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História da infografia

09 de novembro de 2013 0

A comunicação visual começou muito antes da escrita, segundo Sancho (2001), a codificação dos elementos visuais em linguagem aconteceu muito depois. Compreende-se que o surgimento histórico da infografia aconteceu na pré-história, e os primeiros mapas foram criados muito antes da escrita.

Em Marcos na história da visualização de dados, de Michael Friendly e Daniel J. Denis,de York University, Canadá, traduzido por Mario Kanno –, pode-se perceber cronologicamente a evolução da infografia e dos estados estéticos: como eram usados os mapas, tabelas, ilustrações e os detalhes estruturais.

No período de 6200 a.C até o século 17 surgem os primeiros mapas e diagramas, e Kanno apresenta a origem da visualização geográfica a partir dos diagramas geométricos, tabelas de posição das estrelas e mapas. O registro do primeiro mapa reproduzido foi a representação de uma cidade da Babilônia encontrada na região de Kirkuk, Iraque. 

Primeiro mapa historicamente registrado

Primeiro mapa historicamente registrado

Primeiro mapa historicamente registrado

Fonte: Marcos da história da visualização de dados.

Itanel Quadros (2005, p.4) afirma que “é necessário relembrar que, enquanto suporte do pensamento, o visual antecede qualquer linguagem utilizada na comunicação entre pessoas”. Esta é uma história que começou nas cavernas há cerca de 30 mil anos e prossegue até os dias de hoje. Santaella também (2012) discursa sob o mesmo prisma e afirma que:

“os desenhos rupestres, encontrados nas cavernas pré-históricas, que são formas de expressão de conteúdo emocional e não racional ou de organização da informação, também funcionam como um registro em suporte fixo de algo que o homem contemporâneo pode relacionar como o tempo e o espaço. (SANTAELLA: 2012, p33)

Peltzer (1992, p.98) reforça a ideia quando relata que:

“A escrita, desenhar letras é mais fácil que desenhar bisontes, tem códigos que apareceram milhares de anos após os desenhos daqueles animais. Primeiro foi fala e a língua, nessa ordem, segundo Saussure, depois a escrita, que é um modo de representar a língua e seus fonemas (sistema fonético) ou por conceitos (sistema ideográfico). A linguagem visual, a língua, a fala e a escrita são sistemas de signos completamente diferentes. Um é visual, o outro lógico, o seguinte fonético e o último lingüístico. A lembrança da ideia leão põe na minha cabeça a imagem do leão. Posso tentar desenhá -lo (fá-lo-ia se fosse mudo e analfabeto) para comunicar o que vi (o meu conceito de leão) a outra pessoa. Ou posso dizer a palavra leão: um conjunto de fonemas que unidos significam esse animal; e também poderia escrever as letras que correspondem a esses fonemas, unidos para significar o referente leão (escrita fonética), ou desenhar o ideograma – se soubesse fazê-lo – para comunicar a um chinês o conceito leão (escrita ideográfica).”

Segundo Silva apud Costella (2002, p. 14):

escrita pictográfica que consistiu na representação desenhada de objetos concretos, figuras de animais, etc., formando, em sucessão, um relato coerente. Gradualmente, alguns destes sinais tomaram um sentido convencional e passaram a designar conceitos abstratos, tornando-se ideogramas. Em outros sistemas, acresceram-se as sílabas que, articuladas, formaram palavras e, por fim, surgiram as letras, isto é, os sinais alfabéticos que, correlacionando com fidelidade à escrita e à voz humana, representaram graficamente a fala”.

Outros autores, como Dondis (1997) e Clark (2003), relatam que grandes obras, como “A criação de Adão”, de Michelangelo, e a “Última Ceia”, de Da Vinci, representadas nas figuras 11 e 12, respectivamente, são descrições e narrativas visuais de acontecimentos que tinham objetivo utilitário funcional, ou seja, transmitir mensagens às pessoas que não decodificavam as letras. Em um prisma mais elaborado, assumem o caráter de realismo e dramaticidade que as letras não alcançariam. 

“A criação de Adão”, Michelangelo.

Sistine_Chapel_ceiling

Fonte: Wikipedia.

“Última Ceia”, Leonardo da Vinci.

Leonardo_da_Vinci_(1452-1519)_-_The_Last_Supper_(1495-1498)

Fonte: Wikipedia.

A evolução no século 16 –  expansão marítima da Europa, novas técnicas e instrumentos foram desenvolvidos e, assim, novas, e mais precisas formas de apresentação visual do conhecimento apareceram.

Segundo Cairo (2008) e Peltzer (1992), o desenvolvimento de diversos equipamentos auxiliou no aperfeiçoamento da infografia, que está relacionado à história da tecnologia, como a prática da gravura, da fotomecânica, entre outros. Por fim, está ligado à organização dos complexos sistemas e subsistemas necessários para impressão criados por Johan Gutenberg, em 1436.

Os maiores problemas do século 15 se referiam à “medição física – do tempo, distância e espaço – para astronomia, navegação e expansão territorial. Avançam as estimativas, as probabilidades, a demografia e todo o campo de estatísticas. No fim do século, os elementos para iniciar um “pensamento visual” estão prontos”.

A infografia abaixo foi feita em 1644, por Michael van Langren’s, que tem a intenção de mostrar as 12 referências de longitude de Toledo a RomaInfografia de Michael van Langren’s.

Infografia de Michael van Langren’s.

roma_toledo

Fonte: Marcos da história da visualização de dados.

No fim do século 16, percebem-se características mais analíticas de dados. Esta infografia foi datada de 1786, feita por William Playfair, na Inglaterra. Observa-se um gráfico de barras e de linhas com dados econômicos e o uso de tipografias diferenciadas.

Infografia de Michael van Langren’s.

Infografia de Michael van Langren’s.

Fonte: Marcos da história da visualização de dados.

Pelzter (1992) registra também que o primeiro mapa publicado em jornal foi na Inglaterra, no dia 29 de março de 1740, no Daily Post de Londres. Era uma gravura com informação visual de um ataque realizado por Vernon, almirante inglês, à cidade de Portobello, nas Caraíbas, durante uma incursão contra o tráfico de ouro espanhol.

A infografia moderna deu os primeiros passos no século 17, com o primeiro gráfico informativo publicado em jornal na capa do “The Times”. Peltzer (1992) afirma que, em abril de 1806, na cidade de Londres, a morte do Mr. Blight, infografia abaixo, foi destaque na capa do “The Times”.

Quadros (2005, p.5) descreve a infografia da seguinte forma:

Era uma informação visual sobre como se dera o assassinato de um cidadão chamado Isaac Blight, composta por uma vista da casa de Blight nas margens do Tâmisa e um plano dela com referências numeradas dos passos do assassino, da trajetória da bala e do deslocamento de Blight até onde caiu morto. No rodapé aparecem legendas com explicações dos números postos no gráfico.

A morte de Blight.

A morte de Blight.

Fonte: Quadros (2005, p.5)

Ainda no século 17 acontece a era de ouro da estatística. Uma infografia considerada importante pelo fator científico, aponta Belém (2011), é a gravação do movimento de uma corrida de cavalos por meio de câmeras acionadas por fios, criadas por Eadweard Muybridge, nos EUA. (Figura 16)

Percebe-se que é usada a técnica de fotografia para captar as imagens do cavalo durante a corrida, e o intuito é observar que o animal, em certo momento, deixa de encostar as quatro patas no chão.

Fotografias de Eadweard Muybridge.

muybridge

Fonte: Veja online. Disponível em http://bit.ly/MHqCit. Acesso em 20/01/2012

No século 19, “John W. Tukey reconhece a importância da análise gráfica dos dados e lança novos padrões e inovações. Na França, Jacques Bertin publica sua Semiologia Gráfica, organizando visão e percepção dos elementos gráficos. Por último, os computadores começam a mostrar seu potencial”.

Kanno finaliza as observações sobre a história dos infográficos afirmando que:

“o desenvolvimento de softwares e sistemas de computador, altamente interativos e de fácil manipulação, foi a alavanca para tudo. Os novos paradigmas de manipulação de dados, a invenção de técnicas gráficas e os métodos de visualização multidimensional deixaram suas marcas”.

 A consolidação das ferramentas técnicas e metodológicas da visualização da informação veio durante a Guerra do Golfo[1]. Esta evolução superou o papel e outras tecnologias começaram a surgir. A possibilidade de envio de imagens via cabo ou antenas, e posteriormente via satélite, tornou a comunicação entre mensageiro e receptor mais ágil, possibilitando a publicação de mapas, imagens e informações. Peltzer (1992, p.115-116) acrescenta valor a essa descrição:

“Quando se dá a separação entre a fotografia e o visual não fotográfico, e a união de ambos os sistemas num mesmo processo, a remissão de uma informação visual começa a realizar-se de um modo digital e ampliam-se as possibilidades de confecção diretamente segundo um código digital, ou mediante a digitalização dos gráficos e desenhos realizados de forma clássica. (…) A digitalização permitiu o uso generalizado, pela imprensa, da linguagem visual. (…) Foi então que a linguagem reservada às enciclopédias e outras obras de divulgação científica e técnica pôde ser transferida para a imprensa e para a urgência do jornalístico (…). “

Sancho (2001, p.54-57) concorda que o avanço tecnológico possibilitou um incrível avanço na construção da infografia:

“Nos anos 80 se deu o renascimento dos gráficos explicativos, influenciados pelo desenvolvimento dos computadores pessoais dotados de programas específicos para gerar ilustrações. A aparição do computador Apple Macintosh, em 1984, facilitou enormemente a criação de imagens e se converteu em boa medida no padrão de trabalho para um grande número de ilustradores e designers gráficos (…) Nesse contexto aparece uma nova infografia utilizando como ferramenta de trabalho a informática adaptada às representações, ao tratamento da imagem etc. (…) Desde 1986 até o presente se produziram avanços espetaculares tanto nos programas informáticos como nas redes de transmissão de gráficos, o que possibilitou que a sua publicação se generalizasse nos jornais. A infografia se revelou como o meio mais eficaz para transmitir de maneira rápida e concisa os aspectos fundamentais da informação de temas, que por sua novidade, desconhecimento geral ou distanciamento do leitor, precisariam de muitas palavras para serem explicadas. Ela ampliou o universo cognitivo e incorporou elementos distantes.”

Percebe-se, portanto, que a infografia se redescobre e começa a utilizar a tecnologia a seu favor, buscando aperfeiçoar técnicas e metodologias. No entanto, observa-se que a infografia mostra alguns estágios dentro do próprio universo, distribuídos dentro da transposição e convergência da informação.


[1] Guerra do Golfo – Guerra ocorrida em 1991, entre a coalizão de países liderados pelos EUA, contra o

Iraque, de Saddam Hussein, em decorrência da invasão do vizinho Kuwait, em 1990.

 

Referências

BELÉM, Alexandre. Eadweard Muybridge. Disponível em http://bit.ly/MHqCit. Acesso em 20/01/2012.

CAIRO, Alberto. Infografia 2.0: Visualización interactiva de información em prensa. Madrid: Alamut, 2008.

CAIRO, Alberto. Information Graphics Workshop in Spain. Disponível em: http://www.thefunctionalart.com/2012/03/information-graphics-workshop-in-spain.html. Acesso em 26/04/2012.

CLARK, Kenneth. Leonardo da Vinci, Rio de Janeiro, Ediouro,2003.

DONDIS, Donis A. Sintaxe da linguagem visual. Traduação Jeferson Luis Camargo. São Paulo: Martins Fontes, 1997.

KANNO, M., Marcos na História da Visualização de Dados, 2008. Disponível em http://bit.ly/NrOQhG. Acesso em 15/02/2012.

PELTZER, Gonzalo. Jornalismo iconográfico. Lisboa, Planeta Editora Ltda., 1992.

QUADROS, Itanel. História e atualidade da infografia no jornalismo impresso.  Disponível em: http://www.portcom.intercom.org.br/pdfs/30471591613632904001157422900782018538.pdf. Acesso em 20/9/2010

SANTAELLA, Lúcia. O que é semiótica. São Paulo: Brasiliense, 1985.

SILVA, William Robson Cordeiro. O Desenho da Notícia: Uma Análise Semiótica da Infografia do Jornal de Fato. 2010. Disponível em http://bit.ly/tN0dIa. Acesso em 14/09/2011.

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