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As peculiaridades de Marajó

21 de agosto de 2011 1

A Ilha de Marajó pertence ao estado do Pará e fica a três horas de balsa da capital Belém. Com uma extensão de aproximadamente 40 mil quilômetros quadrados, Marajó é a maior ilha fluviomarinha do mundo. Localizada na foz do rio Amazonas, a ilha é palco da famosa “pororoca” – o encontro das águas doces do Amazonas e da água salgada do Atlântico.

Visitamos a ilha em agosto, mês de seca. Por isso, não vimos a pororoca. Como o Amazonas estava baixo, a água nas praias de Marajó era salobra e era possível ver a diferença da cor no encontro das águas.

Duas coisas nos chamaram a atenção em Marajó: os rebanhos de búfalos e a vegetação. Conhecemos apenas uma parte da ilha (Soure, Salvaterra, Joanes e Cachoeira do Arari). Nessas cidades, foi possível encontrar praias que lembravam as de Florianópolis, como Joanes. Mas também passamos por locais pitorescos como Soure, onde há uma parte de mangue próximo da praia com uma mistura de pássaros da Amazônia e da Mata Atlântica e insetos que só vi lá.

Marajó é uma mistura de cenários: praia, mangue, fazendas de búfalo, árvores amazônicas, frutas amazônicas e também uma paisagem litorânea. Passeando pelas trilhas, nos deparamos com vários macacos. Na pousada em que ficamos, havia muito caju e urucu no pomar. Já na mesa, o cardápio principal era filé de búfalo com queijo na chapa.

Em Cachoeira do Arari, visitamos o Museu do Marajó e tivemos uma aula sobe as fases de ocupação da ilha e o legado dos índios marajoaras. Sua cerâmica é impressionantemente sofisticada e sua arquitetura pitoresca. Esses índios levantavam “morros” artificiais para construir suas casas, provavelmente pela característica de grandes banhados do Marajó.

A ilha tem boa infraestrutura para receber os turistas, mas se possível é melhor ir de carro. As cidades são distantes umas das outras e o transporte público é precário. Há vans que fazem o translado dos visitantes, mas com um carro é possível conhecer mais lugares. Para levar o carro até Marajó é preciso pegar uma balsa na localidade de Coaraci, em Belém. São três horas de travessia. Para um carro de passeio, o custo do transporte é R$ 80.


Os búfalos de Marajó

Não consegui descobrir, na ilha, uma versão oficial para a chegada dos búfalos em Marajó. Ouvi duas histórias e ainda não consegui confirmar se alguma delas é a verdadeira.

Sabe-se que os animais chegaram no final do século XIX. Uma das versões conta que foi o fazendeiro Vicente Chermont de Miranda, proprietário de muitas fazendas no local, importou os primeiros búfalos pretos do sul da Itália, em maio de 1895. Nos anos de 1896 e 1899, trouxe do Caribe um lote de búfalos Carabao, raça originária da Indochina.

A outra versão para a chegada do animal remete a 1920. Um barco que ia para a Guiana Francesa teria naufragado próximo ao arquipélago, e os búfalos que sobreviveram nadaram até a ilha, onde se adaptaram facilmente.

Origens à parte, os animais hoje são os reis do Marajó. Eles são criados livremente e podem ser vistos nas fazendas, na cidade e na praia. Utilizados nas fábricas de couro, são forças indispensáveis em tarefas pesadas nas fazendas, montaria para os turistas e meio de transporte para o policiamento. O animal tornou-se tão importante para o Estado que o Pará soma, hoje, cerca de 1,2 milhão de cabeças de búfalo, cerca de 40% do rebanho bubalino nacional.

Fizemos o passeio de búfalo. Foi mais ou menos uma hora no lombo do animal passando por uma trilha e pela praia. Mansos e domados especialmente para o turismo, os animais pareciam até saber o caminho sozinhos. O passeio custa R$ 20 por pessoa e dores nas nádegas até dois dias depois.

Praia de Soure, com a maré baixa

Praia de Soure, com a maré baixa

Praia de Soure

Praia de Joanes

Igarapé

Ruínas jesuítas na praia de Joanes

Balsa que liga Salvaterra a Soure. Dentro da ilha, muitas vezes, é preciso pegar balsas para pequenas travessias entre uma cidade e outra

Urucu
Urucu

Desta planta sai a cuia, usada como utensílio na cozinha

A Amazônia sem romantismo

17 de agosto de 2011 1

Confesso que sempre tive uma visão romântica da Amazônia: botos, índios, árvores gigantes e uma imensidão de água. A Amazônia tem tudo isso mesmo, além da variedade de frutas e peixes. Mas tem também outras coisas não tão belas.

Subindo o rio de Belém a Santarém, eu vi os botos, mas vi também muitas crianças subnutridas e analfabetas. Uma população ribeirinha que não passa fome porque as frutas caem naturalmente das árvores e a água dos igarapés pode ser bebida. No mais, falta tudo: educação, saúde, saneamento, transporte, dignidade.

As comunidades indígenas tentam sobreviver nas áreas delimitadas das aldeias, exprimidos de um lado pelas lavouras de soja, de outro pelo gado, de outro pelas madeireiras, e há também grandes multinacionais extraindo óleos, castanhas, açaí e outras riquezas amazônicas.

Nas cidades, há ainda outro problema, além da pobreza. O oxi. A droga, uma pedra feita com cal, gasolina e pasta de cocaína, é comum nas ruas das cidades e nos navios que sobem e descem o Amazonas, assim como o álcool, é claro.

Não gosto de discursos moralistas e acho que cada um pode fazer o que bem entende de sua vida, mas ver adolescentes perambulando como mortos/vivos pelo consumo dessa droga é uma tragédia anunciada. No navio, que leva três dias e três noites para chegar a Santarém, teve gente que não dormiu um minuto sob o efeito de drogas.

A miséria e a falta de perspectiva da população faz parte da paisagem amazônica, ao lado das imensas castanheiras, dos botos, do peixe-boi, do rio, das praias paradisíacas, da floresta inundada, do tucunaré, do açaí, da tapioca, do buriti e do cupuaçu.

Bosque Rodrigues Alves preserva floresta primária em Belém

16 de agosto de 2011 0

No meio da cidade de Belém, no Pará, há uma área de 150 metros quadrados que preserva uma parte da floresta amazônica primária. São mais de 80 mil espécies de plantas vasculares, cactos, palmeiras, bulbosas, coníferas e plantas frutíferas e medicinais.

O Bosque Rodrigues Alves é aberto para visitação diariamente. Além das espécies preservadas, há ainda os bancos de sementes e os herbários. O jardim botânico também abriga algumas espécies de animais. Logo na entrada, é possível ver os cágados e o peixe-boi. Há também 18 espécies de peixes, 10 de répteis, aves e os macacos.

A temperatura dentro do bosque é agradável, mais amena que no asfalto que fica logo ao lado. As crianças podem se divertir na brinquedoteca e há também lanchonetes e restaurantes dentro da área.

O bosque foi inaugurado em 1883. Idealizado pelo Barão de Marajó José Coelho da Gama Abreu, que era um geógrafo e foi presidente da província de 1877 a 1881. O parque é inspirado no Bois de Bologne, uma área verde localizada nos arredores de Paris.

Em julho de 2002, o bosque ganhou status de jardim botânico, com base na resolução 266 do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama). Com a certificação, o Bosque entra na lista dos jardins brasileiros que integram a Botanic Gardens Conservation International (BGCI), rede mundial com 1.846 jardins em 148 países e mais de 4 milhões de coleções de plantas vivas.

A passagem por São Paulo

15 de agosto de 2011 0

O FloripAmazônia passou a noite de domingo em São Paulo. Ficamos no apartamento em que morei há pouco mais de um ano. Pude rever duas amigas (Ticiani e Anacris) e matar a saudade da Vila Madalena. Eu não deixaria de passar por São Paulo sem tomar um chope no Filial.

Gosto de São Paulo e, principalmente, da Vila Madalena e da Rua Augusta. Era assídua frequentadora das duas localidades e recomendo a noite paulistana a todas as tribos, dos caretas aos malucos.

O trajeto entre São Paulo e Floripa não nos é estranho. A viagem está bem tranquila: temperatura agradável, uma garoa fina e a ansiedade para chegar em casa.

Post mulherzinha

15 de agosto de 2011 0

Quem me conhece sabe que sou um tipo de "perua" no que se refere ao guarda-roupas e acessórios. Neste quesito, o FloripAmazônia foi uma provação.

Como subimos o país em quatro pessoas em uma Pajero, levando barracas, sacos de dormir, colchão inflável, fogareiro, utensílios de cozinha e comida, não sobrou muito espaço para roupas, calçados e acessórios.

Cada casal teve direito a uma mochila para passar um mês na estrada. Minha parte se resume ao seguinte:

Uma calça jeans (aquela que a Graci me deu de presente).
Uma calça de moletom
Uma calça/bermuda de tecido fino (foi minha mão que costurou. É uma calça com zíper no meio da perna, que pode se transformar em uma bermuda)
Um short jeans
Quatro regatas
Duas camisas
Três pares de meia
Oito calcinhas
Um biquíni
Um top
Um tênis
Um chinelo
Desodorante
Hidratante para os lábios
Três tubos de protetor solar
Dois sprays de repelente
Uma escova de cabelo/espelho. Aquelas pequenas de bolsa
Um shampoo dois em um (esses que já vêm com hidratante)

Passei a maior parte do tempo de calça e camisa para evitar queimaduras do sol e mosquitos. Os primeiros seis dias de viagem foram tranquilos (São Paulo, Goiás e Brasília). A provação começou quando entramos no Jalapão, área de preservação e de difícil acesso no Tocantins.

Nos dois primeiros dias no Jalapão, os banhos foram só em rios. Lavei o cabelo com shampoo apenas uma vez, tentando amenizar a poluição dos rios. Minha única escova de cabelo quebrou. Minha sorte é que meu cabelo é curto e liso. Segundo o Danilo, a falta de pente e shampoo deixou meu cabelo mais "volumoso".

O tratamento das roupas foi parecido com o dos cabelos: água cristalina dos rios e vento. Tudo isso no meio da areia vermelha da região, que é uma transição entre cerrado e caatinga.

Subindo o país, rumo a Belém, o calor se intensificou e passava o dia lambuzada de protetor e a noite, de repelente. Em
Belém, ficamos na casa da família do Ninno. Eles seguem os preceitos Hare krishna e têm profunda preocupação ambiental. Então, os produtos de limpeza e higiene pessoal eram feitos por eles mesmos, à base de sabão de coco, frutas e óleos essenciais. Para "reduzir o volume" dos meus cabelos, usei óleo de copaíba mesmo, que estava à mão.

O traje de festa do FloripAmazônia

Minha situação se complicou quando minha calça/bermuda rasgou. Só sobraram a calça jeans, muito quente para o Pará, e o short jeans, que não secava de um dia para o outro, limitando meu guarda-roupas.

Foi então que decidi comprar um vestido. Fui ao chamado comércio velho de Belém. O local é tipo um grande camelô, no centro histórico da cidade. Paguei R$ 20 no meu vestido. Ele é de algodão roxo, com flores bordadas na frente. Lindinho. Depois, na Ilha de Marajó, comprei um chinelo de couro de búfalo. Assim, já tinha um traje de festa.

Desde então, essa é minha indumentária todas as noites. Passo o dia viajando de calça e camisa. À noite, tomo um banho e visto minha roupa de festa para conhecer a nova cidade.

A pira de Pirenópolis

14 de agosto de 2011 1

Igreja Matriz da Nossa Senhora do Rosário. Construída a partir de 1728 por escravos. É a mais antiga construção religiosa de Goiás e retrata o auge da mineração do ouro. Seus cinco altares eram revestidos todos com lâminas de ouro

A noite de sábado foi na cidade histórica de Pirenópolis, em Goiás, a 120 quilômetros de Goiânia. Inicialmente, a meta era chegar em Goiânia, mas anoitecemos na BR-153, com muitos caminhões. Então, decidimos pegar para Pirenópolis antes de chegar na capital de Goiás. Além do tempo na estrada, as informações que pegamos sobre a pequena cidade ajudaram na decisão. Mais uma vez, a mudança no roteiro valeu muito a pena.

Pirenópolis é tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional. O Arraial foi criado em 1727 aos pés da Serra dos Pirineus. No início foi um arraial minerador, mas acabou se transformando em um importante centro urbano da região. No século XX, Pirenópolis passou por um período de estagnação, mas conseguiu preservar toda sua arquitetura colonial. Hoje, a cidade está completamente restaurada e preparada para receber turistas do mundo todo, que circulam pelas ruas e ladeiras preservadas do município.

Chegamos na noite de sábado e a cidade estava cheia. São várias pousadas, hotéis e campings na área urbana e na área rural. O movimento intenso de turistas é comum nos fins de semana durante o ano todo. Além dos museus, igrejas e prédios históricos, Pirenópolis também oferece turismo rural e ecológico. No entorno da cidade, há várias quedas de água e uma natureza exuberante. Na manhã de domingo, por exemplo, tomamos café na companhia de pequenos saguis, uma experiência que não vou esquecer.

A gastronomia de Pirenópolis é um turismo à parte. Os inúmeros restaurantes regionais servem pratos de dar água na boca. Na noite de sábado, comemos uma picanha na chapa com queijo, arroz e feijão tropeiro. Tudo regado a boa cerveja e cachaça artesanal.

Outra atração é o artesanato goiano. Mantas feitas em teares manuais, bordados e a tapeçaria são os que mais me chamaram a atenção pela beleza e qualidade.

Gostaria de ter ficado mais tempo em Pirenópolis para conhecer melhor as cachoeiras e visitar os museus com calma, mas neste domingo temos 1 mil quilômetros pela frente até São Paulo. Então, deixamos a pequena cidade no fim da manhã com o gostinho de quero mais.

O café da manhã foi na companhia dos saguis

Um desvio que vale a pena

13 de agosto de 2011 0

Rio Tocantins, em Miracema, de onde sai a balsa para Lajeado

É muito chato viajar pela Belém/Brasília. Tem só estrada, caminhão e carros. A paisagem vai mudando, é verdade. Mas no geral é monótono. Por isso, decidimos hoje fazer 60 quilômetros a mais e entrar em Palmas para passar a noite. Já conhecíamos a capital do Tocantins e havíamos gostado. Então...

Mas resolvemos chegar na cidade por um caminho novo para nós dois. Vindo do Maranhão, entramos em Miranorte e pegamos uma balsa em Miracema do Tocantins, saindo em Palmas. No trajeto, uma paisagem exuberante que vale a volta.

O trajeto entre Miracema e Palmas abriga a reserva biológica da Serra do Lajeado. Tivemos a sorte de pegar o pôr-do-sol do lado do rio Tocantins e a lua cheia (ou quase cheia. Não entendo muito de lua) nascendo atrás dos morros. A paisagem é linda. Há formações rochosas interessantes, vegetação do cerrado e também alguns cenários que lembram a caatinga. A travessia de balsa na cidade de Miracema é tranqüila. É uma parte estreita do rio e há duas balsas fazendo a ida e volta o tempo todo. O valor da passagem para o carro e duas pessoas ficou em R$ 12.

Uma ponte está sendo construída no local. Segundo um policial que fazia a segurança às margens do rio, a ponte será inaugurada em novembro, junto com o asfalto de Miranorte até ali. Com isso, a balsa será aposentada.

Depois, o asfalto deve seguir até o Jalapão. O policial acredita que em dois anos, tudo estará asfaltado.

Neste sábado, seguimos para Goiânia. Desta vez, vamos pela ponte que liga Palmas à cidade de Paraíso. São quase 900 quilômetros. Mesmo que haja locais legais para conhecer no caminho, acho que não vai dar tempo.

A terra ainda é vermelha no cerrado. A temporada de chuvas começa só a partir de setembro

A lua nascendo atrás dos morros

Pôr-do-sol nesta sexta em Miracema

Balsa no Rio Tocantins

FloripAmazônia está voltando para casa

12 de agosto de 2011 0

Divisa entre Maranhão e Tocantins

Na última quinta-feira, 11 de agosto, iniciamos a volta para casa. A previsão é chegar em Florianópolis na segunda de noite. Eu e o Danilo estamos voltando com o carro e a Dani e o Maurélio ficarão em Belém mais uns dias e voltarão de avião.

Estamos retornando pela Belém/Brasília. Na quinta, pernoitamos na cidade maranhense de Imperatriz. Trata-se da segunda maior cidade do Estado do Maranhão e está às margens do rio Tocantins. Não há campings na cidade, mas existem vários hotéis e pousadas. Imperatriz é uma cidade de passagem para quem está subindo para o Pará ou voltando dele.

A noite em Imperatriz é agitada. São vários bares, lanchonetes e restaurantes. Sentar à beira do Tocantins e tomar uma cerveja é um bom programa para encerrar a noite em Imperatriz. Um navio vai e volta com passageiros entre as duas cidades separadas pelo rio: Imperatriz e Boa Vista.

Nesta sexta, seguimos viagem em direção ao Sul.

Região amazônica abrigou as civilizações pré-colombianas no Brasil

08 de agosto de 2011 2

Espécie de bule usado para "beber" os mortos. Peça original do Centro de Cultural João Fona

Há três civilizações que se destacam na pré-história do Brasil: tapajônica, marajoara e maracá. O FloripAmazônia teve a oportunidade de conhecer o legado de duas delas: a tapajônica e a marajoara.

A civilização tapajônica se desenvolveu em Santarém, entre os anos 1000 e 1500. Há poucos registros históricos dessa civilização, mesmo no Centro Cultural João Fona, conhecido como Museu de Santarém. Poucas peças tapajônicas estão catalogadas e a história dos índios Tupuliçus, que viviam na região, é contada por moradores mais antigos da cidade.

A partir da chegada dos portugueses em Santarém, em 1661, toda a história é documentada, mas os colonizadores não se preocuparam em registrar os detalhes da cultura tapajônica. As expedições a sítios arqueológicos e a preocupação em resgatar a história pré-colombiana do Brasil são recentes.

O pouco que se tem no Centro Cultural João Fona, no entanto, já nos dá uma ideia do que havia às margens do Rio Tapajós antes da chegada do português Pedro Teixeira e sua expedição.

Os Tupuliçus desenvolveram uma cerâmica elaborada, principalmente para os rituais funerários. As urnas funerárias do tapajós são famosas. Os indígenas embalsamavam seus mortos, os colocavam nas urnas feitas de cerâmica e depois trituravam os ossos. Esse material era queimado e, as cinzas servidas em um tipo de chá para toda a tribo. O morto era “bebido” pela tribo em um tipo de bule feito em cerâmica extremamente sofisticada.

Alguns exemplares dessas urnas e dos bules podem ser vistos no Centro Cultural João Fona, aberto à visitação diariamente. O centro fica na praça Barão de Santarém, no centro da cidade. O casarão histórico começou a ser construído em 1853, sendo concluído em 1867 e inaugurado em 1868.

No prédio funcionou o Fórum de Justiça de Santarém, Presídio, Intendência Municipal, Prefeitura Municipal e, atualmente, funciona o Centro Cultural João Fona, conhecido também como Museu de Santarém.

Urna funerária tapajó. Peça original, com restos humanos, no Centro de Cultura João Fona, em Santarém

Civilização marajoara

A cultura marajoara (700-1400 d.C.) destacou-se pela construção de aterros e pela cerâmica na Ilha do Marajó e nas regiões próximas. As datações radiocarbônicas permitem situar o período de maior crescimento e expansão da cultura Marajoara entre os séculos V e XIV, a colocando como a mais antiga fase da tradição polícroma amazônica, um estilo cerâmico caracterizado por uma cerâmica cerimonial altamente elaborada em forma e decoração (pintura preta e vermelha sobre branco, bordas ocas, uso de técnicas de modelagem, incisão e excisão). Esses artefatos são encontrados até hoje em enterramentos secundários e contextos rituais.

Cerâmica marajoara. Peças originais do Museu do Marajó

Muitas peças estão expostas no Museu do Marajó na cidade de Cachoeira do Arari, na Ilha do Marajó. Lá estão catalogadas peças encontradas por moradores da região. O material não é considerado arqueológico porque não foi retirado dos sítios arqueológicos segundo os critérios científicos. Mas, tudo foi retirado do Marajó por moradores ou estudiosos e foi submetido a análises radiocarbônicas. São peças originais em bom estado de preservação

Os mortos marajoaras eram enterrados em diferentes tipos de urnas, antropomórficas ou não, decoradas ou não, de vários tamanhos e formas, atestando tratamento diferenciado, como esperado para sociedades hierárquicas.

No Museu do Marajó podem ser vistas ainda as tangas marajoaras. São tangas feitas em cerâmica. Não se sabe ao certo para que serviam. Há especulações sobre o celibato das mulheres ou até o uso da tanga nos períodos de mensturação.

As polêmicas tangas esculpidas no Marajó. Há especulações de que seriam para o celibato feminino ou para o uso das mulheres durante a menstruação

Como chegar ao Museu do Marajó:
Onde: Cachoeira do Arari, a 51 quilômetros da PA 154, dentro da Ilha do Marajó
Quando: Aberto diariamente em horário comercial
Quanto: entrada para adulto R$ 2 e para crianças R$ 1

Cerâmica marajora original, exposta no Museu do Marajó

Tacacá foi demais

05 de agosto de 2011 2

Já havia comentado sobre a culinária de Belém, uma das mais ricas do país, sem dúvida. Em Alter do Chão, vila de Santarém, também tive ótimas experiências gastronômicas, mas na noite desta quinta-feira fui derrotada pelo tacacá. O sabor é ótimo, mas muito forte. Não consegui tomar uma cuia inteira. Sobrou mais da metade. A senhora que vendia a iguaria na praça de Alter do Chão me disse que é questão de costume. Se eu tomar tacacá todo dia, vou me acostumar, acredita a cozinheira.

Talvez me acostume mesmo. Como disse, o sabor é bom, mas é forte. Tem muito jambu, verdura da região que eu adoro, mas no tacacá o jambu foi com cabo e tudo, o que deixou a “sopa” bem forte. Além disso, era bem quente, o que não agradou muito na noite de 30 graus à beira do Tapajós.

O tal tacacá é preparado com o tucupi, goma de tapioca, camarão seco e jambu. O tucupi é um caldo amarelo feito a partir da mandioca, aqui chamada macaxeira. A massa ralada da mandioca é prensada, resultando no líquido leitoso e amarelo. Deixado em repouso, a tapioca fica depositada no fundo do recipiente e o tucupi na superfície. O tacacá leva também muita pimenta e coentro. Consegui tomar mais ou menos um terço de uma cuia. Terei que treinar mais em Belém até semana que vem, quando o FloripAmazônia retorna.

Os cafés da manhã em Alter do Chão

Os cafés da manhã em Alter ficarão na minha memória. A Michele, cozinheira da pousada, nos recebia toda manhã com frutas, suco de acerola e cupuaçu, ovos mexidos, tapioca, bolinho frito, pão fresco e um café bem forte. Ela me ensinou a fazer tapioca, prato que vai entrar para o cardápio lá de casa em Floripa a partir de agora.

Os maravilhosos sorvetes do Pará

Os paraenses souberam processar as melhores frutas da região e criar sorvetes sensacionais. Em Belém, há uma rede chamada Cairu, famosa pela variedade e pelo sabor dos sorvetes. Em Alter do Chão, experimentamos um sorvete regional, sem marca, e de um sabor sem igual. Cupuaçu e Açaí estão no topo da lista, por enquanto.

A gastronomia no navio

No navio, que fez o trajeto entre Belém e Santarém, o cardápio deixou a desejar. Ou, talvez, eu já estivesse mal acostumada com a culinária farta da região. O café da manhã não tinha tapioquinha, nem açaí. Era só pão e café. No almoço e no jantar, o prato feito era só carne e frango. Estávamos navegando pelo maior rio do mundo, com uma variedade imensa de peixes e não tinha peixe no navio.

Eu me virei com a culinária do câmbio negro do navio. Vários ribeirinhos atracavam seus barcos no navio, o prendiam com cordas e subiam para vender camarão seco, açaí e palmito. Essa foi a base da minha alimentação por três dias. E era bem gostoso.

O açaí que tomei no navio, comprado de moradores ribeirinhos, foi o melhor que já experimentei

Danilo preferiu levar o próprio alimento e preparava o café da manhã todos os dias no navio

O mundo maravilhoso do jambu, na feira Ver-o-Peso, em Belém

Tucupi sendo coado no Ver-o-Peso

Camarão seco, vendido na feira

Maniva para preparar a maniçoba, a famosa mandioca braba

Em Alter do Chão, experimentamos o tucunaré grelhado. É uma delícia