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A incrível exigência de nota mínima para licenciaturas no Enem

08 de abril de 2013 0

As lideranças da educação brasileira parecem ter a missão diária de provar que Murphy estava certo.

Nada é tão ruim que não possa piorar.

Quadro Negro

Se a carreira de professor, no Brasil, não está no fundo do poço, é sinal de que o poço não tem fundo.

Além das questões óbvias relacionadas à remuneração, estudantes que decidem ser professores costumam ser convidados por parentes e amigos a prestar esclarecimentos mais detalhados. Difícil entender o que levaria jovens talentosos a se submeterem às agruras do dia-a-dia de uma profissão que passa por uma crise de autoridade sem precedentes.

Alunos indiferentes, péssimas condições de trabalho, horas extras não remuneradas, falta de reconhecimento profissional — não é de se surpreender que alunos de desempenho destacado estejam cada vez mais longe dos cursos de licenciatura. Aliás, o distanciamento não é exclusividade dos mais brilhantes: a sobra de vagas apontada pelo censo de 2010 mostrou que o desinteresse é geral.

Pois o governo encontrou uma solução que desafia a lógica: sob a justificativa de evitar que candidatos com baixo rendimento se tornem professores, o Ministério da Educação tornou legítimo o estabelecimento de uma nota de corte no Enem para candidatos ao curso de pedagogia e às diferentes licenciaturas.

Em outras palavras, o que a nova lei sugere é que a culpa pela má qualidade do ensino brasileiro é dos egressos de tais cursos. Esquecem, porém, que o desempenho estudantil desses alunos é função do mesmo sistema educacional cujos problemas estão sendo atribuídos a eles.

Mais um caso clássico do ovo e da galinha.

Melhorar as condições de trabalho dos professores em atividade? Tornar a carreira atraente aos bons alunos por intermédio de salários dignos? Como assim???

O resultado prático imediato dessa decisão será a intensificação do esvaziamento dos cursos de licenciatura e pedagogia.

Já a consequência de médio prazo será a propagação da escassez — que, aliás, já começa a se perceber — de professores em todos os níveis, em especial o nível fundamental e a educação infantil.

Resta a dúvida: quem serão os professores de nossos filhos e netos?

Preventivos x Reativos: como o brasileiro sabota a si próprio

04 de abril de 2013 0

É da natureza do brasileiro ser reativo. Ou, pelo menos, é o que nos resta acreditar.

Após o incêndio na Boate Kiss resultar na morte de mais de 240 pessoas, organiza-se uma força tarefa para vistoriar e interditar bares e casas noturnas.

Só depois de um menino ter 3 dedos amputados em função de um acidente em um shopping de Porto Alegre, a Prefeitura anuncia que irá vistoriar todas as escadas rolantes de estabelecimentos do gênero.

(E a situação está longe de ser inédita. Um acidente praticamente idêntico ocorreu em Capão da Canoa em 2009.)

Com relação à educação, o comportamento das pessoas é o mesmo. Ao invés de tomar providências com antecedência, as pessoas insistem em adiar seus estudos até a última hora — o que, normalmente, representa as vésperas da prova. Como se não bastasse, procuram soluções mágicas para adquirir conhecimento como quem vai à farmácia em busca de um comprimido para aliviar os sintomas de um resfriado.

Os resultados costumam ser sofríveís, pois qualquer conteúdo é volátil quando discutido a toque de caixa.

Mais tarde, consumado o fracasso, as mesmas pessoas passam a investigar alternativas para resolver problemas criados por sua própria inconsequência.

Muito se fala que o maior desafio para o crescimento do país é a educação. Mas será que a mudança preliminar mais importante não seria comportamental?

Candidato a estágio? Capriche no email de apresentação!

03 de abril de 2013 1

Certas notícias só surpreendem quem realmente não tem qualquer familiaridade com a realidade educacional brasileira.

Uma pesquisa realizada pelo Nube (Núcleo Brasileiro de Estágios) virou notícia nos portais UOL e O Globo por revelar que cerca de 30% dos mais de 7 mil candidatos a estágio que participaram, no ano passado, dos processos seletivos realizados pelo núcleo foram eliminados em função de erros de português.

Ambos os artigos apresentam exemplos de uma das tarefas a que os candidatos —  todos eles, supostamente, de nível médio e superior — foram submetidos: um tradicional ditado de 30 palavras. Destacam-se, entre os resultados, algumas pérolas surrealistas. Um candidato classifica como “sumibisso” aquele sujeito altamente obediente e dócil, e outro indica “flequicivel” como sinônimo de maleável.

Exemplo de ditado

Uma amostragem que inclui mais de 7 mil pessoas tem enorme valor estatístico, mas não é preciso ir tão longe para confirmar seus resultados. Recentemente, tive a oportunidade de organizar dois processos seletivos para contratação de estagiários. Uma das lições mais importantes que aprendi, na prática, é surpreendentemente simples: caso eu fosse obrigado a tomar a decisão de contratação a partir de um único instrumento de seleção, esse seria, sem nenhuma dúvida, o primeiro email.

Repare que não estou me referindo à um currículo, por melhor que seja e ainda que cuidadosamente formatado segundo os padrões tradicionais. Saber expressar as próprias ideias em uma mensagem introdutória tem impacto muito maior do que as pessoas normalmente imaginam. Em um contexto de diálogos cuja liberdade é muitas vezes limitada pela opressão dos caracteres contados, redigir um texto original e criativo para apresentar a si próprio é uma demonstração de ousadia. Se somarmos a isso o respeito à norma culta, habilidade cada vez mais rara, temos todos os ingredientes de uma combinação vitoriosa.

Portanto, se você estiver procurando uma vaga de estágio, aceite meu conselho: capriche no email de apresentação!

Vestibular UFRGS 2014 e o Enem: mudanças à vista?

01 de abril de 2013 10

No último dia 26, veio à tona a notícia de que o tratamento da nota do Enem estaria prestes a mudar nas maiores universidades federais do país ainda em 2013. Segundo o artigo, a UFRGS , em nota, admitiu que “o vestibular de 2014 poderá ter mudanças relacionadas ao Enem, mas esse tema ainda não foi colocado em discussão”. Embora a notícia não forneça um link para a versão oficial da nota em questão, o que de certa forma dá margem ao questionamento de sua confiabilidade, podemos todos começar a nos preocupar caso seu conteúdo esteja alinhado com o posicionamento da Universidade.

Prova objetiva

Desde 2009, quando o ENEM adquiriu uma importância sem precedentes ao passar a ser utilizado de modo complementar ou até mesmo em substituição aos vestibulares tradicionais, alunos, pais e professores reagem como gatos escaldados sempre que surgem novidades: o histórico de problemas diretamente relacionados com a aplicação do Exame Nacional se manteve consistente nas edições de 2009, 2010, 2011 e 2012. A UFRGS, ao contrário, manteve a tradição de rigor científico e cuidado na aplicação do principal processo seletivo do sul do país — exceção feita, é claro, à edição de 2011, em que a denúncia feita nesse mesmo blog de que o uso da nota do Enem (ora, vejam só, logo ele!) havia sido feito em desacordo com o edital colocou o concurso definitivamente sob suspeita.

Feitas as considerações preliminares, vejo duas possibilidades imediatas para ampliação da influência do Enem no Vestibular da UFRGS:

  • Aumento do peso dos atuais 2 para 3 — Atualmente, a nota do Enem é incorporada por intermédio de um cálculo que faz com que sua utilização sempre resulte em um benefício de peso 2. Em outras palavras, utilizar a nota do Enem jamais irá resultar em uma diminuição no argumento de concorrência do candidato que optar por sua utilização. Tecnicamente, na pior das hipóteses, a nota final poderia permanecer a mesma, mas, na prática, qualquer conjunto de escores do Enem, por mais desastroso que seja, irá resultar em um acréscimo. Nessas condições, a UFRGS pode optar pelo caminho seguro de atribuir peso 3 ao escore resultante do Enem, equiparando, assim, a importância dos escores de cada candidato no Exame Nacional ao resultado da prova de Língua Portuguesa e Redação.
  • Utilização do Enem como primeira etapa — Até 1990, os vestibulares da UFRGS eram realizados em duas etapas. A primeira, eliminatória, era aplicada em dois dias, sábado e domingo, e composta por 180 questões de múltipla escolha. Qualquer semelhança com o Enem, como se percebe, não é mera coincidência. Por intermédio dessa etapa, à época carinhosamente apelidada de “provão”, a UFRGS selecionava os candidatos mais bem preparados para realizar as provas específicas de cada curso, incluindo a questão de Redação. Não seria surpreendente, portanto, se a UFRGS optasse por utilizar o resultado do Enem como uma reedição de sua antiga primeira etapa e submetesse apenas um universo reduzido de candidatos ao seu próprio vestibular. Embora a utilização do Enem seja naturalmente controversa, haveria uma forte motivação econômica para essa decisão, resultante de uma diminuição expressiva nas proporções do concurso em comparação com o modelo atual de etapa única.

Pessoalmente, acho improvável a UFRGS optar pela oferta imediata de todas as suas vagas através do SiSU, substituindo integralmente seu consolidado vestibular pelo Enem. A reação da comunidade, que adquiriu ampla confiança nos mecanismos de seleção de sua principal universidade mas está longe de dizer o mesmo do Exame Nacional, seria brutal.

E você? O que acha que pode acontecer? Será que o vestibular da UFRGS vai mesmo dar lugar ao Enem? Deixe sua opinião nos comentários!

Breve lição sobre como desmotivar seus alunos: bem-vindo à Engenharia

29 de março de 2013 7

Sexta-feira Santa, fim de tarde, e um ex-aluno meu, muito talentoso em Matemática e recentemente aprovado no vestibular da UFRGS, resolve descrever a estratégia empregada pelo professor da cadeira de Introdução à Engenharia Civil para incentivar seus alunos a se engajarem nos estudos:

— Ao invés de o cara trazer palestrantes e empresas de construção ou coisas afim, ele acha que tem que ter isso só no final do curso. Então, nas palavras dele, a aula dele serve pra "fazer a gente desistir do curso agora, se a gente for fazer isso, pra não perder 3 anos da vida".

Os alunos dessa disciplina, quase que por unanimidade, foram aprovados no último vestibular e, com justiça, devem estar orgulhosos por terem conquistado uma vaga em um curso bastante concorrido. Mais do que isso, devem estar depositando nessa experiência acadêmica muitos de seus sonhos e ambições.

Nessas horas, eu me pergunto qual a lógica de utilizar uma importante disciplina de introdução à área de atuação que os calouros escolheram para transmitir uma mensagem que, ao mesmo tempo, mantém o distanciamento dos alunos em relação à prática profissional e incentiva explicitamente a evasão?

E isso acontecendo no primeiro semestre de um curso chave de uma das mais tradicionais escolas de engenharia do Brasil.

Patético.

O sucesso do fracasso: como o TEDx está mudando minha vida

26 de março de 2013 7

Tem coisas na vida da gente que são realmente muito difíceis de explicar.

Eu sempre nutri uma admiração especial por oradores carismáticos. Nunca escondi um verdadeiro fascínio por tentar descobrir o segredo do magnetismo pessoal que faz a gente virtualmente se sentir refém durante certas apresentações, como que ansiosamente à espera da próxima ideia, do próximo gesto, do próximo olhar.

Não foi à toa, portanto, que me deixei encantar, já há bastante tempo, pelas palestras disponibilizadas pelo TED. Como não sucumbir à tranquilidade bem-humorada que emoldura a contundência de Sir Ken Robinson e sua indiscutível convicção de que as escolas de hoje em dia inibem a criatividade? E o que dizer de Ric Elias e seu relato cruelmente preciso das três coisas que aprendeu quando seu avião caiu — ou, pelo menos, era o que ele acreditava que aconteceria até a habilidade do piloto permitir um improvável pouso no rio Hudson? Seria possível replicar a convicção de Seth Godin em sua permanente cruzada em defesa da propagação das boas ideias?

Pessoas submetidas a experiências sem paralelo, referências em suas áreas de atuação, defensores incansáveis de suas convicções: pontos fora da curva, diria eu, talvez inspirado por Descartes.

Inevitável, portanto, a paralisia momentânea ao descobrir que eu teria o meu momento TED.

Quem é familiar com as palestras sabe, é claro, que há muitas diferenças entre um evento TEDx e um evento TED (clique no ícone "cc" na janela do vídeo para selecionar legendas em português). Os eventos TEDx são licenciados e organizados, de maneira independente, por voluntários. Pessoas que dedicam seu tempo e seu esforço gratuitamente ao indescritível prazer de promover o intangível pensamento inovador. Quando fui convidado por meus xarás Gustavo Fischer e Gustavo Borba para ser um dos palestrantes do TEDxUnisinos 2012, eu mesmo já tinha passado pela experiência recente de ser um dos apoiadores do TEDxLaçador 2012, onde conheci, por intermédio da querida Ana Goelzer, pessoas absolutamente fantásticas e comecei a entender um pouco melhor o espírito da iniciativa.

Mas, de novo, tem coisas na vida da gente que são realmente muito difíceis de explicar. Uma delas, seguramente, é o sentimento de ser palestrante em uma dessas ocasiões.

Durante a longa fase de preparação, eu tinha em mente duas intenções bem específicas. A primeira delas, mais realista: tentar ser lembrado ao final do dia. Afinal, eram mais de 15 palestrantes. A segunda delas, e também a mais ambiciosa: oferecer aos participantes 15 minutos compatíveis com as boas palestras do gênero que eu havia assistido — ou, pelo menos, que não ficassem devendo muito a elas.

Restava, porém, a grande dúvida: quem se interessaria pelo relato de um fracassado?

A resposta das pessoas presentes ofereceu alguns indícios que a Internet, mais tarde, reforçou: muita gente.

Quase que imediatamente após a publicação do vídeo no YouTube, já eramos 10 mil.

Em pouco mais de 2 meses, somos mais de 50 mil.

Mas quem são vocês, diriam os que sequer tentam disfarçar o ceticismo?

Somos os fracassados por opção. Loucos. Gente que acredita que pode melhorar o mundo, um aluno de cada vez. Lunáticos. Pessoas que se alimentam de gratidão ao invés de ganância. Malucos.

E o que descobrimos?

Descobrimos o universo infinito dos socialmente resistentes. Dos que contrariam, diariamente, a tudo, a todos e, muitas vezes, a si próprios. Dos que atendem a improváveis chamados internos e decidem ignorar os gritos de quem insiste em impor um modelo de sucesso altamente estereotipado mas, infelizmente, amplamente aceito.

Dos que resolvem ser generosos, gratos e inspiradores.

Desde então, a vida segue mudando, e as lições são muitas, a começar pela revelação de alguns vínculos curiosos. Carisma não tem valor sem ousadia. Magnetismo exige o estabelecimento de identidades imediatas. Espontaneidade exige muito, mas muito ensaio. Boas ideias, ao se propagarem livremente, se tornam ainda melhores à medida em que se distanciam de seu emissor. E, talvez, a maior curiosidade: em tempos de TEDx, até mesmo o fracasso pode ter algum sucesso relativo.

Porque, afinal de contas, tem coisas na vida da gente que são realmente muito difíceis de explicar.

Aulas Pré-Prova Online - Vestibular UFRGS 2013

12 de janeiro de 2013 1

Confirmando o surgimento de uma nova tradição, iniciada em 2012, trago aos queridos leitores do blog o cronograma de aulas online que transmitiremos a partir da véspera do primeiro dia do Vestibular UFRGS 2013 — online e ao vivo dos estúdios do “Projac” da Ramiro 1172!  Para facilitar a leitura, clique na imagem abaixo:

Calendário de Aulas Pré-Prova Online - Vestibular UFRGS 2013

Segue o cronograma completo, incluindo links de acesso direto:

Dia 1
Sábado, 12/1
http://new.livestream.com/mathetctv/2013-PP-1
19h30 - Inglês - Prof. Rafael Dupont - Curso Rooms
20h - Literatura - Prof. Argentino Jr. - Elite
20h30 - Física - Prof. Ricardo Necchi - Unificado (NH/Taquara/Viamão)
21h - Espanhol - Profª. Angela Bono - Angela Bono Grupos de Espanhol

Dia 2
Domingo, 13/1
http://new.livestream.com/mathetctv/2013-PP-2
20h - Português e Redação - Fran Gracioli - Fran Gracioli Português e Redação

Dia 3
Segunda, 14/1
http://new.livestream.com/mathetctv/2013-PP-3
20h - Geografia - Prof. Cajo - Anglo/Decisão/PenseGeo
20h30 - Química - Prof. Rossetti - Química Rossetti
21h - Biologia - Profª. Andressa Helrighel - BioApoio

Dia 4
Terça, 15/1
http://new.livestream.com/mathetctv/2013-PP-4
20h - História - Prof. Alexander Magnus - Grupos de História
20h30 - Matemática - Prof. Gustavo Reis - Gustavo Reis Mathematica Et Cetera

Para acessar diretamente o arquivo de eventos e aulas online, visite http://new.livestream.com/mathetctv


Matrizes no ENEM? Não anular a questão é contra a lei!

05 de novembro de 2012 7

Sala de AulaAssim como inúmeros participantes do ENEM 2012, fui surpreendido, na tarde de ontem, pela questão 166 da prova de Matemática (cinza), cuja resolução flagrantemente exigia a realização de um produto de matrizes. De fato, matrizes e determinantes são assuntos tradicionalmente estudados no Ensino Médio. Porém, assim como números complexos, não constam na matriz de referência da prova de Matemática do ENEM e nem tampouco na lista de objetos de conhecimento associados a ela. Consulte aqui o Edital (em PDF), disponível no site do INEP.


Objetos de conhecimento da prova de Matemática do ENEM 2012


Tanto a matriz de referência quanto a lista de objetos estão disponíveis no Edital do ENEM 2012, e, como todos sabemos, em qualquer concurso público, o Edital tem força de lei. A única opção viável, nesse caso, seria a anulação da questão. Qualquer procedimento diferente cria um precedente perigoso e torna inútil a publicação tanto da matriz de referência quanto da lista de objetos de conhecimento, uma vez que ambas existem justamente para balizar as competências e habilidades que os estudantes terão que demonstrar possuir.

E você? O que acha? O Edital deve ou não ser respeitado? Deixe seu recado nos comentários!

3 observações sobre a prova de Matemática do ENEM 2012

05 de novembro de 2012 0

Enem 2012Encerrada mais uma edição do ENEM, chega o momento de analisar a prova de Matemática aplicada na tarde de ontem em aproximadamente 4,17 milhões de participantes. A abstenção nacional representou 27,9% dos inscritos, patamar que se manteve praticamente inalterado em comparação aos 27,6% de ausentes do ano de 2011. Hoje, ofereço a vocês um conjunto preliminar de observações relacionadas à prova; uma avaliação mais detalhada, classificando cada questão quanto à respectiva competência e ao nível de dificuldade, será publicada ainda essa semana.

(A propósito, estou usando como referência os números de questões da prova cinza!)

1) Cada vez mais, a essência da prova de Matemática do ENEM se aproxima do modelo tradicional de provas de vestibular

Em comparação com a prova de ontem, as primeiras edições do chamado "Novo ENEM", em 2009 e 2010, pareciam revelar uma preocupação mais nítida em "cotidianizar" as questões e deixar de lado toda e qualquer exigência de memorização. As questões de ontem deixaram bem claro aos participantes que não é seguro confiar exclusivamente nos elementos fornecidos pelos enunciados para resolver cada questão. A exigência de que o aluno demonstrasse conhecer conceitos como variância e desvio-padrão, princípio fundamental da contagem e combinação, área do trapézio e comprimento da diagonal do quadrado dá amplo respaldo a essa constatação.

2) A falta de rigor formal exige presunções inadmissíveis em uma prova de Matemática

Infelizmente, já é tradição questões do ENEM obrigarem os participantes a realizar leituras de enunciados com base em interpretações presumidas. Na última prova de Matemática, não foi diferente: na questão 171, presume-se que uma sala "de dimensões 4m x 5m" seja retangular, quando poderia muito bem ter a forma de um paralelogramo não-retângulo; na questão 149, o participante é conduzido a alternativas distintas ao especular sobre a duração de cada viagem de trem realizada pelo maquinista, informação que não consta no enunciado; e na questão 142, o aluno deve presumir que a pirâmide em questão é quadrangular, regular e reta. Como se não bastasse, tais presunções têm o agravante de prejudicar tão somente os bons alunos, pois só eles costumam realizar leituras altamente cuidadosas das informações oferecidas pelos enunciados e, portanto, constatar a ausência de dados importantes.

3) A ausência de conteúdos tradicionais, tais como Trigonometria e Logaritmos, compromete o valor da prova em certos casos

Se considerarmos que o ENEM vem sendo incrementalmente adotado como ferramenta única de seleção para ingresso em instituições federais de Ensino Superior, uma prova como a de ontem é altamente ineficaz para selecionar candidatos a cursos tradicionais da área de exatas, tais como Engenharia, Arquitetura e Computação. A opção por deixar de lado assuntos clássicos como Trigonometria, Logaritmos e Geometria Analítica irá, fatalmente, fazer com que, a curto e médio prazo, esses tópicos sejam deixados de lado no Ensino Médio. Isso seguramente criará uma legião de alunos ainda mais despreparados para seguirem carreira em áreas altamente estratégicas em um país que vive um intenso ciclo de crescimento.

E você, participante do Exame? O que achou das provas? Divida comigo sua opinião usando os comentários!

2º dia do ENEM: como aproveitar a manhã

04 de novembro de 2012 0

Hoje tem MatemáticaBom dia! Passado um primeiro dia de provas sem maiores surpresas, espero que todos os leitores desse espaço estejam em paz de espírito para encarar a tão temida prova de Matemática do ENEM na tarde de hoje.

Para quem quiser aproveitar os últimos minutos de preparação, lembro que há vários resumos teóricos disponíveis no canal do mathetc.tv no YouTube referentes às competências 1, 2 e 3 da prova de Matemática. Além disso, na última quinta-feira transmiti uma aula completa de Estatística em que discuti medidas de tendência central (média, mediana e moda), variância e desvio padrão e finalizei com um exemplo de distribuição de frequências. Finalmente, encerramos oficialmente a cobertura do ENEM na noite de ontem com a aula pré-prova que reuniu mais de 550 pessoas ao vivo.

É claro que também vale a sugestão permanente de relaxar na manhã de prova lendo um jornal, uma revista ou um livro e esperando o tempo passar até a hora de sair – aliás, nunca é demais registrar que seu deslocamento deve iniciar bem antes do horário em que você pretende chegar em seu local de prova, já que não podemos prever transtornos isolados no trânsito em razão de obras ou acidentes.

Logo mais à noite, vou manter os participantes do ENEM informados a respeito de minhas impressões sobre a prova de Matemática através das principais redes sociais (Facebook e Twitter). Como sempre, agradeço demais o prestígio e a confiança com que conto durante as temporadas de cobertura e, como não podia deixar de ser, desejo a todos uma ótima prova!