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Tempo de reconstrução

24 de março de 2017 0

 

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A desolação anda por todo canto do Brasil e parece mais entranhada no RS. Um otimista aqui vai parecer um sujeito deslocado que vive em realidade paralela, ou é só um cínico. 

O ponto é que não dá pra aceitar que a única opção é mesmo viver em desolação, lamúria, ressentimento ou, pior, em permanente estado de destilação de raiva.

Quanto mais observo as pessoas mais hostis, de qualquer lado, mais sinto que se infelicitam ao focalizar maniacamente no inimigo externo, no erro “do outro”, na ruindade intrínseca do nosso país.  Apurar a verdade, criticar, propor mudanças, tudo isso não só é bom, é imprescindível.

Mas ódio e desqualificação de quem é diferente de mim, desculpem, me parece doentio. Especialmente se isso assume proporções como a que vemos agora. Será que meus amigos, à esquerda, à direita ou, até os que se pensam de lado nenhum, acreditam que a toada atual pode acabar bem?

Não acredito nessa possibilidade. Não que o momento não seja dramático ou a corrupção não tenha atingido proporções absurdas. Disso não posso discordar. Mas não vejo luz nessas legiões de perdidos que nos tornamos.  Vejo muito movimento e nenhum deslocamento. Instituições capturadas rebaixando a pauta, ausência de iniciativas saudáveis, promissoras ou meramente restauradoras. Padecemos da falta de afinidades mínimas e ainda dissipamos as melhores energias jogando areia nos olhos uns dos outros. Operamos em modelos mentais cristalizados, infecundos, desconectados do que vai pelo mundo e, sobretudo, estamos tristes e assustados.

Conheço centenas de pessoas que sofrem intelectual, espiritual e até fisicamente as conseqüências da atual degradação dos padrões básicos de convivência. E se estamos prostrados, como imaginar que possamos ser inventivos, originais e enérgicos para sair do buraco em que entramos junto com o país?

Como muitos que se espantam, eu mesmo vivo me flagrando em regime de acidez máxima. Quando tento, acho que tenho um bom nível de eficácia na desconstrução do que quer que me incomode. Especialmente se me sinto confortável cavalgando o cavalinho branco do bem contra o mal. Aí sou capaz de fazer um estrago. Só que, passado o episódio, olhando para os lados, não vejo o saldo de minhas investidas. Fica o travo amargo.

Jogar pra torcida e bancar o bom moço é bem primitivo. Destruir retoricamente é cômodo, fácil e excitante como uma droga. Criar alternativas, construir contra a corrente, reinventar onde todos se repetem, isso definitivamente não gera saciedade imediata de meus instintos mais automáticos e agressivos.

Fui atrás  de amigos para ouvir sobre esses sentimentos. E busquei os amigos que julgo serem capazes de olhar a floresta com algum distanciamento. Constatei que minhas apreensões não são só minhas. Estão por aí, desarticuladas, sem patrocínio político, sem proteção de uma corporação, mas estão por aí, no senso comum.  Descobri que é palpável o desconforto e é constante a preocupação com o transbordamento do populismo justiceiro inoculado na base da esquerda e da direita e vocalizado sem custos ou responsabilidade nas redes sociais. Esses ímpetos, dizem meus interlocutores, podem ser sinceros ou, como sói acontecer, são reles versões políticas ultrapassadas bancadas por grupos de interesse que, penso eu, estão desconectados de qualquer intenção de resgatar a sociedade prostrada e desesperançada que temos diante de nossos olhos.

Então, passamos a nos perguntar: “E se”? E se além de falar que o Governo é inepto (sem discordância, certo?) nós falássemos: “imagine que passamos a depender só de nós mesmos. Extinguiu-se a capacidade de discernir e executar do Estado. De repente temos o poder e a obrigação de propor o que consideramos ser o melhor. Como resolveríamos esse (x) problema que está nos atormentando?”

Mais ainda, e se nos colocássemos o desafio de sugerir e FAZER diferente? Será que somos capazes?

Trata-se de extrapolar nossa menoridade cívica (aquela que se resume a criticar, cobrar e esperar do Governo) para reconhecer o óbvio. Se nós mesmos não desentortarmos o que está torto, ninguém o fará. Vivemos um tempo de anomia social sem precedentes. Nenhum setor tem visão ou projeto hegemônico. Quase todos tem notável poder para desmanchar iniciativas.

Há espaço para se fazer diferente, tem que haver, mas impõe-se que reconheçamos nossas debilidades, sobretudo as comportamentais. Feito isso, já tarda o tempo para buscarmos o concurso dos melhores quadros para arregaçarem as mangas e darem suas contribuições, pondo de lado os vieses apriorísticos dos grupos de interesse, bem como a arrogância dos dogmas ideológicos e religiosos.

Quem sabe se trouxermos à mesa a ciência, o espírito comunitário genuíno, o sentido de give back, os melhores talentos individuais, a sensibilidade com o espírito coletivo, quem sabe assim a gente tenha uma chance.

 

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