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Meu gabarito preliminar (não oficial) para a prova de Matemática do Vestibular UFRGS 2012

11 de janeiro de 2012 1

Eis aí meu gabarito preliminar (revisado) para a prova de Matemática do Vestibular UFRGS 2012 (obrigado aos leitores do blog que indicaram que eu havia caído no pega-ratão da questão 29!):

26-E
27-A
28-B
29-C
30-A
31-B
32-B
33-E
34-D
35-A
36-C
37-B
38-C
39-B
40-D
41-D
42-E
43-E
44-D
45-E
46-A
47-C
48-A
49-C
50-D

Confirmando a tendência de anos recentes, a prova estava muito acessível, salvo duas ou três questões um pouco mais exigentes. Merece destaque a questão 49 de Probabilidades (como já era de se esperar...). Candidatos bem preparados seguramente garantiram um bom número de acertos. A média não deve subir tanto assim, mas é bastante provável que testemunhemos mais um aumento no desvio-padrão da prova, aproximando-o mais ainda de 5 questões.

Acesse as aulas pré-prova online via Livestream

09 de janeiro de 2012 0

Depois de 2 dias de aulas pré-prova online para o Vestibular UFRGS 2012 cujas audiências somaram mais de mil pessoas, volto a convidar a todos os que acompanham o blog para juntarem-se a nós. Você pode assistir às próximas duas aulas pré-prova através da janela abaixo:

Se preferir, acesse diretamente a partir de nosso canal no Livestream: http://www.livestream.com/mathetc. Para participar ao vivo, basta enviar mensagens via Twitter incluindo o hashtag #mathetc. Para orientações mais específicas, entre em contato comigo através do Twitter ou do Facebook.

Vestibular UFRGS 2012: confira a agenda de aulas pré-prova online

06 de janeiro de 2012 0

Com o ENEM e suas peripécias felizmente já convertidos em uma realidade relativamente distante, estamos mais do que nunca em ritmo de Vestibular UFRGS 2012! Gostaria de convidar todos os leitores desse um tanto irregular blog (mas isso vai mudar esse ano, e não é promessa vazia) a juntarem-se a nós na véspera de cada dia de prova para assistir às aulas pré-prova online que transmitiremos desde os estúdios do "Projac" da Ramiro 1172.

Confira a agenda completa:

Agenda de aulas pré-prova online para o Vestibular UFRGS 2012

















As aulas serão transmitidas diariamente ao vivo a partir das 20h através de nosso canal no Livestream: http://www.livestream.com/mathetc.

Você poderá também participar através do Twitter com suas perguntas e comentários – basta usar o hashtag #mathetc em suas mensagens. Se você já tem perfil no Twitter, aproveite e siga agora mesmo nossos perfis (@profgustavoreis e @mathetc) para se manter informado em tempo real sobre a programação de cobertura.

Rotina: suspeita de vazamento no ENEM 2011 coloca em xeque seu uso como substituto de processos seletivos

26 de outubro de 2011 0

Após tomar de assalto as redes sociais no início da madrugada de ontem, a denúncia de um suposto vazamento de questões da prova do ENEM 2011 em um simulado promovido por uma tradicional rede de escolas particulares de Fortaleza finalmente chegou às manchetes dos principais portais de notícias brasileiros ao longo da manhã de hoje.


Desde a edição 2009 do ENEM, venho usando este espaço para alertar os participantes de que a escala do Exame Nacional é incompatível com as medidas de segurança necessárias para garantir que ele possa substituir de maneira confiável os vestibulares tradicionais. A flagrante falta de profissionalismo na seleção e treinamento de fiscais e coordenadores, por exemplo, é um problema grave e sem solução simples e imediata em se tratando de um evento realizado simultaneamente em quase 2.000 localidades espalhadas pelo país.


Voltarei a comentar o assunto hoje à tarde, à medida em que novas revelações acontecerem.

Edital do Vestibular UFRGS 2012 eterniza as suspeitas sobre o concurso de 2011

24 de agosto de 2011 2

Na última terça-feira, 23/8, a UFRGS divulgou o edital da edição 2012 de seu Concurso Vestibular. Imediatamente, resolvi dedicar algumas horas à comparação detalhada entre o edital recentemente publicado e as regras do processo seletivo imediatamente anterior.


Algumas modificações sugerem, por sua natureza, que terão pequeno impacto sobre o universo de candidatos, tais como a eliminação de parte do item 2.25, que viabilizava explicitamente a solicitação de tempo adicional por candidatos com necessidades especiais, e a inclusão do item 5.14.14, que proíbe a entrada de candidatos portando armas de fogo nos locais de prova.


Porém, as modificações mais importantes dizem respeito ao procedimento de cálculo dos escores padronizados, justamente o cerne da polêmica gerada a partir da publicação dos boletins de desempenho do Concurso Vestibular 2011 e que motivaram a publicação de três extensos artigos nesse mesmo blog (leia a íntegra dos três artigos aqui, aqui e aqui).


Pois não é que a UFRGS alterou justamente o artigo 5.15.8, que delineia o procedimento de cálculo dos escores padronizados das provas objetivas do Vestibular e do ENEM?


Observe a versão 2011 do referido item:

5.15.8 -   Para cada uma das provas realizadas pelo candidato, assim como para o resultado das provas objetivas do exame do ENEM, será calculado o escore padronizado da mesma, por meio da seguinte fórmula:



Agora perceba as suaves diferenças, especialmente na legenda da fórmula, do mesmo item na versão 2012:

5.15.8 -   Para cada uma das provas realizadas pelo candidato, assim como para o resultado das provas objetivas do exame do ENEM, será calculado o escore padronizado, por meio da seguinte fórmula:


É flagrante a nova referência paralela aos escores "brutos" da UFRGS e aos escores "resultantes" do ENEM, além da supressão da palavra "brutos" na descrição da média. Essa mudança, tecnicamente, oferece à UFRGS a possibilidade de utilizar quaisquer escores que o INEP venha a fornecer na construção do escore padronizado correspondente ao ENEM, independentemente de serem brutos, como foram disponibilizados e utilizados em 2010, ou padronizados segundo a Teoria da Resposta ao Item (TRI), como os que a Universidade optou por utilizar em 2011.


Infelizmente, tais modificações não reparam os potenciais danos do passado recente.


Em janeiro último, a assessoria de imprensa da reitoria da UFRGS (o reitor optou por não se pronunciar) e os representantes da Comissão Permanente de Seleção (COPERSE) reiteraram, em uníssono, que os escores brutos não haviam sido fornecidos pelo INEP. A partir dessa constatação e com o objetivo de manter os prazos de publicação da lista de aprovados e, consequentemente, dar sustentação ao calendário letivo, a organização do concurso optou por usar os escores padronizados segundo a TRI ao invés dos escores brutos. Na ocasião, os porta-vozes dos departamentos em questão não souberam explicar as razões que levaram o INEP a negligenciar, em 2011, o fornecimento de dados estruturalmente idênticos aos que haviam sido disponibilizados em 2010.


Assumindo a legitimidade dessa decisão, poderíamos presumir que o edital havia sido respeitado, e, portanto, não haveria a necessidade de modificação nas regras de cálculo. Diante da confirmação de tal alteração, fica confirmado que o edital do Concurso Vestibular 2011 foi, de fato, descumprido no que se refere ao cálculo do escore padronizado ENEM.


Especula-se que a Universidade possa ter verificado a necessidade de se minimizar a ilegalidade em função dos potenciais transtornos que a geração de um novo listão de aprovados certamente causaria, mesmo que ficasse comprovado que as diferenças entre os nomes publicados fossem mínimas. Assim, o mais provável é que tanto os beneficiados quanto os prejudicados pela decisão arbitrária da UFRGS de mudar as regras com o jogo em andamento permaneçam anônimos.


Não se questiona o direito de quem já está matriculado ter respeitada sua condição de aprovado; o que se lamenta, porém, é a hipótese de nomes terem ficado de fora da lista de aprovados de 2011 em função de decisões cuja ilegalidade ficou confirmada.


Infelizmente, pode-se afirmar com amplo grau de confiança que a última terça-feira será lembrada apenas como o dia em que o Concurso Vestibular 2011 ficou eternizado como o único, até hoje, cujo resultado não é inquestionável. Só nos resta, portanto, lamentar que manchas semelhantes às que marcaram as duas últimas edições do ENEM tenham atingido o processo seletivo de nossa mais importante e respeitada Universidade.

O princípio fundamental da aprovação no Vestibular: "Hay que echarle ganas"

18 de julho de 2011 2

Pergunte a um professor o que ele acha de sua profissão e você testemunhará, com raras exceções, uma declaração apaixonada. Poucas profissões oferecem tanto a possibilidade concreta de se fazer a diferença em vidas alheias como chances frequentes de receber demonstrações espontâneas de gratidão. Porém, talvez a atividade mais recompensadora vinculada ao amadurecimento de um professor seja a possibilidade de orientar seus alunos baseando tais recomendações em experiências pessoais e não, simplesmente, em intuição.

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Em 1997, aos 22 anos de idade, tive a fantástica oportunidade de trabalhar como estagiário no escritório californiano de uma empresa multinacional. Além do enorme enriquecimento profissional que tal experiência me proporcionou, a necessidade de construir uma rede de contatos a partir da estaca zero me obrigou a desenvolver habilidades sociais que, hoje, eu valorizo profundamente e tento constantemente aprimorar.

Uma das iniciativas que tomei foi a de participar, mediante o convite de um colega de trabalho, de uma equipe de futebol amador. É bem verdade que meu passaporte brasileiro teve bem mais influência em minha manutenção na equipe do que meu talento futebolístico. Afinal de contas, eram 9 mexicanos, um americano (o referido colega) e eu. Penso, até hoje, que conquistei a confiança do treinador após um desempenho notável em meu primeiro treinamento — aliás, o único, já que depois dele passei uma semana mal conseguindo caminhar. E é justamente esse treinador quem, 14 anos depois, me motiva a escrever essas linhas.

Mario era um mexicano típico, tanto na aparência quanto na atitude. Nunca soube de detalhes sobre sua vida, mas não imagino que sua história seja diferente da vivida por seus milhares de conterrâneos que partem para a Califórnia em busca de oportunidades e, muitas vezes, de dignidade. Ao longo dos cerca de 6 meses em que convivemos, não lembro de vê-lo sorrir. Os momentos em que ele manifestava alguma emoção pareciam invariavelmente vinculados às suas atividades como treinador. O futebol, como não tardei a descobrir, parece encantar mais aos mexicanos do que a nós mesmos, nascidos no mais renomado celeiro mundial de craques da bola.

Pois esse sujeito introspectivo ensinou a mim algo que só pessoas de poucas palavras, como ele, têm a habilidade de tornar inesquecível.

No segundo tempo de uma partida qualquer, Mario decidiu me substituir. Enquanto eu caminhava até a beira do gramado, talvez minhas feições tenham inadvertidamente transmitido os sentimentos mistos que sua decisão desencadeou, já que, embora minha condição física estivesse longe da ideal, eu não esperava ser substituído. Ao aproximar-me do banco de reservas, a voz grave e pausada de Mario presenteou-me com uma lição de vida:

— Gustavo, no te quiero parado, te quiero corriendo! Hay que echarle ganas!

Evidentemente, "echarle ganas" ainda não tinha registro em meu banco de dados pessoal de expressões do espanhol mexicano, que vasculhei implacavelmente enquanto retomava o fôlego sentado ao lado do treinador. Porém, graças a alguns de meus companheiros de equipe, construí rapidamente alguns de seus significados equivalentes: "não medir esforços", "dar o melhor de si", "dedicar-se com entusiasmo", "entregar-se completamente na busca pelo objetivo final" .

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Com a chegada do segundo semestre, a aparente proximidade dos vestibulares de verão faz com que muitos alunos busquem informações sobre histórias de sucesso com o propósito de otimizar suas preparações. Não raro, tal procedimento acaba desencadeando mais frustração do que motivação, já que os campeões do vestibular compõem um grupo altamente heterogêneo: os que estudaram ininterruptamente, sete dias por semana, ao longo de vários anos são colocados lado a lado com os que passaram, recém saídos do Ensino Médio, na primeira tentativa. É claro que não se pode esperar consistência nos aconselhamentos que têm origem em integrantes de cada subgrupo, o que, via de regra, acaba gerando mais dúvidas do que esclarecimentos.

Eis que surge, então, a razão de ser deste artigo: para passar no vestibular, aprendi que há um princípio fundamental que competentemente traduz a essência de tudo que é necessário.

"Hay que echarle ganas".

Futuros líderes de desempenho no vestibular não costumam titubear diante de perguntas que normalmente causam desconforto à ampla maioria de seus concorrentes. Onde você pretende estar estudando no ano que vem? Quem você imagina que serão seus colegas? E seus professores? Você já abriu ou está disposto a abrir mão de atividades que julga prazerosas em troca desse objetivo? Quais? A decisão por esse caminho foi tua ou de terceiros? Você acredita que pode passar? Você já decidiu quem vai abraçar quando encontrar seu nome no listão? Você está decidido a fazer do próximo o seu último vestibular? Qual o tamanho da tua vontade?

Estatísticas do dia-a-dia vêm reforçando minha convicção de que a aprovação no vestibular depende cada vez mais de fatores intangíveis, como os sugeridos implicitamente pela expressão "echarle ganas", em detrimento do simples acúmulo de informação. O conteúdo é sempre exageradamente extenso, o que converte a busca pelo desempenho perfeito em uma missão impossível, e o tempo de preparação é curto para todos. Isso, de certa forma, coloca os candidatos mais bem preparados em uma relativa similaridade de condições e permite verificar a observação de que, no final das contas, leva a vaga quem a quer com mais intensidade, trabalha mais por ela e é, portanto, mais merecedor.

O que me conduz a uma última questão: afinal, qual o tamanho do teu sonho?

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A propósito: na partida seguinte, Mario me deixou no banco de reservas, e ali permaneci até o final da partida.

Em um mundo de indiferentes, desinteresse é ouro

24 de abril de 2011 2

Sou fã confesso do desinteresse. Dependo dele para sobreviver e continuar me transformando.


Talvez essa afirmação soe estranha para quem sempre espera de um professor o incentivo permanente aos estudos e o cultivo incondicional da motivação, instrumento cada vez mais necessário especialmente a jovens cujas trajetórias profissionais estão iniciando e que passarão a ter contato com as agruras do mercado de trabalho. Haverá quem diga que o desinteresse estudantil deve ser fortemente combatido, mesmo que exija medidas disciplinares para tal — e é alarmante a quantidade de alunos que já foram advertidos ou até mesmo sacados de sala de aula por serem incapazes de disfarçar sua falta de interesse de maneira compatível com o esperado em um ambiente de aprendizado.


O que não se costuma questionar, nesses casos, é a origem desse comportamento: para que o desinteresse se manifeste, é necessário que o aluno realize uma avaliação preliminar multifacetada que, nos tempos de  dúvidas em paralelo e respostas virtualmente instantâneas em que vivemos, costuma acontecer muito rápido. Ao ser apresentado a um assunto novo, o aluno pode questionar imediatamente as razões que levaram tal tópico a ser proposto, dimensionar o tempo necessário para sua assimilação (e cruelmente condicionar ao resultado desse cálculo a validade de tal investimento) e até mesmo presumir a capacidade que seu professor terá de expor competentemente o conteúdo com base nas aulas antecedentes. Como se não bastasse, assuntos complexos tomam tempo, e o Google normalmente responde rápido.


Desinteresse, portanto, requer dispêndio de energia. Difícil, mesmo, é lidar com a indiferença.


O desinteressado diz "andei pensando e cheguei à conclusão de que isso não me interessa, pelo menos da maneira como me está sendo exposto". Já o indiferente pensa "por mim tanto faz aprender isso ou não, eu preferia estar fazendo outra coisa mesmo".


A impressão que tenho é de que, cada vez mais, vivemos em um mundo de indiferentes, e é também por isso que me encho de alegria quando esbarro em desinteressados. Quem não se interessa está, indiretamente, propondo a mim um desafio: "faça com que eu mude de ideia em relação a esse assunto". Mostre-me um professor que não gosta de ser desafiado, e eu apontarei alguém que está na profissão errada!


A indiferença, pelo contrário, é altamente destrutiva na medida em que não oferece ao professor a oportunidade de se sentir motivado a se reinventar. Afinal, o mínimo que um bom professor precisa receber de seus alunos é o benefício da dúvida.


Portanto, dou meu melhor incentivo a todos os alunos, concurseiros, vestibulandos e assemelhados para que sejam críticos e não tenham nenhum pudor em se revelar desinteressados, parcial ou totalmente, em relação aos conteúdos que estudam. E quando os sintomas de desinteresse se manifestarem, façam uma consulta rápida ao oráculo do Google: "para que serve tal coisa?". É possível que, dentre os muitos resultados de busca que provavelmente serão fornecidos, um ou dois deles possam fazer com que você invista um pouco mais de tempo na compreensão do assunto em questão.


E se você estiver em dúvida se é um desinteressado ou um indiferente, lembre que indiferentes não usam o Google.



Ensaio: O Réveillon de Março

17 de março de 2011 2

No Brasil, muita gente se determina a cumprir suas resoluções de ano novo somente depois da quarta-feira de cinzas. Ao mesmo tempo, há também quem diga que, se as mudanças de hábito propostas não foram efetivadas até o final de janeiro, é melhor transferi-las, com toda a discrição, para o ano seguinte. Afinal de contas, é bastante provável que ninguém lembre de nossa própria carta de intenções quando julho chegar — nem mesmo nós mesmos!


A passagem acima revela algumas das características essenciais de nosso povo. Lidamos com o próprio talento procrastinador com leveza ímpar. Deixar tarefas importantes para a última hora é um costume com ares de esporte nacional. É provável que esse traço de personalidade encontre justificativa na leniência com que costumamos agir em relação às regras, explícitas ou não, que pautam nossas vidas. Presume-se que nenhum adiamento causará danos tão expressivos a ponto de não ser possível minimizá-los com amplas doses de criatividade argumentativa. Paralelamente a isso, merece registro a impressionante volatilidade de nossa memória coletiva. Mesmo quando somos informados a respeito de fatos altamente impactantes, parecemos estar programados para voltar a agir, em tempo recorde, como se nada tivesse acontecido.


Procrastinação, leniência e memória volátil são elementos indispensáveis a considerar ao fundamentar uma análise dos processos seletivos do Ensino Superior atualmente vigentes no cenário educacional brasileiro. Em março de 2009, o Ministério da Educação surpreendeu ao propor uma ampla reformulação do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). A proposta de aplicação das provas em um prazo de cerca de 6 meses transmitiu imediatamente a ideia de que os momentos do anúncio e da realização estavam próximos demais. A sensação imediata foi a de que não havia nenhuma chance de o exame ser preparado com o cuidado e o rigor formal indispensáveis a um projeto tão ambicioso.


Os maus pressentimentos, como sabemos, se confirmaram. Ficou evidente, contudo, a enorme habilidade demonstrada na minimização dos episódios por seus responsáveis diretos, revelada por uma tolerância muito acima da média a falhas que, em qualquer concurso sério, seriam inadmissíveis e, fatalmente, colocariam o processo inteiro em xeque. Talvez o ápice local da indiferença em relação ao que é cientificamente aceitável tenha sido a utilização, pela UFRGS, de escores do ENEM em evidente desacordo com o edital de seu concurso vestibular no cálculo da pontuação final de seus participantes. O ineditismo desse episódio não só coloca um asterisco na lista de aprovados de 2011, mas também sugere que o futuro pode ser ainda mais sombrio caso o ENEM continue ganhando força no processo seletivo de nossa principal universidade federal.


Essa permissividade já havia se refletido previamente no comportamento de inúmeros alunos que pareceram se sentir à vontade ao desafiar a segurança do exame nacional. Relógios de pulso e telefones celulares, por exemplo, foram flagrados em inúmeros locais de prova, contrariando regras elementares do edital. Há relatos de fiscais que, impossibilitados de comparecerem a um dos dias do exame, enviaram familiares como substitutos. Considerando a importância adquirida pelo ENEM como caminho único e indispensável na rota de ingresso em inúmeras instituições federais de Ensino Superior — incluindo aí, é claro, a nossa UFCSPA— temos ingredientes que se assemelham a uma obra do realismo fantástico.


Pessoalmente, acho mais razoável atribuir tais transgressões às brechas sugeridas pela imagem de fragilidade do exame do que à desinformação dos que dele participaram. Afinal, organizadores e participantes pareciam compartilhar a consciência velada de que, em poucas semanas, ninguém mais falaria disso. O Carnaval acabou de confirmar que já temos, em meados de março, outras prioridades em nosso renovado Réveillon — infelizmente, uma conclusão previsível em um país de memória curta.


Em 2011, há indícios de que o ENEM terá duas edições. E agora?



Bomba-relógio, capítulo 3: UFRGS realiza manobra evasiva e minimiza o fato, mas não convence

26 de janeiro de 2011 17


Conforme publicado na edição de ontem de Zero Hora, o reitor em exercício da UFRGS, Rui Vicente Oppermann, optou por se manifestar a respeito dos potenciais problemas originados pela mudança no critério de uso da nota do ENEM apenas por intermédio de sua assessoria de imprensa. Em síntese, os pontos principais da manifestação foram:


— segundo o reitor, a decisão da universidade estaria em conformidade com o item 6.2.2 do Edital do concurso, que não especifica quais dados do ENEM seriam utilizados na composição do argumento de concorrência final;


— a Universidade levou em consideração as notas do ENEM, calculadas segundo a Teoria da Resposta ao Item (TRI), porque tais notas foram os únicos dados divulgados pelo MEC;


— a assessoria não soube responder as razões que fizeram o MEC não disponibilizar os números totais de acertos (em outras palavras, os escores brutos) dos candidatos da UFRGS optantes pelo uso do ENEM, ao contrário do ocorrido em 2010.


Os Furos do Queijo Suíço

Não é sequer necessária uma análise cuidadosa do item 6.2.2 do Edital para perceber que ele faz referência a outro item do mesmo documento:


6.2.2 -  Para todos os candidatos que formularam opção pelo aproveitamento do resultado obtido nas provas objetivas do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), será calculado o escore padronizado EPE, conforme definido no item 5.15.8, com base na média e desvio padrão dos escores obtidos no ENEM por esses candidatos.


Conforme venho sustentando desde o primeiro capítulo desta série, o item 5.15.8 especifica justamente que os escores padronizados de cada uma das provas do concurso, inclusive o conjunto das provas objetivas do ENEM, deveriam ter sido calculados a partir dos escores brutos de cada uma delas:


5.15.8 -   Para cada uma das provas realizadas pelo candidato, assim como para o resultado das provas objetivas do exame do ENEM, será calculado o escore padronizado da mesma, por meio da seguinte fórmula:



Na prática, voltamos à estaca zero. A questão principal, representada pelo uso de escores padronizados segundo a TRI ao invés do número total de acertos nas 4 provas objetivas do ENEM, não foi endereçada. Peço desculpas se estou me tornando repetitivo, mas é inevitável: o fato do item 6.2.2 não especificar como o aproveitamento dos resultados deveria acontecer não altera a necessidade de utilização dos escores brutos das provas, conforme estabelecido no item 5.15.8, para cálculo dos escores padronizados. Se houver uma definição amplamente aceita de escore bruto, ela deve ser respeitada precisamente nesse ponto.


A Rota Alternativa

Uma possível rota de escape para a UFRGS se confirmou no momento em que houve a revelação de que o MEC não havia disponibilizado os escores brutos. Sem entrar no mérito de um provável jogo-de-empurra envolvendo esse ponto específico,  há no Edital um item importante de que a UFRGS poderia ter lançado mão diante do recebimento dessa notícia:


2.5.2-   Caso o resultado do ENEM seja disponibilizado para a UFRGS em data que implique em prejuízo para os ingressantes ou para o semestre letivo da UFRGS, a opção pelo uso do resultado obtido nas provas objetivas do referido Exame será desconsiderada para todos os candidatos.


Portanto, para que os mesmos cálculos realizados em 2010 pudessem ser realizados novamente em 2011, era fundamental que o MEC disponibilizasse novamente os escores brutos,  já que não houve mudanças nos pontos-chave do Edital. Diante da disponibilização apenas de escores padronizados, representados pelas notas do ENEM, em substituição aos brutos, caberia à UFRGS solicitar especificamente os números de acertos de cada candidato.  Em caso de negativa, haveria previsão no Edital autorizando a UFRGS a simplesmente descartar a nota do ENEM para todos os candidatos, sob o argumento de que haveria prejuízo para os ingressantes ou para o semestre letivo.


A lógica é simples: se o resultado do ENEM foi disponibilizado em formato diferente do exigido pelo Edital, então, na prática, o resultado não foi fornecido pelo MEC. Nessas condições, o Edital estaria sendo integralmente respeitado, e a UFRGS não estaria se colocando espontaneamente em uma posição de submissão às limitações impostas pelo MEC em relação aos dados que decide fornecer.


A essa altura, considerando a aparente "Maldição do ENEM” a que a UFRGS está sendo submetida, estou aos poucos me convencendo de que essa teria sido a saída mais honrosa.


O Caminho a Partir de Agora

Confesso que me sinto um pouco desgastado em função dos desdobramentos gerados a partir das revelações e análises dos últimos três dias. Embora eu saiba que o assunto é extremamente delicado e mexe com interesses de vários grupos que se formaram a partir da divulgação da lista de aprovados na última sexta-feira — incluindo, especialmente, candidatos aprovados receosos de perder suas vagas e seus pares reprovados que renovaram suas esperanças a partir dessa discussão —, mantive a firme iniciativa de apontar as aparentes falhas por reconhecer, em nossa Universidade, uma instituição de reconhecimento nacional compatível com sua história centenária. A tolerância a interpretações duvidosas do documento que rege o concurso me parece incompatível com a tradição de transparência e rigor técnico daquela que foi recentemente indicada pelo MEC como a segunda melhor universidade do Brasil e cujo brasão tenho a honra de exibir em meu diploma.  A minimização do episódio sem o respaldo de fundamentos científicos potencializa a eventual migração dessa discussão para o campo jurídico, âmbito em que minha contribuição se tornaria imediatamente irrelevante.


Portanto, dou por encerrada aqui minha argumentação, na esperança de que as discussões geradas a partir dela sirvam para que possamos manter nossa principal Universidade permanentemente afastada de controvérsias e questionamentos tais como aqueles a que vêm sendo sucessivamente submetidas as edições do ENEM.

Bomba-relógio, capítulo 2: Esclarecimento da UFRGS confirma as especulações, mas os problemas continuam

24 de janeiro de 2011 29

E eis que então a UFRGS se manifestou, através da página oficial do Vestibular 2011, e confirmou as especulações lançadas ontem neste mesmo blog. (Se você não leu o artigo anterior, é altamente recomendável que faça isso antes de ler o artigo abaixo — para acessá-lo, basta seguir este link.)


Os Esclarecimentos da UFRGS

Antes de mais nada, é importante compararmos, textualmente, os esclarecimentos prestados pela UFRGS a respeito do aproveitamento da nota do ENEM nos últimos dois vestibulares. Tomei a liberdade de destacar os trechos mais importantes e acrescentar, em vermelho, meus comentários após cada esclarecimento.


2010 (acesse aqui o esclarecimento original)


"Entendendo o Resultado do ENEM


O resultado do ENEM divulgado pelo INEP para cada uma das provas realizadas é um valor entre 0 e 1000 produzido de acordo com a Teoria de Resposta ao Item (TRI). Este valor não representa e tampouco é proporcional ao número de acertos dos candidatos nas diferentes provas. Segundo a Teoria, um candidato com número de acertos menor poderá produzir resultado superior a candidato com número de acertos maior, em razão do nível de dificuldade das questões (se você quiser saber mais clique aqui).

 

O resultado do ENEM divulgado pela UFRGS como escore bruto é a soma do número de acertos de cada uma das provas objetivas do ENEM. Este número pode ser conferido pelos candidatos pela simples soma do número de acertos obtidos em cada uma das provas objetivas realizadas. Com base nos escores brutos dos candidatos da UFRGS optantes pelo uso do ENEM, é calculada a média e desvio padrão destes escores. O escore padronizado relativo ao ENEM divulgado pela UFRGS é o resultado da padronização deste escore bruto com base nesta média e desvio padrão calculados e divulgados, da mesma forma como é feito em todas as outras provas da UFRGS, conforme Manual do Candidato."

 

(O texto deixa claro que as notas divulgadas pelo INEP não são proporcionais aos números de acertos dos candidatos nas provas e, portanto, não podem ser tomados como sinônimos ou substitutos de escores brutos. A partir daí, a UFRGS adota a soma do número de acertos nas 4 provas objetivas do ENEM como sinônimo de escore bruto — em outras palavras, trata tal soma como uma única grande prova de 180 questões.)


2011 (acesse aqui o esclarecimento original)


"Informações sobre a utilização do Resultado do ENEM


Para todos os candidatos do Concurso Vestibular 2011 que fizeram a opção de utilização do ENEM de 2010, a UFRGS utiliza o resultado alcançado pelo candidato no conjunto das quatro provas objetivas realizadas no ENEM (Ciências Humanas e suas Tecnologias, Ciências da Natureza e suas Tecnologias, Linguagens, Códigos e suas Tecnologias e Matemática e suas Tecnologias).

 

Os resultados do ENEM para cada uma das quatro provas objetivas realizadas em 2010 foram divulgados pelo INEP de acordo com a Teoria de Resposta ao Item (TRI).

 

Para calcular o resultado do candidato no ENEM, a UFRGS divide por 10 o escore obtido pelo candidato em cada uma das quatro provas objetivas e calcula a média das mesmas, resultando valores compreendidos entre 0 e 100.

 

Assim, o resultado do ENEM divulgado pela UFRGS como escore bruto corresponde à média dos resultados divulgados pelo ENEM, de acordo com a Teoria de Resposta ao Item, convertidos para uma escala entre 0 e 100.

 

Com base nesses escores brutos calculados para os candidatos da UFRGS optantes pelo uso do ENEM, foram calculados a média e o desvio padrão desses escores. O escore padronizado relativo ao ENEM utilizado pela UFRGS é o resultado da padronização deste escore bruto, da mesma forma como é feito em todas as outras provas da UFRGS, conforme o Manual do Candidato do CV 2011."

 

(Em outras palavras, a UFRGS confirma os cálculos que publiquei ontem no blog e, contradizendo a argumentação de 2010, toma a média das notas do ENEM calculadas segundo a TRI como sinônimo de escore bruto em 2011. Porém, a alegação de que o cálculo é feito da mesma forma que em todas as outras provas da UFRGS presumiria a utilização do número de acertos como escore bruto, e não da média das notas do ENEM em questão, já que as notas do ENEM são, naturalmente, padronizadas segundo os princípios da TRI.)


Mas, afinal de contas, o que é “Escore Bruto”?

Em minhas buscas na Internet, não localizei definições em português para o termo “Escore Bruto”. Porém, para o equivalente em inglês (“Raw Score”) há várias definições em sites de organizações respeitadas no meio científico. Uma delas é o Dicionário de Ciência e Tecnologia da editora McGraw-Hill, cujo conteúdo está disponível no site http://accessscience.com. Segundo a definição original em inglês, que tomei a liberdade de traduzir livremente, “Escore Bruto” é sinônimo de “Qualquer número como originalmente aparece em um experimento; por exemplo, ao avaliar resultados de testes, os escores brutos expressam o número de respostas corretas, não corrigidas para posicionamento na população de referência.


(Ora, vejam só! Se o que a nota do ENEM obtida a partir da TRI fornece é justamente uma correção dos escores brutos dos candidatos para posicionamento no universo de participantes do ENEM, então tais notas não podem voltar a ser utilizadas como escores brutos!)


Definições semelhantes estão disponíveis nos sites da Merriam-Webster, da Dictionary.com, que se baseia no consagrado dicionário Random House, e, é claro, da Wikipedia (embora eu seja sempre receoso de tomar essa última fonte como referência, mas incluo para fins de entretenimento!). Todas as definições, sem exceção, convergem no que diz respeito ao fato de que um escore bruto não pode ter sido transformado ou submetido a qualquer ajuste estatístico — como, por exemplo, a geração de uma nota associada segundo a Teoria da Resposta ao Item.


Embora as definições dos elementos estatísticos utilizados no Vestibular 2011 não estejam disponíveis na página do concurso, no edital ou no manual do candidato, a própria UFRGS define Escore Bruto em um documento de esclarecimentos publicado no longínquo Vestibular 2001 e ainda disponível online:


"É o número de acertos do candidato em uma prova. Com exceção da Redação, este escore estará compreendido entre 0 e 30, que é o número de questões das provas." (em 2001, as provas da UFRGS ainda eram realizadas em 5 dias, e cada prova tinha 30 questões)

 

O Resumo da Ópera

Ao que tudo indica, estamos diante de algumas inconsistências históricas e, possivelmente, também formais:


— A UFRGS considera, no edital e no manual do candidato, que os escores padronizados de cada prova são calculados a partir dos escores brutos, ou seja, segundo as definições acima, a partir do número de acertos dos candidatos em cada prova.


— Em 2010, a UFRGS confirmou a definição de escore bruto, adotando-o como sinônimo de "soma do número de acertos de cada uma das provas objetivas do ENEM" ao mesmo tempo em que afirma que o resultado de cada prova do ENEM segundo a TRI "não representa e tampouco é proporcional ao número de acertos dos candidatos nas diferentes provas".


— Em 2011, a UFRGS retrocede e resolve adotar a "média dos resultados divulgados pelo ENEM, de acordo com a Teoria de Resposta ao Item, convertidos para uma escala entre 0 e 100" como nota do ENEM, o que evidentemente contradiz tanto a definição de escore bruto utilizada tradicionalmente pela Universidade quanto a justificativa para a não-adoção das notas do ENEM em 2010.


O Precedente Perigoso

Em uma única frase: “flexibilizar o conceito de escore bruto e interpretá-lo como sinônimo de uma média calculada a partir de resultados estatisticamente transformados e que, ainda por cima, não são diretamente proporcionais ao número de acertos do candidato”.


Isso não tem paralelo nem na redação, cuja correção é obviamente subjetiva, mas resulta, ainda assim, em um escore bruto. Além disso, mesmo na redação, quem faz mais pontos recebe a maior nota. No ENEM, segundo a TRI, não é essa a realidade.


A Conclusão Preocupante

O mais surpreendente disso tudo é que a UFRGS, nossa principal e mais respeitada Universidade, resolveu abrir mão de sua definição tradicional de escore bruto e tomá-lo como sinônimo de notas estatisticamente transformadas, cujo cálculo é revestido de muita nebulosidade. Afinal, embora a transformação estatística seja evidente, o INEP não publica nenhum esclarecimento detalhado a respeito de como tais notas são calculadas.


Tive a honra e o prazer de ser aluno da UFRGS e, portanto, me sinto plenamente à vontade para, mais uma vez, insistir: é a credibilidade do mais tradicional processo seletivo do Estado, responsável pela seleção dos alunos de nossa Universidade de referência, que está em jogo.