DO SEGUNDO CADERNO DESTA SEGUNDA-FEIRA (17/11)
Richard Serra não costuma atender jornalistas, não tolera atrasos, não é de sorriso fácil — é uma estrela das artes plásticas. A não ser pela última parte, “estrela das artes”, os comentarios não se confirmaram durante sua passagem por Porto Alegre. Bom esclarecer que o título de estrela refere-se ao prestígio de seu trabalho — Serra é reverenciado como o maior escultor da contemporaneidade.
O artista de 69 anos, nascido em San Francisco, Califórnia, e radicado em Nova York, demonstrou simpatia em sua passagem por Porto Alegre para participar do Curso de Altos Estudos Fronteiras do Pensamento Copesul Braskem. Veio acompanhado da mulher, Clara, e foi ciceroneado pela amiga Wanda Kablin, responsável pela primeira exposição dele no Brasil, em 1997, no Rio. Serra desembarcou na terça à noite, palestrou na quarta, passeou na quinta e partiu na sexta-feira. Cumpriu o roteiro clássico de um gringo em Porto Alegre visitando pontos turísticos e encerrando a programação com um farto churrasco. Mas o artista, que está em cartaz com exposições em Londres e Nova York e prepara a próxima para Madri, surpreendeu. Atendeu, sim, a imprensa e de forma generosa falou sobre dois assuntos: sua própria obra, tópico que nem sempre é do agrado de artistas, e a eleição de Barack Obama.
Serra, o artista de imensas placas, lascas de aço que medem 15 metros de altura, como da recente mostra em Paris, ou de 23 metros de comprimento, como da escultura Snake, destaque do Guggenheim Bilbao, na Espanha, visitou grande parte dos aparelhos culturais locais: Margs, Santander Cultural, Fundação Iberê e Usina do Gasômetro. Parou ainda no Chalé da Praça XV para um chopinho (em frente ao Mercado Público, um dos locais que poderia abrigar uma escultura do artista) e visitou o Café do Lago, na Redenção, para bebericar um Campari.

Estilo Próprio — Os lugares onde estão suas obras são fundamentais para a realização do seu trabalho. Normalmente o senhor prefere escolher um lugar, sonhar em colocar uma obra em determinado espaço, ou prefere reagir a um local previamente determinado para o senhor trabalhar?
Richard Serra — A maior parte das vezes você não pode apenas caminhar pela rua e dizer: “Quero fazer um trabalho aqui”. Se existe a possibilidade de lidar com algum lugar específico, um espaço urbano, tento lidar com as circunstâncias que envolvem aquele lugar, com a circulação de tráfego, a forma como as pessoas transitam nos locais. Tento também revelar o lugar e também criticá-lo. Você não pode ficar esperando um lugar surgir para trabalhar. Se tenho a possibilidade de inventar algo sozinho, então tento fazer e exibir em algum espaço. Agora, por exemplo, estou com três trabalhos em exposição em Londres (galeria Gagosian, até 20 de dezembro), que basicamente só requerem uma sala com um piso plano, pois quero continuar trabalhando.
EP — Sua obra pressupõe uma experiência física. É preciso estar frente à frente com ela, experimentar, não apenas observar. É sobre isso que é arte, o momento da experiência entre o que foi criado e quem observa?
Serra — Penso que a maneira que meu trabalho se difere de anteriores é que, em outros tipos de trabalhos, o tema importa, pois o conteúdo está no objeto que você está olhando, ou na descrição e na representação do objeto que você está olhando. Em minhas obras, a medida que você caminha nelas ou por elas, você se torna o tema, você é o conteúdo. A sua reação, psicologicamente, fisicamente, o movimento do seu corpo, dentro e por dentro da escultura, é o conteúdo dela. Você não precisa saber nada sobre a escultura para vivenciar o trabalho, porque a experiência está no potencial de você se mover dentro, para dentro e ao redor da obra. E acho que é nessa simples troca entre sujeito e objeto que está a razão pela qual meu trabalho achou um público.
EP — A vivência, então, é fundamental?
Serra — Agora vivemos em um mundo de realidade virtual. Penso que as pessoas lidam com imagens e dispensam elas a medida que aparecem constantemente na publicidade, na televisão ou na internet. Meu trabalho lida com a realidade visual. Não é que a realidade virtual não seja real. Ela só é real na medida em que é virtual. Se as pessoas assistirem a esta entrevista (a conversa também foi gravada para a RBS TV), só é real enquanto virtual. Agora sua relação comigo é real, é muito diferente. Ela é física. Meu trabalho lida com a experiência física em tempo e lugar em relação ao espectador se movendo entre a obra.
EP — Este ano, o senhor integrou o projeto Monumenta, ocupando o principal hall do Grand Palais, em Paris. Em entrevistas, na época, o senhor comentou que não tinha idéia de qual seria o resultado do trabalho. Há algo também de imprevisível nesta relação entre obra, espaço e público?
Serra — Numa situação como esta, você faz o trabalho primeiro e aí você leva ao local. Neste caso não havia a possibilidade de instalar o trabalho primeiro. É um hall imenso. Você não sabe, até erguer uma das obras, qual o resultado na escala. Não tem como saber o resultado, como ficará o tamanho em relação à sala.
EP — Na época de sua retrospectiva, ano passado, em Nova York, o senhor afirmou que prefere pensar no presente e no futuro do que rever o passado. No que o senhor está trabalhando no presente e no futuro?
Serra — Semana passada, fiz uma peça para Norman Foster (premiado arquiteto inglês) na sua casa em Geneva. Agora estou tentando construir duas peças para o Prado (Museu do Prado, em Madri). Em duas semanas, estarei na Espanha para ver o que vou fazer por lá. E depois, colocarei uma obra em La Défense, em Paris.
EP — Sua escultura ficará perto do grande arco?
Serra — Mais ou menos, não muito longe. É uma área bem urbana.
EP — O senhor é próximo a Barack Obama? Vocês já conversaram, estiveram juntos, não?
Serra — Encontrei Obama há um ano e meio, em um evento para arrecadação de recursos da campanha, em Nova York. O que me surpreendeu foi o fato de que quando fui apresentado a ele, eu disse: "Meu nome é Richard Serra". E ele respondeu: "Ah, o escultor, eu conheço seu trabalho". Acho que me conhecia porque ele estudou na Universidade de Columbia, em Nova York. Suspeito que ele tenha ido ao Museu de Arte Moderna (MoMA) e que até tenha visto alguma das minhas exposições na cidade. Fiquei muito lisonjeado, porque você nunca vai achar um presidente ou membro do congresso indo a um museu. Artistas norte-americanos e políticos dos Estados Unidos não fazem parte da mesma turma. O fato de ele ter entendido meu trabalho e ter dito que conhecia foi muito gratificante.
EP — O senhor é identificado como um homem de esquerda. Está confiante nas mudanças depois da eleição do novo presidente americano?
Serra — Essas designações são bobas. Faço parte do Partido Democrata desde criança, devido a minha família, meu pai e meu irmão. Acho que é a primeira vez, desde 1968, que os Estados Unidos vão voltar a fazer parte do mundo. No governo Bush, o que aconteceu é que os Estados Unidos ficaram muito isolados e muitas das liberdades civis do país foram reprimidas. Outra coisa que precisa mudar é que temos um serviço de espionagem que prevê que qualquer cidadão, por qualquer motivo, pode ter seu telefone grampeado. Obama tem um mandato e toda uma nação o apoiando. Políticas fundamentais precisam ser mudadas, assim como as mudanças ocorridas durante Franklin Delano Roosevelt.
EP — O senhor demonstra muita empolgação ao comentar a eleição de Barack Obama...
Serra — É provavelmente a primeira vez, desde 1968, em que me sinto bem em relação ao meu país. Desde os anos 60, o país vinha dividido com a Guerra do Vietnã. A direita tomou conta nos últimos oito anos ao ponto que a agressividade nas políticas internacionais represaram o país, que acabou isolado. Acho que com Obama, ao menos é meu desejo, a primeira coisa que ele tem que fazer é se ver livre de Guantánamo.
Postado por Fernanda