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Prazer Pleno

26 de March de 2010 2

Por – Nauro Júnior, fotógrafo

Somente alguém que ama, que realmente ama a fotografia, para perceber a semelhança entre sexo e foto. Comecemos pela “pegada” da máquina.
Você deve estender a mão esquerda como se fosse segurar uma bandeja com duas taças de champanhe, com a palma virada para cima. Ok? Agora dobre a mão estendida, com as pontas dos cinco dedos apontados para teu ombro direito, em frente ao peito.

Repouse suavemente a máquina sobre a mão, como se uma pena em delicada queda beijasse lençóis de cetim. Aponte o dedo indicador e o polegar até o anel do zoom, fazendo movimentos leves de vai e vem. Obrigatoriamente o indicador e o polegar, não o dedo médio. Para evitar que o indicador encubra a lente. A máquina já está presa em tua mão esquerda.Tens um certo controle sobre ela. A exemplo da valsa, abraçado à cintura da mulher amada, conduzindo-a pelo salão. Falta a outra mão. Empunhe a máquina na destra, deixando somente o dedo indicador livre, para receber os estímulos do cérebro, e explorar o disparador – o ponto G. Como no ato sublime do amor, é preciso pegada. Tem que haver carinho, como se buscasse o primeiro beijo. A dama e máquina fotográfica gostam de ambos – pegada e carinho. Só assim vais sentir tesão pela fotografia. Não se alcança este estágio de excitação com aquilo que não te seduz. Amparada em suas mãos, a máquina está sob pleno controle. Não perca a classe. É um momento comparável ao beijo afetuoso. Olhas através do visor e enxergas quatro linhas, delimitando um quadro em branco, da mesma forma que contemplas o olhar feminino, decifrando seus sinais. Este quadro em branco está à disposição para as mais belas pinturas, tendo a luz como pincel, e as cores do universo como tintas. Como à disposição está um corpo para o amor. Combine imaginação, técnica e sensibilidade, construindo telas inimagináveis. A busca pela imagem ideal é apenas a preliminar do amor. Ansiedade no peito, respiração ofegante, até encontrar o quadro definitivo, a pose ideal. Não existe orgasmo sem preliminares. Fotografia e sexo exigem o cumprimento de todos os rituais. Trate a máquina como extensão do seu corpo. Como se estivesse unido ao corpo da pessoa amada. Sinta cada momento, acaricie a imagem e a pele, sinta o ambiente saturado de amor. Apaixone-se. Sinta o pulsar dos grandes momentos da fotografia, do amor e da vida. Prepare-se para o instante definitivo, do corpo vinculado à câmera, do olhar buscando seu interior. Ela sentirá a respiração bem próxima. Saiba que a preparação objetiva a sintonia entre a pessoa, a natureza e o equipamento. No ápice. Pressionar o disparador é um gozo sublime. Orgasmo que retém um milionésimo de segundo pela eternidade. Não esqueça, entretanto, que a máquina é um equipamento frio, sem alma. O sentimento parte do fotógrafo. Por isso é necessário transformá-la em tua extensão. Tens que transmitir tuas emoções para ela. A máquina captura sentimentos e anseios, como fazem as mulheres correspondendo a teus estímulos. Quando fotografo, sinto-me fazendo amor. Busco o prazer pleno, ofertando tudo que tenho sem perder o controle da situação. Assim me sinto completo. Não ensino, portanto, a arte da fotografia a ninguém. Não existem regras. Esmero-me em cultivar a paixão nas pessoas que descobriram na fotografia não apenas uma profissão, e sim uma opção de vida. É impossível ensinar alguém a amar. É impossível ensinar alguém a fazer amor. É impossível ensinar alguém a fotografar. É puro instinto. As pessoas nascem desta forma. O desenvolvimento se dá com dedicação e treino. Se fosse de outra maneira, todos fariam amor e fotografia do mesmo jeito. Frias instruções encontram-se no manual da máquina fotográfica, ou na embalagem dos preservativos. Tudo que escrevi é fácil. Difícil é ter certeza que realmente amas a fotografia e o sexo, que não vai enjoar de praticá-los nunca. Atos que não podem cair na rotina. Tesão, pulsação e loucura são diariamente imprescindíveis. Mande flores, compre lentes novas, convide para jantar, fotografe viagens inesquecíveis, faça programas diferentes, busque novas luzes, novos matizes, vá ao motel. A mesma paixão pela fotografia se verifica no sexo em um relacionamento. Se este sentimento não for alimentado todos os dias, corre-se o risco de transformá-lo em hábito rotineiro. Como nas envelhecidas fotografias de casamentos, abandonadas em um canto escuro das casas endurecidas, sem valor algum.

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Comentários (2)

  • Nicole diz: 26 de March de 2010

    Parabéns, Nauro, lindo texto!

    Com certeza fotografia é amor…
    pena que no meu caso não posso praticar todos os dias…

    tão bom seria viver só de amor, digo, fotografia!

  • Debora diz: 28 de March de 2010

    Putz, tudo bem, ateh entendo mas to achando que isso tudo eh muita onda pra pouco mar.

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