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Gustavo Razzera, um aficcionado pela fotografia analógica

05 de November de 2010 0

Adoro a fotografia analógica. Comecei a fotografar há dez anos. Estudei o processo Fine Arts P&B com Álvaro Diaz no laboratório fotográfico da faculdade de artes plásticas da UDESC. O Álvaro trabalhava com câmeras antigas e me incentivou a ter a minha primeira Rolleiflex (um modelo de 1954 que uso até hoje). A foto abaixo foi feita com ela em 2001.


Quando as coisas começaram a ficar difíceis (por aqui) para a fotografia analógica, com o quase sumiço dos papéis fotográficos do mercado, com a dificuldade de encontrar filmes e tudo mais, eu acabei fazendo a “transição para o digital”. Pra mim isso aconteceu em 2006. A entrada do processo digital no meu trabalho foi legal porque me apresentou às cores! Até então eu só fotografava em preto e branco.



Só que pra mim a fotografia digital não foi uma “libertação da opressão do laboratório fotográfico”. Eu sempre adorei o laboratório. O laboratório sempre fez parte do meu processo fotográfico. A fotografia para mim nunca terminou no “click”. A fotografia para mim sempre continuou a ser feita no laboratório. Aliás, para mim a foto só acabou de ser feita quando foi para a parede, ou para o álbum ou jornal, orkut, ou o que for, porque em cada etapa do processo de realização da foto é possível tomar decisões criativas que podem resultar numa foto diferente. A foto não é o produto final, a foto é isso e todo o seu processo de realização, desde a sua concepção, desde a vontade de realizá-la. Por isso busquei ter no laboratório digital o mesmo controle que eu tinha no laboratório analógico, porque se eu não pudesse controlar cada etapa do processo digital ele sim seria uma prisão para minha criatividade, uma caixa preta tomando decisões que poderiam alterar meu trabalho.

Assim, integrei o laboratório digital ao analógico, e hoje minha fotografia é hibrida. Uso câmeras, filmes e revelação à moda antiga, manual. O trabalho é analógico até a metade do caminho para chegar na foto. Daí por diante o processo segue em meio digital. Digitalizo os negativos, revelo e preparo para impressão e publicação no computador, imprimo e publico digitalmente. No final, a inclusão do laboratório digital colaborou para a qualidade do meu processo fotográfico justo na questão “controle”. Sou formado em filosofia pela UFRGS, mas antes estudava Ciências da Computação na UFSC e por quase quinze anos trabalhei como professor e consultor de informática em várias escolas do RS e de SC. Assim, entendo muito mais de computadores do que de química, e isso me possibilitou ir muito mais longe com a fotografia do que eu poderia imaginar que iria há dez anos, quando conheci o laboratório preto e branco.



Gosto de ver nas minhas imagens um pouco de sujeira, algo não bem definido, algo que eu olhe depois e tenha a impressão de que estou olhando para uma lembrança que eu tenho da coisa, e não para a coisa “igual” ao que ela é. Tenho buscado esse resultado nas minhas fotos digitais mais recentes. Talvez eu queira dar um caráter “impressionista” a elas. Talvez. Um dos motivos de eu ser fotógrafo é porque não consegui ser (não tive a paciência pra ser!) desenhista nem pintor nem gravurista (e eu tentei a gravura já depois da fotografia…). Essa atração pela pintura me levou, na fotografia, aos retratos e recentemente às naturezas mortas. Temas clássicos.



Mas minhas inclinações impressionistas começaram a ter vasão com a fotografia de espetáculos, tema querido de muitos pintores do gênero. Fotografo principalmente espetáculos teatrais, e no teatro a luz (a cor, justamente) tem esse caráter de “sujeira” que eu gosto de ver na foto, na medida em que a luz no teatro não está lá muitas vezes para corresponder à luz natural, mas para traduzir uma emoção (em várias cores), não para mostrar a coisa como ela é, mas para deformá-la, não para esclarecer, mas para justamente sujar, borrar, dar foco a um ponto (aquele que vamos recordar) e esquecer todo o resto. Em cada cena que fotografo vejo um quadro sendo pintado. Um quadro que eu gostaria de pintar, mas como não consigo, faço a foto.



A fotografia ainda pode ser “suja” de outras maneiras, não só pela luz, pela cor. Os retratos que fiz para a exposição “Muito mais que uma imagem sobre papel…” na 72 NY Gallery em Porto Alegre são um outro exemplo de sujeira que me agrada. A câmera que utilizei (construída pelo Japa no laboratório da CCMQ) combinada com o papel fotográfico utilizado, combinado com a situação de luz no local e peculiaridades da câmera e do processo de revelação, acabou produzindo um velado, uma névoa, que dá um ar etéreo, esse ar de “lembrança”, que me agrada.



É a sujeira da fotografia Lo-Fi (por oposição ao Hi-Fi da foto digital). A exposição ficou até dia 11 de setembro na rua Nova York, 48 e trouxe fotos de muitos fotógrafos que trabalham tanto analogica quanto digitalmente, como as do Jean Schwarz, fotógrafo da Zero Hora, e do grupo Espírito dos Sais, coordenado pelo Luiz Eduardo Achutti, que trabalha com processos clássicos de fotografia e que, nesse meu modo de ver, são fotografias Lo-Fi também, e eu gosto muito do trabalho deles.

O laboratório e os processos químicos são hoje parte dos meus mais novos projetos fotográficos. Tenho trabalhado com Sérgio Sakakibara (o Japa) no laboratório fotográfico da Casa de Cultura Mario Quintana, experimentando processos clássicos e alternativos de fotografia. O próximo projeto é recriar os negativos feitos com suporte de vidro. Mas mesmo esses trabalhos deverão incluir o laboratório digital em alguma etapa, senão, por exemplo, não haveria como mostrar as fotos aqui, não é?


Gustavo Razzera


http://www.grazzera.com

http://www.flickr.com/photos/razzera

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