As lideranças da educação brasileira parecem ter a missão diária de provar que Murphy estava certo.
Nada é tão ruim que não possa piorar.
Se a carreira de professor, no Brasil, não está no fundo do poço, é sinal de que o poço não tem fundo.
Além das questões óbvias relacionadas à remuneração, estudantes que decidem ser professores costumam ser convidados por parentes e amigos a prestar esclarecimentos mais detalhados. Difícil entender o que levaria jovens talentosos a se submeterem às agruras do dia-a-dia de uma profissão que passa por uma crise de autoridade sem precedentes.
Alunos indiferentes, péssimas condições de trabalho, horas extras não remuneradas, falta de reconhecimento profissional — não é de se surpreender que alunos de desempenho destacado estejam cada vez mais longe dos cursos de licenciatura. Aliás, o distanciamento não é exclusividade dos mais brilhantes: a sobra de vagas apontada pelo censo de 2010 mostrou que o desinteresse é geral.
Pois o governo encontrou uma solução que desafia a lógica: sob a justificativa de evitar que candidatos com baixo rendimento se tornem professores, o Ministério da Educação tornou legítimo o estabelecimento de uma nota de corte no Enem para candidatos ao curso de pedagogia e às diferentes licenciaturas.
Em outras palavras, o que a nova lei sugere é que a culpa pela má qualidade do ensino brasileiro é dos egressos de tais cursos. Esquecem, porém, que o desempenho estudantil desses alunos é função do mesmo sistema educacional cujos problemas estão sendo atribuídos a eles.
Mais um caso clássico do ovo e da galinha.
Melhorar as condições de trabalho dos professores em atividade? Tornar a carreira atraente aos bons alunos por intermédio de salários dignos? Como assim???
O resultado prático imediato dessa decisão será a intensificação do esvaziamento dos cursos de licenciatura e pedagogia.
Já a consequência de médio prazo será a propagação da escassez — que, aliás, já começa a se perceber — de professores em todos os níveis, em especial o nível fundamental e a educação infantil.
Resta a dúvida: quem serão os professores de nossos filhos e netos?










