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Eu faço meu próprio vinho

01 de junho de 2009 1

Eduardo Liotti, Especial

DO CADERNO DONNA DESTE DOMINGO (31/05)

Há quem beba vinho e goste tanto da bebida que se torna conhecedor de vasto repertório. Mas, para alguns, sorver a paixão em taças não basta. Ela tem que se materializar em parreirais, na colheita, no processo da elaboração até engarrafar o líquido com os sabores e aromas sonhados. A paixão se profissionaliza, e quem antes era apreciador, torna-se produtor.

Esses dedicados fãs estão criando um novo mercado no sul, o das vinícolas butique. Pequenas cantinas cuja produção limitada de vinhos é mimada pelos donos. E os novos produtores não são poucos.

— Existem muitos casos em cidades como Bagé e Itaqui — conta, direto de Pinto Bandeira, Carlos Abarzua, presidente da Associação Brasileira de Enologia. — Alguns começam a produzir porque acham bonito. Outros, como na Serra, são produtores que vendem para grandes vinícolas e produzem seu próprio vinho para aumentar a renda. E há aqueles que amam tanto o processo que investem em um vinhedo.

Este último caso estampa a coluna Estilo Próprio desta edição. São duas vinícolas a poucos quilômetros do centro de Porto Alegre: a Villa Bari, na Vila Nova, e a Laurentia, em Barra do Ribeiro.

Luiz Alberto Barichello aposentou-se como executivo de finanças e focou no sonho de criança:

— Vinho é uma coisa que se pega na infância — recorda ele, um filho da cidade de Garibaldi. — Fazia vinho com meus avós e lembro até hoje como a cidade cheirava a vinho, exalava aquele perfume.

A motivação de Barichello veio desta memória afetiva transformada em negócio. É dono de vinícolas inclusive na Itália e exporta para os Estados Unidos, Canadá e Escandinávia.

Mais recente é o envolvimento do professor de oncologia da UFRGS Gilberto Shwartsmann. O encantamento pelo universo do vinho surgiu no velho mundo, quando investia na profissionalização em Medicina e, ele e a mulher, Leonor, moravam na Europa.

— Qualquer pessoa tem que encontrar as suas razões para ser feliz. Para mim, o vinho é uma delas.

A felicidade tem sido completa desde que o espumante made in Barra do Ribeiro é vendido no Copacabana Palace, e o vinho estreou na sofisticada carta dos restaurantes Antiquarius no Rio e em São Paulo.

Vinhedos no novo e velho mundo

Os parreirais na Vila Nova são apenas parte da produção do gaúcho Luiz Alberto Barichello. Na propriedade, o profissional de finanças, que jura manter-se longe do nervoso noticiário do mercado, realiza o sonho de fazer vinho como seus avós. O primeiro passo foi a compra da área, ainda nos anos 1970. Quando tinha apenas um chalé, para temporadas de finais de semana, Barichello se aventurava em trabalho solo:

— Cuidei da terra, plantei, colhi.

A casa cresceu, ganhou status de residência da família, com a mulher, Magda, e a filha, Joana, de três anos. A cantina de pedra foi reformada com moderno sistema de refrigeração. Os parreirais ganharam técnica de irrigação por gotejamento e os jardins lembram os da Toscana. Jardins também embelezados por um acervo de esculturas de Xico Stockinger.

— O primeiro vinho que fiz, em 2002, eu colhi e esmaguei as uvas com as minhas mãos — relembra, abrindo um sorriso de satisfação.

A característica principal do Villa Bari, vendido no Brasil e nos Estados Unidos é o de um vinho artesanal. O sabor, Barichello gosta de enfatizar, é o natural, o que a terra produziu. As colinas da Vila Nova, sobre um vale de águas minerais, proporcionam a formulação única. As uvas colhidas sofrem o que Barichello chama de processo de maturação controlada. Por meio do sistema de ventilação é extraída toda a umidade do ambiente para prolongar a maturação delas. A produção é de 6 mil garrafas ano, mas Barichello já extrapolou o país. O sonho de produzir vinhos na terra da família, na Itália mesmo, foi duplamente alcançado. Tornou-se sócio de um italiano, produzindo, ao lado de Verona,vinhos Valpolicella e Amarone com a grife L´Arco. Recentemente, comprou terras na Toscana.

— Eu mesmo estou trabalhando com um trator. Em três ou quatro anos estarei produzindo.

De lá sairão Brunellos e Chiantis.

E o próximo vinhedo, ou melhor, os próximos, estão projetados para Mendoza.

— Faremos (com sócios argentinos e italianos) um condomínio vinícola de quatro mil hectares. Funcionará para venda ou arrendamento de vinhedos para pessoas que quiserem fazer o próprio vinho.

Vinícola tecnológica e jardim de esculturas

Como médico e professor, doutor Schwartsmann tem certeza de que nada é por acaso. A Vinícola Laurentia, em Barra do Ribeiro, pronta para produzir 80 mil garrafas neste ano, é resultado desta máxima.

Schwartsmann tinha um carinho especial pela propriedade. Foi na casa do sogro que começou a namorar. Há mais de 10 anos, com o interesse por vinhos crescendo, passou a dividir a ideia de ter um vinhedo com amigos. Poucos o encorajavam, a região não seria propícia. Mas uma ligação direto da Itália mudou o rumo da conversa:

— Gilberto, tô na Itália, olhando para o mar Adriático, e sentindo o mesmo cheirinho que eu sinto aí na Barra do Ribeiro.

Era Ormuz Rivaldo, ex-prefeito de Bento Gonçalves, paciente que se tornara amigo de Gilberto. Especialista em vinho, foi o grande entusiasta do médico. Mas Ormuz fez um alerta. Como professor universitário “não pegava bem Gilberto se meter em porcaria”. O projeto necessitaria de muita pesquisa. Foram feitas fotos de satélite para mapear a região, análise do solo e só então veio a primeira leva de mudas importadas da Europa.

— Essa foi a melhor maneira que vi para deixar um legado para a região, fazer uma sistematização pelo método científico — explica Gilberto.

O plano, conta, é em 20 anos, depois de vários testes de uvas, descobrir qual é a vocação da região. A perspectiva de uma mudança econômica é um dos aspectos que empolga Gilberto.

Dono de uma biblioteca respeitável sobre o assunto, com horas de leitura que o gabaritam a discutir detalhes de poda, o médico ampliou os negócios. Acaba de construir uma casa de eventos, com capacidade para 600 pessoas. Tudo na Laurentia tem tecnologia de ponta. Na visita guiada, ele mostra detalhes dos cuidados contra contaminação, comparados por ele aos de um hospital. Da Laurentia saem exemplares de Nebbiolo, Tempranillo, Montepulciano e o Espumante Brut. A próxima estreia será em outro mercado:

— Estou concluindo este jardim com esculturas do meu amigo Britto Velho.

Postado por Fernanda

Comentários (1)

  • jussara diz: 23 de junho de 2009

    Fernanda, curto todas tuas reportagens. teu trabalho é muito ilustrativo e cultural. Gostaria de ler novamente a reportagem do Donna das cafeterias em cinemas(é isto, não?)obrigada e parabéns pelo belo trabalho.
    abraço.

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