DO CADERNO DONNA DESTE DOMINGO
Inspirado pela criatividade das pessoas na rua, o gaúcho Gringo Cardia é arquiteto, cenógrafo e artista.
Um gaúcho — de Uruguaiana — trabalha na criação do novo espetáculo do Cirque du Soleil. Gringo Cardia exibirá sua arte sob uma lona, em Toronto, no ano que vem. O contrato, repleto de cláusulas de confidencialidade, surgiu por meio da parceria de sucesso que Gringo mantém com a coreógrafa carioca Deborah Colker. Ela é diretora do novo espetáculo do Cirque e só aceitou o convite depois que Gringo, o cenógrafo, abraçou junto o projeto. Já são dois anos de preparo, três cenários modificados e dois elencos ensaiando na Rússia e na China.
— Tenho ido uma vez por mês ao Canadá — contou, no Gigantinho, em Porto Alegre.
Essa é uma das graças do trabalho desenvolvido por ele. Gringo, 51 anos, pode estar um dia sob uma lona de uma das maiores companhias do mundo e, no outro, no palco do ginásio porto-alegrense dirigindo Xuxa e Sasha. Na semana seguinte, quem sabe, a convocação inclui crianças da periferia do Rio, onde vive desde os 15 anos e mantém uma ONG.
— Não tenho preconceitos — conta — Só não trabalho com quem não tem ética. Na minha vida, aprendi fazendo coisas diferentes.
Não estranhe as diferenças. Oficialmente, Gringo é arquiteto, mas dedicou-se à cenografia. Não gosta da titulação e prefere ser chamado de artista da imagem. No mundo do showbiz, é Gringo. Mas na certidão de nascimento, é Waldimir. O artista monta cenários, dirige clipes, cria figurinos, pensa na iluminação, produz capas de CDs, monta desfiles de moda. Também cuida da imagem de Xuxa, do Cirque, de Deborah Colker, de Maria Bethânia, do Skank, de Leonardo, de Chico Buarque... Parceiro de tantos egos inflados, ostenta ainda outra titulação:
— Sou formado em psicologia artística — brinca.
Para manter uma exposição em cartaz em Nova York, montagem de um espetáculo em Londres, Gringo emprega 30 profissionais que trabalham, simultaneamente, na concepção de 10 projetos. Mesmo longe do Sul há mais de 30 anos, ele conta que tira vantagem do seu gauchismo de infância:
— O Rio Grande do Sul abriu muitas portas. Carioca não gosta de paulista e paulista não gosta de carioca. Então, tenho passaporte diplomático em qualquer lugar que eu vou.
Na entrevista a seguir, Gringo Cardia conta um pouco da sua experiência e de como seguiu à risca o conselho do pai de ser "fora de série".
Estilo Próprio — Você transita por trabalhos diferentes como o Cirque du Soleil e o Show da Xuxa. Seu estilo é "sem preconceitos"?
Gringo Cardia — Hoje em dia, o artista visual tem muitas faces. Você pode fazer uma capa de disco, um cenário, um vídeo e dirigir um espetáculo. Pode fazer o que quiser, desde que ganhe experiência com isso. Na minha vida, fui ganhando experiência buscando fazer coisas diferentes. Sempre quero mais. Agora estou no Cirque du Soleil, que é uma coisa nova para mim.
EP — Como surgiu o convite para criar o espetáculo do Cirque du Soleil?
Gringo — Eu e a Deborah (Colker, bailarina e coreógrafa) já temos há muito tempo uma parceria e ganhamos alguns prêmios fora do Brasil, como na Inglaterra. O Cirque soube e foi ver nosso trabalho. Eles vêm convidando a Deborah há muito tempo e aí ela me chamou para fazermos o trabalho juntos. Estamos há mais de um ano desenvolvendo o espetáculo, que vai estrear em maio de 2009.
EP — O que pode ser revelado, apesar das cláusulas de sigilo?
Gringo — Estamos tentando fazer alguma coisa diferente. Vamos trabalhar dentro de uma lona. O espetáculo trata da biodiversidade, um tema que adoro.
EP — Em que fase do trabalho vocês estão?
Gringo — Estamos construindo o cenário, e a Deborah vai começar a ensaiar. De setembro deste ano até abril do ano que vem, serão só ensaios.
EP — Quando você decidiu "quero ser cenógrafo"?
Gringo — Sabia que gostava de desenhar, gostava de visual, de pintar, de cor. Quando criança, gostava de copiar quadros famosos de Picasso. Não entendia muito o que era o cubismo, mas era diferente. Na época tinha um programa chamado Flávio Cavalcanti que falava assim: "Tudo é fora de série". E meu pai ficava falando o tempo todo "fora de série". Fiiquei com aquilo na cabeça, que o legal era ser diferente e sempre procurar algo para ser diferente.
EP — E aí, encontrou o "diferente"?
Gringo — Cheguei ao Rio e queria fazer Escola de Belas Artes. Mas achei que ia ficar sem trabalho. Melhor seria achar uma profissão técnica. Dai pensei "o que é técnico e próximo à arte?". Fiz arquitetura. Mas, quando terminei, queria mesmo arte. Então, voltei para o meio artístico, mas com o embasamento da arquitetura.
EP — Entre os seus trabalhos mais famosos, quais você gosta de lembrar?
Gringo — Ajudei a construir a imagem do Carlinhos Brown, que é uma pessoa que gosto muito. Trabalho há muito tempo com a Maria Bethânia. Gosto desta coisa dela da simplicidade com o popular, numa linguagem contemporânea.
EP — E os espetáculos com a Deborah Colker?
Gringo — O espetáculo 4x4 é o que mais gosto, pois significou uma grande superação. Queria que os vasos voassem, mas não sabia como. Eram 90 vasos no palco, todos colocados pelos bailarinos. Eles dançavam entre os vasos sem derrubar. E depois desciam peças do alto do cenário que pegavam esses vasos e eles começavam a voar até desaparecer do palco. Não consigo ver esses espetáculo. Até hoje tenho um nervoso que eles vão derrubar os vasos. Na hora dos vasos eu digo "ai, vou sair, não consigo ficar aqui."
EP — Como ser diferente, como seu pai pregava, trabalhando com a Xuxa?
Gringo — Tentei limpar um pouco a linguagem visual. Desde que comecei a trabalhar com algumas pessoas, penso que se a gente perde os preconceitos a gente cresce. Aprendi muito com ela. A gente fala assim "ah, só gosto de preto". Mas o mundo não é só preto. É amarelo, é azul. No começo falei: "Com a Xuxa não vou trabalhar". Mas descobri um lado que não conhecia pela televisão, uma coisa bacana, vibrante. Gosto de trabalhar com coisas diferentes e até antagônicas.
EP — Como você se abastece para produzir todo esse material?
Gringo — Na rua, vendo as pessoas. O papel do artista é observar o mundo. O mundo já está feito. As pessoas são criativas. O papel da gente é pegar o que todo mundo faz e editar. Aprendo muito viajando. É a melhor escola.
EP — Qual é a marca do seu trabalho?
Gringo — Gosto de trabalhar com outras pessoas, porque sou um parceiro. Tenho que estar aberto para trocar idéias. Meu papel é traduzir isso e dar uma linguagem direta. Posso ser clean como posso ser barroco. Estudar arquitetura me deu essa coisa simples e limpa.
EP — Como você conseguiu transformar o seu trabalho em uma grife?
Gringo — Por eu fazer muita coisa diferente, a nova geração ficou antenada. Quando faço palestra, recebo muita gente jovem. Faço imagem. Para o artista visual, o campo dele é muito maior. Só que você tem que arriscar. Não sabia fazer vídeo, por exemplo. Um dia fui lá e disse: "Quero dirigir isso aí".
EP — Existe mercado para cenógrafos no Brasil?
Gringo — Muito. O que falta é a formação de profissionais mais focados. As escolas de cenografia no Brasil são muito ruins. Acho que a arquitetura tinha que ser um começo. Quase todos os assistentes que trabalham comigo são arquitetos.
Postado por Fernanda