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Para brincar e amar

16 de outubro de 2009 0

Então é Dia das Crianças e, é claro, os pequenos já fizeram a lista do que querem ganhar.

A coluna quis fugir do lado consumista da data e apostar em algo mais caro do que videogames, bonecas e outros superbrinquedos. Três artistas visuais gaúchos, todos pais, foram convidados a revelar um programa interessante que costumam fazer com seus filhos. Valia tudo. Uma dica de brincadeira, um passatempo preferido, uma atividade que una a família ou apenas uma situação que faça pais e filhos estarem juntos.

A ideia é que, ao ler esta página, quem tem crianças em casa possa colar a brincadeira ou apenas se inspirar nela. Nada mais tendência do que desacelerar o ritmo e aproveitar o tempo com quem se ama. Para colocar os pais das crianças no trabalho, afinal todos são artistas, em vez de fotos, eles mesmos ilustraram suas famílias.

A marcenaria modelo

Eduardo Vieira da Cunha, 54 anos, é artista plástico e professor universitário. É pai da Olívia, 3 anos, e casado com a arquiteta Daniela Cidade. Eduardo também é pai da Maria Eduarda, 17 anos.

“Uma das coisas que minha filha Olívia herdou de mim foi a total falta de habilidade para a bricolagem, para fazer coisas com pedaços de madeira. Ela é tão atrapalhada quanto eu quando a tarefa é juntar coisas tridimensionais, colar peças, montar. Parece um contrassenso: um artista plástico e sua filhinha, ambos sem saber fazer nada além das dimensões planas do desenho, como o lápis deslizando no papel, ou a tinta escorrendo na tela.

Mas a gente deseja tanto (e admira, claro, com uma pontinha de inveja) o que a mãe da Olívia pode fazer com uma chave de fenda, ou um martelo na mão, sem se machucar ou martelar os dedos, que fica tentando fazer igual. Eu, de realizar o sonho acalentado de construir os bastidores das telas, fabricar minhas próprias molduras. E depois que a Olívia nasceu, de construir alguns brinquedinhos artesanais, algumas casinhas com sobras de madeira para ela e, melhor ainda, com ela. Imagina que economia! Mas ainda não rola totalmente.

Então nós continuamos insistindo em superar nossas deficiências práticas numa oficina de marcenaria, apesar de observados com uma certa ironia indisfarçável pela Daniela, que, vez em quando, de longe nos assiste desafiar as formas e o risco. Risco em cima da madeira desenhando aviões e carrinhos e risco de alguém sair com os dedinhos machucados. O local dessas nossas aventuras em busca da superação é uma pequena oficina do porão da casa do avô da Olívia. Ali, tentamos construir alguma coisa: um boneco, uma caixa, nada muito perfeito, nada que não se possa disfarçar com uma mão de tinta. E um pouco de Durepoxi. Já conseguimos alguma coisa. E continuamos tentando. Um dia, chegamos lá! Me inspirei no artista Carl Larsson, para mostrar um pouco das minhas tentativas com a Olívia.”

Receita de energético para iniciar o Dia das Crianças

Moacir Knorr Gutteres, o Moa, tem 46 anos e é pai do Eduardo, 12 anos, e do Rodrigo, nove. Moa é casado com a terapeuta ocupacional Simone Lerner, mãe da dupla.

Ingredientes:

- Dois guris arteiros

- Meia dúzia de almofadas e/ou travesseiros

- Um cachorro de tamanho médio

Modo de preparo:

“Numa cama grande e resistente coloque os dois guris ainda sonolentos e mexa-os bem, aplicando uma generosa pitada de cócegas (as melhores nesta época do ano são as que são colhidas através do dedo no sovaco ou embaixo da costelinha). Faça isso até que eles adquiram uma coloração avermelhada e se derretam em gargalhadas.

Junte as almofadas e misture-se a eles aos gritos de “Guerra de Almofadas!!”, ou qualquer outro chamamento à luta. Deixe-se atacar pelos dois filhotes, agora convertidos em guerreiros impiedosos.

Após alguns minutos, inverta o jogo e amasse-os bem com abraços imobilizantes e golpes de travesseiro. Aproveite para descabelá-los com movimentos frenéticos. Complete a receita acrescentando o cachorro para engrossar a bagunça com lambidas e dentadas nos pijamas. Quando a situação chegar ao ponto de fervura, alivie a pressão polvilhando-os com beijos e pedidos de trégua!

Leve à mesa e sirva o café.

Obs.: Esta é uma receita básica que funciona bem com Eduardo e Rodrigo. A adição de mãe sempre agrega um sabor especial, mas deve-se ter cuidado por tratar-se de ingrediente muito sensível aos pontapés e corcoveios que vez ou outra respingam durante a feitura da iguaria.

O cachorro é opcional.”

Aventuras com menos de 10 anos e depois dos 40

Gelson Radaelli é artista plástico e dono do restaurante Atelier de Massas. É pai da Tulia, 14 anos, e do Teodoro, sete anos. Radaelli é casado com Rogéria.

“Uma das grandes vantagens em ter filhos é poder abrir uma portinha para a infância, viver incríveis aventuras em pequenas brincadeiras. Num momento enfrentamos monstros e mil guerreiros com uma espada de pau, noutro navegamos pela Via Láctea munidos com lanterna de pilha e bússola quebrada. Cavernas cheias de mistérios se organizam num canto do quarto, e uma cadeira sobre a mesa vira o castelo intransponível.

Mundo quente, de sons alegres, cores puras e gosto doce.

A Tulia e o Teodoro pertencem ao meu clube de aventureiros, parceiros para a fantasia. São eles que apontam, com seus dedinhos delicados, o lado mais bonito da vida; o caminho que, já dizia o Ben 10, realmente vale a pena.

Por isso, de vez em quando, tem um pequeno artista no meu atelier. Enquanto eu penso e reflito e deduzo sobre a minha pintura, aquele criador mirim não para de riscar, colorir, recortar, dobrar e borrar. Cria livre e pleno, sem grilos (nem jacarés) dos adultos, sem nada para atrapalhar a expressão. Prova quanta espontaneidade nós, adultos, perdemos para nos encaixar nesse grande cenário frio minimalista.

Mas, a mamãe Rogéria vem e cria essas brincadeiras de roda, atiça e canta com o perfume e brilho de aviõezinhos de parque de diversão.

Algumas coisas que eu fazia com menos de 10 anos, que voltei a fazer com mais de 40:

- Cozinhar fazendo muita sujeira, e o resultado é uma coisa estranha.

- Largar pandorga sem muito jeito, e deixar o vento levar embora.

- Caçar vaga-lumes e colocar em um pote de vidro para brincar de lanterna.

- Na praia, fazer todos os dias “o maior castelo que existe”.

- Derrubar nozes da árvore muito alta jogando a bola de futebol.

- Pescar lambari no riacho, com linha e anzol.

- Levar tombo de bicicleta.

- Levar tombo de skate.

- Guerra de bexiga d’água.

- Etc.

Na trilha, no meio do mato, num dia de inverno na serra, vimos grutas, macacos, árvores carnívoras, flores e frutas estranhas. Passamos riachos, nos enredamos em teias de aranhas gigantes. Até acendemos uma fogueira para aquecer nossos pés e mãos. O Teodoro falou que foi a maior aventura da sua vida.”

Publicado no caderno Donna ZH – 11/10

Postado por Fernanda

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