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Senna bateu forte

01 de maio de 2014 5
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Foto Ricardo Chaves, Arquivo Pessoal

Senna bateu forte. Enquanto a frase ecoava pela TV, um giro completo na área de escape precedeu a parada da Williams. Os destroços se acomodavam no asfalto da curva Tamburello enquanto o capacete verde-amarelo insistia em ficar imóvel. De repente, um leve movimento o fez repousar na lataria vergada. E tudo parou.

“Levanta, levanta, levanta…”, era só o que eu mentalizava às 9h12min de 1º de maio de 1994. Aos sete anos, domingo já era sinônimo de Fórmula-1 e alegria para mim. Mas o capacete não se mexia. Virei para o lado e vi meu pai de boca entreaberta, olhar fixo na tela. Silêncio. Mirei de novo a TV, mas Ayrton Senna não reagia. Por quê?

Um minuto e 40 segundos depois da batida, os médicos chegaram, sob aceno frenético de fiscais com bandeiras amarelas. Cercaram a Williams até retirar Ayrton do cockpit. No chão, o sangue vermelho pintava o lençol branco estendido na brita. Deu medo.

A corrida foi interrompida na sétima volta. Enquanto o macacão de Senna estava aberto à altura do peito, pilotos saiam atônitos dos carros nos boxes. Muitos levavam a mão ao rosto ao ver o replay do acidente. Outros, à cabeça. Alguns choravam. Eu já tremia. Engoli em seco e quebrei o gelo na sala: “O que houve, pai?”. Ele jamais saberia responder.

Passados 15 minutos, o helicóptero médico decolou da pista levando Senna em uma maca cercada por socorristas com olhar preocupado. Ele já não vestia o macacão nem o capacete com as cores do Brasil. Não houve aceno nem sorriso. Voou. Para longe. Para sempre.

Foto AFP

Foto AFP

“Como é que pode?”, perguntava meu pai a si mesmo. A colisão era repetida à exaustão na TV. Senna passou reto e se espatifou no muro de concreto. Não havia explicação. A corrida recomeçou, mas era do hospital que se aguardava a vitória daquele domingo. E ela não veio.

Era 13h42min quando a inconfundível melodia do plantão da TV Globo adentrou na sala. E Roberto Cabrini, com voz trêmula, anunciou a sentença da porta do hospital Maggiore, de Bolonha: “Não há mais esperança para Ayrton Senna”. Quarenta minutos depois, o coração do tricampeão parou de bater. E o de milhões de brasileiros, acelerou.

Minha mãe enxugava as lágrimas. O pai repetia: “não é possível”. Aos sete anos, eu resistia a entender. E agora? Quem faria nossa manhã de domingo mais feliz? Senna era o maior ídolo esportivo de um Brasil que renascia após o regime militar, tentava superar mais uma crise econômica e amargava derrotas doídas no popular futebol. Por que ele não levantou do carro?

A comoção transcendeu gerações naquele domingo. O Brasil chorava o adeus prematuro de Senna, aos 34 anos. Nos estádios de futebol, o minuto de silêncio que precedeu os jogos tinha grito e lágrimas: “Olê, olê, olê, olá…Senna…Senna…”.

À noite, imagens do tricampeão feitas antes do GP de San Marino instigavam. De camiseta branca, boné azul e macacão amarrado na cintura, Senna apoiou as mãos no aerofólio da Williams. Mirou o vazio. Sozinho, em silêncio. E ficou praticamente imóvel por cinco minutos.

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Foto Pisco Del Gaiso, Folhapress

Dois dias antes, Ayrton havia pulado o muro do centro médico do circuito tamanha preocupação em saber como estava o então novato conterrâneo Rubens Barrichello, que decolou contra a proteção de pneus no treino livre e escapou por um triz.

No sábado, Senna chorou compulsivamente ao ver o austríaco Roland Ratzenberger perder o aerofólio e a vida após bater violentamente no muro. Cogitou não correr, mas voltou atrás. E pediu uma bandeira da Áustria para levar consigo e empunhar após a vitória que nunca veio.

O corpo chegou a São Paulo três dias depois. Foi recebido por mais de 1 milhão de fãs. Nas ruas, pessoas subiam em carros, prédios, monumentos, viadutos. Erguiam faixas. Pintavam o rosto nas cores do Brasil.

No velório, cada torcedor teve 10 segundos para se despedir do ídolo. E todos fixavam o olhar, com ar incrédulo, no caixão envolto pela bandeira brasileira e que servia de repouso ao capacete verde-amarelo. Entregavam flores. Mandavam beijos. Acenavam. Faziam reverência.

Desde Senna, o Brasil nunca mais foi campeão de F-1. Bateu na trave com Felipe Massa, em 2008. Ouviu 22 vezes o “tan tan tan” que embalou tantas vitórias recheadas de esperança. Mas a saudade fez muitos órfãos do Ayrton Senna do Brasil parar de assistir às corridas.

Passados 20 anos, meu pai e eu ainda acordamos aos domingos para vê-las. Hoje, a distância entre a Capital e Carazinho nos separa na torcida. Mas a saudade das alegrias vividas com a garra de Ayrton e o legado de apaixonados por F-1 nos une, não importa o horário da largada. E tudo porque Senna bateu forte. No coração de cada um nós.

Foto AFP

Foto AFP

Comentários (5)

  • Deivis diz: 1 de maio de 2014

    Até hoje ainda é inacreditável.

  • Nelson Roberto diz: 1 de maio de 2014

    Senna, eternamente em nossos corações.

  • JULIANO ATANAZIO diz: 1 de maio de 2014

    Linda Crônica; acompanho a f1 desde 84 quando tinha 11 anos e assisto até hoje, mas a cada fim de semana de corrida é impossível não lembrar da tensão com que via cada GP; hoje é somente o vício que o senna me fez ter pela F1, mas o prazer ficou em 94! Eterno Ayrton Senna!

  • Fernando diz: 1 de maio de 2014

    Grande, meu, lindo texto!

  • Luis Ferreira diz: 14 de junho de 2014

    Realmente muito bonita a cronica, eu estava saindo de uma prova de um concurso e vi um cara ouvindo no radinho a corrida e perguntei em que lugar estava o Senna e ele me deu a noticia que ele tinha batido e achava que não sobreviveria. Do local da prova até minha residência foi só pensando e torcendo para que tivesse sido apenas mais uma batida, mas não foi, foi a mais tragica saida de Senna de cena.Adeus eterno campeão.

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