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O sucesso do fracasso: como o TEDx está mudando minha vida

26 de março de 2013 7

Tem coisas na vida da gente que são realmente muito difíceis de explicar.

Eu sempre nutri uma admiração especial por oradores carismáticos. Nunca escondi um verdadeiro fascínio por tentar descobrir o segredo do magnetismo pessoal que faz a gente virtualmente se sentir refém durante certas apresentações, como que ansiosamente à espera da próxima ideia, do próximo gesto, do próximo olhar.

Não foi à toa, portanto, que me deixei encantar, já há bastante tempo, pelas palestras disponibilizadas pelo TED. Como não sucumbir à tranquilidade bem-humorada que emoldura a contundência de Sir Ken Robinson e sua indiscutível convicção de que as escolas de hoje em dia inibem a criatividade? E o que dizer de Ric Elias e seu relato cruelmente preciso das três coisas que aprendeu quando seu avião caiu — ou, pelo menos, era o que ele acreditava que aconteceria até a habilidade do piloto permitir um improvável pouso no rio Hudson? Seria possível replicar a convicção de Seth Godin em sua permanente cruzada em defesa da propagação das boas ideias?

Pessoas submetidas a experiências sem paralelo, referências em suas áreas de atuação, defensores incansáveis de suas convicções: pontos fora da curva, diria eu, talvez inspirado por Descartes.

Inevitável, portanto, a paralisia momentânea ao descobrir que eu teria o meu momento TED.

Quem é familiar com as palestras sabe, é claro, que há muitas diferenças entre um evento TEDx e um evento TED (clique no ícone “cc” na janela do vídeo para selecionar legendas em português). Os eventos TEDx são licenciados e organizados, de maneira independente, por voluntários. Pessoas que dedicam seu tempo e seu esforço gratuitamente ao indescritível prazer de promover o intangível pensamento inovador. Quando fui convidado por meus xarás Gustavo Fischer e Gustavo Borba para ser um dos palestrantes do TEDxUnisinos 2012, eu mesmo já tinha passado pela experiência recente de ser um dos apoiadores do TEDxLaçador 2012, onde conheci, por intermédio da querida Ana Goelzer, pessoas absolutamente fantásticas e comecei a entender um pouco melhor o espírito da iniciativa.

Mas, de novo, tem coisas na vida da gente que são realmente muito difíceis de explicar. Uma delas, seguramente, é o sentimento de ser palestrante em uma dessas ocasiões.

Durante a longa fase de preparação, eu tinha em mente duas intenções bem específicas. A primeira delas, mais realista: tentar ser lembrado ao final do dia. Afinal, eram mais de 15 palestrantes. A segunda delas, e também a mais ambiciosa: oferecer aos participantes 15 minutos compatíveis com as boas palestras do gênero que eu havia assistido — ou, pelo menos, que não ficassem devendo muito a elas.

Restava, porém, a grande dúvida: quem se interessaria pelo relato de um fracassado?

A resposta das pessoas presentes ofereceu alguns indícios que a Internet, mais tarde, reforçou: muita gente.

Quase que imediatamente após a publicação do vídeo no YouTube, já eramos 10 mil.

Em pouco mais de 2 meses, somos mais de 50 mil.

Mas quem são vocês, diriam os que sequer tentam disfarçar o ceticismo?

Somos os fracassados por opção. Loucos. Gente que acredita que pode melhorar o mundo, um aluno de cada vez. Lunáticos. Pessoas que se alimentam de gratidão ao invés de ganância. Malucos.

E o que descobrimos?

Descobrimos o universo infinito dos socialmente resistentes. Dos que contrariam, diariamente, a tudo, a todos e, muitas vezes, a si próprios. Dos que atendem a improváveis chamados internos e decidem ignorar os gritos de quem insiste em impor um modelo de sucesso altamente estereotipado mas, infelizmente, amplamente aceito.

Dos que resolvem ser generosos, gratos e inspiradores.

Desde então, a vida segue mudando, e as lições são muitas, a começar pela revelação de alguns vínculos curiosos. Carisma não tem valor sem ousadia. Magnetismo exige o estabelecimento de identidades imediatas. Espontaneidade exige muito, mas muito ensaio. Boas ideias, ao se propagarem livremente, se tornam ainda melhores à medida em que se distanciam de seu emissor. E, talvez, a maior curiosidade: em tempos de TEDx, até mesmo o fracasso pode ter algum sucesso relativo.

Porque, afinal de contas, tem coisas na vida da gente que são realmente muito difíceis de explicar.

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Sou professor e faz-tudo no Mathematica Et Cetera, no Clube do Enem e na Unisinos. Palestrante (2012) e apresentador (2013/14) do TEDxUnisinos. Educação : Tecnologia : Design : Inovação

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Comentários (7)

  • ana goelzer diz: 26 de março de 2013

    Que bom ler isso!

  • Andréa Cunha diz: 26 de março de 2013

    Muito bom!!!! Na, verdade, excelente!!! :) Eu sou outra fascinada pelo dom que certas pessoas possuem para, com clareza, muita objetividade e suavidade, expressarem o que querem transmitir. Isso é lindo, magnífico, fantástico, inspirador! Dom que é capaz de mexer com emoções, mudar conceitos, alavancar ânimo!!! Também admiro demais, a boa escrita, aquela que faz tu “não desgrudar o olho” (tão rara nos tempos atuais)!! Como já tens conhecimento, eu já sabia que a tua palestra conteria tais características!!! Que bom!!! Fico muito feliz que, com ela, conseguiste contribuir com a inspiração de muitas pessoas!!! Assim que o mundo deve girar!!! Parabéns da tua fã, incondicional!!!

  • eron diz: 19 de abril de 2013

    Gostei da palestra,é muito bom.

  • Felipe Antunes diz: 19 de abril de 2013

    Gustavo, também sou um espectador assíduo das palestras do TED. Quando vi que tu tinha dado uma palestra no TEDx eu corri para ser o primeiro a assistir e assim que foi publicada lá estava eu. Mostrei para minha mãe, que também é professora, e vi incontáveis outras vezes. Parabéns, pois conseguiu me inspirar tanto quanto, ou até mesmo mais, do que o Sir Ken Robinson e tantos outros grandes nomes.

    Valeu!

  • Liana diz: 19 de abril de 2013

    Amei ler isso…me identifico muito…causo esse impacto nas pessoas e adoro!!! Pessoas que fazem do ontem seu hoje,não mudam e não entendem os que procuram melhorar,ajudar….(Somos os fracassados por opção. Loucos. Gente que acredita que pode melhorar o mundo, um aluno de cada vez. Lunáticos. Pessoas que se alimentam de gratidão ao invés de ganância. Malucos.) Tem coisa que traz mais felicidade do que a estabilidade,não busco dias iguais…e sei que todo mundo pode melhorar e ajudar os outros a melhorarem…simplismente demais….

  • Janiz diz: 19 de abril de 2013

    Perfeita síntese “generosidade, gratidão e inspiração”; que tenhamos esse ciclo em todas as nossas escolhas, seja como professor, farmacêutico ou outros :)
    Abraço!

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