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O equilibrio é radical

11 de setembro de 2017 0

“Muita gente quer que a realidade diga que elas estão certas”
David Brooks

 

Não tenho dessas epifanias com muita frequência. Quando me encanto com um texto, por precaução e hábito, deixo decantar um par de noites entre mim e o impulso por compartilhar. No mais das vezes confirmo que não fazia sentido espalhar outra “boutade” por esse mundo super informado, embora carente de significações.

Mas, dessa vez, a pertinência do texto (na verdade uma trinca de textos) atropelou minha autocensura com glória e louvor.

David Brooks, o autor, não é só o mais importante colunista do mais importante jornal do planeta, o New York Times; ele é um sujeito rodado, que coleciona cicatrizes. Já foi republicano quando esses – e não os Democratas – eram os portadores dos ideais fundadores da democracia americana. Entre grandes polêmicas, promoveu disputas com o Vaticano, com a Casa Branca, com o CEO do Google… Brooks é navalha na carne que mistura sensibilidade, valores e erudição nas doses que deve ter quem escreve onde ele escreve.

E, muito importante, Brooks “don’t plays to the gallery”.

Quando olha um problema, olha de frente, escava a superfície, recorre a categorias analíticas que vão da filosofia à psicologia moral, até as mais atuais ferramentas tecnológicas. E faz isso com a naturalidade dos mais talentosos.

Muita gente não gosta. A começar por boa parte dos eleitores do Times, sempre identificados com as cruzadas do bem. Nas últimas semanas, Brooks publicou uma série de artigos sobre o radicalismo identitário – sua natureza mais crua expressa pelos supremacistas brancos – e avança sobre recomendações simples sobre como podemos lidar com isso para desconstruimos os males que causam e, quem sabe, descobrirmos mais sentido em nossas próprias vidas.

Inveja branca dos americanos afligidos pela perplexidade em que todos de alguma forma estamos. Ao menos eles tem um punhado de nomes onde Brooks se destaca. Nós ainda temos que redesenhar nossos bons modelos. Do zero.

David Brooks

AP Photo / Nam Y. Huh

 

 

 

 

 

 

 

 

I  -  COMO REVERTER O FANATISMO

David Brooks, NYT, 15/08/2017

goo.gl/HXhGVD

Vivemos em uma era de ansiedade. O país está sendo transformado por forças complexas, envolvendo mudança de perfis demográficos e ruptura tecnológica. Muitas pessoas vivem dentro de uma liberdade desconcertante, sem instituições para confiar, desapegadas de religiões convincentes ou qualquer fonte de significado, imersas em incertezas sobre suas próprias vidas. A ansiedade não é tanto um medo de uma coisa específica, mas um medo de tudo, um medo inominável sobre o futuro. As pessoas vão fazer qualquer coisa para escapar disso.

Donald Trump é o vendedor da “poção mágica” perfeito para esse momento. Ele não tem vida interior e, portanto, está aterrorizado com a possibilidade da ansiedade. Ele escapou do auto-escrutínio durante toda a sua vida e tornou-se um gênio na racionalização espiadora de culpas. Ele tomou uma nação sitiada pela incerteza e deu a ela uma série de “explicações” que eram simples, grosseiras, afirmativas e erradas.

Trump deu às pessoas passe rápido para fora da ansiedade. Tudo poderia ser culpa de estrangeiros ou das elites idiotizadas. Os problemas são claros e as respostas são fáceis. Ele soltou um certo estilo de pensamento. O verdadeiro vínculo entre a administração do Trump e as mentes patéticas em Charlottesville não é apenas fanatismo, mas também conspiração.

Na Casa Branca, você tem pseudo-intelectuais como Steve Bannon, que pensam que o mundo é controlado secretamente pelo “estado profundo”. Você tem memorandos como o escrito pelo recentemente demitido Rich Higgins, colocando a crença em uma enorme conspiração mundial envolvendo a ACLU, a Irmandade Muçulmana, as Nações Unidas e o marxismo global. A alt-right, que surgiu em apoio à administração Trump, é marcado pela mesma epistemologia conspiratória.  Fornece explicações para eventos complexos que permitem que seus seguidores evitem a ansiedade. Os líderes da alt-right afirmam possuir uma compreensão superior que perpassa através dos mitos que cegam os mortais comuns.

O mundo é controlado secretamente pelos globalistas. O tiroteio da escola Sandy Hook nunca aconteceu. Há um anel de abuso infantil dirigido pelos Clinton do lado de fora de uma pizzaria no noroeste de D.C. Todas as ambigüidades da vida podem ser explicadas apontando para as redes malévolas de poder secreto que só você – pessoa especial e atenta como poucos –  pode ver e entender.

A partir daqui, é um salto curto para os perdedores em Charlottesville. Se a alt-right pensa que os globalistas controlam secreta e malevolamente a sociedade, os neonazis voltam à versão original e acreditam na conspiração dos banqueiros judeus. Para eles, o tribalismo não é apenas uma maneira de sentir algum vestígio de orgulho em seus próprios eus solitários mas, também, é uma ferramenta explicativa. O mundo pode ser um lugar desconcertante, mas não se você vê isso como uma guerra justa entre brancos e negros ou entre heteros e gays. Os neonazistas não são o primeiro grupo a descobrir que a guerra é uma força que pode dar significado a vidas vazias, mesmo uma guerra racial.

A idade da ansiedade inevitavelmente leva a uma era de fanatismo, pois as pessoas procuram paliativos crus para a tontura da liberdade. Estou começando a pensar que todo o espetáculo deprimente deste momento – a presidência de Trump e além – é causado por uma quebra da virtude intelectual, uma quebra na capacidade dos Estados Unidos de enfrentar evidências objetivamente, pagar o devido respeito à realidade, lidar com complexas e desagradaveis verdades.

As virtudes intelectuais podem parecer elitistas, mas uma vez que um país tolera desonestidade, ausência de curiosidade e preguiça intelectual, então tudo se desmorona.

A tentação é simplesmente explodir os neonazistas, os alt-right, os Trumpkins e o resto por serem intolerantes e odiosos. E é necessário um pouco disso. Os limites da decência comum devem ser definidos.

Mas, ao longo da história, as mentes mais sábias entenderam que raiva e o moralismo não são um bom antídoto para a fúria e o fanatismo.  O confronto somente aumenta a acidez em cada lado.

Na verdade, a resposta mais poderosa para o fanatismo é a modéstia. A modéstia é uma epistemologia que se opõe diretamente aos modelos mentais conspiratórios. Isso significa ter a coragem de entender que o mundo é muito complicado para se encaixar em um sistema de crenças políticas. Isso significa entender que não há respostas fáceis ou conspirações malévolas que possam explicar as grandes questões políticas ou os problemas existenciais. O progresso não é feito esmagando um enxame de inimigos malévolos; é feito pela busca do equilíbrio entre verdades concorrentes – entre liberdade e segurança, diversidade e solidariedade. Sempre haverá contra-evidências e mistérios. Não há um arranjo final que acabe com o conflito, apenas busca e ajuste sem fim.

A modéstia significa ter a coragem de descansar na ansiedade e não tentar escapar rapidamente. A modéstia significa ser resistente o suficiente para suportar a dor da incerteza e chegar a apreciar essa dor. A incerteza e a ansiedade te expulsam da ilha das certezas e forçam você a entrar nas águas livres da criatividade e da aprendizagem. Como Kierkegaard afirmou: “Quanto mais original é um ser humano, mais profunda é a sua ansiedade”.

Nos próximos meses, espero escrever várias colunas sobre o motivo de modéstia e moderação serem superiores a espiral de movimentos pela pureza que vemos hoje. Parece um bom momento para os modestos assertivo tomarem posição.

II – NO QUE ACREDITAM OS MODERADOS

David Brooks, NYT, 22/08/2017

goo.gl/BMszUp

Donald Trump não é a resposta para os problemas da nação. Então as grandes questões do momento são: se não é Trump, o que é?

Com o que se parece a reação a Trump? Para algumas pessoas, os guerreiros da direita populista devem ser substituídos por guerreiros da esquerda populista. Para essas pessoas, Trump revelou uma feia tendência autoritária na sociedade americana que tem que ser combatida com fervor implacável e clareza moral.

Para outros, é a mentalidade de guerreiro de Trump que deve ser substituída. Guerreiros de um lado inevitavelmente invocam guerreiros do outro, e isso significa apenas mais guerra cultural, mais barbarismo, mais desonestidade e mais disfunção.

As pessoas neste campo chamaremos de moderados. Como a maioria de vocês, eu não gosto da palavra moderada. É muito tímida, um pouco medrosa. Mas fui inspirado pelo excelente livro de Aurelian Craiutu “Faces of Moderation” a manter esta palavra, pelo menos até que uma melhor apareça.

Os moderados não vêem a política como guerra. Em vez disso, a política nacional é uma viagem com uma frota frágil e instável. A sabedoria está em encontrar a formação certa de navios para cada circunstância específica para que toda a frota possa andar para frente um dia após o outro. A moderação não é uma ideologia; É uma maneira de lidar com a complexidade do mundo.

Os moderados tendem a abraçar certas idéias:

A verdade é plural. Não há uma única resposta correta para as grandes questões políticas. Em vez disso, a política geralmente é uma tensão entre duas ou mais visões, cada uma das quais possui uma parte da verdade. Às vezes, as restrições à imigração devem ser afrouxadas para atrair novas pessoas e novos dinamismos; às vezes, elas deveriam ser apertadas para garantir a coesão nacional. A liderança diz respeito a determinar qual ponto de vista é mais necessário em cada momento. A política é um desdobramento dinâmico, não um debate que possa ser resolvido de uma vez por todas.

A política é uma atividade limitada. Extremistas procuram no domínio político salvação e auto-realização. Eles transformam a política em uma religião secular e, em última instância, uma guerra religiosa apocalíptica, porque tentam impor uma resposta correta sobre toda a vida. Os moderados acreditam que, no máximo, o governo pode criar uma plataforma sobre a qual as coisas lindas da vida possam florescer. Mas não pode fornecer essas coisas lindas. O governo pode criar segurança econômica e física e uma ordem justa, mas o significado, a alegria e as coisas boas da vida fluem de relacionamentos amorosos, comunidades fortes e amigos sábios. O moderado é prudente e temperado sobre a vida política porque ele é, antes, um apaixonado pela vida emocional, espiritual e intelectual.

A criatividade é sincretista. Os viajantes não apenas puxam suas idéias do centro do espectro ideológico. Eles acreditam que a criatividade acontece quando você combina as galáxias de crenças que parecem à primeira vista evidentemente incompatíveis. Eles podem combinar idéias de esquerda sobre os sindicatos com idéias de direita sobre a comunidade local para criar uma nova concepção do direito do trabalho. Por serem sincretistas, eles têm o cuidado em conviver em campos opostos, sempre abrindo linhas de comunicação. O moderado inteligente pode conter duas ou mais idéias opostas em sua mente ao mesmo tempo.

Na política, os baixos são mais baixos do que os altos são altos. Os prejuízos que os governos provocam quando erram – guerras, depressões – são maiores que os benefícios que os governos produzem quando funcionam bem. Portanto, o moderado opera a partir de uma política de ceticismo, não uma política de fé. Ele entende que a maioria das escolhas está entre más opções (Coréia do Norte), então ele prefere uma reforma incremental constante ao invés uma mudança repentina e revolucionária.

A verdade vem antes da justiça. Todos os movimentos políticos devem enfrentar fatos inconvenientes, pensamentos e dados que parecem ajudar seus inimigos. Se você tentar suprimir esses fatos, proibindo uma manifestação ou demitindo um empregado, então você está colocando os objetivos da sua causa, não importa o quão nobre, acima da busca pela verdade. Este é o caminho para o fanatismo e sempre termina em fracasso.

Cuidado com o perigo de uma identidade única. Antes de brutalizar a política, os guerreiros se brutalizam. Em vez de viverem várias identidades – Latina / lésbica / possuidoras de arma / cristão – que puxam em direções diferentes, elas se transformam em mônadas. Priorizam uma identidade, uma narrativa e uma distorção reconfortante.

Partidarismo é necessário, mas cego. O debate partidário afia as opiniões, mas os partidários tendem a justificar seus próprios pecados, apontando para os pecados do outro lado. Moderados são membros problemáticos de seus partidos. Eles tendem a ser duros com seus pares e simpáticos com seus inimigos.

A humildade é a virtude fundamental. A humildade é uma autoconsciência radical de alguém que se olha de fora de si mesmo – uma forma de honestidade radical. Quanto mais o moderado luta com a realidade, mais ela entende o quanto ela está além da nossa compreensão.

A moderação requer coragem. Os moderados não operam a partir da segurança de seus galeões ideologicamente puros. Eles não têm medo de enfrentar as correntes contrárias, separados do clã, reconhecendo o quanto sabem pouco.

Se você elegeu um homem que não está impressionado com a complexidade do mundo, mas que filtra o mundo para se adequar ao seu próprio narcisismo, então ai de você, porque esse homem é o oposto do tipo de viajante moderado. Ele vai colher um redemoinho.

III – UM ELOGIO AO EQUILÍBRIO

David Brooks, NYT, 01/09/2017

goo.gl/ppo2GE

O escritor libanês Amin Maalouf fez um ponto interessante sobre identidade: outras pessoas geralmente escolhem a nossa por nós. O anti-semita destaca a consciência judaica no judeu. O radical sunita promove a consciência xiita no xiita.

“As pessoas geralmente se identificam com os termos daquela que vem a ser a mais atacada entre suas lealdades”, escreve Maalouf.

As pessoas que nos excluem tentam reduzir nossa miríade de identidades naquela que venha a ser a mais simplista. Amartya Sen chama este processo de “miniaturização”. Você pode ser um atlético cirurgião, Batista e Democrata com três filhos e amor pelo Estado de Ohio, mas para o fanático você é apenas uma coisa: sua fé ou cor da pele ou seja o que for que ele não goste.

O estranho é que muitas vezes as pessoas são cúmplices em sua própria miniaturização.

Vivemos em uma sociedade atomizada e individualista na qual a maioria das pessoas tem identidades concorrentes. A vida é mais direta quando você está preso a um grupo totalista, mesmo que isso seja imposto a você. Quando você é desrespeitado por ser judeu, cristão, liberal ou conservador, o instinto natural é dobrar essa identidade. As pessoas que se sentem em um ambiente hostil geralmente reduzem suas muitas afiliações para apenas uma maissimples, pelaqual se armam e defendem incondicionalmente.

Hoje, o mundo todo parece um ambiente hostil para. … bem … todos. Eu havia assumido que, à medida que a sociedade se tornasse mais igual, todos compartilharíamos uma medida de dignidade igual. Mas resulta que, sem uma hierarquia social óbvia, todos nos sentimos igualmente impotentes.

É da natureza humana sentirmos nossas fraquezas mais fortemente do que sentimos nossas vantagens, então todos nós tendemos a nos sentir oprimidos hoje em dia. Machos brancos e sionistas se sentem vítimas no campus. Cristãos sentem-se oprimidos pelos tribunais. As mulheres se sentem vítimas na área de tecnologia. A classe trabalhadora se sente vítima em todos os lugares. Mesmo Taylor Swift aparentemente se sente vitimada pelo peso de ser celebridade.

A vitimização em grupo tornou-se a religião global – de Berkeley à extrema direita até o Irã – e todos afirmam que a sua vitimização é pior e que as outras pessoas que são as elites.

A situação poderia ser tolerável se as pessoas, pelo menos, experimentassem uma comunidade real dentro dos grupos de vítimas. Mas, como Mark Lilla salienta em seu novo e essencial livro, “The Once and Future Liberal”, muitas comunidades identitárias não são comunidades reais. Eles são apenas um grupo solto de indivíduos, narcisisticamente explorando algum traço em si mesmos que outros ao seu redor compartilham. Muitas comunidades baseadas na identidade não são definidas pela compaixão interna, mas pela raiva externa.

Como podemos sair desta espiral?

O primeiro passo é simplesmente sair. Vire a outra face, ame seu inimigo, confronte seu oponente com um amor agressivo. Martin Luther King é o modelo óbvio aqui. “O amor tem dentro dele um poder redentor”, argumentou ele. “E há um poder lá que eventualmente transforma indivíduos. … Apenas continue sendo amigável com essa pessoa. … Apenas continue amando-os, e eles não aguentam por muito tempo. Oh, eles reagem de muitas maneiras no começo. … Eles reagem com sentimentos de culpa, e às vezes eles vão te odiar um pouco mais nesse período de transição, mas apenas continue amando-os. E eles serão vencidos sob a carga que o poder do seu amor representa”.

O segundo passo é se recusar a ter uma única identidade. Maalouf aponta para o mito de que “no fundo” todos há apenas uma afiliação que realmente importa. “Algumas pessoas vivem dessa maneira, envolvendo apenas um tipo de pessoa, leal a apenas uma lealdade e liderando vidas insulares e terríveis. Na verdade, o coração tem muitos portais. Uma pessoa saudável pode ter quatro ou seis conexões vibrantes e honrá-las como parte da plenitude da vida.

Quanto mais conexões vibrantes uma pessoa tem, mais facilmente ela encontrará alguma coisa em comum com qualquer outra pessoa na Terra. E mais interessante sua própria constelação de identidades se torna. O mundo não é apenas um campo de batalha de grupos; é também uma World Wide Web de lealdades sobrepostas. Você pode ser “Black Lives Matter” e ele pode ser “Make America Great Again”, mas ambos são de Houston, cruzando o mesmo barco pelas ruas inundadas.

O passo final é praticar o equilíbrio. Esta é a característica que devemos procurar nos líderes. É a habilidade de mover-se graciosamente através de nossas identidades – ter as paixões, bênçãos e feridas equilibradas pelo contato com as paixões, bênçãos e feridas de vários outros.

A pessoa com equilíbrio não se prende a vínculos dominantes, mas tece várias lealdades profundas em uma sinfonia. “Um bom personagem”, escreveu James Q. Wilson, “não é uma vida vivida de acordo com uma regra (raramente existe uma regra pela qual as boas qualidades possam ser combinadas ou as escolhas difíceis resolvidas), é uma vida vivida em equilíbrio”. Alcançar o equilíbrio é um exercício estético ou poético, uma questão de acertar harmonicamente as notas diferentes.

Hoje a fúria e a singularidade são as respostas acordadas pelo mundo – Donald Trump ou Bernie Sanders. Mas se você puder me mostrar uma pessoa capaz de equilibrar graciosamente seis compromissos fervorosos e inesperadamente diversos, esse será aquele que está pronto para liderar neste novo mundo.

Tempo de reconstrução

24 de março de 2017 0

 

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A desolação anda por todo canto do Brasil e parece mais entranhada no RS. Um otimista aqui vai parecer um sujeito deslocado que vive em realidade paralela, ou é só um cínico. 

O ponto é que não dá pra aceitar que a única opção é mesmo viver em desolação, lamúria, ressentimento ou, pior, em permanente estado de destilação de raiva.

Quanto mais observo as pessoas mais hostis, de qualquer lado, mais sinto que se infelicitam ao focalizar maniacamente no inimigo externo, no erro “do outro”, na ruindade intrínseca do nosso país.  Apurar a verdade, criticar, propor mudanças, tudo isso não só é bom, é imprescindível.

Mas ódio e desqualificação de quem é diferente de mim, desculpem, me parece doentio. Especialmente se isso assume proporções como a que vemos agora. Será que meus amigos, à esquerda, à direita ou, até os que se pensam de lado nenhum, acreditam que a toada atual pode acabar bem?

Não acredito nessa possibilidade. Não que o momento não seja dramático ou a corrupção não tenha atingido proporções absurdas. Disso não posso discordar. Mas não vejo luz nessas legiões de perdidos que nos tornamos.  Vejo muito movimento e nenhum deslocamento. Instituições capturadas rebaixando a pauta, ausência de iniciativas saudáveis, promissoras ou meramente restauradoras. Padecemos da falta de afinidades mínimas e ainda dissipamos as melhores energias jogando areia nos olhos uns dos outros. Operamos em modelos mentais cristalizados, infecundos, desconectados do que vai pelo mundo e, sobretudo, estamos tristes e assustados.

Conheço centenas de pessoas que sofrem intelectual, espiritual e até fisicamente as conseqüências da atual degradação dos padrões básicos de convivência. E se estamos prostrados, como imaginar que possamos ser inventivos, originais e enérgicos para sair do buraco em que entramos junto com o país?

Como muitos que se espantam, eu mesmo vivo me flagrando em regime de acidez máxima. Quando tento, acho que tenho um bom nível de eficácia na desconstrução do que quer que me incomode. Especialmente se me sinto confortável cavalgando o cavalinho branco do bem contra o mal. Aí sou capaz de fazer um estrago. Só que, passado o episódio, olhando para os lados, não vejo o saldo de minhas investidas. Fica o travo amargo.

Jogar pra torcida e bancar o bom moço é bem primitivo. Destruir retoricamente é cômodo, fácil e excitante como uma droga. Criar alternativas, construir contra a corrente, reinventar onde todos se repetem, isso definitivamente não gera saciedade imediata de meus instintos mais automáticos e agressivos.

Fui atrás  de amigos para ouvir sobre esses sentimentos. E busquei os amigos que julgo serem capazes de olhar a floresta com algum distanciamento. Constatei que minhas apreensões não são só minhas. Estão por aí, desarticuladas, sem patrocínio político, sem proteção de uma corporação, mas estão por aí, no senso comum.  Descobri que é palpável o desconforto e é constante a preocupação com o transbordamento do populismo justiceiro inoculado na base da esquerda e da direita e vocalizado sem custos ou responsabilidade nas redes sociais. Esses ímpetos, dizem meus interlocutores, podem ser sinceros ou, como sói acontecer, são reles versões políticas ultrapassadas bancadas por grupos de interesse que, penso eu, estão desconectados de qualquer intenção de resgatar a sociedade prostrada e desesperançada que temos diante de nossos olhos.

Então, passamos a nos perguntar: “E se”? E se além de falar que o Governo é inepto (sem discordância, certo?) nós falássemos: “imagine que passamos a depender só de nós mesmos. Extinguiu-se a capacidade de discernir e executar do Estado. De repente temos o poder e a obrigação de propor o que consideramos ser o melhor. Como resolveríamos esse (x) problema que está nos atormentando?”

Mais ainda, e se nos colocássemos o desafio de sugerir e FAZER diferente? Será que somos capazes?

Trata-se de extrapolar nossa menoridade cívica (aquela que se resume a criticar, cobrar e esperar do Governo) para reconhecer o óbvio. Se nós mesmos não desentortarmos o que está torto, ninguém o fará. Vivemos um tempo de anomia social sem precedentes. Nenhum setor tem visão ou projeto hegemônico. Quase todos tem notável poder para desmanchar iniciativas.

Há espaço para se fazer diferente, tem que haver, mas impõe-se que reconheçamos nossas debilidades, sobretudo as comportamentais. Feito isso, já tarda o tempo para buscarmos o concurso dos melhores quadros para arregaçarem as mangas e darem suas contribuições, pondo de lado os vieses apriorísticos dos grupos de interesse, bem como a arrogância dos dogmas ideológicos e religiosos.

Quem sabe se trouxermos à mesa a ciência, o espírito comunitário genuíno, o sentido de give back, os melhores talentos individuais, a sensibilidade com o espírito coletivo, quem sabe assim a gente tenha uma chance.

 

Formação de motoristas umas pivicas

17 de fevereiro de 2017 0

Quando meus pontinhos se somaram em infrações leves e médias suficientes para eu perder o direito de dirigir depois de 40 anos sem acidentes, fiquei incomodado comigo.

Logo me conformei ao descobrir que não estava só. Não suspeitava que tanta gente caísse enredada nesse “rigor” da lei. Me resignei, mas só fechei um olho. Nesse país onde tudo é torto, será que fui enquadrado por uma ação republicana? Hummm…

Se temos regulação adequada, formação e reciclagem eficientes de motoristas, como fomos parar na lanterna do ranking das mortes no trânsito? As coisas não batem e saltam evidências de que o benefício das reciclagens não está sendo entregue. Tem que ter gato nessa tuba.

Viatrolerbus

O número de 47 mil vítimas fatais no trânsito a cada ano (24 por 100 mil) nos coloca entre os piores desempenhos do mundo. Isso é de uma dimensão que poucas guerras atingem. Noutra comparação tétrica, as mortes por acidente de carro estão no encalço de número de assassinatos (60 mil ano) que o Brasil vergonhosamente ostenta. Se o sistema universalizado de formação e reciclagem de motoristas estivesse entregando resultados, não poderíamos ter o morticínio sobre rodas que temos. Esse quadro é uma vergonha moral e uma desumanidade, claro, mas também tem uma perversa repercussão econômica. O Ministério da Fazenda e a OMS estimam que os acidentes de trânsito consomem 5% do PIB em países como o nosso.

Pela magnitude e pelo impacto, esse tema precisa de uma cruzada nacional, e é inaceitável que tamanha selvageria seja tratada com complacência. Mas é.

Como podem deduzir, estou frequentando uma auto-escola. E me vejo no coração do lugarzinho onde o Brasil cordial e subserviente faz fronteira com o banditismo institucionalizado.

auto-escolaSomos poucos gatos pingados na sala, todos buscando cumprir horas-aula para obter a licença ou, no meu caso, para reaver a carteira de motorista. Horas-aulas nesse caso é um eufemismo bobo para uma farsa grosseira. Estamos em uma sala de aula sem professor, sem tarefa, sem atividade. Todos pagamos para estar trancafiados em uma saleta onde aguardamos o tempo passar. Não estamos sós. Nos faz companhia uma traquitana de controle de presença que bem poderia servir de prisão eletrônica domiciliar. De tempos em tempos, ao bel-prazer, a coisa apita e o aluno tem que deixar a impressão digital para provar que está presente. A cada chamada há uma janela de 5 minutos de tolerância caso o sujeito tenha ido ao banheiro e tais. Mas que não abuse, passados 5 minutos a maquineta fecha a verificação e quem não colocou o dedão é considerado ausente.

Ao final, me sequestram 30 horas em troca de nada que me faça melhorar como indivíduo ou como motorista. O conteúdo cabe em uma apostila que deveria estar acessível online para ser testado também na internet. Simples, se quem engendrou isso não estivesse querendo criar dificuldade para vender facilidades, como me parecer ser o caso.

Não tinha veleidades de aprendizado muito edificante. Mas assim é demais, um escracho e um devastador exemplo negativo para meninos e meninas que buscam se qualificar para a primeira carteira. De todas as maneiras essa “reciclagem” só passa uma mensagem muito cínica:  você não precisa ser, basta parecer informado e capaz de manejar um veículo.

Outra oportunidade perdida para melhorar o sentido de responsabilidade e cidadania. São milhares de escoletas fajutas por todo Brasil, milhões de jovens pessimamente formados e, no sentido essencial do termo, uma legião de pessoas deformadas por essas excrescências que se auto intitulam auto-ESCOLAS (ou CFCs).

Adoraria descobrir quem foi a mente pervertida que criou essa cretinice. Tamanho mal – sem falar no custo – me faz desconfiar que tem a Odebrecht por trás. Tem que ter. Um burocrata sozinho não pensaria tanta calhordice.

A situação geral do trânsito pede que se pare de repetir formuletas que já provaram não dar certo, como esses centros de formação de condutores que tem lobby sindical fortíssimo para proteger seus próprios interesses, mas nenhuma força para promover a civilidade e a vida no trânsito.

Quanto a mim, vou cumprir direitinho tudo o que (não) devo fazer. Errei. Fui punido. Tenho que pagar. Preferia estar ajudando a limpar uma creche, ensinando crianças, ou simplesmente contribuindo em dobro para uma instituição, como a Thiago Gonzaga, que de fato promova a educação para o trânsito.

#motoristando

 

Carnaval e Halloween

03 de novembro de 2016 0

Não moro em San Francisco. Passo tempos por aqui. Meses a cada estada e sempre que posso. Curto várias coisas. A comida, o clima, a inventividade tecnológica mas, sobretudo, a inteligência emocional e a empatia coletiva que estão por todas as partes. Acho que é disso que me abasteço mais, aqui mesmo na minha vizinhança no Cole Valley, bairro característico da San Francisco de sempre, pré hipsters. Ou, traduzindo, uma mistura de Cidade Baixa com Petrópolis.

Ao norte, a dois quarteirões, está a Haight Street com seus hippies extemporâneos e os andarilhos underground. Ao sul, está a Castro Street, que já foi cidadela gay e hoje ainda é, só que com gays estabelecidos após tantas gerações em que a condição deixou de ser marginal para se tornar mainstream. Nos quarteirões entre Haight e Castro, o perfil é mais comum, famílias entremeadas com uma miscelânea humana (e de cachorros também!). Desde vizinhos contemporâneos da Janes Joplin ou do Grateful Dead, até inocentes casais nerds com seus bebês.

Há dois dias, bem atrás de casa, rolou a festa de Halloween do bairro. Fui conferir. E uau!!! Não tinha idéia de que a festa fosse tão viva e inclusiva. Me lembrou dos relatos que os mais antigos faziam sobre os Carnavais de rua no Brasil, que não tive prazer de conhecer. Famílias brincando, casas abertas recebendo quem chega. Não havia lança-perfume, mas sobrou criatividade.

Halloween2

Imerso na festa, outra vez me torturei com a pergunta. Por que eles podem ser espontâneos, ocupar as ruas onde moram, celebrar como quiserem e onde quiserem e nós não?

Quanto mais vivo nesse parte do território gringo, mais me convenço: o sucesso das inovações que acontecem por aqui é conseqüência e não causa. É por que investem na diversidade e na tolerância como estilo de vida que a originalidade acontece. E tolerância, vai ser difícil me convencerem do contrário, advém da confiança das pessoas de que estão seguras. Daí, concluo eu, que segurança leva ao respeito, que emula a tolerância, que enseja a imaginação e a criatividade, e, por fim, a coragem para empreender: segurança-respeito-tolerância-imaginação criativa-empreendimentos!! Faz sentido? Pena que nesse círculo virtuoso “só” não temos a fundação: segurança.

Cada vez me entusiasmo menos com as inimitáveis externalidades visíveis e quantificáveis do Vale do Silício, com seus empreendimentos rumorosos, sua riqueza inflada por PR e seus adoradores de unicórnio. Isso pode inspirar alguns, mas é epidérmico. O importante é entender como chegaram até os comportamentos que geram o sucesso tão aspirado quanto difícil de ser reproduzido.

Por trás deles vejo valores, empatia e modelos mentais que se moldam ao mundo ao invés de esperarem que o mundo venha se moldar a eles por piedade ou obrigação,  como parece ser o que acontece no Brasil em geral e em Porto Alegre em particular. Isso nos afasta do que há de essencial no Vale do Silício, que são as crenças de que quem está aqui tem uma causa e um propósito na vida que passa por fazer o mundo ficar melhor pela sua ação e iniciativa pessoal.

Olhando essas pessoas de divertirem em uma segunda-feira que não foi feriado, me sinto cativado pelo jeito acolhedor, respeitoso e confiante com que a maioria leva sua vida e deixa os demais levarem a deles.

HalloweenAqui as casas se abrem para estranhos no Halloween. Músicos tocam de graça, todos se cumprimentam, a inclusão é o nome da brincadeira entre jovens e velhos, pobres e ricos, de todas as cores e credos. As portas estão abertas. E a polícia (da foto), na falta de outra coisa para fazer, tieta o povo na rua.

Não é tão difícil chegar a esse padrão. Eles são normais. Nós é que não vivemos uma vida normal ao cedermos os espaços públicos para a violência e nos sitiarmos como ratinhos assustados.

Se recuperarmos os valores da civilidade, e se o respeito a eles for imposto, logo-logo Porto Alegre pode ser como San Francisco.

Micro bairro, macro alma

27 de abril de 2016 0

Com o cuidado e a delicadeza que não me é própria, peço licença pra tratar de um tema menos palpitante, mas não menos significativo do que a macro economia ou a bancarrota política que tem ocupado cada um de nossos poros. Falo da nossa rua e do nosso bairro.

Sei que é um tema que não verte sangue, nem emoções digitais para consumo rápido. A crise assusta. E nos leva a diversionismos. Já promovemos os patéticos Jean Wyllys e Bolsonaro, já fustigamos o recato obnubilado da mulher do Temer e já nos saciamos com a bizarrice da mulher hipertrofiada do Ministro da Dilma.

Suficiente, não? E o país parado.

Que tal sair do berreiro de argumentos exauridos ou de temas estéreis e olhar para outras agendas, por menos épicas e mais prosaicas que pareçam? Suspeito que corremos o “risco” de encontrarmos novos espaços de concordância e, possivelmente, de discordância. Mas novas.

Na rua e no bairro, dá-se a hora da verdade. É onde se vê quem trabalha pelo interesse coletivo, contribui com sua comunidade, torna a vida mais sustentável ou, pelo menos, respirável.

por do sol (1)-001Ali é o microcosmo mais concreto do que dispomos do universo. O lugar onde moramos, afinal, é a edição de nossas preferências, restrições e possibilidades. É ali que aprendemos a experimentar a vida e expandir limites. Ao contrário da política dos políticos profissionais, aqueles do desfile tétrico do domingo do impeachment, que é sustentada pela dissimulação e dissenso, na rua ou no bairro há uma certa candura. Depois da família, rua e bairro são as unidades mais próximas da nossa vida afetiva e cotidiana. Ali, as diferenças não precisam da PF ou do Moro para serem clareadas e passadas a limpo: basta caminhar até o buraco aberto, o cano rompido ou o bico de luz queimado e decidir quem conserta.

É verdade que a violência e o abandono desses espaços tornam essa candura menos cândida, ao nos sequestrar com as restrições impostas pela violência e nos desencantar pela negligência com que praças e ruas são tratadas. Mas continuam sendo a nossa rua e o nosso bairro. Se nos alienamos deles, nos alienamos de nós mesmos e, possivelmente, de alguns amigos queridos que nunca conheceremos.

A desconexão com nossos micro espaços urbanos cobra preço alto à qualidade da nossa socialização e à maneira como exercemos afetos e talentos no mundo real. E, especialmente, tributa a cidadania, dado que, fora do mundo digital onde tudo se fala e se ouve, mas nada acontece, acabamos ancorados na família. Família é a base essencial da cidadania e sinal vital de saúde social, mas complica se for a exclusiva e única forma de indivíduos terem relações sociais. A família é pedra de toque na estruturação afetiva e na formação de hábitos. Mas não pode ser a única fonte de formação e crescimento, sem contar que pode também ser disfuncional. Isso para aqueles que tem uma família.

Nas gerações anteriores, o aprendizado sobre conquistas, limites e empatia se dava nas ruas, nos espaços públicos que agora são, dói dizer, tristes zonas de exclusão.

Imagino que haja exceções pela vastidão do Brasil. Desconheço e não quero aqui universalizar a impressão que colho na minha rua e no meu bairro, onde vejo uma comunidade enclausurada e auto limitada a reclamar dos governos, vivendo acuada atrás de grades e bunkers, “protegida” por segurança privada. Vejo a estética da derrota da liberdade individual e coletiva. Essa estética há de trazer consequências à felicidade dos indivíduos e, por decorrência, à confiança, à criatividade e ao espírito empreendedor que deve existir na sociedade.

Desencantado com a política que conheço, tenho fé nas ações que incidem sobre os pequenos espaços e nos pequenos hábitos capazes de moldar o caráter de comunidades e sociedades. A alienação desses espaços opera para o País como anti-treino para a grande cena nacional. Resolver o Brasil sem resolver o micro bairro, é como um cardíaco que toma remédio para o colesterol e continua sedentário e se esbaldando na picanha. Ou como reclamar dos políticos e continuar acumulando omissões e deslizes na nossa vida cotidiana.

Não me conformo que isso seja tudo que possamos fazer. Certamente é menos do que devemos fazer. Eu próprio, não sei bem como, a um custo de oportunidade factível, me engajar nas transformações que reclamo.

Hoje recebi esse panfleto eletrônico com uma ação proposta por meus vizinhos em San Francisco: http://revolutionizehaight.org/

Haight Street

Morri de inveja. Querem revolucionar a Haight Street. Não estão reagindo à nenhuma intervenção desastrada ou viaduto truculento proposto pela prefeitura, nada disso, estão apenas propondo – alguns vizinhos para o conjunto da vizinhança – um redesenho e uma nova função social para essa rua que é um ícone da cidade e do movimento libertário que se iniciou ali, nos anos 60, e conquistou o mundo sem nunca ter rompido com suas raízes.

É iniciativa de cidadãos, e se construírem o consenso, a Prefeitura será oficiada. Tão diferente do vetor que vejo aqui onde cidadãos, em regra, se reúnem não para resolver problemas ou criarem iniciativas, mas para reclamar, suplicar, reivindicar, o que seja, mas sempre orientados para o onipresente governo que lá estiver. Mesmo sabendo que os governos são ineptos para 80% das soluções que necessitamos.

2-IMG_2355Minha casa em San Francisco fica a uma quadra da Haight, e essa proximidade foi um dos fatores que me atraiu para aquela vizinhança. A rua é alegre, tem música a qualquer hora, tem lojinhas inusitadas e uma ecologia humana fascinante. Ali não tem hipsters, nem startup. Tem sem teto, malucos, outsiders, artistas, pequenos comerciantes; e tem alma, criatividade e muita, muita diversidade. A alma de San Francisco está na Haight.

Eu adoro essa rua como está e por isso me surpreendeu positivamente que queiram mudar para melhorá-la. É uma intervenção para ampliar os valores que são a identidade da rua.

Vejam o projeto e pensem quanto disso poderíamos fazer em Porto Alegre, sem dinheiro público, apenas com imaginação, bons exemplos e vontade de fazer algo pelos espaços que estão bem próximos de nós.

 

PS: em POA, em uma saudável contramão da história, registro e dou créditos ao Shoot the Shit (http://www.shoottheshit.cc), um raro exemplo de que se pode fazer intervenções que aproximam pessoas, melhoram o astral e, sobretudo, se opõem ao fatalismo impotente e à mediocridade reinantes no mainstream.

 

Quanto vale nossa reputação?

23 de março de 2016 0

De tudo que vejo, sinto e ouço sobre o Brasil nesses conturbadíssimos tempos, o tema da imagem do país me toca em particular. Cada nota, cada matéria, cada talk show estrangeiro fazendo galhofa com a situação do Brasil, me dói na alma. Sei que esse impacto não se dissipa automaticamente com os rearranjos macroeconômicos que hão de vir. As cicatrizes da imagem e a percepção negativa perduram.

Tenho razões para ter essa sensibilidade. Uma é pessoal. A vida me deu a oportunidade de me descolar do padrão nacionalista quadrado que espremeu minha geração durante a longa, opressiva e medíocre ditadura de direita. Escapei por um triz do sonho pequeno de ser funcionário público, como era a ambição maior de quem não era filho de rico, e acabei um empreendedor improvável, que teve sua empresa de tecnologia adquirida pela líder mundial do setor onde atuava.

Ao contrário da doutrina liberal, que prega menos estado e o máximo de liberdade para os indivíduos, a direita brasileira era primitiva, estatista e autárquica. E claro, em cada cabide estatal, mamavam amigos do regime e milicos escolhidos por eles, entre eles e por processos cuja transparência era nenhuma.

Vez que outra, esses tecnocratas sem expressão se outorgavam iniciativas cujas contas pagamos até hoje. Caso do programa nuclear brasileiro e da famigerada reserva de mercado para produtos de informática, para citar dois entre centenas de exemplos. Sim, quando o mundo começou a competir na direção do super computador e da micro computação, nós aqui tínhamos a “opção” de comprar produtos obsoletos, feitos sob autorização do governo, por amigos dos ditadores de plantão e a um custo quatro vezes maior do que se pagava lá fora.

Vocês pensam que tem muambeiro hoje em dia? Decuplica esse mercado no período da ditadura e da reserva de mercado. E assim era para tudo. Para comprar uma calça de brim, só no mercado negro. Um disco recente do Led Zeppelin, só no contrabando. Imagine para produtos eletrônicos. Por trás disso havia uma presunção letal dos milicos de que o Brasil se bastava. E assim nossa geração foi doutrinada em disciplinas obrigatórias de “Moral e Cívica” para acreditar no Brasil como uma grande autarquia. E, se assim era, quem precisava dominar outros idiomas? Melhor ficar com o código secreto do português, que o mundo se curvaria a aprendê-lo.

Vamos combinar que não era moralmente difícil ter lado nessa época.

Quando a esquerda ascendeu, mudou o sinal da operação, mas a premissa estatista e o nacionalismo populado por amigos em posições-chave não mudou. Aí estão os Eike Batistas, os empreiteiros do coração, os cargos de confiança negociados como prêmio pela lealdade ao partido. Isso é ignorar melhores práticas, é obscuridade e é o ponto onde direita e esquerda, fossilizadas, tornam-se irmãs siamesas e operam similarmente na criação de uma atmosfera antiempreendedorismo e antiliberdade.

Caí desse baú em algum ponto da estrada. E quando os americanos vieram para negociar conosco, estava claro para mim que minha empresa respondia por uma parte do valor apenas. A outra vinha do fato de tratar-se de um ativo brasileiro em uma janelinha de oportunidade em que o Brasil prometia tornar-se um grande país. Sabem quanto vale essa percepção do “momentum” – e essa imagem – em uma negociação entre duas partes privadas? Vale muito. O valor do Brasil, que sinalizava querer deixar as sombras autárquicas para trás, era contabilizável. E isso, se mantido consistentemente, poderia ter se tornado uma torrente de empreendedorismo e prosperidade. Poderia, mas era vôo de galinha.

Mas há outras razões para ter preocupação com a menos-valia da imagem brasileira. Nossos jovens, sobretudo os que tem espírito irresignado e inovador, tem que ter perspectivas geográficas e ambições largas e não meramente nacionais.Ou são competitivos em qualquer lugar do mundo, ou não estão no jogo. Me compadeço porque, diferente do ambiente que encontrei quando vendi minha empresa, sei que nossos melhores jovens estão enfrentando um olhar desconfiado, ou, na melhor das hipóteses, indulgente, cada vez que tentam fazer um negócio. Empreendedor brasileiro, atualmente, tem que ser duas vezes mais competente que um equivalente americano, indiano ou chinês.

Mas, mesmo quem não é jovem nem empreendedor, mas é informado, já deveria saber que país escravo de commodities, com capitães de indústria dando as cartas e políticos de quarto mundo fazendo regras, se não “pivotar” na direção de uma nova ordem inovadora, includente e sustentável, em pouco tempo será parte do limbo do mundo. Em muito pouco tempo.

Por isso tudo, me senti especialmente acachapado pela cobertura feita pela mídia internacional nesse final de semana. Estamos sendo tributados como um todo pelos erros e desvarios de muito poucos. Nessa hora, aos olhos estrangeiros, governo e país tristemente se confundem. Mas quem paga essa conta não é o Governo.

   2-NYT3-WSJ

A cobertura internacional tem sido farta, eu sei. Mas como a desse final de semana não lembro igual. Dos EUA veio uma capa do WSJ e um editorial do NYT. Da Inglaterra partiu um editorial do The Guardian. Todos no mesmo tom, na mesma direção e com menos de 24 horas de diferença.

1-GuardianO Guardian é o maior e mais importante jornal inglês. Os outros, são os dois mais importantes dos EUA. Falando dos dois americanos, o New York Times é simpático aos Democratas e o Wall Street Jornal (R.Murdoch) aos Republicanos. Eles tem estilos e valores diferentes e não escondem as posições editoriais. O NYT, há 2 semanas, assumiu a candidatura da Hillary Clinton.

O ponto é que os grandes jornais escrutinaram o mapa da dor brasileira. O Guardian e o NYT em editorial. E o WSJ com a matéria de capa da edição desse final de semana. E sabem o que surpreendeu? Os dois americanos, inimigos figadais que são, dessa vez concordaram: o Brasil precisa enfrentar a saúva da corrupção sistêmica ou ela acabará conosco.

Então, ainda lambendo as feridas causadas por uma cobertura desse calibre, com nossa imagem destroçada, não tem outro jeito, nos resta começarmos a preparar a reconstrução.

E a métrica de sucesso dessa reconstrução poderia ser a CONQUISTA de espaço jornalístico semelhante, só que positivo. O que fazer para isso e quanto tempo isso vai nos tomar? Essa resposta virá das escolhas que fizermos nos próximos meses.

E aí está minha – e de muitos – preocupação principal. O que fazer? Lendo os jornais brasileiros e acompanhando a timeline de meus amigos petistas, 
observo o ocaso de uma geração de esquerda que viu seu sonho entortar em mãos erradas. Com o estertor do Governo e o ocaso constrangido de quem o suportava, vai prá vala o único partido que pode ser chamado de partido no Brasil.

Na dita oposição, onde partidos são grupos de interesse e militantes são adeptos bissextos, vejo caciques políticos tratando da crise como compadres resolviam problemas no século passado. Com acordos de cima pra baixo, com formulismos artificiais, com acomodação por baixo dos panos e o uso de conceitos antigos em tempos que clamam por transparência e colaboração horizontal para uma refundação do país.

Penso que estão errando a mão outra vez. O povo que desaprova o Governo do PT não aprova, nem mandatou Temer e Serra como portadores da esperança. Ao contrário, o povo está dizendo que não quer apenas mudar os políticos no poder. Quer mudar a política. E há sinais crescentes de que movimentos construtivos de alternativas democráticas começam a vicejar.

Depois do fim tem o começo 

17 de março de 2016 0

Estou fora do Brasil há três meses, trabalhando, estudando e experimentando coisas novas. Antes de viajar pensei, vai ser bom dar uma relaxada sem esse bafão quente na nuca que temos no Brasil. Encontrar com gente cuja preocupação não passa pela Lava Jato e maracutaias que fazem a ficção parecer desinteressante. Vai ser bom respirar sem sentir esse aperto no peito que todos sentimos nesse Brasil em tempos de recessão econômica e anomia política. Vou até poder falar com gente que não acha que está vivendo o fim dos tempos e leva a vida levemente como é pra ser levada.

Foi um período fértil, de recomposição de energias e idéias, tanto que resolvi fazer o caminho de volta ao Brasil em uma travessia de carro da Califórnia à Flórida, passando por 8 estados americanos. Curti a idéia de desconectar e, ao mesmo tempo, vivenciar fisicamente os Estados Unidos profundo, aquele sem hipsters, mas com raízes na independência que foi conquistada 50 anos antes da brasileira e sucedida por uma guerra de secessão. É a América negra e dos red necks, musical, mas obesa; de um país que faz guerras, mas tem dificuldade de cuidar dos veteranos, um país que patrocina o combate às drogas, mas as consome em grande escala. Esse é o país do transporte individual, de cidades espalhadas demais, das camionetonas, do consumo de recursos como se não houvesse amanhã. Já a natureza pelo caminho, essa tem mais de agreste que de placidez verde. Mas tem vida por toda parte nesse berço republicano que já foi segregacionista e ainda é bem conservador. Mas que tem lei (enforced) para todos. Essa América não se vê em NY ou SF. É outro bicho.

Mas eu, DDA que sou, definitivamente não estou tão concentrado na viagem. O problema é que, depois de um certo ponto, a gente pode deixar o país, mas ele não deixa a gente. A cada parada, a primeira coisa que faço é procurar o sinal de Wi-Fi pra saber em que país vou aterrissar. Impossível não estar excitado com as notícias que virão.

Na parada de ontem, New Orleans, fico sabendo que ganhei de presente de aniversário o Lula como Ministro da Dilma. Hoje pela manhã, claro, mudou. A reação contrária superou a previsão (será que eles ainda fazem previsão de alguma coisa?) e a Dilma parecia dar outro destino ao papelzinho da nomeação. Mas eis que se solta o boi com a corda e Lula, nada mais tendo a perder, joga pesado com seu dois de paus. O que dirão futuras as gravações? Imagino que algo do tipo: Fo…-se!  Fo….m-se todos os fu…dos. Vou ser Ministro!”. Como ele disse, e está gravado, “agora é guerra!”. E ele assumiu a Casa Civil com brados e urras dos companheiros.

Mas, pera aí, eu entendi bem? O Lula é Ministro mesmo? Como, se na minha antepenúltima parada, em Tucson/AZ, ele havia sido conduzido coercitivamente para depor sobre atos de corrupção que o implicavam diretamente? E na seguinte, Las Cruces/NM, se falava até em prisão do Lula?

Na última parada, Galveston/TX, parecia que a radicalização escalara com os milhões de manifestantes pela saída de Dilma. Tanto foi a grita geral que a mim pareceu que isso poderia despertar uma contra reação da companheirada, como fez o Brizola na Legalidade em 61 para garantir a posse de Jango. Na Legalidade, Brizola passou por cima das diferenças com Jango para defender a Lei. Então, quase houve uma tragédia. Agora, a contra reação seria pelo que mesmo? Para defender um suspeito de corrupção? Até pegar em armas falaram os governistas para defender o líder, supostamente injustiçado por um sistema que, mesmo longe da perfeição, parece que finalmente passou a honrar o nome que ostenta: Justiça.

Meu pitaco aqui: não tem o risco que havia em 61. Antes havia substância para uma tragédia. Agora é só farsa.

Mesmo que montada como uma teatralização patética, a reação pró governo junto da completa ausência de alternativas do outro lado não me ajudam a relaxar e curtir a travessia. Viajo absorto não na paisagem, mas na cena brasileira. O que vamos fazer a seguir?

Caramba, e se cair a Dilma e entrar o Temer? Melhor não fica. O currículo dos caras que entrariam com o PMDB do Temer é top em sacanagem! Entre outras diatribes, o Trump, criticando a intervenção americana no Iraque essa semana, falou: “criamos a Harvard do terrorismo”. Boa frase como confissão de culpa. Pois o PMDB é a Harvard da malandragem. Como não tenho mais idade para ser inocente, descarto essa possibilidade.

Tá, mas se o impeachment pegar os dois? Bem aí tem que convocar eleições. E então, entra o Aecio que já quase, quase, se elegeu em 2014? Mas o Aecio pensa o que mesmo? Pelo que sei, não lança uma ideia há quase dois anos. Que líder é esse que se encolhe na hora difícil? Quem se refere a ele como um alternativa forte? Nem o PSDB. E ainda tem esse zumzumzum… Se duvidar será vizinho de cela do Lula.

E penso também nos meus amigos tão petistas quanto tolinhos, já que permanecem pobres (tenho amigos nessa categoria – frequentemente dissimulada de contra quem é contra o PT para não se assumir como PT- e isso não me faz gostar menos deles), pensam que o rugido das massas brancas, azuis e multicores é só uma conspiraçãozinha intencional de base política contra “eles”.

Ledo engano. Fosse assim eu mesmo, pragmaticamente, avaliaria riscos e possibilidades e completaria minha viagem tranquilamente. O ponto é que a energia reativa ao PT (e ao PSDB, e ao PMDB, e….) não tem projeto. É só contra. Não tem depois. E quando pinta alguma perspectiva vem com o viés torto de lideranças envelhecidas que não estão entendendo nada. Ora Serra e Renan inventarem um sistema nas coxas pra induzir a transição! Quem lhes dá essa autoridade? Começaram a apagar o fogo jogando logo um galão de gasolina em cima.

Os tempos são de desconstrução. É fácil nos dias que correm ver o que está acontecendo. E é facílimo reagir. Complicado é escolher saídas que não representem somente o nosso gosto mas constituam uma expressão do que é bom para o país. Sejam includentes de diferentes segmentos e ainda tragam embutida uma visão de futuro, projetando uma imagem da nação que se quer e se pode criar sobre os escombros que estão aí.

Nesse sentido, se o PSDB não tem grandeza ou lideranças para se colocar à altura da ocasião, o que dizer do PT, cujo líder máximo e absoluto se acomoda em uma cadeira de Ministro para fugir da cadeia?

Curiosamente, meus amigos petistas e proto petistas estão hoje com suas timelines ocas. Atualmente, fora alguns dinossauros, ninguém mais é abertamente petista. O que era trendy e aquecedor infalível de paqueras há 8 anos, está em completo desuso. Pois essa jogada do Lula em meio ao tremor permanente do Governo, cria uma situação na qual até os que continuam usando estrelinha na camiseta desacorçoaram. Isso é como aquela história do amigo que se mete em encrenca e a gente vai tentar livrar o sujeito. A gente sabe que ele fez merda, mas é amigo. Aí a gente vai saindo de fininho levando o cara, que, de repente, chuta o abajur. Não dá pra defender mais. O Lula chutou tudo. Na frente de todo mundo. Não tem defesa. Agora não está em jogo se ele é culpado. Ele disse que é. Em discussão está o tamanho da pena.

Mas, aqui com meus botões na beira do Mississipi, eu fico pensando. Esse golpinho do Lula é até bom. Dá um sobrevida assistida por aparelhos ao governo petista e agrega algumas semanas para se acomodar as abóboras do pós Dilma. Essas semanas serão preciosas. Aí sim está o foco que deve atrair corações e mentes interessados no Brasil, muito acima da política de cartas marcadas que está rodando à nossa frente como um filme de algum lugar no passado.

flor no agresteNesse passado o Brasil foi degradado exatamente pelos que venderam bandeiras de esperança e justiça logo convertidas em traição e desonra. O futuro pode ser diferente. Especialmente diferente de como o status quo político, de esquerda, centro ou direita, foi capaz de pensá-lo até aqui.

Vai depender das nossas escolhas. Da sua e da minha. Novos atores e novos conteúdos são a matéria prima mais urgente agora. Voltando ao Brasil estarei no front para ajudar a desenhar saídas para o Brasil que sejam:

- transparentes,

- contra a política convencional, e

- orientadas à inovação em métodos, valores e objetivos.

Enquanto isso, vamos assistindo esse filme velho de como o atraso somado à cafajestice está liquidando o Brasil. Mas eles não conseguirão. O filme segue, e pode mostrar um Brasil que juntou os seus melhores e se reconstruiu. Nós podemos ser uma grande Austrália. Só que melhor.

E segue a viagem.

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Post script: enquanto eu terminava de rascunhar essa nota, o Judiciário empilhou ações contra a posse de Lula, todas indicando que a intenção nada teve de republicana e apenas prendeu-se à mesquinha intenção de mudar o foro de julgamento do ex-presidente. Triste para um partido que já vendeu sonhos de justiça. A primeira decisão já teve despacho favorável e agora Lula é menos Ministro e mais investigado outra vez. 

Minha próxima parada amanhã será em Saint Augustine/FL. Os 900 km de estrada são tempo para muitas reviravoltas no Brasil desses dias.  

Atirando entre uma corrida e outra

25 de fevereiro de 2016 0

Mais um evento assustador envolvendo o Uber, essa empresa que se jacta de atuar por padrões de capitalismo libertário. E dessa vez comparece junto à opinião pública não na farsa usual, pela qual promove o conflito como estratégia de marketing, mas na forma de tragédia e selvageria no assassinato de 6 inocentes cometido por um motorista psicopata em Kalamazoo, Michigan.

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A estratégia do Uber no mundo tem dado certo. Deixa rastros e cicatrizes, mas, pelo menos em termos de expansão, tem dado certo pra ele. Já são mais de 300 cidades conquistadas, sempre com a mesma abordagem, de Paris à Goiânia: mete o pé na porta, atropelando a corporação dos taxistas, categoria alheia a qualquer conceito de qualidade e não raramente enrolada com corrupção política. Depois, deixa os mais caros advogados que o dinheiro pode contratar cuidando da bronca.

No meio disso, os que consomem o serviço louvam seu entusiasmo de consumidor com a opção que não tinham. E assim segue o Uber, com ódios, mas também com o amores. Amores nem sempre bem informados, mas, enfim, amores.

Em San Francisco, onde fica a sede, assim como nos imensos mercados da China e da Índia, a empresa está comendo poeira. Por mais capitalizada pra “comprar” mercados que esteja, a fricção como estratégia cobra um preço e é alto. Dinheiro não é elástico e todo negócio, em algum momento, tem que se provar sustentável. O Uber ainda não é. Dá prejuízo. E custa muito em subsídio privado (muito melhor que público, claro).

Ao bradar pela liberdade de mercado, o Uber toca a música liberal, mas desafina. Um serviço que usa vias públicas não está acima do bem e do mal. E a razão é consistente com o direto de escolha tão caro aos liberais, nesse caso o direito da maioria de não escolher o Uber e não ser molestado pela ocupação assimétrica das ruas. Liberdade não é o direito de qualquer um – ou qualquer empresa – de fazer o que quer quando quer. Isso, no limite, seria a barbárie. Na Califórnia essa música não cola e o estilo Uber tem feito o Lyft crescer. Nenhum de meus amigos aqui tem o Uber como opção preferencial nessa categoria de serviço. Vários transformam o boicote à empresa em um gesto de posicionamento contra a agressividade do Uber.

E o que precisa ser esclarecido, não apenas pelo Uber mas por qualquer inovador em serviços de mobilidade que sejam providos em espaço público, permanece sem resposta. E vai permanecer assim. A cultura de negócio do Uber não é compatível com transparência e compromissos sociais mínimos. Se é o usuário o que paga a conta, o cidadão que não usa o UBER é o que mesmo? Em San Francisco a Secretaria de transporte estima que Lyft e Uber, juntos, respondam por 1-2% dos deslocamentos diários. Há 98% que não usam esses serviços mas podem ser afetados por eles.

Perguntas que não calam e o Uber deve responder:

  • como pretende mitigar o impacto de seus veículos no espaço público, onde compete com o transporte dos “não consumidores do Uber”?
  • como vai se comprometer a prestar contas das externalidades positivas e negativas no trânsito: emissão de gases, melhoria na fluidez do trânsito, diminuição de acidentes?
  • que destino dará às informações coletadas, especialmente as de origem e destino, que ajudam no planejamento da cidade e até na criação de novos negócios?

Existem dezenas de perguntas que uma empresa “de bom caráter” buscaria espontaneamente esclarecer. O Uber cria diversionismo, escolhendo adversários fracos (táxis e prefeituras capturadas pelos táxis) para distrair nossa atenção e seguir sua pretensão de se tornar monopólio global – que é no fim e ao cabo o objetivo da empresa e o sonho dos investidores.

Bem, feliz ou infelizmente, na vida real, os fatos frequentemente descarrilham do planejado. E aí o dinheiro, pelo que infunde de excesso de confiança e presunção, pode até atrapalhar. Quando vieram explicar o assassinato em massa promovido por seu motorista, os executivos do Uber se conduziram como fazem em geral, tratando o assunto como mais um assunto e não um evento chocante que obrigaria qualquer pessoa normal a demonstrar sensibilidade humana. Não, simplesmente defenderam o processo de seleção de motoristas do Uber. Nenhum sinal de abatimento pelas vítimas e suas famílias. Compaixão, no caso, nem fingida. E insistiram que o motorista não era fichado, logo nada tinham a fazer. Mentira e engodo.

Desde quando o “clearing” da polícia – tão competente quando pode ser uma polícia – elimina a avaliação humana? Ainda mais numa super corporação com acesso a todas as tecnologias do Vale do Silício. Será que o screening de executivos se resume ao que fazem com seus motoristas? Ou o Uber resolveu tomar o risco, imaginando que o maluco típico do US escolheria a Lyft? Ou será que foi simplesmente uma opção de menor custo e dane-se o componente humano e o risco de vidas?

Me informei com quatro motoristas depois do evento. O Lyft tem inspeção veicular e entrevista individual, nada demais. O Uber nada.

Ride sharing veio pra ficar. Danem-se os capturados políticos se não entenderem. Por menor que seja a fatia de consumidores interessados frente ao conjunto da população, eles têm o direito à escolha e é abusivo obrigá-los a pagar o mesmo valor pelos serviços ultrapassados e inconsistentes dos táxis.

Daí até entender que o Uber é a cavalaria que vai salvar o mocinho, vai uma enorme distância. Mais provável é que capture o mocinho e o venda no mercado secundário onde escrúpulos são uma imperfeição.

Antropologia de pracinha

18 de fevereiro de 2016 0

Bem no fundo da casa onde moro em San Francisco, colada no terreno, tem uma pracinha. Quando vimos a casa pela primeira vez, achei que era uma boa ter os fundos indevassados por vizinhos abelhudos. Mal sabia que quem se tornaria abelhudo seria eu.

Na verdade é uma pracinha bem pequena, mais para beco que para praça. Mas ela tem vida e é bem usada, todo tempo.

1-pracinha

Da janela do meu quarto, sou um voyeur da vida no beco. Ali, fora uma maconhazinha à toa, não é lugar de drogaditos. Poderia ser. Afinal estou a 200 metros da Haight com a Ashbury, célebre esquina onde surgiu o movimento hippie nos anos 60. Os hippies setentões estão ainda por lá, barrigudos, cabelo branco desgrenhado, já quase se pode contar os fios. Mas continuam de baseado em punho. São parte da paisagem da Haight, tocam baladas de Dylan e Neil Young e isso é legal. Às vezes eles põe um cartazinho, “money for weed”, e o pessoal doa. Acho que alguns se identificam com o modo de vida. Outros doam por que aqui na América se respeita quem fala a verdade. Se é pra maconha, não inventa que tá doente, a mãe tá mal…

Mas a vizinhança dos hippies não é tão lírica. Bem ao lado deles, legiões de jovens fugidos dos “fly by states”, a América profunda e repressiva, acabam engolidos pela metanfetamina em uma paisagem humana triste e degradada. Quem viu Breaking Bad pode ter uma idéia do efeito da droga nos “nóias” do hemisfério norte.

Mas isso não chega no meu beco. As tribos ali são coloridas e nada borderline. Moleques de skate, velhinhos batendo papo, funcionários do comércio local lagarteando ao sol e todos os cachorros do mundo. Meu beco é o beco dos cachorros. Ali eles e seus donos socializam 24 horas por dia.

O beco não tem paisagismo especial, não é propriamente charmoso, mas tem verde e bancos, gente e cachorros. É razoavelmente limpo e bastante seguro. Da janela noto a velhinha com o chihuahua preocupada se o Akita da moça não é agressivo. Não era.

É uma mistura de espécies e comportamentos. Logo um cara solta o pitbull bobão para correr, buscar a bolinha e voltar a correr 40 vezes. Vem então um senhor com jeito casmurro com seus três cuscos, todos alquebrados e lentos como o dono. Tudo que fazem na praça é experimentar os odores do dia, fazer xixi e cocô (só os caninos) e vadiar. Fazem isso compenetrados, cães e humanos. Tanto que, olhando da janela, fico com a impressão firme de que, se não visitassem a praça todo santo dia, suas vidas seriam mais vazias. A dos cachorros e a de seus donos.

Já se vão 4 anos consecutivos, e a cada temporada fico eu alguns minutos por dia na penumbra do meu quarto, incógnito, observando a praça. Às vezes por mais que só alguns minutos. Sou um fiscal invisível e auto atribuído. Me distraio à toa e monitoro a fortaleza moral dos americanos, tudo junto. Sempre quis ver um frequentador da praça cometendo o pecadilho de aproveitar-se que ninguém está olhando para virar as costas e deixar pra trás os cocôs de seus amigos de quatro patas.

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Centenas de espreitadas depois, jamais consegui flagrar um único dono de cão, seja no silêncio da manhã ou no lusco fusco da tarde, com a praça solitária, deixando para trás a materialidade da má educação e do desrespeito ao espaço coletivo.

Isso me incomoda. Preferiria descobrir defeitos neles que os tornassem mais próximos dos meus vizinhos brasileiros. Queria perceber por meus próprios olhos que nem todos americanos são assim tão íntegros e que basta a suspensão da vigilância para serem o que somos.

Não posso generalizar o bom comportamento, mas com os freqüentadores da minha pracinha me “frustrei”. Não são como nós. As centenas de donos de cachorro da minha pracinha em San Francisco cuidam dela como de seus cachorros. Com carinho e respeito. Bem diferente de mim e dos meus vizinhos de Porto Alegre, que convivemos com praças abandonadas, sujas e hostis à convivência.

Inevitável pensar: como pode a mais privatista das sociedades ter tamanho senso de respeito à comunidade e ao bem público, e a nossa, eivada de estatismo por todos os lados, produzir cidadãos com tanta desconsideração pelo espaço público?

Não sei se juntar cocô faz uma sociedade melhor. Acho que está longe de ser condição suficiente. Mas penso que é um indicativo razoável para se medir a robustez de uma democracia e se aspirar por uma sociedade onde os cidadãos tenham força moral para exigir políticos decentes, menos capturados pelo passado e menos incapazes diante do futuro. Existem muitas formas de juntar “cocôs” além da literal que vejo meus vizinhos gringos fazendo com disciplina impecável.

Todos podemos fazer muito mais que criticar os políticos, falar mal do Brasil, responsabilizar os outros. Aqui se fala a toda hora: “stop whining and start fixing” ou “pare de choramingar e comece a consertar”.

Moral da estória, se nós próprios limparmos as m… que fazemos, melhoraremos nossa vizinhança e quem sabe até o país.

Ano novo, dor antiga

08 de janeiro de 2016 0

O ano começou me apequenando, me deixando de cócoras mesmo. Aos 20 mins do dia primeiro, veio o primeiro chamamento inescapável de uma intoxicação por ostras baratinhas (10 reais a dúzia, pero…) que o pobre aqui comeu como feijão pra logo se esvair por dois dias jurando nunca mais por aquele bicho na boca.

Assim como as aventuras de 2015 já haviam me feito entender que meu lugar é mais perto do asfalto metropolitano que dos agrestes naturais, me rendo agora à evidência de que minha vocação gastronômica está mais para canjinhas que para comidas gosmentas ou afrodisíacas.

Volto à POA pela 101 na rota particular dos banheiros menos sujos (não consegui incluir esse precioso atributo no Waze) e temendo que o churrio possa ser mais do que um indelicado mau presságio. Um aviso de que todo cuidado será pouco nesse 2016.

Ou será o contrário, quando a derrota é inevitável, valem os 20 minutos de prazer com as ostras me fazendo sentir um nababo? A vida é curta e tais… Prosaicas dúvidas de um desarranjado.

Assim, cauteloso mas sem querer me submeter às más vibrações que me assolavam, segui tentando sossegar as entranhas até… levar um soco na boca do estômago ao ler a matéria da Eliane Brum, uma jornalista que incluo na minha short list das pessoas que podem ser os tecelões de uma nova alma para o Brasil. José Padilha, Ricardo Semmler, Lama Padma, Gabeira, Drauzio Varela e agora ela, Eliane Brum.

O soco da Eliane é duro porque é sensível. Forte por indesmentível. E nocauteador porque não tem defesa. Pra ninguém.

Ela reporta uma “fatalidade” planejada com as ferramentas da omissão, da complacência e da mais infame discriminação, a que é introjetada dentro de nós. O soco da Eliane não esperou só os 20 minutos das ostras, tempo que as malditas ostras demoraram para dizimar minha microbiota. O soco moral da Eliane tardou 5 séculos.

Durante todo esse tempo nos deixamos capturar pela cultura da canalhice justificada e sempre resistente às boas influências acontecendo mundo afora. Tudo perfeitamente consistente com o legado de nossos antepassados desde que puseram as mãos saqueadoras sobre a Terra Brasilis. E essa cultura – “falta de” parece mais preciso –  expandiu-se com a fronteira agrícola, gerando destruição irreparável à natureza e aos povos nativos, vista e vistos como um recurso a ser dilapidado em nome da missão desenvolvimentista ungida por igrejas, políticos e sacanas em geral.

indios-brasileirosÍndios? Quem? Mata atlântica? Amazônia? Queremos é ser um grande e homogêneo roçado todinho ocupado pela monocultura, a cidadela mundial dos defensivos agrícolas e das commodities. E assim seguimos nosso rumo de grande nação, cujo futuro, a julgar pelo que vemos, até deus está a duvidar.

Por absurdo que seja, o bebê índio, Vitor Pinto, não foi morto por um psicopata isolado. Isso é o que o modelo mental do status quo quer que pensemos. A verdade é que milhões de cidadãos normais como você e eu assinamos ao lado da confissão do bandido. O mais boçal é o que vai prá cadeia. Nós outros vamos chorar compadecidos, mas sem força, coragem ou vontade para mudar o modelo que criou as condições para que a morte do indiozinho sequer possa ser considerada uma grande surpresa.

Quem matou não foi a faca do assassino. Foi o longo rosário de patifarias que aconteceu debaixo de nossos olhos, penetrou nossas almas quando fomos deseducados para chamar índio de bugre, até chegar ao doído retrato trazido pela Eliane.

OK, os tempos estão muito f… Então, não serei eu que vou questionar se você achar que essa tragédia não é mais especial que a da bala perdida, o aliciamento da polícia pelo tráfico ou a praga da corrupção. Sei que todos temos limites para tratar das infelicidades da vida sem nos tornarmos, nós mesmo, cronicamente infelizes. Eu mesmo, não fosse por uma outra pancada tomada há mais de 30 anos, talvez lesse o artigo da Eliane com  tristeza, mas também com a esperada distância protetiva para minha saúde mental.

Todo tom confessional de um autor qualquer querendo se levar a sério tem enorme chance de ser aborrecido. É como se o sujeito se creditasse um nível de interesse que só ele acredita que tem. Má literatura, mau jornalismo, chato de mesa de bar. Ok, ficha um prá mim em todos esses aí. Mas vou compartir uma experiência pessoal mesmo assim.

Sei que muita gente compartilhou a matéria da Eliane. Pessoalmente, soube do fato pelo Paulo Faria, um amigo de outra era, de quem os caminhos da vida me afastaram sem nunca terem diminuído minha admiração pela força amorosa que conseguiu somar à capacidade intelectual superior que sempre teve. Por combinar talento e sensibilidade, ele sempre esteve muitos furos acima de nós. Enquanto nos achávamos os bambas por combatermos a ditadura, o Faria já olhava adiante e intuia o fracasso de nosso pobre repertório esquerdista cristalizado em dogmas autoritários e crenças bizarras. O presente daquela geração, agora no poder, fala o quanto o Faria estava certo.

Com a sensibilidade de sempre, me deparo com o post do Faria,  que me sacude com o fato de Imbituba. Meu hipocampo acordou sobressaltado. O Faria acionou uma lembrança que me fez  reviver um outro episódio, com outro kainganguezinho, em outro tempo, mas com a mesma marca de negligência e abandono. Naquele outro caso, o proprio (Faria) e eu, há 35 anos, vimos a pedra ser cantada e, nem assim, conseguimos impedir a tragédia.

Achei que devia sair do padrão anódino do FB para saudar o velho amigo, embora preferisse fazê-lo por razão mais feliz. O caso de Imbituba nos reconectou pelas tristezas comuns desse e daquele caso há 35 anos. A gente falou assim:

Jose Cesar Martins Jose Cesar Martins 
  • Faria, que tristeza pra todos e pra nossa geração em particular. Que fracasso o nosso! Não sei se você vai lembrar pois fazem mais de 30 anos, mas isso me trouxe de volta a lembrança do Jefferson, o “japones”, como era conhecido aquele kaigangzinho de 17 anos, mãe prostituta, pai desconhecido, que migrara aos 10, sozinho, para perambular pelo Centro até ser acolhido na Vila Pinto e virar um precoce patrão de drogas. Ninguém olhou pra ele antes disso. Mas quando entrou no mercado foi chamado a pagar as “taxas” para a polícia corrupta. Só que o Japonês era invocado, querido na vila tinha o reconhecimento da comunidade e desprezo por tira sacana. Não pagava as taxas e, claro, tomou um ultimado: paga ou morre. Aí a Analice, freirinha da Vila, me procurou e eu a ti. Lembro que abriste teu apto na Duque para receber a mim e ao Japonês. Nós dois mais angustiados que o ameaçado. Ele estava tranquilo enquanto debatíamos o que fazer, se sentia acolhido, nunca mostrou medo ou preocupação com ele mesmo. Parecia saber que 17 anos era já uma sobrevida de quem porta um DNA Kaigang. A gente mexeu com o que pode, mas pudemos pouco. Um ou dois meses depois o Japonês foi assassinado. Fui um dos que identificaram o corpo daquele outro menino Kaigang. 
Paulo FariaPaulo Faria 
  • Sim, Zeca, que fracasso o nosso! Até hoje me ocorre de sonhar com o Japonês, e acordar atormentado pela dúvida que nunca mais me abandonou, se fizemos a coisa certa, se podia ter sido diferente. Vou morrer com essa dúvida, entre tantas outras. Um abraço saudoso. 

 

Lembro como se fosse hoje do travo na boca e do aperto no peito ao sair do necrotério. Estive outras vezes no necrotério, nunca é uma experiência amena. Mas aquela foi a primeira, eu estava só e demorei para acreditar que não teria outra chance de fazer mais e melhor.

Até hoje me culpo por ter sido incompetente. Mas não carrego a vergonha da omissão. Não é consolo. Toda vez que tenho que falar bem do Brasil, essa é uma das experiências que arrefece meu ímpeto, mas não meu ânimo – maníaco? – de achar que posso, pessoalmente, fazer alguma diferença.

Faça o que eu fizer, o Japonês vai continuar lá, no meu pé de ouvido, falando baixinho: o que você  já fez hoje para melhorar esse mundo torto?