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Posts do dia 3 maio 2009

De costureira a artista

03 de maio de 2009 0

Júlio Cordeiro

DO CADERNO DONNA DESTE DOMINGO (3/5)

Nada mal começar uma carreira aos 89 anos.

Nelly Ripoll, que em 2010 festeja os 90 com festa já programada, é a dona desta história.

Artista plástica de carreira recente, ela está em cartaz com uma individual na Galeria Gestual — uma das mais respeitadas de Porto Alegre. Mas apresentar sua produção ao público não é novidade. Nelly tem quatro mostras em sua década de trajetória artística. O especial desta vez é que Nelly Vê o q. marca a entrada dela no mercado de arte. Das 23 obras na mostra, seis foram vendidas, algo, que ela conta, “nunca havia sonhado”.

A resposta do público tem sido tão grande que Carlos Gallo, o dono da Gestual, prorrogou a data de visitação:

— Nelly tem atraído visitantes muito variados, de senhoras a intelectuais. Ela faz um forte diálogo com o concretivismo brasileiro e ainda tem uma aproximação clara com a obra de Leonilson, um dos maiores nomes da Geração 80 — explica Gallo as razões que o levaram a bancar a exposição.

Nelly não está propriamente na faixa etária de uma aposta no mercado de arte, mas seu desempenho é de uma revelação.

 Tenho tanta coisa na minha cabeça. As ideias ficam assim, pulando — conta, agitando os braços para demonstrar a profusão de imagens com a qual convive.

E de onde vem tantas ideias?

— Olha, eu me interesso por tudo da vida. Me interesso por tudo o que acontece no mundo, me interesso pelas pessoas. Me interesso por tudo o que é novo.

Foi com esse interesse que passou de costureira talentosa a artista plástica. Nascida na Ilha da Pintada, a família de oito irmãos tinha um situação financeira confortável, até a morte do pai. Aos 12 anos, Nelly começou a costurar para ajudar no orçamento. Fazia roupinha de bonecas até evoluir para guarda-roupas completos. Normalista, foi professora durante um ano.

— Pegava um ônibus até Osório, um vapor até Maquiné e ia de cavalo até Barra do Ouro.

Quando casou, já morando em Porto Alegre, voltou a costurar quando o marido, professor de Arquitetura da UFRGS e de Matemática no Julinho, foi cassado pela ditadura.

— Nunca provaram nada. O problema é que ele tinha ideias muito liberais.

A volta à costura foi imediata para vestir os filhos. Pela sua máquina passaram os vestidos de noiva das filhas e os de 15 anos das netas. Estes últimos marcaram o fim da carreira.

Foi quando aos 80 anos, por sugestão da filha mais velha, resolveu frequentar as aulas de patchwork de Gisela Waetge, também artista plástica.

— Com um tempo de aula, passei a achar aquilo muito chato. Então a Gisela foi me estimulando para outros estilos.

Nelly faz hoje delicadas colagens e bordados em tecido, mas começou com algo mais próximo ao patchwork — rolos em que por meio de bordados e escritos conta a história da família.

A artista tem uma rotina agitada. Mora sozinha, mas se reveza numa agenda de compromissos entre os cinco filhos, os 11 netos e o bisneto. Também faz hidroginástica, fisioterapia (para um problema de saúde que prejudica um pouco sua locomoção) e faz duas sessões de psicoterapia por semana. O andar mais lento não a impede de ir longe. Ano passado, Nelly e uma das filhas passaram 20 dias na Europa.

— Fui de cadeira de rodas e andei por tudo — conta, relembrando o roteiro por Paris, Barcelona e Madri.

Nas atividades do dia ainda há os encontros com a turma de familiares e amigas.

— Nossa Roda de Chá está completando 50 anos. Já ficou muita gente pelo caminho, mas ainda temos uma turma grande. Nossos encontros têm regras: é proibido falar em doença e em remédios. Quem chega atrasado ou falta tem que pagar multa. É que fazemos um caixinha para o jantar de fim de ano.

Mais atividades na vida de Nelly?

As sessões de terapia podem virar almoços com dois de seus grandes incentivadores, a terapeuta e um amigo em comum, o pintor Danúbio Gonçalves. Ela também gosta de ouvir solos de piano enquanto faz seus bordados, assiste um pouco de TV, vai muito ao cinema (adorou Divã) e lê muito:

— Um romance atrás do outro. Gosto do Saramago. Leio também a revista Piauí.

Na sala de casa em vocabulário bem contemporâneo, assim como sua arte, brinca:

— Só agora está caindo a minha ficha que sou artista mesmo.

Encerrando a conversa, relata empolgada que a filha caçula e o marido venderam tudo e compraram um barco para uma viagem longa e sem prazos. O casal está em algum porto na Argentina.

— Falei com ela ontem, pelo Mess... como é mesmo que diz?

— Messenger, mãe — assopra Elaine, a filha que acompanha a entrevista.

— Isso, ficamos assim no computador porque onde ela está não tem telefone.

Ia esquecendo de contar. Nelly Ripoll é um dos milhões de usuários do programa de computador de bate-papo.

Postado por Fernanda