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Cachorro também é gente

06 de novembro de 2013 0

O que mais me fascina na ciência é colocar-me na pele de um cientista no momento em que ele desvenda algo desconhecido. Se isso além de tudo impacta e pode melhorar a vida no planeta, mal posso imaginar o orgulho e o senso de propósito que deve invadir essas pessoas. Por isso, quando há semanas atrás houve a invasão do laboratório que passou a ser chamada da “revolta dos beagles”, lamentei muito o feito daquela horda narcisista que avacalhou anos de trabalho sério para ter alguns minutos de publicidade fácil.  Não hesito em tomar o lado da ciência e me postar contra os salvacionistas de ocasião.

Isso não me faz, entretanto, transferir um mandato irrestrito para os cientistas fazerem o que bem entenderem com as cobaias, nem entender que a atividade não precise ser regulada e fiscalizada. Os mesmos cientistas que impulsionam o progresso não estão infensos às fraquezas humanas de praxe. Cientistas fazem coco e xixi como todos nós. Tem emoções, vaidades e, por que não, perversões. Sendo assim, animais indefesos tem que ter tratamento humanizado, e isso deve ser testemunhado por terceira parte independente.

Pronto, fiz meu “disclaimer” e agora posso comentar o “Cachorro também é ser humano“, artigo de Gregory Berns, neuroeconomista da Emory Univesity School of Medicine, publicado originalmente no New York Times e republicado no Brasil pela Folha de São Paulo.

Jane Evelyn Atwood/Contact Press Images

Em uma super síntese, Gregory relata no artigo o resultado da experiência realizada com auxilio da ressonância magnética para mapear alterações e reações no cérebro de cães expostos a emoções positivas. Com base nisso e na observação de casos em que exames assim são utilizados por humanos adolescentes para pretextar na Corte a imaturidade de seus cérebros quando cometeram delitos, o autor acredita que as reações emocionais identificadas nos cérebros caninos tornaria razoável o direito a serem tratados não mais como “coisa” como no direito atual, mas como pessoas.

Fair enough. Cachorreiro militante, me senti contemplado no que eu pensei que eram minha fantasias e, vejo, tem lá seu ponto.

Antes de me mudar para uma casa isolada, morei por 20 anos em um mesmo condomínio. Ali meus filhos se tornaram adultos e tenho memórias afetivas riquíssimas desse tempo. A maioria boa, muitas divertidas e, claro, acompanhando a vida, algumas tristes.

Não tenho memória de rusgas típicas da vida em comunidades fechadas. Para não dizer que não tive rusgas, tive umazinha relacionada aos meus cachorros. Preparando a mudança, resolvi ter meus cachorros antes de mudar. Definida com o engenheiro a data para a nova casa estar pronta, fiz um cálculo de trás para diante: adquiriria os cães 6 meses antes de mudar para que, quando mudasse, os cães estivessem já quase adultos e em condição de serem guardas.

Baya e Isadora, uma das crianças do condomínio

Tola esperança. Claro que a casa não ficou pronta no prazo dado pelo engenheiro e os cães acabaram crescendo e ficando adultos no condomínio. Tentei amenizar a situação, contratando um “babá de cães” que andava com eles duas vezes ao dia, coloquei-os em treinamento e socializei os cães até o limite para evitar qualquer risco de acidente.

Resultado, meus cães, pesando 65-70kg, viraram os mascotes das crianças do condôminio. Mas serem adotados como mascotes não significou unanimidade. Admito que, enquanto alguns curtiam os “monstros”, outros, mais sensíveis, se sentiam intimidados. Daí até receber a citação do condomínio postulando o afastamento dos cães, foi um passo só. Tive que preparar a “defesa” dos meus cães. Disse que eram pacíficos, que os tinha sempre com focinheira quando passeavam, que não latiam e que seria uma presença provisória. Não adiantou.  A síndica incorporara a insegurança de seu cachorro, que não podia ver os meus sem se urinar, e se manteve intransigente.

Baya síndica

Estava se aproximando a data de eleição do novo síndico e resolvi partir para o ataque.  A Baya, a fêmea alfa dos meus cachorros, “é o ser humano mais competente do condomínio”, disparei, lançando sua candidatura à síndica. Sim, lancei a anti-candidatura da minha cachorra.

Durou pouco, admito. Coloquei-me no lugar da síndica e fiquei imaginando que sentimento de autoestima poderia habitar alguém derrotado por uma cadela. Não achei que valesse a pena a afronta e retirei a candidatura da minha Baya. Hoje eu diria que ela foi não apenas o mais competente, mas também o mais simpático e o mais leal ser humano que conheci.

Saudosa Baya

Aí vem esse estudo científico para dar razão ao que meu empirismo intuia. Cachorro também é gente. Fosse hoje, com esse respaldo definitivo, eu não retiraria a candidatura da Baya e teria sido o pioneiro de uma série de conquistas de direitos caninos no mundo exclusivo dos homens.

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PS: acabo de saber que o Instituto Royal anunciou hoje que está fechando as portas em um ambiente muito triste onde prevaleceu o obscurantismo populista e nenhum diálogo. Brandindo o combate ao uso de cães para desenvolver cosméticos, os demagogos se valeram da omissão e cinismo das autoridades e destruíram anos de pesquisa em favor da saúde humana.

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