
Três obras da literatura beat ganham versão em português.
O ano de 1984 foi emblemático para a literatura beat no Brasil. Com 37 anos de atraso, On The Road, o clássico de Jack Kerouac, finalmente ganhava sua versão em português. Com tradução de Antônio Bivar e Eduardo Bueno, o livro deu o pontapé inicial na onda de publicações dos beats no país. A chamada geração beat é um termo usado tanto para descrever um grupo de escritores americanos, que vieram a se tornar conhecidos no final da década de 1950 e no começo da década de 1960, quanto ao fenômeno cultural que eles escreveram e inspiraram. Outros o chamam de beatniks, que seria uma mistura da palavra beat , no sentido de batida, beatitude , mais Sputnik, o primeiro satélite artificial da Terra lançado pela antiga União Soviética em 4 de outubro de 1957, exatamente um mês depois do lançamento de On The Road pela Viking, nos EUA. Ao longo dos últimos 25 anos, nomes como Allen Ginsberg, William Burroughs, Gregory Corso, Gary Snyder, Michael McClure e tantos outros escritores dessa turma da pesada já foram publicados no Brasil. Mas a elétrica tríade formada por Ginsberg, Burroughs e Kerouac sempre carregou o status de principais avatares dos beats.
Algumas das principais marcas da geração beat são a liberdade de expressão, a ausência de regras, o jazz como influência poética (mais precisamente o bop de Charlie Parker e Miles Davis), a temática sexual e o hedonismo. Um quarto de século depois do primeiro lançamento no país, três importantes e decisivos capítulos do cena beat do século 20 chegaram as livrarias brasileiras nos últimos meses: E os Hipopótamos Foram Cozidos em Seus Tanques, Visões de Cody e On The Road - O Manuscrito Original.
E os Hipopótamos Foram Cozidos em Seus Tanques, com seu estranho título, baseia-se num crime passional ocorrido de fato em Nova York, em 1944, às margens do rio Hudson: o assassinato de David Kammerer pelo adolescente Lucien Carr, ambos amigos de Burroughs e Kerouac. Agora, com os implicados falecidos, o livro pode finalmente vir à tona. Escrito em dupla, essa é a primeira obra acabada tanto de Kerouac, então com 23 anos, quanto do já trintão Burroughs. Nenhum dos dois, futuros fundadores da prosa beat norte-americana, tinha publicado livros ainda. A trama, aberta e flutuante, é centrada num punhado de jovens e curiosos personagens típicos da geração beat, desgarrados, sem grana no bolso, mas pouco inclinados ao trabalho convencional. Na época, o caso ganhou as manchetes dos jornais, e Lucien Carr (que posteriormente tornou-se um respeitado jornalista) acabou cumprindo pena de dois anos pela morte acidental de Kammerer. É no mínimo curioso, pois o fato é que a primeira aparição dos escritores foi nas páginas policiais.
Já Visões de Cody chega com a força de ser o melhor trabalho de Jack Kerouac, segundo biógrafos e `Kerouacólogos` de plantão. O livro foi publicado originalmente nos EUA em 1973, quase três anos após a morte do escritor, que também julgava essa ser sua obra prima. Cody retoma em ritmo próprio um estudo sobre Cody Pomeray, que, na realidade, é Neal Cassady, o mesmo herói Dean Moriarty de On The Road. Por uma imposição da editora americana, o autor não podia repetir os nomes de seus personagens On The Road, por isso os protagonistas que aparecem no livro ganharam novos nomes. Ao ler de Visões de Cody, quem conhece On The Road poderá reprisar por uma ótica mais ampliada alguns episódios. No Brasil, Visões de Cody ganhou uma devotada tradução de Guilherme da Silva Braga, que manteve a espontaneidade. Também não alterou, na versão em português, o tom caótico e desorientador do original em inglês. Na medida do possível, Braga aportuguesou os surtos datilográficos, as seqüências aliterativas, versos, trocadilhos, neologismos e demais improvisações que o caracterizam. Na época em que escreveu o livro (1951-1952),Kerouac (desempregado e com apenas um livro publicado, o fracassado The Town & The City) morava de favor no sótão da casa de Neal Cassady, em San Francisco. Outro fato curioso desse período é que Jack dividia a cama com Carolyn, a esposa de Neal , tudo isso, claro, com o consentimento velado do amigo.
O mercado editorial americano cochilou meio século, mas enfim lançou o manuscrito original de On The Road em setembro do ano passado. Em comparação, a editora gaúcha L&PM foi rápida no gatilho. On The Road - O Manuscrito Original não tem cortes e ganhou tradução de Eduardo Bueno e Lúcia Brito. A versão em português também inclui os quatro ensaios que dissecam as histórias e lendas que abarcaram e ainda orbitam a versão original do livro, escrito em apenas três semanas, em 1951. A versão original de On The Road foi datilografada em um único e longo parágrafo, com entrelinha simples, em folhas de papel vegetal, mais tarde coladas uma nas outras, formando um rolo de quase 37 metros de comprimento do que chamava de "prosa espontânea". O escritor acreditava no poder de uma literatura que brotasse através de jatos do inconsciente, livre dos mecanismos usuais de edição. Acontece que, desde a época de seu lançamento, em 1957, há quem alegue que a pressão dos editores para tornar o livro mais palatável acabaria por diluir sua idéia inicial. O próprio Kerouac se manifestou profundamente insatisfeito com o empenho dos editores em obstruir sua escrita espontânea com uma infinidade de pontos e vírgulas desnecessários. Um único e gigantesco bloco textual sem nenhuma separação, pontuação esparsa, nomes verdadeiros dos personagens (a narrativa é toda calcada em personagens reais e na experiência do autor cruzando as estradas americanas de carona) e detalhes sexuais anteriormente omitidos são as novidades do manuscrito original. Na verdade, o livro nunca foi uma unanimidade. É famosa a definição de Truman Capote: "Kerouac faz datilografia e não literatura". Mas apesar das críticas de muitos, On The Road se tornou a chamada "Bíblia" de uma geração e consequentemente um dos livros mais influentes da cultura pop dos últimos 50 anos. Suas idéias ecoaram com força desde as canções de Bob Dylan e Tom Waits, vazaram deliberadamente na escrita do dramaturgo Sam Shepard e tingiram a estrada tortuosa do cineasta Wim Wenders, só para falar de alguns nomes. E os Hipopótamos Foram Cozidos em Seus Tanques, Visões de Cody e On The Road - O Manuscrito Original podem ser lidos tanto por iniciados ou veteranos em literatura beat. Talvez Cody seja um livro um tanto mais intrincado para não acostumados na prosa kerouaquiana, mas o certo é que se tratam de importantíssimos registros para entendermos a cabeça desses malucos que mudaram tudo, os verdadeiros comandantes de uma das mais interessantes revoluções literárias do século passado.