Aproveitei meu último final de semana para comprar um gravador digital de voz que fosse MP3 também. Entenda, leitor, que um homem casado não decide as coias sozinho. E este gadget especificamente será utilizado por mim, como gravador, e por minha mulher como MP3. Isso já dá uma dificultada. Mas tinha mais: tinha que ser compatível com Linux.
É uma questão controversa, a da compatibilidade. Muitos criticam o Linux por “não ser compatível com nada”. Dizem que dá trabalho aos usuários porque exige uma busca por drivers e outras coisas. Culpam a distribuição e, por tabela, os pinguinzeiros - “quem mandou não usar o que todo mundo usa”(eu já ouvi isso).
Eu penso diferente. Pra mim, quem tem que escrever driver ou desenvolver softwares multiplataforma é o fabricante. E se o fabricante não atende a minha necessidade enquanto usuário Linux, não tenho nenhum problema em dar uma reclamada com alguém.
Na primeira loja, depois do meu questionário padrão sobre possibilidades e configurações do aparelho. Depois de pegar na mão e cheirar o gravador, fiz a pergunta derradeira: é compatível com Linux?
Por um momento, achei que o camarada atrás do balcão não sabia do que eu estava falando. Foram alguns constrangedores segundos de silêncio sob aquele o olhar que dizia: “mas tu não usa Windows? É o mais comum, e é BARATO”. Entendi que não era compatível e disse que não me interessava pelo aparelho.
Minha busca seguiu, e as respostas negativas também. Entre um “vou chamar o meu colega que entende mais de informática” e outro, ninguém tinha um gravador compatível – ou que ao menos os atendentes soubessem que era.
Estranhei: eram marcas conhecidas e, por experiência própria, sei que muitos acessórios de grandes marcas basta plugar na USB para funcionar. Houve quem me sugerisse procurar os drivers, tentar virtualizar o programinha para extrair arquivos, mas nada que atendesse, de fato, minha necessidade – mais ideológica que funcional. Ou a da minha esposa, que também só usa Linux.
Na última loja (porque será que é sempre na última?), quando eu já estava anotando as marcas e modelos para pesquisar na internet por drivers e comandos de compatibilidade, bato o olho num gravador que tinha tudo que eu precisava (MP3, mais de 100 horas de gravação, rádio FM, entrada para microfone externo, grava até telefone), mas de uma marca que eu não conhecia.
Pedi para ver o manual – sempre peça para ver o manual, fica a dica – e lá pelas tantas: compatível com Windows…. Ubuntu 8.10. Comentei com o atendente que não tinha encontrado toda a manhã um gravador compatível com Linux.
Dei aquela chorada básica para o vendedor e para a minha mulher – foi um dos gravadores mais caros que encontrei, e também o com mais recursos – e fui para casa com um gadget compatível com o meu sistema operacional.
Valeu a busca.
Atualizado @ 09:44 de 21 de dezembro: pessoal, prefiro não fazer propaganda da marca aqui. Até porque não testei as outras, que não avisavam que o aparelho era compatível com Linux. Como disse no texto, muitos equipamentos basta plugar no USB para funcionarem. É, portanto, provável que muitos dos gravadores digitais de outras marcas também funcionem dessa forma. Queria deixar claro, também, que em todos os casos fui muito bem atendido, e alguns antendentes inclusive demonstraram empatia com a “situação” dos usuários de Linux, sugerindo busca de drivers, por exemplo. Ainda assim, a maioria não tinha certeza de compatibilidade sem a manifestação “oficial” do fabricante pelo manual - que é o verdadeiro objeto de crítica deste texto. Houve comentários mais ofensivos, inclusive indicando que o aparelho custou mais caro por ser compatível. Na verdade, ele custou mais caro por ter muitos recursos. Além disso, não custou tanto quanto a versão mais barata do sistema operacional proprietário mais utilizado e compatível do mundo. Continuei na economia. O texto também foi editado para deixar estes esclarecimentos mais claros. Continuem comentando, por favor.