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A guerra cobra o seu preço

25 de October de 2010 4

RODRIGO LOPES*

Quem é do clube, sabe que um dia vai acontecer. As perguntas são apenas “onde” e “como será”? Nos Bálcãs, no Iraque, no Afenganistão, no Líbano respondem a primeira. Dói muito? Perderei as pernas, morrerei? Terei forças, diante da imensa dor, e continuarei reportando? Fotografando?

Quem é do clube tem medo, aliado sempre vigilante dos correspondents de guerra. Quem é do clube sofre pelos companheiros perdidos no front. Mas, mesmo diante da tristeza, responde apenas em silêncio quando alguém, do fora, larga frases como:

-       Ele sabia do perigo, foi porque quis.
-       Ele já tinha várias fotos, não precisava fazer justamente aquela.
-       Ele já tinha coberturas suficientes no currículo, podia se aposentar.
Ah, os outros… Não sabem que na veia de repórteres, fotógrafos e cinegrafistas puro-sangue, a melhor reportagem, a melhor imagem, é sempre a próxima. Certamente João Silva, um dos melhores fotógrafos da atualidade, está ouvindo frases como essa desde sábado. Português de nascimento, cidadão do mundo por vocação, João perdeu as pernas após pisar em uma mina na cidade de Kandahar, no Afeganistão. Repórter fotográfico do The New York Times, ele estava onde os bons profissionais devem estar: no epicentro dos dramas humanos. Acompanhava uma patrulha do exército americano, como embedded (embutidos, no jargão jornalístico-militar). Ele já cobriu conflitos na África, nos Bálcãs e no Iraque, e é elogiado pelos seus colegas de profissão pela sua bravura e sensatez. O editor executivo do New York Times chegou a considerar como um “artista do conflito”.  Na imagem abaixo João Silva em ação.


João, junto com Greg Marinovich, Ken Oosterbroek e Kevin Carter formam o chamado Clube do Bangue-Bangue, responsável pela cobertura da guerra entre facções negras, travada todos os dias na África do Sul entre 1990 e 1994. São mais de 14 mil imagens que mostram os assassinatos brutais e massacres ocorridos nas cidades dormitórios da periferia de Joannesburg entre o CNA, partido de Nelson Mandela, e o Inkatha, grupo separatista de etnia zulu. A história do grupo que com seu trabalho ajudou a denunciar massacres e sucessivas violações aos direitos humanos está no livro Clube do Bang-Bang, editado no Brasil pela Companhia das Letras. Ken Oosterbroek, primeiro sul-africano a ganhar um Pulitzer, morreu às vistas dos companheiros no meio de uma fuzilaria, com o dedo ainda grudado no disparador da camera. Kevin Carter  suicidou-se aos 33 anos, com uma mangueira enfiada na boca. Acoplara a outra extremidade ao cano de descarga do carro. É dele a emblemática foto da criança desnutrida prestes a ser devorada por um urubu. Greg segue trabalhando.

“‘As vezes nos sentíamos como urubus. Pisamos em cadáveres, metafórica e literalmente, e fizemos disso nosso ganha-pão. Mas nunca matamos ninguém. Acredito que salvamos algumas vidas. E talvez nossas fotos fizeram alguma diferença’, diz Greg no livro.

Recebi a mensagem do breaking news da CNN anunciando a explosão que ferira João Silva no celular ainda na noite de sábado. Não nos conhecemos pessoalmente, mas virei admirador de sua bravura desde que passei a apreciar seus trabalhos. Ouso dizer que temos algo em comum: o gosto pela adrenalina e o sentimento de, ao revelarmos o que há de mais bestial no ser humano, ajudarmos a transformar o mundo num lugar melhor. É por isso que escrevemos ou fotografamos.

João recebeu os primeiros-socorros no local e levado a um hospital militar em Kandahar para ser operado, antes de seguir para a Alemanha. Mesmo ferido pela explosão e com hemorragia interna, João fez o que todos nós, colegas de profissão, esperávamos que fizesse: continuou a fotografar.


* Repórter multimídia do Grupo RBS, cobriu a Guerra do Líbano, em 2006, e outros locais conflagrados, como o Haiti.

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Comentários (4)

  • Débora Bresciani diz: 25 de October de 2010

    Este texto me fez lembrar de um livro que gostei bastante “O gosto da guerra” do jornalista José Hamilton Ribeiro, onde conta sobre sua experiência na cobertura da Guerra do Vietnã. Mesmo depois de perder uma perna, também ao pisar em uma mina, ele escreve o célebre parágrafo:
    “O que leva um jornalista a uma cobertura de guerra ou a uma situação de perigo, um pouco é vaidade; um pouco é espírito de aventura; um pouco é ambição profissional; e muito, mas muito mesmo, é a sensação, entre romântica e missioneira, de que faz parte de sua vocação estar onde a notícia estiver, seja para ali atuar como testemunha da história, seja para denunciar o que estiver havendo de abuso de poder (político, psicológico, econômico, militar), seja para açoitar a injustiça, a iniqüidade e o preconceito. Após tudo isso, uma pitada de falta de juízo”.
    Honremos aqueles que amam e ainda acreditam na carreira jornalística.
    Débora Bresciani.
    jornalista – mestranda em Comunicação Social

  • Felipe diz: 25 de October de 2010

    Seria uma pena perdermos mais um dos membros do “Clube”. O João Silva é um dos fotógrafos de conflitos que mais admiro. Que ele se recupere e volte a fotografar o mais rápido possível! Aqui nesse blog tem algumas das imagens que ele fez antes do acidente: http://lens.blogs.nytimes.com/2010/10/23/widespread-impact-from-an-afghan-mine/

  • Rodrigo Lima. diz: 27 de October de 2010

    nao e apenas uma profisssao. e u m estilo de vida.

  • José diz: 30 de November de 2010

    Ontem o Lens postou as últimas fotos do João. Inclusive um vídeo feito no hospital. (http://lens.blogs.nytimes.com/2010/11/29/its-the-photographer/#preview)

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