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Posts com a tag "Opinião"

Eu não perco esse desfile por nada

06 de agosto de 2013 2

Por Alvaro Machado

Quando pensamos em Carnaval feito com cuidado e trabalho sério, pensamos nos primeiros passos que conduzirão o próximo desfile. Assim, é indiscutível que, desconsiderando a reorganização dos elencos que farão parte do trabalho a ser executado, a escolha do carnavalesco, do intérprete, da comissão de carnaval, destaques, etc., o tema enredo é o primeiro ponto a nos indicar a chance de uma Escola de Samba apresentar um desfile capaz de marcar sua passagem no próximo carnaval.

Pois estamos no período de definição dos sambas- enredo, sinal que o primeiro passo já foi dado, selecionando entre inúmeras possibilidades a história que servirá de pano de fundo para a elaboração das fantasias, das alegorias, enfim, pontapé inicial para o espetáculo a ser pensado. E por falar em pontapé, nada melhor que lembrar o enredo da Imperatriz em homenagem a Zico numa suposta fábula de capa e espada onde o grande herói comanda sua legião de seguidores até a vitória. Julgo uma boa ideia para um tema difícil.

Falar a vida de um jogador de futebol acaba parecendo uma história tirada de livros infantis e nos leva a apostar que teremos um desfile cheio de surpresas, embora alicerçado em um tema chato. E como futebol pede vitória, esse desejo também estará presente no enredo da Tijuca em homenagem a Ayrton Senna. Se não é tirado de histórias infantis, o tema da Tijuca, que parece vir alicerçado por um belo samba, irá retratar o campeão das pistas e da velocidade em um desfile onde o foco estará na sensação de vitória, aliás, tema mais do que presente em um carnaval competitivo. E nunca é demais lembrar que a Tijuca tem Paulo Barros, e isso faz diferença.

E o que pensar da vida de Boni na Beija-Flor? Será esse um personagem apreciado e identificado pelo público? Ou teremos contada a história da televisão brasileira na realidade? Há quem possa supor, inclusive, que com um nome tão global, dificilmente a Beija-Flor perca esse carnaval. Não digo que não tenha esse temor também. E o que falar da cidade de Maricá, enredo da Grande Rio e que deverá ser composto do já manjado esquema de apresentação dos enredos patrocinados por municípios?

Em uma linha diferente, o Salgueiro levará à passarela um grito de preservação do planeta. Leitura nova para um tema já batido? Talvez, ou apenas um tema batido com a tecnologia atual, tão presente nos desfiles de Renato Lage? A mistura entre preservação, mitologia grega e mitologia africana pode dar bons frutos, não sei se bons resultados. E o tema também batido da Portela em homenagem à história do rio e sobretudo da escravidão vivida na cidade. Tema já desfilado tantas vezes por essa mesma avenida?

E os festejos brasileiros propostos por Rosa Magalhães para a Mangueira. Novamente um Dejá Vu? Terá o São João os mesmos ares da roça de Vila Isabel no ano passado? Por falar em Vila Isabel parece que a história se repete. Os Biomas brasileiros serão cenário para revermos temas da preservação ambiental e do folclore local, ao melhor estilo de Aquarela Brasileira. E temos o Batuk da Império da Tijuca que certamente trará todos elementos afro tão presentes em inúmeros carnavais, devendo repetir a força do desfile afro que a conduziu ao título da série A em 2013.

E a São Clemente falará das favelas cariocas, UPP’s, retomada da vida, cultura das comunidades, ao melhor estilo “Esquenta” da fantástica Regina Casé. Apostaria alto nesse enredo, se o carnavalesco ainda fosse o mesmo dos últimos dois anos. Com o novo grupo, ainda teremos que esperar para ver o resultado. E não posso negar que surge um certo receio quanto ao resultado que veremos. E tem a Mocidade com seu Pernambucópolis, uma homenagem ao melhor estilo de Pamplona para homenagear pernambuco. Ideia intrigante essa. Talvez possamos ver o melhor desfile da Mocidade dos últimos tempos, porém, prejudicado pelo péssimo horário do desfile, já que abre a segunda noite.

E não posso deixar de expressar minha alegria de ver a Ilha vestida novamente de Ilha. Para mim, o enredo é a cara da simpática escola da Ilha do Governador. Falar de brincadeira, da leveza da alegria infantil, dos jogos de infância,.de bonecos, cores, fantasias. É a Ilha em seus melhores momentos. Resta esperar para ver que resultado o carnavalesco dará para sua ideia.

E para finalizar, não posso deixar de expressar minha preocupação quanto ao que está sendo produzido em termos de enredo pelo carnaval. Se a escola de samba é a entidade máxima da cultura popular, a seleção de um enredo, deve ter a força dessa criação, o impacto da novidade, a fisionomia de sua gente e a determinação de fazer do desfile, um momento de imersão profunda no tema selecionado. Para isso é preciso um tema criativo, que suscite olhares curiosos, com propostas novas. Basta de releituras, de mudar títulos para falar da mesma coisa, de homenagens fracas à localidades, sem transformar história em fantasia.

Basta de vermos repetir alegorias e fantasias com a mesma concepção de tantos anos. Para mim, um bom carnaval começa com um bom enredo, ou melhor, com um excelente enredo, capaz de me fazer indagar por qual viés o carnavalesco vai expressar sua arte, por quais caminhos irei entender a história contada e cantada por sua escola. Um bom enredo nos questiona, nos inspira e nos leva a dizer: “Eu não perco esse desfile por nada”. E ainda não sei qual dos enredos me provoca isso. Preocupante.

A vitória bambista

16 de fevereiro de 2013 0

“Não é o grito da águia que leva a nação azul
e branca a segui-la é o seu vôo”.(anônimo)

Ao analisar preteritamente o enredo dos Bambas da Orgia, afirmei que poderia ser resumido no título:MAJESTOSA, ALTANEIRA, MINHA ÁGUIA MINHA PAIXÃO eis que partiam da afirmação, qualificaram a trajetória e alcançaram o objetivo pela emoção. Este último refere explicitamente o chão da escola que ignorou a chuva, pista escorregadia e fez carnaval como nos velhos tempos.

Lembro que ao final da análise escrevi: “O carnavalesco Guaracy Feijó e o pesquisador Sergio Peixoto, são experientes e sabem superar eventuais dificuldades não inventando e sim sendo simples, mas objetivos ao encontro do que pedem os quesitos. Em 1991 os Bambas apresentaram o enredo “Tributo a águia num cenário azul e branco” obtendo 3º lugar. Comparando os dois enredos concluo não se tratar de reedição.”. Aduzo ainda a equipe da Direção de carnaval e segura coordenação de Alas.

Ora, a Escola no desfile da sexta-feira cumpriu com o seu dever de dar o seu melhor e pontear a liderança do dia, jogando a responsabilidade aos avaliadores. Quem pensou o carnaval do Bambas o fez com inteligência. O presidente Cleomar ao dizer que o objetivo era voltar no sábado das campeãs, jamais descartou a busca do título, até porque nenhuma entidade imagina não vencer eis que protagonistas em competição.Foi o Ronaldinho bebendo água junto ao Rogério Ceni para em seguida sair desmarcado e dar passe para o gol.Afirmando depois que foi mero acaso.

Digo que desfilou com o Regulamento e Manual dos Avaliadores sob o braço, sob inspiração espiritual de Ariovaldo Paz. Se os os avaliadores assim não o fizeram , a leitura atenta da justificativa é que que vai dizer o porque. Não vou cometer o equívoco de criticá-los antecipadamente sem acesso aquelas.PONTO.

Quando o samba entoa o minuano divinal a me levar estava a dizer que da Europa a Águia iria sobrevoar o Sul curando no sentido de proteção aos que estão sob suas asas, dizendo-lhes que o caminho deve ser reto e justo para ser perfeito. A bela harmonia musical com o jovem Ananias puxando e bem, o melodioso samba de forte refrão, tinha na cadenciada e temperada bateria do Biskuim instrumentos leves a frente e graves ao fundo, sem contar o bom gosto no vestir homenageando a Velha Guarda da Portela, guardando o sábio ensinamento que pesadas fantasias retiram a mobilidade dos movimentos dos ritmistas, que além de tocar precisam cantar.

Logo, a roupagem se mostrou correta ao tema e registrando desnecessidade de exageradas coreografias para cumprir a função de Coração da Escola que é a Bateria, tão importante quanto aquele órgão o é para o ser humano. Destaco por fim a valorização dos talentos locais que exemplifico no puxador e diretor de bateria, especialmente, bem como o retorno da Porta-Estandarte Shaiene, que somados exibem a presença do chão da escola referido ao início. Ademais, a trajetória da Águia dos Bambas, lembrou lição do Fernando Pamplona:Vamos tirar da cabeça o que não temos no bolso.

Pergunto : Qual a parte mais expressiva da Águia ?

Análise de Enredos - Estação Primeira de Mangueira

07 de fevereiro de 2013 0

Na última análise, Alvaro Machado comenta o enredo da Mangueira.

“Falar da Mangueira tem sempre um sentimento maior, pois é falar de uma das páginas mais marcantes do carnaval brasileiro. E é essa Mangueira que irá trazer para a Sapucaí mais um patrocínio de uma cidade brasileira. Dessa vez, será Cuiabá a homenageada. E como promete o enredo, serão seus mestres maiores como Jamelão, Cartola, Dona Zica e tantos outros nomes, os responsáveis em conduzir a história que parte de Mangueira em direção ao paraíso verde do centro do Brasil. Certamente, poderá ser um primeiro momento marcante no desfile.

E a verde e rosa irá trazer no trem da história cuiabana, seus primeiros passos como cidade, sua fundação, os índios, negros e brancos que ali se encontraram, suas lendas e mitos como o minhocão e o boitatá, o artesanato, a culinária, as festas populares.

A biodiversidade do local será certamente um capítulo à parte do desfile e poderá representar um segundo ponto positivo. Pela avenida passarão araras, tuiuiús, tamanduás, jacarés, onças e toda exuberância do Pantanal. E, no final, certamente o desfile irá conduzir ao pensamento da Cuiabá do futuro, moderna, etc. etc., finalizando com a Cuiabá, sede da Copa do Mundo. Normal tal sequência em homenagens a localidades, porém, o Pantanal sempre rende grandes possibilidades visuais, tanto em alegorias quanto em fantasias. Basta que a escolha pelo tom que deve ser dado ao desfile seja correta. Nem exagerado, nem pouco criativo. E talvez nessa escolha resida a dificuldade da Mangueira


O enredo, se não chega a apresentar nada de novo, pode produzir um bom desfile, pela potencialidade da natureza e da história social do Pantanal. Porém, pelos problemas anunciados no pré-carnaval, pelas dificuldades no barracão, pelo samba que não chegou a criar grandes expectativas e pelas fantasias que não demonstram muita criatividade e inovação, parece que a Mangueira precisará buscar a superação na força de seu canto e de seu chão, um ponto sempre positivo da Escola..

A polêmica paradona da bateria em 2012, talvez apenas tenha representado o início das possíveis surpresas na avenida. E o que poderá vir esse ano? Só vendo na hora, afinal Mangueira sempre é Mangueira.”

Análise de Enredo - Bambas da Orgia

06 de fevereiro de 2013 0

MAJESTOSA, ALTANEIRA, MINHA ÁGUIA MINHA PAIXÃO

“Eu me detinha horas e horas a contemplar
o belo céu brasileiro e a admirar
a facilidade com que as
aves, com suas longas asas
abertas, atingiam grande altura. Assim meditando sobre
a exploração do grande oceano celeste, por minha
vez eu criava aeronaves e inventava
máquinas. “Tais devaneios eu os guardava comigo”
(Alberto Santos Dumont)

“A análise do enredo da Sociedade, como diria o antigo e eficiente divulgador Silvio Santos, dos Bambas da Orgia poderia ser resumida no título, eis que partem da afirmação, qualificam a trajetória e alcançam o objetivo pela emoção. Ponto. Mas ao longo dos anos quem acompanha os Bambas poderia recolher o pensamento parafraseado :“Não é o grito da águia que leva a nação azul e branca a segui-la é o seu vôo”.

Águia é a designação concernente a tipo de ave com origem européia. Por ser a que voa a 10.000 metros de altura se diz possuir espírito superior. Anda bem o carnavalesco ao dizer no sopro aos compositores do samba o minuano divinal a me levar. Para o leitor não acostumado a expressão ou de fora do estado minuano é o vento frio e seco, que sopra no Sul acompanhado de queda de temperatura e da umidade relativa no ar.

A nosso olhar o enredo ensina que da Europa a Águia sobrevoa o Sul curando no sentido de proteção aos que estão sob suas asas, dizendo-lhes que o caminho deve ser reto, justo para ser perfeito, elevando-se aos patamares da espiritualidade. Pai Xamã atenderá pedido do Criador. A pena é instrumento da escrita curadora. A Majestosa Águia está na Bandeira dos Bambas, Pavilhão maior na simbologia da Nação Azul e Branca. A grandeza está no relevo do enredo eis que presente também no brasão dos Estados Unidos do Norte, alcançando inclusive moeda poderosa como Dólar norte-americano, que tem sua emissão datada de 1789, por responsabilidade do Banco Federal de Atlanta, como unidade monetária dos Estados Unidos da América em 1793.

Chama a atenção que a nota de Um Dólar surgiu em 1935, quando Franklin D. Roosevelt era Presidente. Olhando-a no detalhe percebem-se símbolos da ordem maior, penso que por aí sobrevoa o espírito da luz dito no samba-enredo. No anverso da cédula: no centro, George Washington, o primeiro presidente do país e franco-maçom. Ornamentando o quadro encontramos ramo de acácia, que significa a imortalidade. Renascerá a altaneira renascerá.

Observamos no verso da cédula, a pirâmide com de tem inserção números romanos datando 1776, ano da independência dos Estados Unidos da América. No alto da mesma como sendo uma coroa o delta grego. À direita a Águia que os Bambas transformaram no enredo. Logo, abaixo frase em latim Novus ordo seclorum (nova ordem dos séculos). Imbuído desta majestosa Águia Padre Antonio Vieira a definiu como a Rainha das Aves. O escudo no peito dos campos da bola, refere os clubes de Portugal dos quais é Mascote Sport Lisboa e Benfica a ponto deste último contratar profissionais que cuidam exclusivamente das Águias Vivas de cor Branca, ensinadas as quais em dia de jogos, sobrevoam o Estádio da Luz antes do espetáculo e aterram sobre o escudo do clube, no centro do gramado sem a Águia, que completa-o em forma viva com sua presença majestosa .

Minha imaginação voa no sentido de ver no desfile algo que pudesse lembrar este momento ímpar no mundo. Mas a Águia acolhe sob suas brancas asas Portela e União da Ilha do Governador, aproveitando para trazer a lembrança no sonho que Era Negro o Céu de Palmares, pois os deuses eram da África(1979), assim como a singular Festa de Batuque(1995) , passando ainda pelo O Barão das Catas Altas Senhor Das Minas Gerais (1998), dentre outros carnavais inesquecíveis.

O ninho da Águia torna-se pequeno para tantas conquistas. Ao cruzar o mar lembrará caravelas ao som da conhecida e cadenciada bateria, sob trilha sonora de bom samba que a Nação cantará firme e forte levando emoção ao coração da enorme família azul e branca. O carnavalesco Guaracy Feijó e o pesquisador Sergio Peixoto, são experientes e sabem superar eventuais dificuldades não inventando e sim sendo simples, mas objetivos ao encontro do que pedem os quesitos.

Em 1991 os Bambas apresentaram o enredo Tributo a águia num cenário azul e branco obtendo 3º lugar. Comparando os dois enredos concluo não se tratar de reedição.”

Análise de Enredos - Portela

05 de fevereiro de 2013 1

Alvaro Machado comenta o enredo da Portela, útlima escola a desfilar no domingo de Carnaval.

“Falar de sua história, de seu povo, de sua aldeia é sempre uma bela possibilidade de desfilar. Quando essa ideia nasce de uma Escola como a Portela, rica de tradição, de títulos e de estrelas, torna-se impossível não pensar em um desfile rico de emoção, sobretudo quando a linha narrativa de sua trajetória é narrada por Paulinho da Viola. Pois é essa a opção da azul e branco de Madureira. Cantar seu povo, sua história, seu lugar, seus heróis.

Embalada, mais uma vez, por um dos melhores sambas do carnaval, a Portela narrará os recantos de Madureira, o trem carregado de samba, o passado dos tropeiros, escravos, mercadores, engenhos e fé. E da ideia da roça, repleta de simbolismo religioso e de seu povo que se mistura em seus caminhos, que nasce a Portela. Repleta de sambistas, de mulatas, da estrela de Zaquia Jorge brilhando no tablado, do mercadão de Madureira, da irmã que nasce na Serrinha carregando uma coroa imperial. Isso tudo é Madureira, a capital do samba, do som dos bailes de charme, da onda black, das feijoadas e mocotós, das rodas de candomblé, do tambor dos poetas, do cavaco dos sambistas.

O enredo é rico, carregado de simbolismo e emoção. Porém, algo maior nesse momento causa o temor na Majestade do Samba. O atraso do barracão, os desmandos presidenciais, as diferenças entre facções, o desânimo de uma escola que há anos não é campeã. Talvez, nem mesmo o Olimpo do Samba, carregado de portelenses, será capaz de possibilitar ao seu povo mais uma estrela em seu pavilhão. Superadas frustrações antigas, em 2012 a Portela conseguiu se reorganizar, voltando ao desfile das campeãs depois de alguns anos fora. Porém, pelo samba, pelo enredo, por sua história emocionante, pela expectativa que criou, 2013 seria o ano da afirmação.

Infelizmente, pelo andar do trem portelense, não será essa a realidade. Há um temor pela qualidade do desfile, pelo visual da escola. O samba, a tradição, a leveza do enredo, a presença dos sambistas soberanos, não serão suficientes para assegurar o lugar esperado pelos portelenses em um carnaval tão disputado e tão exigente. Como portelense declarado, não posso deixar de sentir um certo temor pelo desfile. Espero, que a força que vem de Madureira, mostre que lá é realmente mais do que um lugar, deixando vivo o sonho de toda imensa torcida portelense.

Por enquanto, só podemos dizer que a expectativa não é das melhores, embora tenho a certeza que teremos um desfile carregado de emoção. Emoção pelos 90 anos da escola, pela presença simbólica de Paulinho, pelo belo samba que quase nos faz pensar em um samba de roda e, sobretudo por ser Portela.

Que a chegada de Madureira realmente levante poeira e, se necessário sirva como renovação para uma das mais tradicionais escolas do Rio de Janeiro.”

Análise de Enredos - Acadêmicos de Gravataí

04 de fevereiro de 2013 0

De Aldeia dos Anjos a Gravataí: Um Poema de Amor no Coração da Onça Negra

“Boa temática que cronologicamente descrita, imagino haverá perfeito casamento das tradições regionalistas com o samba. Tempero que se soubessem os sambistas, tradicionalistas e poder público a força que tem , tornaria nossa cultura ponto de atração nacional e internacional como o é Parintins por exemplo.

Quando Acadêmicos de Gravataí refere Aldeia dos Anjos, recordam a origem das crianças indígenas, especialmente meninas que passaram a freqüentar ainda como Aldeia, instituição religiosa. Daí a expressão Anjos, que na realidade seriam querubins alados. A aproximação do aspecto regionalista por meio do CTG ALDEIA DOS ANJOS DE GRAVATAÍ, que neste último 22 de janeiro, completou 57 anos de existência com efetivo destaque em festivais e rodeios é o gancho perfeito de bela história carnavalizada. A salientar ainda suas invernadas de danças: mirim, juvenil, adulta e Chico, além de escolinha para iniciantes.

Chama a atenção o efeito que pode causar no desfile carnavalesco dos Acadêmicos, esta feliz parceria conjugada para contar os 250 anos de amor a Gravataí, pois a invernada adulta conquistou por dez vezes o título de campeã do estado em danças tradicionais gaúchas, títulos no Fegart em Farroupilha, e mais recentemente no Enart realizado na cidade de Santa Cruz do Sul, já que o maior festival do gênero da América Latina.

O CTG citado já representou o município, o estado e o país em vários festivais internacionais promovidos pelo CIOF (Conselho Internacional dos Festivais de Folclore), conquistou inúmeros rodeios nacionais e internacionais. Foi o primeiro CTG a participar do Festival da Ilha Terceira dos Açores,  onde esteve por duas vezes, em 1990 e 1998. Participou também dos festivais da Ilha das Flores, Ilha do Corvo no arquipélago e em Portugal continente nos Festivais de Pé da Serra, Castel de Vide, Estoril, Sintra e na Expo 98.

Na Espanha em Valencia de Alcantra, Barcelona, Badajos, Raen, Cadiz, entre outras cidades. Participaram ainda do Festival de Folclore de Santa Fé, na Argentina, Assunción no Paraguai, Drummondville e Montreal no Canadá, em Nova York e no Festival Weinesville e outras cidades da Carolina do Norte, França e China.

Afinal não é por nada que em 1° de junho de 2006 foi tombado como patrimônio histórico cultural do Estado do Rio Grande do Sul, conforme lei n° 12.518, possibilitando também importante reforço na identidade cultural que a população de Gravataí e de todo o Estado mantém com este CTG que é exemplo de pesquisa e divulgação das tradições gaúchas por meio das suas atividades artísticas e culturais. Esta descrição é obrigatória, pois importante na análise da compreensão do tema-enredo.

Se toda esta trajetória conseguir ser carreada para carnavalização adequada pode se constituir em desfile que marcará época , eis que o jeito de olhar pode chegar ao brilho e esplendor.

Até porque igualmente será contado o desenvolvimento econômico para do município até a primeira metade do século XX. Alemães também presentes. Na mala de garupa, para ficar na forma de análise do enredo, os germânicos traziam em sua bagagem habilidades como ferreiros, carpinteiros, marceneiros, hoje tão necessários em nossas oficinas de arte, que a nosso ver pejorativamente são rotuladas de barracões, como se fosse cultura menor. Razão de nossa indignação.

Voltando ao Tema-enredo naquele período a história registra que Gravataí era ponto de passagem de mercadores em direção a diversos pontos do interior do estado e por isso a tradição do transporte de carretas é reverenciada até hoje. De grande valia para a população, durante muito tempo a Fonte do Forno a única fonte de abastecimento de água da cidade. A vertente provia água não só aos habitantes de Gravataí, como também os moradores de vilarejos vizinhos. Segundo a crença, quem bebesse daquela nascente jamais se afastaria da vila, ou se isso ocorresse logo voltaria. A Aldeia dos Anjos se orgulha dos seus ideais de liberdade e porque viu a libertação dos escravos dez anos antes da Abolição da Escravatura. E por isso tem existência de dois territórios renascentes negros na cidade o Quilombo Manuel Barbosa e do Paredão, que guardam descendentes dos irmãos negros até hoje.

Ainda permanecem na cidade os grandes casarões com as senzalas onde se diz o escutar e arrastar das correntes nos porões como lamento, assombrando os que vivem por perto. Por ser caminho a Osório, as tropas Farroupilha saídas de Viamão, utilizava as frondosas figueiras da terra para o descanso dos bravos guerreiros. Vai chegando a anoitecer, e a lua trás a inspiração e assim vem o lanterneiro acender os lampiões pela cidade.

Novo marco na História municipal viria nas décadas de 60 e 70, com a instalação das primeiras indústrias e a criação do Distrito Industrial e construção da FREE-WAY, com acesso à Gravataí. Entre a década de 70 e 80,o crescimento habitacional é algo significativo com o surgimentos das Cohab A, B e C, do Bairro Bonsucesso e Morada do Vale o que muda a paisagem urbana.Mesmo com evolução a religiosidade aflora neste povo que ainda hoje tem a prática aos seus santos padroeiros. Nossa Senhora dos Anjos, padroeira da terra.

Todo ano, o levantamento do mastro é o que marca o início da Festa do Divino Espírito Santo, que derrama em Gravataí os seus sete dons da santíssima trindade trazendo muita felicidade. A cultura segue por toda acidade, Gravataí é o próprio palco de arte, tem poetas, atores, cantores, escultores e pintores. Confesso que estou curioso para assistir seu desfile sob a voz maviosa do excelente puxador Lu Astral.”

Análise de Enredos - União da Ilha do Governador

03 de fevereiro de 2013 0

O Poeta e a Ilha juntos para o Carnaval 2013. Confira o que pensa Alvaro Machado sobre o enredo:

“A homenagem a nomes da música brasileira já gerou grandes desfiles e alguns campeonatos. E é nessa possibilidade que a União da Ilha aproveita o centenário de Vinícius de Moraes para buscar seu lugar entre as primeiras colocadas.

O que me desagrada no formato do enredo é a opção da escola em apresentar o homenageado em formato de entrevista, feita com o poeta que é seu tema, e que em alguns momentos soa mais como uma transmissão espírita do que como um fio capaz de ilustrar a rica vida do “Poetinha”. Não sei até que ponto a escolha do formato foi acertada, uma vez que parece ter resultado em um enredo que fica devendo ao talento do homenageado.

Desfilar a vida de um personagem tão significativo de nosso país merece um cuidado todo especial, que seria capaz de criar uma expectativa levando ao reconhecimento do enredo como uma grande possibilidade de um carnaval rico, variado e emocionante. Pelo que vi, pelo que li, pelo samba fraco que ouvi, pelas alegorias e fantasias já apresentadas, essa impressão se perdeu.


Não posso dizer que não seja um belo enredo, afinal Vinicius tem uma história rica e apaixonante. E no desenvolvimento da história passarão canções, frases, poemas, relacionamentos da vida do branco mais negro do Brasil. E tem muito que ser mostrado, a infância, os primeiros poemas, o Orfeu da Conceição, as músicas com Tom Jobim, a paixão pelo cinema, a vida diplomática, a Bossa Nova, seus parceiros musicais, os sucessos de Elisete e Elis, sua ligação com Menininha do Gantois e com o Candomblé, as canções para crianças, enfim, uma vida repleta de arte a ser mostrada na avenida. E esse é o problema do enredo. Como transformar essa arte da palavra e da canção em carnaval.

Alguns aspectos podem dar bons resultados, porém o grande momento será certamente o palco por onde deverão desfilar grandes nomes que estiveram ao lado de Vinícius. Pelas fantasias apresentadas, o desfile não deve primar pelo inovador, pela criação livre. Ao contrário, indica um desfile tradicional, sem criatividade nem poesia.

E talvez seja esse o risco da Ilha que anuncia estar sem dinheiro, mas com garra. Infelizmente, garra não vence carnaval. Resta esperar para vermos a simpática escola da Ilha do Governador honrar sua homenagem a um dos maiores nomes da vida brasileira, trazendo um pouco da emoção desse personagem tão marcante.

Espero, sobretudo, um casamento entre a “carioquice” e a “baianidade” de Vinicius ilustrando um enredo que poderia ser o melhor do ano, caso tivesse sido melhor desenvolvido, primando sobretudo pela emoção do poeta que nos enche de saudades.

E por falar em saudade, resta agora a pergunta. Onde anda você Ilha? Onde anda sua alegria e seu jeito leve de desfilar? Queremos e precisamos reencontrar aquela Ilha de anos anteriores que enchia de cor e alegria a Sapucaí.”

Análise de Enredos - Imperatriz Dona Leopoldina

02 de fevereiro de 2013 0

OPARÁ- O Velho Chico! Crenças, Mitos e Lendas

“O Rio São Francisco é orgulho nacional e merece ser eternamente cantado em prosa e verso com o fez a Estação Primeira de Mangueira em 1987, com No Reino das Palavras- Carlos Drummond de Andrade,cujo samba em certo trecho assim soava, referindo o velho Chico:

Olha as carrancas
Do rio são francisco
Rema rema remador
Primavera vem chegando
Inspirando o amor
O rio toma conta do sambista
Como o artista imaginou

Na ilusão dos meus sonhos, achei
O elefante que eu imaginei

Por isto faz bem a laranja ao dizer que em face do orgulho ergue sua bandeira. Filio-me a corrente que diz não existir temas esgotados e sim diversas formas de olhar. Até porque não basta ver, tem que enxergar como a Imperatriz pretende mostrar neste carnaval este rico tema que trata do Rio que é Santo. A lenda ensinou que Iati ao chorar fez verter de suas lágrimas o nascimento de OPARÁ e, no leito deste rio de lágrimas brotam mitos, tradições, costumes e riquezas sob a trilha sonora do bonito samba da Imperatriz. Como anteriormente já manifestei costumo explorar o samba para análise do enredo, não só porque ele é a síntese do enredo, mas especialmente, por ser a primeira presença viva do desfile projetado. Espécie de visão antecipada. Mas voltando a leitura do enredo encontramos a lua como testemunha do amor da índia, mãe do rio mar. Água doce diz com Mãe Oxum. Salgada com Yemanja. Ambas gostam de flores e perfumes. Foi Américo Vespúcio que escolheu o nome do Rio São Francisco, com intuito de abençoar as muitas formas de vidas ao longo de seu percurso, pois o Santo batizaria por suas águas. Colonização observada pela miscigenação, compreendida no sangue negro, índio e português . O Lampião é fruto das etnias citadas, mas também esteve em busca de riqueza e ambição. A Imperatriz geralmente com desfile compacto possui surpresas desde o Carro Abre-Alas, Comissão de Frente e Alegorias bem acabadas pode fazer o desfile do Grande Rio São Francisco em águas alaranjadas em ritmo de festa sobre barcos, que não temem assombrações e lendas do velho Rio-Mar.O tema exige boa plástica visual, por meio de fantasias e alegorias. Ala de Convidados e Velha Guarda podem sublinhar e abençoar a poesia do enredo com criativas vestimentas bem integradas ao tema.”

Análise de Enredos - Acadêmicos do Grande Rio

01 de fevereiro de 2013 0

Alvaro Machado expõe seu ponto de vista sobre um dos enredos mais discutidos do ano. Confira:

“A escola de Duque de Caxias escolheu para seu enredo a discussão, já um tanto superada, da retenção dos royalties do petróleo para o Estado do Rio de Janeiro. Não sei se gosto menos do enredo da Grande Rio ou da discussão sobre a repartição justa dos bens naturais que o Brasil possui. Portanto, não posso não começar essa análise sem perguntar a quem interessa tal discussão. Mais do que isso, perguntar até que ponto, no momento atual do carnaval, cabe um enredo com conotação tão exclusivista e política.

Pois vejamos o que a escola nos propõe. O enredo começa dizendo que a Grande Rio ama o Rio. E o que isso quer dizer? As outras escolas não amam? O povo brasileiro não ama o Rio? O mundo não ama o Rio? E mais que isso. O carnaval carioca é do Rio? Ou é do Brasil? Não está aqui a fonte de inspiração suprema dos desfiles de escolas de samba? Não é para a Sapucaí que os olhos do mundo se voltam no período de carnaval?

Então, qual razão de transformar um desfile em um ato de protesto contra o entendimento de que as riquezas do Brasil pertencem ao Brasil e a seu povo. É um direito do povo carioca exigir tal realidade, mas seria um direito transformar o desfile em um ato de protesto por algo tão polêmico e contestatório?

Claro que tudo terá início na extração do petróleo, nas plataformas marítimas, nas refinarias. Logo a seguir, há, no meu entender um grande erro. O petróleo é considerado pela escola como o sangue que alimenta o mundo, como se fosse um ser vivo que não pode prescindir de tal alimento. Em tempos de novas alternativas energéticas, me parece ao menos, fora de proporção tal afirmação.

Há, ainda, uma pincelada na questão ambiental, mas de forma incorreta, apresentando a falta dos royalties como a responsável por um desastre ecológico. Enfim, o enredo me parece equivocado, fora de propósito e mal pensado.

Amar o Rio, valorizar suas histórias, suas ruas, suas belezas e riquezas é perfeitamente elogiável. Mas transformar o desfile da escola em algo tão fechado como a proposta aqui apresentada, me parece um erro. Talvez, aos olhos dos jurados cariocas, esse sentimento tenha um eco maior do que nos chega aqui e em outras partes do Brasil, o mesmo Brasil onde o Rio brilha.

Porém, o que me parece mais preocupante na escolha da temática é a transformação do manifesto de apoio ao Rio em um desfilar de policiais que garantirão segurança, de imóveis populares gerados pelos dividendos arrecadados, nos anjos da saúde que são pagos pelo petróleo, no esporte e no lazer que a cidade pode oferecer. Ou seja. Se não há petróleo na cidade, ela acaba em caos. Será?

E nesse mar de ouro negro e protestos, a Grande Rio apresenta fantasias que trarão para a avenida trabalhadores do petróleo, policiais, enfermeiros, professores, artistas e tantas outras ocupações como a dizer que apenas com o petróleo é possível esse desenvolvimento no estado. O certo é que tudo será grandioso, como sempre são os desfiles da Grande Rio.Imensas alegorias, fantasias bem elaboradas, movimentos, luzes, enfim um show de tecnologia.

Com toda energia que a escola pode trazer, o desenvolvimento do enredo me parece o grande perigo. Acredito que a Grande Rio, que há anos busca seu título, deveria ir à luta por uma causa mais adequada e mais agradável aos olhos do Brasil e do mundo. O petróleo pode virar samba. A exclusão da brasilidade não. Somos todos brasileiros e vamos à luta, com certeza.”

Análise de Enredo - Unidos de Vila Isabel

31 de janeiro de 2013 0

O SENTIMENTO NÃO TERMINA

“A simpática escola de Viamão-RS contará a história dos estádios que foram sedes acolhedoras do glorioso Grêmio Futebol Porto-alegrense desde a Baixada, passando pelo Olímpico Monumental e chegada à Arena. Nesta ordem, ou não como diria Caetano, eis que não me surpreenderia em caso de inversão da ordem, pois mais uma página virou.

O tema-enredo pede alegorias que reproduzam aqueles três estádios e respectivos campos e futebol. Gostando-se ou não de temáticas concernentes ao futebol o fato é que a Vila por apresentar os melhores ensaios pela presença de excelente público é indicio que os 1.600 desfilantes contidos nas alas podem provar o contrário e fazer bom carnaval.

Estão previstas alegorias com 18m de comprimento, pelo projeto se referem aos três momentos das sedes. A vida do Grêmio é rica, bonita e o SENTIMENTO NÃO TERMINA, razão da imortalidade, como, por exemplo ainda que não conste materialmente do enredo personalidades como Saturnino Vanzelotti considerado por muitos como maior presidente da história do clube. Não por ter construído o Olímpico, ora Carro Alegórico, mas por ter lutado para erradicar o ranço de preconceitos raciais vigentes a época.

Quando morreu o concorrido sepultamento revestiu-se de emoção, pois jogadores negros pediram aos familiares do pranteado, para só eles conduzirem o esquife. Foram atendidos e o silêncio sublinhou o simbólico comovente. Ainda hoje para alguns dos presentes, aquele momento foi significativamente maior que a conquista do título de Campeão Mundial de Clubes em Tóquio em 1983.

Fatos como o relembrado fazem a grandeza de Homens como Vanzelotti que tiveram a visão de dizer não ao ódio racial, rancor, raiva e todos os tipos de preconceito cujos vícios não têm lugar em Estado de duas grandes torcidas, onde a pujança está ligada na proporção ao outro. O templo Olímpico, cujo nome diz bem com a origem relativa ao Monte que na Grécia antiga era habitação das divindades. Majestoso. Nobres como Milton o Formiguinha, que jogou na Baixada, Olímpico e testemunhou a inauguração da Arena que nasceu no coração da família tricolor sob manto das cores azul, preta e branca e abarca o Estádio Olímpico Monumental e a antiga Baixada.O tema-enredo não comporta narrar toda a história do Grêmio nem é esta a proposta, mas não nos impede de viajar no tempo.

O diretor de arte da Vila Isabel Marcelo Augusto afirma que faz carros para engolir a avenida, pelo que espero alegorias gigantes. Não ficarei surpreso que o carnavalesco Sandro Rauly, projete seu desfile em Manto Azul Preto e Branco, que enlaça a imortalidade, lupiciniando a pé na força e garra da Avalanche. Tudo sob a trilha sonora de bom samba-enredo, sustentado pelo excelente Alexandre Belos e a bateria-orquestra do ousado Mestre Chiquinho.

O chão da escola, seus ensaios lotados, bela performance no pré-carnaval da Av.Borges de Medeiros, onde ouvi na voz de uma criança Minha Vila na Avenida, me entusiasmam a largar o microfone e desfilar com a Unidos da Vila Isabel,(ainda que colorado) como o fiz aos tempos da Rádio Farroupilha quando a Copacabana (do outro Chiquinho)homenageou o Roxo. A Vila pode sim dar o primeiro título de 2013 ao Grêmio”