
Pelo menos em uma coisa jogadores, dirigentes e torcida estão afinados: a imensidão de suas tristezas. São cerca de milhares de pessoas nos Emirados Árabes que estão buscando novo sentido para a viagem. Muitos vieram embalados pelo turismo exótico que o roteiro Dubai e Abu Dhabi proporciona. mas o plano original dos torcedores era o futebol ser o protagonista e a visitação aos pontos turísticos, o acessório. Desde a manhã de ontem, esta ordem se inverteu.
- Futebol? O que que é isso? Nunca ouvi falar - brincou Ricardo Caldieraro.
Ele foi com os amigos ao Marina Mall, melhor e mais completo shopping center em Abu Dhabi. Em seus corredores imensos e gelados - por aqui o ar-condicionado parece sempre regulado na temperatura mínima nos ambientes climatizados -, torcedores procuravam se distrair no paraíso de compras.
Os amigos estavam na mesma batida, tristes, mas se esforçando para manter o bom humor.
- Na verdade eu vim para ver o Seongnam (da Coreia do Sul, que perdeu ontem para a Inter, de Milão) ser campeão e para andar de camelo - contou Felipe Zorzatto.
Mais; antes da derrota, em uma caminhada por Abu Dhabi, era possível avistar de longe os visitantes do Sul, todos uniformizados para torcer. Agora eles estão à paisana, de roupa de férias. É possível reconhecer os brasileiros que vieram para o Mundial somente pelo kit de turista que carregam: máquinas fotográficas e bonés.
Janesca Pinto foi mais radical. Também em sessão de compras, vestia preto.
- Estou de luto. Foi um absurdo, parecia partida de peteca - queixou-se.
Alguém chamou a atenção:
- Olha ali! Não é o Sobis e o Renan?
Eram sim. Passos lentos, mãos nos bolsos, cabeça baixa e rosto inchado pela falta de sono e pelo choro, os dois não esboçaram nenhum sorriso. Foram gentis. Sabiam que a rodinha de brasileiros estava enfileirando críticas ao grupo. Quando eles surgiram, o papo morreu. Mas a foto, mesmo com insistência, saiu sem sorriso. Não tinha clima.

No andar de baixo, foi a vez de encontrar Índio e Alecsandro - também sérios. O primeiro colorado que ainda vestia camiseta, Mateus Sachhett demonstrava igual ou até pior abatimento do que os jogadores. Falava com dificuldade:
- A gente se sentiu muito mal. Os jogadores nem saudaram a torcida. Não nos trataram da melhor forma fora de campo e, dentro de campo, o futebol não foi bom.
A queixa de uma saudação à torcida é frequente. Claro que se pudesse escolher, a opção seria gols e não acenos. Mas quem veio de tão longe, reclamou ao menos por um carinho.
Como a tristeza é geral, sobrou também para a torcida.
- As pessoas não cantavam. A gente estava em número tão maior e aqueles caras do Congo faziam muito mais barulho. Tinha muito gente mais velha. Faltou a Popular - queixou-se Guilherme Pinto.
O passeio por Abu Dhabi proporcionou uma outra constatação: os italianos não estão pegando no pé dos brasileiros. Fanáticos por futebol como nós, queriam enfrentar os gaúchos e não os congoleses.
- Queria enfrentar o Inter, de Porto Alegre - falou Marco Gatti.