alemães carregam até hoje uma culpa e uma vergonha muito grande pelo Nacional Socialismo e o assunto sempre transforma os humores. A questão beira a paranoia. Por aqui, ter uma bandeira da Alemanha é algo mal visto: só pode na Copa. Ter orgulho do país ou de ser alemão também são valores que remetem ao fascismo. Os neonazistas só contribuem para entornar ainda mais o caldo.

Foto: Cristiano Prim

Chancelaria em Berlim: as leis aqui valem para todos

Chancelaria em Berlim: as leis aqui valem para todos

Ordnung – Esta é a palavra que melhor resume a Alemanha: ordem. Para tudo existe uma regra, uma norma, uma lei. Para cada coisa que se queira fazer há um uniforme específico e um manual. Para a vida funcionar é preciso seguir todas as regras. Isso mantém o Ordnung, traz estabilidade e faz a vida de todo mundo mais fácil. Bom, esse é o pensamento alemão. Nesses anos de Alemanha acabei aprendendo que o Ordung é, na verdade, o antônimo do jeitinho: se no Brasil sempre se acha uma maneira de contornar a situação e levar vantagem dela, aqui a mesma regra vale para todos e não adianta espernear. Por isso o país funciona: as leis são para todos.

Pontualidade – Chegar atrasado é um crime. E deveria ser no mundo todo! Marcar com alguém e fazer a pessoa esperar é o mesmo que determinar que o seu tempo vale mais do que o tempo da outra pessoa. Tirando a empresa de trens, que já foi muito pontual em outros tempos, todas as coisas seguem o ponteiro à risca. Se for se atrasar mais do que cinco minutos, é bom mandar uma mensagem ou ligar avisando. Isso vale para o trabalho, para o compromisso com os amigos, para a universidade. Um amigo disse uma vez que a precisão é tão importante para os alemães que deve ser por isso que eles dizem os números de forma invertida: primeiro a unidade e depois a dezena! Só pode!

Qualidade – Se o orgulho de ser alemão é algo negativo para as pessoas, a relação com os produtos é inversa. Regras de controle de qualidade rígidas e consumidores exigentes deixam poucas queixas em relação a qualquer coisa feita no país. Isso vale até mesmo para os supermercados mais baratos – os discounter, tipo Lidl, Netto, Aldi, Norma. Até os produtos de marca branca, vendidos com exclusividade por determinada rede, tem boa qualidade e podem ser comprados sem medo. São muito mais baratos e não decepcionam em geral. Se tiver dúvida, consulte as etiquetas dos testes de qualidade, que são exibidas com orgulho pelas marcas. Gut ou Sehr Gut estampados no fundo branco com o nome dos institutos são a certeza de levar para casa coisas boas e, na maioria das vezes, sem ter que pagar mais caro por isso. Não se vende nada mal feito ou de baixa qualidade.

Religião – Dizem que a antiga Alemanha comunista é o lugar mais sem Deus do mundo. Isso por conta dos índices elevados de ateísmo nos estados que antes formavam a DDR. Mas esse fenômeno, que se repete em menor escala na “outra” Alemanha, tem um componente econômico importante: o imposto descontado direto na folha de pagamento para quem professa uma religião. Os valores variam conforme a renda, em uma conta que não sei definir como é feita. Mas chegam perto dos 100 Euros por mês para quem ganha entre mil e dois mil. Por isso muita gente que pede benção para a avó se declara ateia na Alemanha. Quem paga justifica que o valor é usado para a conservação das igrejas que são verdadeiros museus e que financia muitas ações de caridade e mesmo bolsas estudantis oferecidas pelas organizações religiosas. Quem declarou e se arrepende depois da chegada do primeiro contracheque precisa ir a prefeitura e fazer uma papelada enorme em que “renuncia a fé”.

É impossível experimentar todos os tipos de salsicha do país

É impossível experimentar todos os tipos de salsicha do país

Salsicha – Existem estimados mil e quinhentos tipos de salsichas na Alemanha e, claro, eu devo conhecer uns 50, chutando alto. Cada cidade tem sua especialidade, seu jeito de preparar, sua receita secreta. Basicamente é assim: tira a tripa de dentro do porco e coloca o porco moído e temperado dentro da tripa. Duas salsichas, no entanto, são facilmente encontradas no país todo. A Bratwurst da Turíngia, que tem entre 30 e 40 cm, uns três centímetros de diâmetro e é servida assada em um pão minúsculo com mostarda. A outra é a Currywurst, o prato típico de Berlin. A tenda do Curry 36, que fica na capital, é considerada por muitos a melhor, mas é possível achar boas opções na Alemanha inteira. Lembra (bem de longe!) a salsicha de cachorro-quente do Brasil, assada na grelha, cortada em rodelas e servida com um ketchup temperado e curry em pó no topo. A descrição pode não ser convidativa, mas uma visita ao país não está completa sem provar a iguaria.

Teimosia – A minha cidade, Blumenau, em Santa Catarina, foi fundada por alemães e ainda abriga muitos descendentes. Por lá a gente usa um ditado mais ou menos assim: “Alemão não é teimoso. Teimoso é quem tenta discutir com alemão”. Bom, de algum lugar isso saiu. Eu já cai na besteira de discutir ou tentar argumentar algumas vezes por aqui e, depois de alguns anos de sofrimento, fica a dica: nem comece.

Universidade – A Alemanha tem internacionalizado suas universidades cada vez mais. Depois do tratado de Bolonha, especialmente. Com o fim dos cursos superiores chamados de Diplom (mais extensos que um bacharelado no Brasil e já com a equivalência do título de mestrado aqui), passaram a pipocar mestrados internacionais no país. Ou seja: cursos em inglês em todas as áreas, embora os bacharelados sejam em alemão (com raríssimas exceções). O ensino superior na Alemanha é gratuito. São poucas as faculdades privadas e é possível escapar delas com boas opções públicas. O que se paga por aqui é uma taxa de matrícula semestral – entre 160 e 300 euros, conforme a cidade – que já inclui o ticket para o transporte local. Então, para quem planeja arriscar um voo solo no exterior para continuar a formação, a Alemanha é o caminho mais fácil, já que não é preciso entrar na briga por bolsas de estudo que cubram mensalidades.

Verão – Dias que amanhecem as 4:00 e anoitecem depois das 22:00. O mês mais aguardado do ano, sem dúvidas. Sim, o mês: porque o verão por aqui não é exatamente uma estação inteira. Sair de casa com os braços de fora e nem pensar em levar um casaquinho (mesmo que leve) é raridade. E nesses dias de “raridade”, os 30 graus parecem ser 50. As casas, as cidades, os transportes: nada é preparado para o calor. Em alguns Estados, quando os termômetros passam dos 30 graus as aulas são canceladas. Mas nem todo mundo tem a mesma sorte. Para quem trabalha, o jeito é driblar a massa quente com ventiladores e esperar. A única certeza é que o calor dura muito pouco.

Xenofobia – Esse é um assunto sério no país. A xenofobia existe sim e é um problema grave. E não é apenas contra um grupo étnico distinto: é contra todo mundo que não é alemão. Antes que eu seja execrada, quero dizer que sim, existe uma grande maioria de alemães que convive perfeitamente com um país internacionalizado. Mas se você é estrangeiro, mesmo que fale a língua e seja loiro e de olhos azuis vai enfrentar problemas (em maior ou menor escala) em algum momento. Isso vale para empregos, para amigos, para a simpatia no atendimento, para resolver os problemas. Mas vale muito na hora de alugar casa: como estrangeiro, mesmo tendo emprego, grana e preenchendo todos os requisitos, é sempre mais difícil conseguir um apartamento. Uma vez que os imóveis aqui não são de quem chega primeiro – ocorre sempre um tipo de entrevista e todo mundo vai arrumado ver o imóvel – os alemães acabam sempre tendo a preferência.

Zelador – O zelador do prédio será o seu melhor amigo aqui na Alemanha. É quem arruma a torneira com vazamento, o chuveiro que tem cal (sim, porque a água é muito alcalina e vai entupindo tudo com o tempo). Se você morar em um condomínio estudantil, esses serviços costumam estar incluídos. Se não, leia com atenção o contrato. Tive um problema sério com isso. Apareceu uma mancha de mofo na minha parede na época em que vivia em Berlin em um apartamento térreo – e isso é uma coisa séria e que precisa ser resolvida o quanto antes – e a administradora do prédio disse que o zelador passaria lá para resolver. Eu disse que não precisava, que eu mesma faria. Já tinha aprendido com o zelador do prédio anterior que a única coisa que resolve esse problema é um spray que vende nas lojas de material de construção, para uso profissional. Os do mercado não dão conta do recado em casos mais graves. Enfim: o homem foi lá, jogou o spray, esperou três minutos, secou com um pano e foi embora em menos de dez minutos. Veio a conta: 65 euros.

Dica: Algumas das imagens do post de hoje são do talentoso fotógrafo blumenauense Cristiano Prim, que agora vive em Berlim. O trabalho dele pode ser conferido nesse site

Comente

comentários

Eu mudo, tu mudas, ele muda: as redes sociais e a maldição das amizades-fantasmas

31 de março de 2016 0
Mantemos ao nosso lado fantasmas de amigos que seguem vivos, mas já não são as mesmas pessoas

Mantemos ao nosso lado fantasmas de amigos que seguem vivos, mas já não são as mesmas pessoas

Sabe aquela criança fazendo birra, chorando sem motivo e que não se acalma com nada? É só uma fase. E aquele menino tão bonzinho que, de repente, virou um adolescente rebelde? Outra fase. Há fases para tudo na nossa vida e, como quem avança em um videogame, vamos coletando objetos, melhorando nossas armas, deixando para trás aquilo que já não precisamos. Se não fizermos isso, não progredimos, não chegamos a almejada fase seguinte. A medida que avançamos e fazemos esses upgrades, também vamos deixando para trás as outras versões de nós mesmos. Quem chega a adolescência, já não é mais criança. Quem terminou a universidade, não foi a mesma pessoa que passou no vestibular. Quem escreve esse texto hoje, não é a mesma jornalista que começou antes dos 20 anos na redação do jornal.

Viver é basicamente o processo de nos reinventarmos de inúmeras maneiras, de mudar de gostos, de posturas, de ideias. De rir de fotos antigas e questionar nossa sanidade ao lembrar de paixões eternas que duraram um mês ou dois. Pensar diferente do que pensávamos há um ano ou há um mês pode ser o sinal mais evidente de que adquirimos mais conhecimento, de que temos mais instrumentos para avaliar situações complexas e de entender por novos ângulos coisas que antes víamos de forma limitada. Acontece com política, com amores, com amigos. Não há nada de errado em mudar de ideia. Ao contrário: é preciso maturidade para ter a coragem de fazê-lo.

Eu já mudei de ideia muitas vezes. Levou tempo até tomar posições que hoje me definem: ser feminista, ser ateia, de esquerda, pró-aborto, defender direitos LGBT, ser a favor das cotas e por aí vai. Sei que a grande maioria dessas visões não vai mudar. No entanto, eu poderia abandonar alguma se houvesse razão mais forte e informações comprovadas me fizessem enxergar determinada crença sob uma perspectiva mais sólida, com mais embasamento científico, jurídico ou ético.

Mudanças em descompasso

Apesar de mudar muito ao longo dos anos, sempre tive a mania de cultivar amigos.  Só que hoje, percebo que, neste caminho, arrastei muita bagagem desnecessária em nome de histórias que já não fazem mais sentido. Então, estou me dando ao direito de mudar mais uma vez e parar de arrastar bolas presas aos meus pés. Não se trata de arrogância e nem mesmo de ingratidão, tenho certeza, mas de um descompasso, pode acreditar.

Quando eu nasci, não havia internet. Fui a adolescente que fazia agendas, que trocava bilhetinhos em sala com as amigas. Comecei a namorar antes dos chats e do Tinder: funcionava também. O que acontecia era que as relações eram mais facilmente identificáveis: havia os amigos de verdade e os circunstanciais. Os primeiros, que iam ficando, ano após ano, com poucas variações. Os outros, muitos outros, que chegavam por conta da mudança de sala, das aulas de inglês, do clube de jovens e sumiam, sem um adeus formal, com novas rotinas e hábitos. As relações pertenciam a um espaço e tempo: aconteciam e “desaconteciam”. As pessoas se perdiam no mundo sem dor e viravam memórias românticas de momentos felizes.

Encontros sem desencontros

A diferença de hoje é que essa ordem natural de encontros e desencontros que vivíamos desde que o mundo é mundo se desfez. As redes sociais, e em especial o Orkut e agora o Facebook, inverteram a lógica das coisas e agora ninguém mais se vai: todo mundo fica para sempre em volta, naquele mundinho virtual. Acontece que aquele colega do jardim de infância que foi seu melhor amigo nos jogos de queimada não é alguém que seria seu amigo hoje em dia. Quando você foi deixando de ser as pessoas que foi em cada uma das fases da vida, esses amigos fizeram o mesmo e, hoje, passamos horas e horas de nossas vidas convivendo com esses estranhos fantasmas em nome de uma amizade verdadeira entre duas pessoas que, de fato, já não existem mais.

Nesses tempos em que a paciência acaba rápido demais essa convivência pode ser extremamente desgastante. Claro que, para pessoas como eu, que estão há muitos anos fora, esse pode até ser o único contato com muitos amigos de verdade, mas o preço é alto. Na média, são muito mais assombrações do que pessoas com as quais, de fato, sinto o prazer em conviver. E nem todas aquelas que me fazem rir ou me inspiram reações de simpatia eu conheço bem ou quiçá pessoalmente, confesso. É uma nova fase, provavelmente. Só que nessa fase, resolvi deixar a vida seguir seu curso do jeito que era antes e dei uma forcinha para ajudar o tempo a perder uns e outros pelo caminho.

Na verdade, nas minhas divagações tecnológicas, já pensei até em escrever para o dono da rede sugerindo a criação de um mausoléu: não só para os perfis póstumos, mas um lugar onde nós mesmos pudéssemos congelar o tempo para reunir versões anteriores dos amigos, aquelas versões de quem, de fato, gostávamos muito. Uma espécie de prateleira virtual para as boas lembranças, onde pudessem jazer os amigos já idos, mas ainda vivos, quietinhos, sem nenhum tipo de atualização, sem compartilhamento de notícias falsas, de ideias fascistas, de demonstrações públicas de ignorância. Eles ficariam lá da mesma forma que estariam se vivessem apenas na nossa memória. Desamigar, bloquear, deixar de seguir são alternativas, claro, mas o desapego das afeições é um pouco mais complicado do que o dos objetos. 

Não perca nenhum post: siga o Fala, Alemôa! no Facebook e me acompanhe também no Snapchat: ivisebel

Comente

comentários

Feminista ou feminina? Nos pelos do meu sovaco (e no meu corpo!) mando eu!

24 de março de 2016 1
Se eu vou ou não usar o barbeador azul é escolha minha

Se eu vou ou não usar o barbeador azul é escolha minha

Outro dia uma pessoa a quem quero muito, muito bem disse para o meu marido, com uma voz meio desconfiada: a Ivana é bem feminista, né. Ele disse que sim e que isso era bom. Depois comentou a história comigo. Fiquei com isso martelando na minha cabeça, especialmente por vir de uma jovem mulher que, como eu, acredita em igualdade. Porque em algum momento ela poderia achar que me chamar de feminista seria ofensivo? Fiquei imaginando estereótipos, situações ou histórias que pudessem tê-la feito pensar assim.

Hoje, uma amiga querida postou em sua linha do tempo que era feminista e logo apareceram homens para corrigir: você não é feminista, é feminina. Não me contive. Comprei a briga no Facebook alheio. Um homem dizer que uma mulher não é feminista, é feminina é uma das piores formas de machismo. Corrigir a forma como uma mulher se define é uma tentativa de fazê-la caber nos conceitos que esse alguém julga adequados.

Juntei as duas situações em uma: Qual o problema em se definir como feminista? Porque algumas pessoas se incomodam tanto com o rótulo? Para mim, é um baita elogio: significa ser uma mulher que não aceita ser tratada como menor por seu gênero, que busca direitos e salários iguais, que busca o fim da violência doméstica, o direito sobre o próprio corpo. Tem a ver com ter chances iguais mesmo que “corra o risco de engravidar e com isso prejudique a empresa”, como vociferam fascistas que têm assento no congresso.

Ser feminista é lutar pelo direito de ir e vir sem medo de ser assediada, estuprada ou morta. De poder vestir o que quiser e não ser rotulada por isso. Tem a ver com casar com quem escolher ou simplesmente não casar: a ter um parceiro ou uma parceira para vida toda, a ter muitos amores, poucos ou nenhum. Está diretamente relacionado a não aceitar abandonar um sonho de criança, “porque isso é coisa de menino”, a poder brincar de carrinho, se sujar na lama, subir em árvore sem ter que cuidar com os gestos “porque isso não é coisa de mocinha”. É poder escolher o brinquedo (e o cabelo) azul e não obrigatoriamente o cor-de-rosa.

Feminismo fala de parceria em casa, no trabalho, na vida. Fala de pessoas que dividem o mesmo teto e têm responsabilidades iguais com a manutenção, limpeza e zelo do espaço. Fala em filhos feitos por duas pessoas que dividem igualmente a responsabilidade de cria-los, mantê-los e educá-los. Fala no direito de não ter filhos também e em não ser criticada por isso. Fala do acesso a informação e a anticoncepção.

O feminismo está ligado a ser dona do próprio nariz, olhar, flertar, ficar, beijar, dar para quem quiser e não ser rotulada de forma pejorativa por isso. E a não dar também e ter o seu não respeitado em qualquer circunstância. Porque sexo sem consentimento é estupro e não, ela não estava pedindo: se disse não, é não. Feminismo tem uma relação direta com liberdade, segurança e igualdade.

Se você concorda com essa linha de pensamento, você é tão feminista quanto eu e pode ser, ao mesmo tempo, feminina, masculina, assexuada, sexy, freira, puta, hétero, lésbica, bi, gay, pan, “whateversexual”. Pode ser mulher cis, mulher trans, homem de nascimento ou transformação. Pode ser coxinha, mortadela, amarela, vermelha, apolítica: só não pode ser acéfala. Pode ser alta, baixa, gorda, magra, preta, amarela, branca, índia, misturada e até azul, religiosa, ateia, coroinha da igreja, missionária ou bruxa: pode ser quem você quiser e essa é a essência de tudo.

As pioneiras do movimento feminista podem até serem lembradas como aquelas que queimaram sutiãs, mas nós sabemos exatamente quantas horas a mais que um homem precisamos trabalhar para comprá-los: por isso, não se preocupem, podem se assumir feministas que não vai ter fogueira, mas vai ter luta. Não fuja do rótulo e nem da busca por um mundo mais igual. Feministas sim, com orgulho. Com ou sem pelos no sovaco, coisa bem normal aqui na Alemanha: mas cada uma de nós é quem vai decidir isso.

Comente

comentários