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Eu não perco esse desfile por nada

06 de agosto de 2013 2

Por Alvaro Machado

Quando pensamos em Carnaval feito com cuidado e trabalho sério, pensamos nos primeiros passos que conduzirão o próximo desfile. Assim, é indiscutível que, desconsiderando a reorganização dos elencos que farão parte do trabalho a ser executado, a escolha do carnavalesco, do intérprete, da comissão de carnaval, destaques, etc., o tema enredo é o primeiro ponto a nos indicar a chance de uma Escola de Samba apresentar um desfile capaz de marcar sua passagem no próximo carnaval.

Pois estamos no período de definição dos sambas- enredo, sinal que o primeiro passo já foi dado, selecionando entre inúmeras possibilidades a história que servirá de pano de fundo para a elaboração das fantasias, das alegorias, enfim, pontapé inicial para o espetáculo a ser pensado. E por falar em pontapé, nada melhor que lembrar o enredo da Imperatriz em homenagem a Zico numa suposta fábula de capa e espada onde o grande herói comanda sua legião de seguidores até a vitória. Julgo uma boa ideia para um tema difícil.

Falar a vida de um jogador de futebol acaba parecendo uma história tirada de livros infantis e nos leva a apostar que teremos um desfile cheio de surpresas, embora alicerçado em um tema chato. E como futebol pede vitória, esse desejo também estará presente no enredo da Tijuca em homenagem a Ayrton Senna. Se não é tirado de histórias infantis, o tema da Tijuca, que parece vir alicerçado por um belo samba, irá retratar o campeão das pistas e da velocidade em um desfile onde o foco estará na sensação de vitória, aliás, tema mais do que presente em um carnaval competitivo. E nunca é demais lembrar que a Tijuca tem Paulo Barros, e isso faz diferença.

E o que pensar da vida de Boni na Beija-Flor? Será esse um personagem apreciado e identificado pelo público? Ou teremos contada a história da televisão brasileira na realidade? Há quem possa supor, inclusive, que com um nome tão global, dificilmente a Beija-Flor perca esse carnaval. Não digo que não tenha esse temor também. E o que falar da cidade de Maricá, enredo da Grande Rio e que deverá ser composto do já manjado esquema de apresentação dos enredos patrocinados por municípios?

Em uma linha diferente, o Salgueiro levará à passarela um grito de preservação do planeta. Leitura nova para um tema já batido? Talvez, ou apenas um tema batido com a tecnologia atual, tão presente nos desfiles de Renato Lage? A mistura entre preservação, mitologia grega e mitologia africana pode dar bons frutos, não sei se bons resultados. E o tema também batido da Portela em homenagem à história do rio e sobretudo da escravidão vivida na cidade. Tema já desfilado tantas vezes por essa mesma avenida?

E os festejos brasileiros propostos por Rosa Magalhães para a Mangueira. Novamente um Dejá Vu? Terá o São João os mesmos ares da roça de Vila Isabel no ano passado? Por falar em Vila Isabel parece que a história se repete. Os Biomas brasileiros serão cenário para revermos temas da preservação ambiental e do folclore local, ao melhor estilo de Aquarela Brasileira. E temos o Batuk da Império da Tijuca que certamente trará todos elementos afro tão presentes em inúmeros carnavais, devendo repetir a força do desfile afro que a conduziu ao título da série A em 2013.

E a São Clemente falará das favelas cariocas, UPP’s, retomada da vida, cultura das comunidades, ao melhor estilo “Esquenta” da fantástica Regina Casé. Apostaria alto nesse enredo, se o carnavalesco ainda fosse o mesmo dos últimos dois anos. Com o novo grupo, ainda teremos que esperar para ver o resultado. E não posso negar que surge um certo receio quanto ao resultado que veremos. E tem a Mocidade com seu Pernambucópolis, uma homenagem ao melhor estilo de Pamplona para homenagear pernambuco. Ideia intrigante essa. Talvez possamos ver o melhor desfile da Mocidade dos últimos tempos, porém, prejudicado pelo péssimo horário do desfile, já que abre a segunda noite.

E não posso deixar de expressar minha alegria de ver a Ilha vestida novamente de Ilha. Para mim, o enredo é a cara da simpática escola da Ilha do Governador. Falar de brincadeira, da leveza da alegria infantil, dos jogos de infância,.de bonecos, cores, fantasias. É a Ilha em seus melhores momentos. Resta esperar para ver que resultado o carnavalesco dará para sua ideia.

E para finalizar, não posso deixar de expressar minha preocupação quanto ao que está sendo produzido em termos de enredo pelo carnaval. Se a escola de samba é a entidade máxima da cultura popular, a seleção de um enredo, deve ter a força dessa criação, o impacto da novidade, a fisionomia de sua gente e a determinação de fazer do desfile, um momento de imersão profunda no tema selecionado. Para isso é preciso um tema criativo, que suscite olhares curiosos, com propostas novas. Basta de releituras, de mudar títulos para falar da mesma coisa, de homenagens fracas à localidades, sem transformar história em fantasia.

Basta de vermos repetir alegorias e fantasias com a mesma concepção de tantos anos. Para mim, um bom carnaval começa com um bom enredo, ou melhor, com um excelente enredo, capaz de me fazer indagar por qual viés o carnavalesco vai expressar sua arte, por quais caminhos irei entender a história contada e cantada por sua escola. Um bom enredo nos questiona, nos inspira e nos leva a dizer: “Eu não perco esse desfile por nada”. E ainda não sei qual dos enredos me provoca isso. Preocupante.

Análise de Enredos - Estação Primeira de Mangueira

07 de fevereiro de 2013 0

Na última análise, Alvaro Machado comenta o enredo da Mangueira.

“Falar da Mangueira tem sempre um sentimento maior, pois é falar de uma das páginas mais marcantes do carnaval brasileiro. E é essa Mangueira que irá trazer para a Sapucaí mais um patrocínio de uma cidade brasileira. Dessa vez, será Cuiabá a homenageada. E como promete o enredo, serão seus mestres maiores como Jamelão, Cartola, Dona Zica e tantos outros nomes, os responsáveis em conduzir a história que parte de Mangueira em direção ao paraíso verde do centro do Brasil. Certamente, poderá ser um primeiro momento marcante no desfile.

E a verde e rosa irá trazer no trem da história cuiabana, seus primeiros passos como cidade, sua fundação, os índios, negros e brancos que ali se encontraram, suas lendas e mitos como o minhocão e o boitatá, o artesanato, a culinária, as festas populares.

A biodiversidade do local será certamente um capítulo à parte do desfile e poderá representar um segundo ponto positivo. Pela avenida passarão araras, tuiuiús, tamanduás, jacarés, onças e toda exuberância do Pantanal. E, no final, certamente o desfile irá conduzir ao pensamento da Cuiabá do futuro, moderna, etc. etc., finalizando com a Cuiabá, sede da Copa do Mundo. Normal tal sequência em homenagens a localidades, porém, o Pantanal sempre rende grandes possibilidades visuais, tanto em alegorias quanto em fantasias. Basta que a escolha pelo tom que deve ser dado ao desfile seja correta. Nem exagerado, nem pouco criativo. E talvez nessa escolha resida a dificuldade da Mangueira


O enredo, se não chega a apresentar nada de novo, pode produzir um bom desfile, pela potencialidade da natureza e da história social do Pantanal. Porém, pelos problemas anunciados no pré-carnaval, pelas dificuldades no barracão, pelo samba que não chegou a criar grandes expectativas e pelas fantasias que não demonstram muita criatividade e inovação, parece que a Mangueira precisará buscar a superação na força de seu canto e de seu chão, um ponto sempre positivo da Escola..

A polêmica paradona da bateria em 2012, talvez apenas tenha representado o início das possíveis surpresas na avenida. E o que poderá vir esse ano? Só vendo na hora, afinal Mangueira sempre é Mangueira.”

Análise de Enredos - Portela

05 de fevereiro de 2013 1

Alvaro Machado comenta o enredo da Portela, útlima escola a desfilar no domingo de Carnaval.

“Falar de sua história, de seu povo, de sua aldeia é sempre uma bela possibilidade de desfilar. Quando essa ideia nasce de uma Escola como a Portela, rica de tradição, de títulos e de estrelas, torna-se impossível não pensar em um desfile rico de emoção, sobretudo quando a linha narrativa de sua trajetória é narrada por Paulinho da Viola. Pois é essa a opção da azul e branco de Madureira. Cantar seu povo, sua história, seu lugar, seus heróis.

Embalada, mais uma vez, por um dos melhores sambas do carnaval, a Portela narrará os recantos de Madureira, o trem carregado de samba, o passado dos tropeiros, escravos, mercadores, engenhos e fé. E da ideia da roça, repleta de simbolismo religioso e de seu povo que se mistura em seus caminhos, que nasce a Portela. Repleta de sambistas, de mulatas, da estrela de Zaquia Jorge brilhando no tablado, do mercadão de Madureira, da irmã que nasce na Serrinha carregando uma coroa imperial. Isso tudo é Madureira, a capital do samba, do som dos bailes de charme, da onda black, das feijoadas e mocotós, das rodas de candomblé, do tambor dos poetas, do cavaco dos sambistas.

O enredo é rico, carregado de simbolismo e emoção. Porém, algo maior nesse momento causa o temor na Majestade do Samba. O atraso do barracão, os desmandos presidenciais, as diferenças entre facções, o desânimo de uma escola que há anos não é campeã. Talvez, nem mesmo o Olimpo do Samba, carregado de portelenses, será capaz de possibilitar ao seu povo mais uma estrela em seu pavilhão. Superadas frustrações antigas, em 2012 a Portela conseguiu se reorganizar, voltando ao desfile das campeãs depois de alguns anos fora. Porém, pelo samba, pelo enredo, por sua história emocionante, pela expectativa que criou, 2013 seria o ano da afirmação.

Infelizmente, pelo andar do trem portelense, não será essa a realidade. Há um temor pela qualidade do desfile, pelo visual da escola. O samba, a tradição, a leveza do enredo, a presença dos sambistas soberanos, não serão suficientes para assegurar o lugar esperado pelos portelenses em um carnaval tão disputado e tão exigente. Como portelense declarado, não posso deixar de sentir um certo temor pelo desfile. Espero, que a força que vem de Madureira, mostre que lá é realmente mais do que um lugar, deixando vivo o sonho de toda imensa torcida portelense.

Por enquanto, só podemos dizer que a expectativa não é das melhores, embora tenho a certeza que teremos um desfile carregado de emoção. Emoção pelos 90 anos da escola, pela presença simbólica de Paulinho, pelo belo samba que quase nos faz pensar em um samba de roda e, sobretudo por ser Portela.

Que a chegada de Madureira realmente levante poeira e, se necessário sirva como renovação para uma das mais tradicionais escolas do Rio de Janeiro.”

Análise de Enredos - União da Ilha do Governador

03 de fevereiro de 2013 0

O Poeta e a Ilha juntos para o Carnaval 2013. Confira o que pensa Alvaro Machado sobre o enredo:

“A homenagem a nomes da música brasileira já gerou grandes desfiles e alguns campeonatos. E é nessa possibilidade que a União da Ilha aproveita o centenário de Vinícius de Moraes para buscar seu lugar entre as primeiras colocadas.

O que me desagrada no formato do enredo é a opção da escola em apresentar o homenageado em formato de entrevista, feita com o poeta que é seu tema, e que em alguns momentos soa mais como uma transmissão espírita do que como um fio capaz de ilustrar a rica vida do “Poetinha”. Não sei até que ponto a escolha do formato foi acertada, uma vez que parece ter resultado em um enredo que fica devendo ao talento do homenageado.

Desfilar a vida de um personagem tão significativo de nosso país merece um cuidado todo especial, que seria capaz de criar uma expectativa levando ao reconhecimento do enredo como uma grande possibilidade de um carnaval rico, variado e emocionante. Pelo que vi, pelo que li, pelo samba fraco que ouvi, pelas alegorias e fantasias já apresentadas, essa impressão se perdeu.


Não posso dizer que não seja um belo enredo, afinal Vinicius tem uma história rica e apaixonante. E no desenvolvimento da história passarão canções, frases, poemas, relacionamentos da vida do branco mais negro do Brasil. E tem muito que ser mostrado, a infância, os primeiros poemas, o Orfeu da Conceição, as músicas com Tom Jobim, a paixão pelo cinema, a vida diplomática, a Bossa Nova, seus parceiros musicais, os sucessos de Elisete e Elis, sua ligação com Menininha do Gantois e com o Candomblé, as canções para crianças, enfim, uma vida repleta de arte a ser mostrada na avenida. E esse é o problema do enredo. Como transformar essa arte da palavra e da canção em carnaval.

Alguns aspectos podem dar bons resultados, porém o grande momento será certamente o palco por onde deverão desfilar grandes nomes que estiveram ao lado de Vinícius. Pelas fantasias apresentadas, o desfile não deve primar pelo inovador, pela criação livre. Ao contrário, indica um desfile tradicional, sem criatividade nem poesia.

E talvez seja esse o risco da Ilha que anuncia estar sem dinheiro, mas com garra. Infelizmente, garra não vence carnaval. Resta esperar para vermos a simpática escola da Ilha do Governador honrar sua homenagem a um dos maiores nomes da vida brasileira, trazendo um pouco da emoção desse personagem tão marcante.

Espero, sobretudo, um casamento entre a “carioquice” e a “baianidade” de Vinicius ilustrando um enredo que poderia ser o melhor do ano, caso tivesse sido melhor desenvolvido, primando sobretudo pela emoção do poeta que nos enche de saudades.

E por falar em saudade, resta agora a pergunta. Onde anda você Ilha? Onde anda sua alegria e seu jeito leve de desfilar? Queremos e precisamos reencontrar aquela Ilha de anos anteriores que enchia de cor e alegria a Sapucaí.”

Análise de Enredos - Acadêmicos do Grande Rio

01 de fevereiro de 2013 0

Alvaro Machado expõe seu ponto de vista sobre um dos enredos mais discutidos do ano. Confira:

“A escola de Duque de Caxias escolheu para seu enredo a discussão, já um tanto superada, da retenção dos royalties do petróleo para o Estado do Rio de Janeiro. Não sei se gosto menos do enredo da Grande Rio ou da discussão sobre a repartição justa dos bens naturais que o Brasil possui. Portanto, não posso não começar essa análise sem perguntar a quem interessa tal discussão. Mais do que isso, perguntar até que ponto, no momento atual do carnaval, cabe um enredo com conotação tão exclusivista e política.

Pois vejamos o que a escola nos propõe. O enredo começa dizendo que a Grande Rio ama o Rio. E o que isso quer dizer? As outras escolas não amam? O povo brasileiro não ama o Rio? O mundo não ama o Rio? E mais que isso. O carnaval carioca é do Rio? Ou é do Brasil? Não está aqui a fonte de inspiração suprema dos desfiles de escolas de samba? Não é para a Sapucaí que os olhos do mundo se voltam no período de carnaval?

Então, qual razão de transformar um desfile em um ato de protesto contra o entendimento de que as riquezas do Brasil pertencem ao Brasil e a seu povo. É um direito do povo carioca exigir tal realidade, mas seria um direito transformar o desfile em um ato de protesto por algo tão polêmico e contestatório?

Claro que tudo terá início na extração do petróleo, nas plataformas marítimas, nas refinarias. Logo a seguir, há, no meu entender um grande erro. O petróleo é considerado pela escola como o sangue que alimenta o mundo, como se fosse um ser vivo que não pode prescindir de tal alimento. Em tempos de novas alternativas energéticas, me parece ao menos, fora de proporção tal afirmação.

Há, ainda, uma pincelada na questão ambiental, mas de forma incorreta, apresentando a falta dos royalties como a responsável por um desastre ecológico. Enfim, o enredo me parece equivocado, fora de propósito e mal pensado.

Amar o Rio, valorizar suas histórias, suas ruas, suas belezas e riquezas é perfeitamente elogiável. Mas transformar o desfile da escola em algo tão fechado como a proposta aqui apresentada, me parece um erro. Talvez, aos olhos dos jurados cariocas, esse sentimento tenha um eco maior do que nos chega aqui e em outras partes do Brasil, o mesmo Brasil onde o Rio brilha.

Porém, o que me parece mais preocupante na escolha da temática é a transformação do manifesto de apoio ao Rio em um desfilar de policiais que garantirão segurança, de imóveis populares gerados pelos dividendos arrecadados, nos anjos da saúde que são pagos pelo petróleo, no esporte e no lazer que a cidade pode oferecer. Ou seja. Se não há petróleo na cidade, ela acaba em caos. Será?

E nesse mar de ouro negro e protestos, a Grande Rio apresenta fantasias que trarão para a avenida trabalhadores do petróleo, policiais, enfermeiros, professores, artistas e tantas outras ocupações como a dizer que apenas com o petróleo é possível esse desenvolvimento no estado. O certo é que tudo será grandioso, como sempre são os desfiles da Grande Rio.Imensas alegorias, fantasias bem elaboradas, movimentos, luzes, enfim um show de tecnologia.

Com toda energia que a escola pode trazer, o desenvolvimento do enredo me parece o grande perigo. Acredito que a Grande Rio, que há anos busca seu título, deveria ir à luta por uma causa mais adequada e mais agradável aos olhos do Brasil e do mundo. O petróleo pode virar samba. A exclusão da brasilidade não. Somos todos brasileiros e vamos à luta, com certeza.”

Análise de Enredo - Mocidade Independente de Padre Miguel

30 de janeiro de 2013 1

O rockeiro enredo da Mocidade é analisado por Alvaro Machado:

“Juntar samba e rock pode dar certo? Por que não? E nem falo do samba-rock que toma conta da Rua João Alfredo em Porto Alegre. Falo da homenagem que a Mocidade fará ao Rock In Rio, propondo uma homenagem do samba aos ritmos que cruzaram e cruzam pelos palcos do festival e, claro, em especial ao Rock.
E pela primeira vez podemos dizer que um enredo dará rock. Essa é a impressão inicial. Uma ideia nova, capaz de brindar a Mocidade com todo arrojo e colorido que levou a Escola de Padre Miguel a conquistar títulos e torcedores tempos atrás.

A ideia será mostrar a união entre os ritmos, os sons, as tribos, os grupos que fizeram tudo se transformar em uma só voz, como se o mundo fosse um, diferentes, juntos, iguais. Proposta ousada e que cria múltiplas possibilidades de ação.

No comando dessa parafernália rockeiro-sambista, Alexandre Louzada, que já apresentou belos trabalhos na avenida, na Portela, Vila Isabel e Beija-Flor, embora não me pareça ter deixado uma marca própria de seu trabalho. E dessa união de ritmos surgirão muitas cores, muito material alternativo, muita mistura do clássico com o inovador, afinal, nada mais representa a liberdade do que o rock.


Essa talvez seja a grande sacada do enredo da Mocidade. Mostrar como um festival nascido em um tempo ainda sombrio, recém-saído da ditadura, pode representar um marco na história musical do Brasil e de outros lugares do mundo, já que teve suas edições portuguesa e espanhola.
Porém, ao ler a sinopse, visualizar as fantasias e ouvir o samba, uma dúvida fica no ar. Minha impressão é que faltou enredo à Mocidade, levando o samba muito mais para a exaltação da estrela de Padre Miguel, as fantasias muito mais para um desfilar de rockeiros, metaleiros, jazzeiros, reggueiros, swingueiros, timbaleiros e um enredo que se perde na definição do momento marcante que o festival perpetuou. A historia acaba se perdendo na mostra de ritmos e na exaltação da escola, deixando esquecida a grande sacada que o enredo poderia trazer. A ideia da liberdade, da construção de um mundo novo e unido pela música.

Mas uma coisa é certa. A Mocidade virá novamente vestida de Mocidade, com fantasias coloridas, criativas, diferenciadas, como em outros tempos da Mocidade. Com um samba apenas mediano, a escola deverá apresentar um momento de alegria e cor na avenida. Como se a vida começasse agora. E sem dúvidas, a Mocidade necessita um novo começo. Torço para que seja esse ano, embora, como já disse, tenho dúvidas quanto ao desenvolvimento do enredo.

Pois veremos como o samba e o rock unidos podem fazer carnaval. Fica no ar a dúvida do resultado final que poderá ser um novo marco no caminho da Mocidade, mas poderá se perder num enredo que se tornará repetitivo e cansativo pela ideia de apresentar as tribos musicais na avenida, sem tratar a fundo a ideia central do Rock in Rio.

Que a estrela de Padre Miguel possa nos levar a cantar com os diversos sons que pisaram nos palcos do festival mundo afora. Sobretudo, que possa transformar seu desfile em um momento de exaltação à liberdade, ao moderno, ao inovador, ao respeito pelas diferenças. Esse é, sem dúvida, o sentimento que espero encontrar no passar das multicoloridas fantasias da Mocidade. Eu vou. E a Mocidade vem também.”

Análise de Enredos - Beija-Flor de Nilópolis

25 de janeiro de 2013 5

Tentando recuperar o título, a grande campeã deste século terá como enredo em 2013 o cavalo. Alvaro Machado analisa. Confira:

“Falar de cavalos, para uma escola como a Beija-Flor, tem que ser interpretado de forma diferenciada, pois falamos da Escola que sabe como nenhuma outra ganhar carnaval com temas chatos e aparentemente enfadonhos. E essa é a primeira impressão que o enredo passa, mesmo para nós gaúchos, centauros do pampa, conhecedores da estreita relação que o homem pode estabelecer com o cavalo.

Porém, não é fácil dizer que a Beija-Flor escolheu um bom enredo para o carnaval 2013. O patrocínio para homenagear o cavalo Mangalarga, deverá partir do histórico da relação humana com esse amigo fiel, desde a fixação dos primeiros grupos humanos na terra, passando por sua utilidade como meio de transporte e como parceiro de batalhas.


E a proposta dessa homenagem não poderia ser mais tradicional, criando em um primeiro momento, a oportunidade de trazer personagens históricos para o desfile, afinal, quem não montou em um cavalo desde Alexandre, o Grande à Dom Pedro, dos cavaleiros do Rei Arthur à Caxias. E chegará, após, o Cavalo de Tróia, o misticismo e o sagrado de sua imagem, Pégasus, unicórnios, a exaltação à sua força, sua fidelidade, seu porte real.

E, claro, sua chegada ao novo mundo. Os cruzamentos genéticos que originaram o Mangalarga, os caminhos reais que percorreu carregando as riquezas do interior do Brasil, trazendo com ele as Minas Gerais do ouro, dos diamantes, de Xica da Silva. E tudo embalado por um samba que, como nos últimos anos, parece sempre o mesmo, porém, com um resultado sempre positivo na avenida.

E virão os personagens ligados ao cavalo, às exposições, aos rodeios, enfim, teremos uma verdadeira cavalgada atravessando a avenida. Já vi isso, quando a Vai-Vai apresentou o mesmo tema no carnaval de São Paulo em 2003, com a mesma percepção de enredo que hoje é apresentado pela Beija-Flor. Vi e não me agradou, pois achei cansativo, repetindo frequentemente a imagem do cavalo nos carros, nas fantasias, nos detalhes.


Não sei o que exatamente acontecerá agora. A Beija-Flor costuma dar rodeios imensos para trazer o seu estilo de desfile, independente do enredo. Cria imagens assombrosas, carros pesados e sombrios, alas coreografadas representando imagens fortes, teatrais. Espero, sinceramente, que o tom do desfile da grande campeã de Nilópolis esteja mudado, com uma nova proposta de carnaval pois me parece que esse modelo já cansou. Só não encontro no enredo do cavalo o caminho para tal mudança.

Que essa cavalgada nos conduza a um bom espetáculo e que a Beija-Flor possa nos brindar com algo que vá além do previsível, talvez mais para um cavalo selvagem do que para um pônei adestrado.”

Análise de Enredos - Imperatriz Leopoldinense

22 de janeiro de 2013 4

Chegando a metade das análises dos enredos do Grupo Especial do RJ, Alvaro Machado analisa o enredo da Imperatriz Leopoldinense sobre o Pará. Confira:

“A Imperatriz resolveu nos brindar com mais uma homenagem à localidades. Como toda formatação dessa ideia, a homenagem ao estado do Pará soa, mais uma vez, como algo óbvio e já imaginado por aqueles que irão acompanhar o desfile da verde e branco de Ramos.

Pois vejamos o que poderemos acompanhar na passagem da escola. A entrada trará a força da natureza do Pará, sua fauna rica, fruto da existência das matas amazônicas, de seus rios abundantes, do clima equatoriano. Lá estará, certamente, o guará, a onça pintada, o boto e assim por diante. Mas claro, logo após virão os índios, muitos índios, muitas tribos, variadas tribos.

O que há de positivo nisso? A presença de um Brasil natural, colorido pelas tribos paraenses e pelas plumagens das aves. Porém, óbvio e já visto algumas dezenas de vezes pelos carnavais realizados no Rio e em outros lugares. Mas é Pará e tem que ter animais, índios e frutos, com certeza. E virá o açaí, o cupuaçu, o bacuri.


E vem a colonização, a exploração do ouro, da madeira, da borracha. A transformação das riquezas naturais em joias e obras artesanais, a cerâmica Marajoara, com seus vasos coloridos enchendo a avenida. Problema? Não, mas nenhuma novidade nisso também. E chegará o Ver-O-Peso, o belo mercado de Belém com toda sua riqueza cultural, o porto de Belém que nos lembra que um porto pode ser transformado e virar um imenso atrativo turístico.

Não faltará o tucupi, as ervas milagrosas, o tacacá. E lá virão as festas populares, o carimbó, o boi, a ciranda. Não esquecendo o Teatro da Paz, os azulejos, os portões franceses e as mangueiras que cobrem as ruas de Belém. É o Pará e tudo isso é inevitável.

E claro, não pode faltar o Círio de Nazaré, já tornado tema algumas vezes e que novamente nos brindará com a santa em sua berlinda, com os romeiros, com a corda abençoada. São as cores, sabores e tradições do Pará na avenida. Certamente um desfile colorido, provavelmente bem realizado pela Imperatriz que costuma ter capricho em suas fantasias e carros. Além disso, embalada por um belo samba, perfeitamente construído para contar a história do Pará. Esse é, certamente, o ponto positivo.


Porém, minha dúvida fica quanto à utilidade do enredo para um carnaval tão competitivo, sedento de novidades e de inovação. A impressão que tenho do enredo da Imperatriz é que será apenas uma releitura do que já vimos passar diante de nossos olhos em outros carnavais que também homenagearam o Pará ou suas crenças. E essa é a crítica que faço a esse tipo de enredo, que não busca o diferente, como o que fez, por exemplo, a Tijuca com a Alemanha.

Homenagear cidades, estados, países, exige uma dose extra de criatividade e de ousadia, que vai além da leitura histórica dos fatos e das tradições. Resta esperar que as belas fantasias da Imperatriz, o capricho nos carros e seu povo cantando o enredo de forma solta, como o Pará exige, resultem em um belo espetáculo capaz de transformar o óbvio em algo atrativo.

Que a Virgem de Nazaré, mais uma vez, olhe pelos paraenses e pela Imperatriz e nos brinde com um espetáculo colorido, alegre, vivo e cheio de energia.”

Análise de Enredos: Inocentes de Belford Roxo

09 de janeiro de 2013 3

O comentarista Alvaro Machado comenta hoje o enredo da estreante no Grupo Especial, Inocentes de Belford Roxo.

“A Escola que abre o desfile de domingo, campeã do Acesso em 2012 não poderia ter feito uma escolha mais complicada para tentar sua permanência no Grupo Especial. Falar da história da Coréia do Sul e de seus 50 anos de imigração no Brasil pode, facilmente, ser decisivo para seu retorno ao grupo anterior, que aliás, ganhou com justiça pelo belo desfile apresentado em 2012.

Porém, agora é Grupo Especial e iniciar sua apresentação com um enredo homenageando um país tão distante de nossa realidade, tão diferente de nossa cultura e mais conhecido pelos conflitos com o vizinho do norte que por suas histórias, parece ser um risco grande.


Aliás, enredos orientais são difíceis de serem representados, embora possam produzir uma boa plástica em carros e fantasias: pois a Inocentes promete uma chegada com a cara da Coréia do Sul, com suas cabanas, seus tambores, seus inúmeros deuses, sua história primitiva, afinal trata-se de uma das mais antigas civilizações do mundo, o domínio pelos mongóis, a força das dinastias coreanas e seus palácios.

Nada de diferente do que se poderia imaginar e sem o talento de um grande carnavalesco capaz de transformar esse óbvio em surpresa. Parte da obviedade e da fraqueza de história do enredo são as dificuldades da Inocentes. A água, utilizada como condutor da história não parece ter força suficiente para entrelaçar os momentos do enredo e nem capacidade de ser a razão para contar a história.

O enredo parece fragmentado, entre o antigo, a religião, o progresso, as imigrações, indo e vindo, como a correnteza dos rios coreanos. Mas, fica a pergunta: como transformar isto em um enredo atrativo e surpreendente? Me parece difícil.

Pois para ficar no óbvio, certamente um navio cruzará a Sapucai, trazendo os imigrantes coreanos que chegarão ao Brasil, cultivando suas tradições, plantando, trabalhando a terra, mesclando-se com o povo brasileiro, blá, blá, blá. Novidade? Nenhuma. O que poderia salvar o enredo, e que não me parece presente na ideia do carnavalesco, seria a visão tecnológica que temos da Coréia do Sul, baseada em algo sagrado para os coreanos, a dualidade, o novo e o antigo, o Yang e o Ying, o fogo e a água, conduzindo a um desfile repleto de modernidade, de avanços tecnológicos, de inovações na educação e nas construções.

Porém, as dificuldades de arrecadação de recursos, o rompimento com os coreanos do Brasil pela negação de apoio financeiro e a falta de experiência da Escola no Grupo Especial, parecem ser dificuldades que anunciam, como os tambores coreanos, um mau presságio. As águas do Rio Han não parecem ter força suficiente para manter a Inocentes entre as grandes do carnaval carioca.”

Análise de Enredos: Unidos da Tijuca

05 de janeiro de 2013 3

O comentarista da Gaúcha, Alvaro Machado, começa hoje a analisar o que as escolas cariocas irão trazer para a avenida em 2013. Alvaro, com longa trajetória no carnaval, é autor de enredos inesquecíveis como “Diet Figueira”, “Festa de Batuque ” e “Tangos e Tragédias”. Em sua primeira coluna analisa o enredo da campeã de 2012, Unidos da Tijuca. Confira:

“A campeã de 2012 escolheu um tema que, no mínimo, podemos dizer ser polêmico e difícil de imaginar um grande carnaval. Na verdade, a homenagem a cidades, estados e países parece sempre uma troca entre escola e patrocinador, com poucas possibilidades de transformação em um grande desfile. Como sempre, esse tipo de enredo conduz aos princípios da criação do local, suas origens, lendas, tradições, grandes feitos, contribuições sociais e culturais, heróis locais e marcas que ligam o nome do local ao imaginário coletivo.

Com a Alemanha, que celebra seu ano no Brasil em 2013, não será diferente. Na avenida estarão presentes suas origens, lendas, lembranças históricas, o chopp, a Oktoberfest, os grandes compositores e escritores como Beethoven, Goethe e Brecht. Grandes inventores como Gutenberg e sua contribuição à escrita e à engenharia. Até ai, nada de novo. Porém, a Unidos da Tijuca tem Paulo Barros e, isso sim, faz a diferença.

De sua imaginação irá surgir uma tempestade de raios abrindo o desfile com a chegada triunfal do Deus Thor. É uma possibilidade e tanto para todo talento de Paulo Barros vir à tona. Os deuses nórdicos, Odin, Loki e Sif, as Valkírias e todo panteão viking irá desfilar conduzindo a mitologia encantada que fez surgir nas mentes do mundo inteiro figuras mágicas de gigantes e anões, de dragões e sereias, de duendes e elfos. Esse me parece ser o ponto alto do desfile e o mais apropriado para a criatividade própria do carnavalesco.

Porém, depois vem a literatura, a música, a dança, a arte e a história da Alemanha. E é o momento de transformar o óbvio do desfile em pura ousadia, ou correr o risco de deixar o enredo levar o desfile para o cansaço característico desse tipo de proposta. Como esperado, o desfile deve terminar com a relação Brasil-Alemanha, tão conhecida de nós gaúchos. Os imigrantes, seus frutos, seu trabalho em solo brasileiro, as festas, as celebrações, etc, etc, etc.

Tudo isso, embalado pela garra de uma escola que já acostumou a ser campeã, que desfila solta e perfeitamente integrada ao que é proposto pelo carnavalesco e que irá cantar um samba que, no meu entender, é mais uma vez um samba com a cara da Tijuca, com um refrão forte e contagiante, mas que não está entre os melhores do ano. Porém, dessa história mágica da Alemanha, sua página mais sombria parece que ficará de lado, nada de anormal depois do controverso carro do Holocausto que seria levado à avenida pelo mesmo Paulo Barros. Resta saber se seu talento extraordinário será capaz de produzir uma ideia capaz de transformar um enredo normal em um desfile campeão.

Espero que sim, pois a Tijuca tem tido um importante papel no carnaval carioca. Mas, gostaria de deixar como sinal de atenção, um olhar mais crítico às alegorias construídas pela Escola, que, em alguns momentos deixam muito a desejar e parecem ser toleradas pelos jurados, empolgados pela proposta artística do desfile e não pela plasticidade que produzem.

Que Odin conduza o desfile da Tijuca e que tenhamos mais um show de carnaval proporcionado pela atual campeã.”