Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros

Ao som do samba - Antônio Carlos Côrtes

25 de janeiro de 2012 1

VOX POPULI, VOX DEI

“A mente que se abre para uma ideia, jamais retorna ao seu estado original” (Einstein)

O carnaval contemporâneo criticou a grande e talentosa carnavalesca carioca Rosa Magalhães aos tempos em que esteve à frente dos desfiles da Imperatriz Leopoldinense do RJ, onde alcançou cinco campeonatos em dezenove disputados, eis que argumentavam que realizava bonitos e bem acabados desfiles, porém sem emoção, ainda que fosse ao encontro das regras do jogo, cumprindo o que pediam os quesitos.

Realizava carnaval para o corpo de avaliadores e não para o público, razão maior da suprema arte do espetáculo. Era espécie de treinador de futebol visto como grande estrategista do esporte bretão que busca apenas o resultado. No futebol de hoje o clube de ponta no planeta é o Barcelona em face de sua progressiva posse de bola que chega atingir mais de 70%%. Da referida posse duas situações vertem: A um: Enquanto a conservam o adversário não tem como fazer golo. A dois: Se o escore
estiver zero x zero, quem tem chance de concretizar gol é quem detêm a Leonor, como diria o narrador Waldir Assumpção em declaração amorosa a senhorita bola.

Se o placar lhe for favorável, com mais razão eis que o adversário não terá como desfazer escore. Traduzindo: “Ta lá o
corpo estendido no chão” como diria o também criativo narrador Januário. Logo, passamos a autópsia. No carnaval há quesito oculto, imaterial que se chama disciplina, palavra que desdobrada alcança interpretação do Dez Pleno, que, aliás, todos devem buscar nesta curta passagem na vida terrena, eis que tem por escopo o planejamento que a citada Rosa Magalhães realiza com maestria, mas lhe falta à alegria que vem do povo, empatia.

Por aqui os saudosos carnavalescos Ariovaldo Paz, por vários anos na Sociedade Bambas da Orgia e Roberto Correa Barros (Betinho) nos Imperadores do Samba, fizeram o mesmo que Rosa Magalhães, porém passavam alegria ao povo que os reconhecia em talento colocando-os na galeria de ídolos imortais do samba. Embora no futebol à posse de bola não seja garantia de vitória, no carnaval quem responde aos quesitos com precisão cirúrgica se torna campeão.

O máximo que pode acontecer é alguma outra entidade lhe igualar conduzindo ao empate em todos os quesitos, situação presente em várias oportunidades, no carnaval do RJ, SP e Porto Alegre quando teremos então duas vencedoras.

Mas o povo tem que ser o alvo principal em ambas. Vox populi, Vox Dei (a voz do povo é voz de Deus).

Comentários (1)

  • Pedro Rosa diz: 25 de janeiro de 2012

    Caro Cortes, fico grato por compartilhar suas reflexões conosco

    Embora suspeito para falar (até na qualidade de fã de Rosa), em concomitância com seu texto é preciso acrescentar duas considerações, no que se refere à empolgação do público nos desfiles da Rosa. Rosa Magalhães fez um caminho inverso do que, por exemplo, João Trinta. Ela, por sua vez, fez do erudito um ato popular – quantas imagens de “Catarina de Médicis na Corte dos Tupinambôs e Tabajares” vimos passar num lampejo requintado de ligação entre o renascimento francês e os cocares dos nativos brasileiros num misto de brasilidade e requinte europeu; bem como em “Sou da lira, não posso negar”, como todo o requinte do universo da clásse média carioca e as ambientações devidas, como casas de instrumento de música; como as diversas civilizações que eram trazidas para a Sapucaí nos diversos estilos artísticos e períodos. Rosa sempre transportou-nos para uma outra realidade, uma outra época, tendo no intelecto e nas mãos o talento para conceber uma plástica acadêmica e segura, graças aos estudos de indumentária e estética.

    Rosa é uma carnavalesca considerada completa (na concepção plástica e narrativa de um enredo, na busca incessate por novidades; até as vezes se valendo de resgates históricos, muitas vezes desconhecidos, vide a figura do jegue em expedições promovidas por D. Pedro, como no desfile de 1994, na Imperatriz).

    Como disse, Rosa segue o caminho inverso do João – que transformou o popular em erudito. Rosa, já tranforma o erudito em popular. E nessa função, tambem de mediadora cultural, nos dá a possibilidade de conhecer civilizações e iconografias que muitas pessoas jamais teriam a possbilidade de conhecer como: obras barrocas, renascentistas, “salões” de versalhes; outras citações sofisticadas e arrojadas de artistas, muitas vezes passando desapercebidas ao olhar menos apurado, como exemplos de Miró, Adriana Varejão, Picasso, Boch, Gaudí entre tantos outros, como estudos investigativos já comprovaram.

    Penso que é uma contribuição enorme para as artes plásticas brasileiras o talento de Rosa Magalhães. Incompreendida por não fazer malabares, coisas “surreais”, mágicas, e demais “coisas fáceis de assimilação”. Rosa Magalhães sempre pretendeu levar conhecimento ao público, até na qualidade de professora aposentada da Escola Nacional de Belas Artes (UFRJ).Uma dádiva!

    Dirão que carnaval é coisa popular. Nem por isso terá que ser apelativo demais, ou vulgarmente plástico numa didática-narrativa quase que infantil.

    A contribuição de Rosa Magalhães é enorme, entidade intelectual hours concours no carnaval do Rio de Janeiro. Muitos se dizem seus seguidores/discípulos/inspirados (Alex de Souza, Cid Carvalho, Fabio Ricardo, Alexandre Louzada, entre outros), mas poucos conseguem com tamanha cautela, com tamanho apuro gráfico, seja nas rebuscadas alegorias, seja no requinte irrepreensível da fantasias, fazer um desfile com tamanha classe, elegância e dignidade.

    Rosa Magalhães não é só uma carnavalesca. Ela é uma história nas artes plásticas desse país!

    Abraço fraterno ,

    Pedro Rosa – Caxias do Sul

Envie seu Comentário