Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.

"Meu leite secou". Por quê?

06 de outubro de 2015 3

Por Elisandra Borba

Foto: Reprodução Instagram

Foto: Reprodução Instagram

A jornalista Fernanda Gentil publicou na conta pessoal no Instagram no fim de semana uma mensagem de desabafo, contando que teve problemas para amamentar e seu leite acabou “secando”. Não é raro ouvirmos relatos de mulheres que não conseguiram amamentar. E não por opção, mas porque encontraram algum problema e não tiveram o suporte necessário para resolver. Não estamos falando das que optam por não amamentar, estas tomaram uma decisão e precisam ser respeitadas. Amamentar não é nenhum mar de rosas para muita gente. Falo daquelas que sonham em alimentar o bebê através do leite produzido especialmente para ele por seu próprio corpo e, de repente, percebem que nem sempre é tão natural quanto pintam.

Dores, rachaduras, bebê chorando, são algumas das dificuldades encontradas. Mas essas coisas não costumam fazer com que o leite acabe, conforme esclarece a Nutricionista, Especialista em Nutrição Clínica e Aleitamento Materno, Mestre em Saúde da Criança e do Adolescente pela UFRGS, Consultora Internacional em Amamentação certificada pelo International Board Lactation Consultant Examiners, Membro da International Lactation Consultant Association, Rosane Baldissera.

“o leite não “seca” de uma hora para a outra, a menos que a mãe ingira medicamentos para bloquear a produção de leite. O que acontece é que a produção de leite pode diminuir consideravelmente caso não exista um estímulo adequado para a glândula mamária manter ou aumentar a produção de leite materno”, explica Rosane.

Estímulo adequado entende-se por:

- Bebê sugando as mamas corretamente, através de uma pega ao seio adequada. A capacidade de produção de leite é determinada pela correta estimulação do mamilo e da aréola;
- Bebê mamando em livre demanda e com frequência durante o dia e à noite (idealmente entre oito a doze mamadas em 24 horas ou sempre que o bebê solicitar). Quanto mais frequente é a estimulação da mama, mais leite é produzido.
- Bebê utilizando como “bico” somente o bico do peito, sem sugar bicos artificiais (mamadeiras ou chupetas). Quando os bebês usam bicos artificiais, geralmente solicitam o seio materno com menor frequência e podem apresentar confusão de bicos (desaprendem a sugar corretamente a mama), causando redução da produção de leite e desmame precoce.
- Bebê sem receber outros líquidos ou alimentos antes dos seis meses de vida, pois sabe-se que o estômago do bebê é pequeno e mesmo que receba pouca quantidade, vai ficar satisfeito rapidamente e solicitar menos o seio.
Estes são os principais fatores que fazem com que a mãe produza leite em quantidade suficiente para seu bebê.

No entanto, alguns fatores podem sim atrapalhar a amamentação e provocar a redução da produção de leite. Por isso as mães precisam ficar atentas:

- Estresse, cansaço, insegurança, problemas emocionais por parte da mãe, pois sabe-se que a produção e ejeção do leite são influenciados negativamente se qualquer uma dessas condições estiver presente. Os hormônios do estresse afetam e muito a lactação;
- Ingestão inadequada de líquidos para a produção de leite;
- Falta de apoio e auxílio no pós-parto.

Para que a nutriz produza leite em quantidade suficiente para seu bebê, deve observar as seguintes recomendações:

- Verificar se a pega do bebê está correta e se o bebê remove adequadamente o leite da mama;
- Amamentar em livre demanda e com frequência;
- Evitar o uso de chupetas e mamadeiras;
- Não oferecer outros líquidos ou alimentos ao bebê (antes dos seis meses);
- Estar segura, confiante, descansada, conectada com seu bebê;
- Ingerir em torno de 3 litros de líquidos ao dia;
- Estar cercada de pessoas que a apoiem e ajudem com a amamentação e com as tarefas da casa.

Prótese e bico invertido

Fernanda Gentil citou algumas circunstâncias em que mães não conseguem amamentar, como possuir bico invertido, prótese de silicone ou redução de mama. A especialista explica que algumas mães com essas condições podem apresentar dificuldades iniciais em estabelecer com sucesso a amamentação. Mas elas precisam saber que é plenamente possível amamentar se estiverem bem informadas e orientadas a respeito das dificuldades que podem ter e como resolvê-las.

Busca por ajuda

“As mães que apresentam dificuldades em amamentar, devem procurar auxílio dos profissionais especializados em aleitamento materno ou dos Bancos de Leite Humano, pois estes são capacitados para auxiliar mães e bebês com dificuldades na amamentação”, orienta.

Relactação

As mamães que pararam de amamentar por qualquer motivo e desejam amamentar novamente podem utilizar a técnica da relactação. É um processo de restabelecimento da produção de leite na mulher que interrompeu a amamentação, ou que teve uma diminuição acentuada da produção de leite ou que não amamentou após o parto.
Consiste na utilização de um dispositivo especialmente desenvolvido para este fim ou o uso de uma sonda nº 4 (nasogástrica, uretral ou de aspiração), com pontas aparadas, uma delas deve ser afixada bem próximo do mamilo, enquanto a outra ponta permanece mergulhada em um copo com leite materno (ou fórmula infantil, na falta deste). À medida que o lactente suga, ele recebe o alimento proveniente do dispositivo, ao mesmo tempo que estimula a glândula mamária a produzir leite. O bebê deve mamar a cada duas horas (no mínimo, ou sob livre demanda), inclusive durante a noite, para melhor ação da prolactina (hormônio responsável pela produção de leite). Os resultados aparecem entre uma a seis semanas para que as mulheres possam produzir leite suficiente para alimentar os seus bebês sem necessidade de complementação. O uso da mamadeira deve ser evitado quando a relactação está sendo utilizada. Esta técnica também é utilizada nas situações onde há atraso na descida do leite, baixa produção de leite, ou situações onde é necessária a complementação com fórmulas artificias e se deseja evitar o desmame precoce. O sucesso da relactação depende de uma série de fatores que se relacionam com mãe, com o ambiente e com o bebê, muito embora a técnica seja determinantemente sensível à estimulação adequada das mamas e cuidados maternos com alimentação, hidratação e descanso. Neste sentido, é preciso considerar a disposição do bebê para mamar, uma vez que, não é raro que alguns tenham dificuldades com a sucção após um longo período afastados do seio materno ou ainda que nunca tenham sido amamentados, sendo necessário o emprego de paciência para ensiná-los. A ajuda e acompanhamento de um profissional especializado é muito importante para o sucesso da relactação, assim como a motivação da mãe em retomar a amamentação.

Nossas experiências

Por Karolina Nogueira

Já no hospital eu notei que o Pietro não conseguia mamar suficientemente, ele não conseguia abocanhar o meu peito certinho. Fui para casa e os dias de terror chegaram, o meu filho amado berrava de fome e não conseguia mamar. Foram dias de muitos choros, meu e dele, peitos rachados, leite e sangue na boquinha dele, mordia um pano e expulsava as pessoas do quarto para me concentrar, vi meu marido chorar com a minha dor física, mas era a mental que me corroía. Foi então que na noite de natal, a minha mãe explodiu comigo às 3h da manhã, disse que o Pietro estava com fome (ele gritava muito!) e exigiu que eu saísse para comprar um complemento pelo menos para tentar dormir algumas horas. Decidi que daria, mas que no dia seguinte iria buscar ajuda. Com muita dor, contradizendo tudo que eu sempre sonhei, dei ao meu filho o complemento em um copinho. Ele sorria saciado, foi o momento onde a culpa pesou ainda mais, havia deixado o meu filho com fome por 13 dias. No dia seguinte amamentei ele no peito e me levantei, com 15 dias de uma cesárea, peguei o Pietro e minha mãe e busquei ajuda. Fui para o Centro de Amamentação do Hospital Fêmina, onde passei o dia entre as enfermeiras vendo quais eram os meus erros e como poderia resolver o nosso problema. Elas identificaram que o Pietro não conseguia mamar deitado e sugeriram que eu amamentasse na posição “cavalinho” e foi aí que as coisas começaram a melhorar. Demorei uns dias para que aquela situação ficasse 100%, mas logo nos acertamos e uns dias depois o Pietro já dormia mamando em mim. Foram lindos 14 meses de amamentação, um desmame natural e um amor infinito. Isso tudo com apoio gratuito desse centro e dessas profissionais maravilhosas. Não tenho nada contra quem não amamenta, apenas sinto muito e compartilho da opinião que vale a pena tentar, insistir. No caso da Fernanda Gentilli não me convenceu que chegou a insistir, um leite secar em tão pouco tempo… E relactação, não existe? Mais informação, por favor.

Por Giane Guerra

Passei a primeira gravidez sem pensar sobre amamentação. Achava que era instintivo, automático. Resultado: meus mamilos racharam e amamentar tornou-se um momento de dor intensa. Mandava as pessoas saírem de perto para não me verem chorar. Em cacos, ainda ficava refém da balança que mostrava pouco peso da minha bebê. Me mandaram tomar Equilid e recomendaram complemento. Eu sabia que as sugestões vinham porque achavam que eu estava incapaz emocionalmente e nao fisicamente. Foi então que decidi que ia consertar essa zona. É o melhor para minha bebê? Então, vou conseguir. Parei de tomar o remédio depois de poucos dias e trabalhei pelo leite materno exclusivo. Para isso, fui atrás de informações, estudei. O Grupo Virtual de Amamentação, no Facebook, me ajudou muito com seus textos técnicos e aprofundamento sobre aleitamento. Consegui meu objetivo pouco tempo depois. Com meu segundo filho, está sendo maravilhoso. Inclusive, usei esses dias meu leite para alimentar minha filha mais velha para protegê-la da virose que o pai pegou.

Meu recado: vale a pena! Não fique sentada esperando ajuda, que alguém avise ou diga o que tem que ser feito. Corra atrás da informação e não se contente com algo que não a convença. Minha recompensa? Ouvir da pediatra que o sistema imunológico dos meus filhos é ótimo!

Sobre o episódio Fernanda Gentil, uma pena ela não ter conseguido amamentar já que queria tanto. Mas um erro ter colocado superficialmente como justificativa que o leite secou, algo mais para mito do que para diagnóstico. Quando a figura pública se coloca como exemplo para a sociedade, ela “assina um contrato” para o bem e para o mal. Se foi um exemplo durante a gestação, será um exemplo também para mães de todas as classes sociais. E talvez pegue aquelas que estão no momento limite de decidir por amamentar ou não seus bebês. E, pior, pegue aquelas que não têm dinheiro para comprar uma fórmula adequada para alimentar os bebês e optem por um leite de vaca, expondo o bebê a riscos que vão desde alergia até sobrepeso.
A figura pública não pode ter problemas pessoais? Pode, claro. Mas precisa ter mais cuidado com a informação que divulga, projetando o impacto disso.

Por Milena Schoeller

Acredito que não podemos julgar as pessoas pela nossa experiência, pois cada pessoa é diferente. Cada mãe vive angústias diferentes. Mas segue o meu relato, pois acredito que algumas mães podem se identificar. Eu amamentei meu primeiro filho, o Antônio, até 1 ano e 3 meses. Ele largou naturalmente o peito. E meu segundo filho, o Pedro, tem 1 ano e 4 meses, e ainda mama. Os dois foram APLV, alérgicos à proteína do leite de vaca. Com o Antônio, fiz uma dieta de restrição de proteína do leite por 7 meses. Com o Pedro, fiz por 1 ano a dieta de exclusão do leite, e por 10 meses fiquei também sem a proteína da soja e da carne vermelha. Foi um período difícil, por muitas vezes pensei em parar de amamentar, e fui até orientada a isso, já que o Pedro só melhorou dos sintomas da alergia após 3 meses de total exclusão das proteínas. Eu emagreci, fiquei anêmica, e alterei completamente minha rotina de alimentação. Tive que reforçar, inclusive, exercícios fonoaudiológicos para não sofrer alterações na voz, devido ao emagrecimento rápido, e a perda de massa. Só uma coisa me fez ter forças pra continuar: eu já tinha passado por esta situação uma vez, e sabia que poderia vencer de novo. E deu certo. Há um mês meu filho está curado da alergia, eu sigo amamentando, até quando ele não quiser mais. Gosto sempre de repetir uma frase que minha obstetra me disse quando engravidei pela primeira vez: “Tu quer amamentar? Então te prepara, pois amamentar não é fácil.”

Por Sibeli Fagundes

Eu tive relativa sorte na amamentação. Assim que nasceu, o Vicente pegou bem e, como foi parto natural, o leite desceu dentro do esperado. Nunca tive uma produtividade muito grande, mas era suficiente para o guri crescer forte. Não tive problemas com bico rachado, seio empedrado ou mastite. Assim que descobri a gravidez, por orientação médica, comecei a preparação para tornar a pele mais resistente. Depois, mantive a hidratação após cada mamada. Amamentei meu filho exclusivamente até o sexto mês. Ele foi para a escolinha infantil com sete meses (tive licença de seis meses e mais um de férias). Reconheço que não me esforcei para tirar leite com máquina e prosseguir dando leite materno no período em que ficava afastada, trabalhando, até porque ele esgotava o estoque. Ele mamava durante a noite e madrugada, tomava fórmula na escola e voltava a mamar no final da tarde. Com o tempo, ele foi perdendo o interesse pelo leite materno, naturalmente. Se quisesse, teria continuado.

Por Marcela Panke

Não foi fácil amamentar o Nícolas no início. Quando pegava a mama corretamente, sugava um pouco e dormia. Acabamos ficando um dia a mais que o esperado no hospital para garantir que ele estivesse mamando bem. Mesmo com todo o apoio da equipe de enfermagem, ele teve que receber complemento uma vez durante a internação, porque a glicose estava baixa. Chorei muito naquele dia, me senti muito frustrada. A partir daí e pelas próximas semanas, me esforcei muito até que ele entrasse no ritmo. Tentava de tudo para mantê-lo acordado: conversava com ele, fazia carinho, mexia nos pés e até tirava a roupa dele! Além disso, meu leite empedrou. Voltei ao hospital com 39,5 de febre, com nódulos em uma das mamas e com dor para amamentar. O mamilo ficou machucado por duas semanas. Eu passava o óleo Dersani e segurava a dor para ele continuar mamando. Eu poderia ter desistido, e entendo as mães que o fazem. Exige esforço, dedicação e paciência. Mas não me arrependo de ter persistido: o Nícolas está saudável e crescendo muito a cada semana que passa!

Comentários (3)

  • Valesca Ribeiro diz: 6 de outubro de 2015

    Passei pelo mesmo problema que a Fernanda Gentil. Entendo perfeitamente. As pessoas julgam ( eu tbm julgava, até acontecer comigo). Não tive produção de leite. Tentei, tentei muito. Relactação, Equilid e tudo que possam imaginar. E nada. Meu bebê, por conta da minha teimosia em alimenta-lo apenas com leite materno ( que não existia) acabou sendo internado em CTI Neo com desidratação. Quase perdi meu bebê. Não me perdôo até hoje. Porque insisti em algo que não deu certo pra mim. E foi um sonho, desde a gravidez. Então, quando uma mãe que quer amamentar te falar que não conseguiu, acredite e não julgue.

  • Ana diz: 7 de outubro de 2015

    Meu filho mais velho tem 21 anos hoje. Foi muito desejado, fiz tratamento hormonal por 4 meses (até que foi rápido) para engravidar. Quando nasceu, era saudável e bem grandinho: 4050 g e 42 cm. Comecei bem com a amamentação, mas ele apresentou um problema de pele com menos de 30 dias. Resultado: fiquei extremamente nervosa com isso. E ele muitas vezes sugava meu peito sem mamar realmente, e eu não compreendia o que estava errado. Quando chegava a noite, chorava muito e eu não sabia que era de fome. Perdeu peso. O pediatra disse que era para introduzir o leite em pó. Foi muito doloroso para mim, mas para ele foi ótimo, pois estava de barriguinha cheia! Somente na segunda gravidez fiquei sabendo que quando um bebê dorme durante a amamentaçao, sendo que ainda não está satisfeito, é necessário acorda-lo de algum jeito, fazendo cócegas no pezinho, trocando a roupa dele, etc. Ele precisa estar bem acordado e sugar com vontade, envolvendo com a boquinha “toda” a auréola. Foi desinformação da minha parte. Mania de mãe querer se culpar sempre. Desejo a todas que passaram por isso que superem e às outras novas mamães que busquem informação antes do parto.

  • Ester diz: 17 de junho de 2016

    Minha está com 3 meses e meio, e a poucos dias realizando buscas na net por informações sobre como conseguir amamentar depois do leite ter secado.Decobrir a relactacao. Estou tentando, com muita esperança que o leite volte e ela mame. Pois desde que saí da maternidade, na consegui amamentar. Tenho os mamilos invertidos.

Envie seu Comentário