Alvaro Machado comenta o enredo da Portela, útlima escola a desfilar no domingo de Carnaval.
"Falar de sua história, de seu povo, de sua aldeia é sempre uma bela possibilidade de desfilar. Quando essa ideia nasce de uma Escola como a Portela, rica de tradição, de títulos e de estrelas, torna-se impossível não pensar em um desfile rico de emoção, sobretudo quando a linha narrativa de sua trajetória é narrada por Paulinho da Viola. Pois é essa a opção da azul e branco de Madureira. Cantar seu povo, sua história, seu lugar, seus heróis.
Embalada, mais uma vez, por um dos melhores sambas do carnaval, a Portela narrará os recantos de Madureira, o trem carregado de samba, o passado dos tropeiros, escravos, mercadores, engenhos e fé. E da ideia da roça, repleta de simbolismo religioso e de seu povo que se mistura em seus caminhos, que nasce a Portela. Repleta de sambistas, de mulatas, da estrela de Zaquia Jorge brilhando no tablado, do mercadão de Madureira, da irmã que nasce na Serrinha carregando uma coroa imperial. Isso tudo é Madureira, a capital do samba, do som dos bailes de charme, da onda black, das feijoadas e mocotós, das rodas de candomblé, do tambor dos poetas, do cavaco dos sambistas.

O enredo é rico, carregado de simbolismo e emoção. Porém, algo maior nesse momento causa o temor na Majestade do Samba. O atraso do barracão, os desmandos presidenciais, as diferenças entre facções, o desânimo de uma escola que há anos não é campeã. Talvez, nem mesmo o Olimpo do Samba, carregado de portelenses, será capaz de possibilitar ao seu povo mais uma estrela em seu pavilhão. Superadas frustrações antigas, em 2012 a Portela conseguiu se reorganizar, voltando ao desfile das campeãs depois de alguns anos fora. Porém, pelo samba, pelo enredo, por sua história emocionante, pela expectativa que criou, 2013 seria o ano da afirmação.
Infelizmente, pelo andar do trem portelense, não será essa a realidade. Há um temor pela qualidade do desfile, pelo visual da escola. O samba, a tradição, a leveza do enredo, a presença dos sambistas soberanos, não serão suficientes para assegurar o lugar esperado pelos portelenses em um carnaval tão disputado e tão exigente. Como portelense declarado, não posso deixar de sentir um certo temor pelo desfile. Espero, que a força que vem de Madureira, mostre que lá é realmente mais do que um lugar, deixando vivo o sonho de toda imensa torcida portelense.

Por enquanto, só podemos dizer que a expectativa não é das melhores, embora tenho a certeza que teremos um desfile carregado de emoção. Emoção pelos 90 anos da escola, pela presença simbólica de Paulinho, pelo belo samba que quase nos faz pensar em um samba de roda e, sobretudo por ser Portela.
Que a chegada de Madureira realmente levante poeira e, se necessário sirva como renovação para uma das mais tradicionais escolas do Rio de Janeiro."