Já estamos no fim de janeiro, mas não custa falar de novo em fim de ano no exterior. Cada lugar tem suas tradições e costumes, isso o Marcelo Müller, de Cruz Alta sentiu lá na França. Além disso, esse é o período em que uma certa 'melancolia' toma conta tanto do intercambista, quanto da sua família por aqui. Mas todo o agito da época acabam fazendo a gente esquecer um pouco disso e só aproveitar as novidades. Outra ideia boa é tentar fazer algo que aproxime você de casa, como fez o Marcelo.
Dá uma olhada em como foi o fim de ano dele na França:

"Meu fim de ano foi tão movimentado que nem tive tempo de pensar no que anda acontecendo pelo Brasil. Além de tudo, meus amigos estão estudando muito para o vestibular que se aproxima e a minha família relaxando na praia. Enquanto aqui, no hemisfério norte, festas de fim de ano são decoradas com neve, como nos desenhos animados americanos que víamos quando pequenos. Essa parte é realmente mágica, mas é preciso fazer um esforço mental para não lembrar que ao mesmo tempo em que vemos uma bela paisagem nevada - e passamos um frio do cão -, os brasileiros se esbaldam nas areias com muita cerveja gelada, luau de madrugada e aquele clássico desfile de biquínis do litoral.
Tudo começa com o nome: Natal em francês é Noël, e isso responde a grande pergunta da minha infância, '"de onde vem o Noel de Papai Noel". O primeiro sinal que ele se aproxima são as suntuosas decorações de todas as cidades francesas: aqui se investe muito para dar um ambiente fantástico aos centros das cidades. Todas as principais ruas recebem guirlandas finalmente preparadas e luzes, luzes, luzes, vocês podem imaginar como franceses gostam de luzes. Em Lille, um grande pinheiro decorava a Grand' Place, principal praça da cidade, não menos grande que "La Grande Roue", roda gigante instalada para o Natal, que é uma tradição mais recente.
(Vocês podem ter visto a Grand' Place decorada com a roda gigante no meu vídeo em que eu desejo a todos um hilário "feliz aniversário", num post mais antigo.)

Primeira taça de Champagne, o de verdade!
As férias escolares de Noël começam por volta do dia 18 de dezembro e vão até o dia 3 de janeiro. Muitas famílias, como felizmente a minha família hospedeira, se dirigem as estações de ski. Aproveitei a oportunidade e passei a primeira semana de férias em Flaine, estação do Alpes do Norte. Foi nas montanhas, então, que passei o meu Natal francês. A ceia natalina significa aos franceses acima de tudo "aquele momento do ano em que comemoramos como se fosse a última vez". A mesa de Noël é muito, muito farta, além de requintada. Bebe-se Champagne (não os espumantes de Garibaldi, o Champagne original), vinho branco da Alsácia, para combinar com os frutos do mar, ou um vinho tinto de Bordeaux para acompanhar os queijos. Dependendo da sede, pode-se inclusive beber todos eles na mesma noite, respeitando a ordem, podendo-se arrematar com mais algumas taças de champanhe.
Os franceses têm o hábito de comer alguns animais vivos na ceia de Natal, como ostras. O salmão está morto, mas é geralmente cru. Os estranhos escargots, que ainda não experimentei, podem ser servidos também. E, com certeza, o caríssimo e delciosíssimo foie gras, literalmente fígado gordo, de pato ou ganso, que pequenas torradas com um vinho branco e açucarado. O prato principal pode variar entre as várias opções da cozinha francesa, mas geralmente é algo pesado, para manter o estilo da noite, como uma fondue savoyarde, no Brasil conhecida como fondue de queijo. Vale lembrar que quem deixar cair o pão no fundo paga uma prenda, geralmente correr em volta da casa quando faz -10°C!
Não satisfeito? Certamente o anfitrião oferecerá uma tábua com os melhores queijos franceses. De sobremesa, o prato tradicional é a "bûche" (tronco de lenha, em Português), espécie de rocambole de sorvete e creme de chocolate. Depois de comer a bûche inteira, se você ainda não teve uma hiperglicemia mas quer chegar lá, oferecerão-lhe os tradicionais bombons de Natal, que trazem perguntas sobre as tradições natalinas nas embalagens. Ah! Alguém ainda vai querer comer os Escargots Pralinés, mais fáceis de engolir, esses são chocolates em forma de Escargot com recheio de Praline, deliciosa confeito da tradição belga. Bom, agora pode-se ir dormir com a consciência tranquila de se ter bem alimentado.
Nossa família, que aprecia esses momentos glutões, fez duas ceias: uma no dia 24, nos Alpes, outra no dia 25, na casa de uns amigos em Bournois, pequena vila da Franche-Comté, onde se produz o meu queijo preferido, o Comté, na divisa com a Suíça. Depois da ceia do dia 25, todos decidimos sair no pátio para descer de trenó e fazer uma grande batalha de neve, nada mal. Os presentes foram trocados antes do jantar, ganhei um super presente do Papai Noël, um disco rígido para não perder as fotos desse ano na França.
Marseille, no sul da França, fui para passar o Réveillon. Viajei para conhecer a cidade, o Mediterrâneo e a Côte D'Azur, mas também para fugir do frio de Lille e simular qualquer coisa de brasilidade perto do mar. Exatemente como no Brasil, Natal é o momento mais família e ano novo a perdição com os amigos. Dia primeiro do ano é a quarta-feira de cinzas francesa: aquele dia em que toda a nação está de ressaca. Tirando a boemia, os franceses não tem nenhuma tradição de ano-novo! A terra de Fontenelle e Voltaire não abre espaço para superstições. Eu vesti uma camisa branca, saí com os amigos e… Todos vestiam preto. Pura e simplesmente. Ninguém me perguntou a cor da minha cueca, nem comeu não sei quantas uvas, nem nem deu não sei quantos pulos no mar, nada… A contagem regressiva foi bem calorosa, mas longe de ser a loucura brasileira.
Com a chegada de 2011, todos se abraçaram bem à brasileira, desejado as melhores coisas do mundo para a nova década. Como primeiros atos do ano, uma imensa peregrinação aos bares, boates ou festas privadas. Pouquíssimos franceses chegaram em casa antes das duas ou três da madrugada. Eu fui com os meus amigos para pequenas praias do centro de Marseille, onde ficamos vendo o mar até bem tarde, eu imaginando uma possível viagem num pequenino barco de pescadores Marseillais, passando pelo estreito de Gibraltar, atravessando o Atlântico até Itapema, litoral catarinense, onde o novo ano chegou às 3 da manhã, horário francês, para meus pais e a minha irmã. Recebi uma ligação deles, para confirmarem-me que a Terra girou como o esperado e que já era 2011 lá também. Não tive tempo para saudades, acho que foi essa visão do barquinho Marseillais atravessando o Atlântico. Acho que acertei ao ir atrás do mar, o litoral me fez muito bem: na praia todo brasileiro se sente em casa."
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