
Jamelão na cabine da Gaúcha com Cláudio Brito, Paulo Sant'Ana e Matias Flach. Foto: Vinicius Brito
Jamelão era a voz da Mangueira. Mais do que uma escola, a verde-e-rosa carioca era uma extensão de sua casa. A quadra era uma sala de recepção; em seus corredores, ele reunia amigos. Onde a agremiação estivesse, lá estava Jamelão exaltando a Estação Primeira.
Ao longo da carreira, defendeu muitos sambas em tantos carnavais, torceu e sofreu nas apurações. Veterano de rodas e palcos, sempre foi unanimidade. Quem mais poderia ser escolhido o intérprete do século? E nem ouse chamá-lo de puxador. “Puxador de fumo, puxa-saco... Puxador de samba, não! Eu sou cantor”, costumava dizer.
Era um mestre e, como todo mestre, deixou lições de humildade. “Ser humilde e sincero é muito bom. Isso é muito importante porque nós estamos aqui de passagem”, afirmou certa vez. Quem só conheceu Jamelão na avenida se surpreenderia com as apresentações no auge da carreira de cantor. Música de dor de cotovelo? Para ele, não, eram canções românticas. ‘Folha morta’, de Ary Barroso, era a preferida.
O tempo passou e o belo timbre grave continuou. Ganhou manias com o passar dos anos: sempre andava com elásticos presos nos dedos e chapéu na cabeça. Era graciosamente rabugento, mas sabia fazer os outros rirem. “Quando a gente tem um compromisso sexual mais forte, toma catuaba, come um ovinho de codorna para a pilha ficar ligada até certa hora”, brincou no documentário feito por André Rosa e Guilherme Vergueiro em sua homenagem. Jamelão emocionava com sua voz.
História de Jamelão:
Nasceu no bairro de São Cristóvão e passou a maior parte da juventude no Engenho Novo, para onde se mudou com seus pais. Lá, começou a trabalhar, para ajudar no sustento da família - seu pai havia se separado de sua mãe. Levado por um amigo músico, conheceu a Estação Primeira de Mangueira e se apaixonou pela escola de samba.
Ganhou o apelido de Jamelão na época em que se apresentava em gafieiras da capital fluminense. Começou ainda jovem, tocandotamborim na bateria da Mangueira e depois se tornou um dos principais intérpretes da escola.
Passou para o cavaquinho e depois conseguiu trabalhos no rádio e em boates. Foi "corista" do cantor Francisco Alves e, numa noite, assumiu o lugar dele para cantar uma música de Herivelto Martins.
A consagração veio como cantor de samba. Sua primeira gravadora foi a Odeon. Depois, trabalhou para a Companhia Brasileira de Discos, Philips e mais tarde para a Continental, onde gravou a maioria de seus álbuns, para a RGE e depois para a Som Livre. Entre seus sucessos, estão "Fechei a Porta" (Sebastião Motta/ Ferreira dos Santos), "Leviana" (Zé Kéti), "Folha Morta" (Ary Barroso), "Não Põe a Mão" (P.S. Mutt/ A. Canegal/ B. Moreira), "Matriz ou Filial" (Lúcio Cardim), "Exaltação à Mangueira" (Enéas Brites/ Aluisio da Costa), "Eu Agora Sou Feliz" (com Mestre Gato), "O Samba É Bom Assim" (Norival Reis/ Helio Nascimento) e "Quem Samba Fica" (com Tião Motorista).
De 1949 até 2006, Jamelão foi intérprete de samba-enredo na Mangueira, sendo voz principal a partir de 1952, quando sucedeu Xangô da Mangueira. Em janeiro de 2001, recebeu a medalha da Ordem do Mérito Cultural, entregue pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso.
Diabético e hipertenso, Jamelão teve problemas pulmonares e, desde 2006, sofreu dois derrames. Afastado da Mangueira, declarou em entrevista: "Não sei quando volto, mas não estou triste."
Morreu às 4hs do dia 14 de junho de 2008, aos 95 anos, na Casa de Saúde Pinheiro Machado, em sua cidade natal, por falência múltipla dos órgãos. O enterro foi no Cemitério São Francisco Xavier, no bairro do Caju, no Rio de Janeiro.