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14 de julho de 2008 0

Letícia Remião, Especial

DO CADERNO DONNA DESTE DOMINGO

A coluna de hoje conta como foi o ensaio fotográfico que Letícia Remião fez com a artista Heloisa Crocco.

Heloisa Crocco não é muito chegada a câmeras. A idéia era produzir um ensaio com ela — a artista plástica de 59 anos é referência seja pelos painéis de madeira com colagens de fragmentos de pinus, seja pelo pioneiro trabalho de revitalização do artesanato brasileiro.

Para que ela aceitasse a proposta, o convite teve que ser feito por sua amiga e fotógrafa Letícia Remião.

— Só vim porque é com a Letícia. Confio na estética dela — explicou-se, ao entrar no estúdio.

O ensaio de fotos ganhou a companhia de outra câmera, a da TVCOM, para um reportagem que será exibida segunda, às 22h.

Heloisa não gosta de posar e muito menos do aparato que o registro implica: maquiagem e produção. Zela para que sua imagem mantenha coerência com sua obra, mas não confunda esse alto padrão de exigência com vaidade pessoal.

— Minhas amigas mais jovens vivem me dizendo que preciso usar pelo menos batom. Não sei... Nunca achei a cor certa — brinca com a maquiadora Paula Ferrary, escalada para produzi-la com pouco corretivo e leves pinceladas de sombra.

Faz mais de 20 anos que essa artista que não vive para o espelho focou sua obra nos estudos com madeira. Ela cria painéis a partir das aparas de cercas exportadas para os Estados Unidos. Expõe no Brasil e tem obra reconhecida no Exterior:

— Comecei elegendo o quadrado para a pesquisa, a Topomorfose, onde brinco com os veios, com o anel de crescimento da árvore.

Uma vizinha viu e deu a dica:

— Meu Deus, sobra muita madeira lá na madeireira do meu marido, (dedicada ao reflorestamento de pinus) posso te trazer.

Desde então, os painéis da artista são colagens dos pedaços que sofreram diversas variações de colocação, cor e revestimento.

— Agora é a pintura total — ela compara. — Quando dá a sombra, é ela que faz a textura.

No estúdio fotográfico, a artista que se deixa seduzir pelas sombras divertiu-se na hora de escolher o figurino. Numa gigante sacola, foi brincando de caçar surpresas.

— Esse aqui (colete com que aparece em algumas das fotos) é herança para a Letícia — sublinhou, prometendo uma doação à amiga.

Entre echarpes, que Heloisa considera essenciais para o visual, calças e blusas, todas roupas antigas, surge o xodó do guarda-roupa:

— Ah, esse casaquinho, nem sei se posso contar, é com ele que eu quero ser enterrada. Tenho paixão, paixão por ele — ri, mostrando que o casaquinho vermelho já ganhou reforços em couro para não abandonar a dona antes da hora.

A artista mora numa casa/ateliê que ela fez construir à beira do Guaíba. A casa, em local de vegetação exuberante, parece perfeita para alguém que se declara seguidora da Wabi-Sabi — filosofia oriental cujos preceitos pregam despojamento e uma vida próxima da natureza. Mãe de Thomaz, dono de uma produtora de vídeo na França, e Vicente, chefe-de-cozinha em formação na Alemanha, ela prepara para o ano que vem a comemoração dos seus 60 anos.

Serão três novidades: o lançamento de um livro para detalhar o processo criativo, a criação de uma nova coleção de objetos com os veios da madeira para a Tok&Stok e a abertura de uma exposição.

— Parece que a gente nem está fazendo nada — diz. — Eu ainda tenho que tocar o cotidiano.

Com a sessão de fotos para começar, Heloisa posiciona-se no cenário montado com uma de suas texturas ao fundo. A equipe, oito pessoas, forma a platéia intimidante:

— E aí, sou eu sozinha? Não vem ninguém comigo? — pergunta.

Quem vê uma obra de Heloisa Crocco apreende logo a delicadeza das texturas e as sutilezas de poucos adornos. Assim como quem vê a artista pessoalmente percebe de imediato um jeito único. Heloisa teve os primeiros fios de cabelo branco aos 17 anos. Nunca lutou contra eles. Nunca fez plástica. Nem planeja. Anda bem vestida, graças ao guarda-roupa enxuto.

— Sou de poucas peças, mas bem boas — ensina. — Tenho poucas peças pontuadas, que levantam qualquer camisetinha Hering.

Além do tal casaquinho vermelho inseparável, há outra marca visual.

— Sempre fui de vestidos, desde pequena. Não gostava do padrão.

Mais de duas horas depois da chegada ao estúdio, três trocas de roupas e incontáveis enquadramentos, Heloisa, vestida com um mantô Issey Miyake preto, de 16 possibilidades diferentes de uso, não resiste:

— Chega, né?

Chega sim. Fim dos trabalhos.

Postado por Fernanda

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