Débora Fogliatto, 20 anos, fez um semestre de jornalismo na University of San Francisco
Muita gente se pergunta (e me pergunta) se fazer um semestre de faculdade fora é uma experiência válida. Parar tudo por aqui para estudar em outro país, longe dos amigos, longe dos estágios e ainda por cima em uma outra língua? Sim, dá um tantinho de medo. Não é uma decisão e nem uma tarefa fácil, especialmente se você quiser aproveitar os créditos cursados no exterior quando voltar. Na minha singela opinião, só a experiência e a atitude de aventurar pelos corredores de uma instituição completamente nova já valem o suficiente. Nessa mesma conclusão, chegou também a Débora Fogliatto, estudante de jornalismo, após um semestre na University of San Francisco.
A jovem de 20 anos já tinha até abandonado o sonho de fazer parte da faculdade fora e uma bela hora resolveu simplesmente visitar o Centro de Mobilidade Acadêmica de sua universidade aqui em Porto Alegre. Por conta disso, vocês podem acompanhar agora nesse longo e interessante relato como foi a experiência para qual ela partiu em janeiro de 2012:
"A ideia de fazer um intercâmbio surgiu quando eu descobri sobre o Programa de Mobilidade Acadêmica da PUCRS. Sempre quis viajar, mas não havia considerado realmente fazer faculdade fora do país até descobrir que isso era uma possibilidade real. Mas com o passar dos semestres, fui me acomodando e a ideia foi aos poucos enfraquecendo. No quinto semestre da faculdade, a vontade voltou e eu resolvi ir até o Centro de Mobilidade Acadêmica e perguntar sobre as possibilidades de se vir para os Estados Unidos. Fui informada de que um convênio com a University of San Francisco havia acabado de abrir. Vir pra São Francisco se tornou meu sonho há uns cinco anos, desde que eu comecei a me interessar por movimentos gays e hippies, e consequentemente descobri a importância da cidade para ambos. Além disso, saiba que é uma das cidades mais liberais em um país bastante conservador.
A cidade imediatamente correspondeu às minhas expectativas. Não só as casas lindas e as paisagens , como as pessoas que são possivelmente as mais simpáticas que eu já conheci. Em quatro meses, nunca recebi um pingo de antipatia ou má vontade em nenhuma loja, restaurante, cafeteria, ou mesmo na universidade, entre os professores, funcionários e alunos. No início, foi estranho falar em inglês o tempo todo, principalmente nas aulas. Mas todos os professores foram muito educados e interessados pela diferente perspectiva cultural que eu poderia proporcionar em relação aos alunos americanos.
Inevitavelmente, me aproximei mais de outros alunos estrangeiros. No início das aulas, duas semanas de eventos e palestras são dedicadas especialmente aos alunos internacionais, onde eu conheci a maioria dos meus amigos. Pra mim, o mais interessante foi realmente conhecer gente de tantos lugares diferentes. Eu costumava subestimar quando ouvia pessoas que tinham feito intercâmbio falarem isso, mas conhecer pessoas de outros países me fez perceber como eu sei pouco e como eu conheço pouco sobre o mundo. Uma das minhas melhores amigas aqui é das Filipinas. Até então, só o que eu sabia sobre o país é que é composto de ilhas no sudeste da Ásia. Nunca imaginei que poderia conhecer alguém tão parecido comigo vindo de um lugar tão distante de mim.
Aqui, Jornalismo não é considerado um curso de graduação, e sim uma espécie de especialização dentro da graduação. Os cursos são chamados de Major, e dentro do Major se tem um Minor, que é algo mais específico. O meu curso aqui é Media Studies, enquanto Jornalismo é meu Minor. Talvez por causa disso, alguns dos meus colegas que planejam seguir a carreira jornalística reclamam da falta de ênfase em prática jornalística da faculdade. Já eu optei mesmo por fazer cadeiras mais teóricas sobre assuntos que eu não estudaria se não estivesse aqui, como feminismo, direitos humanos no cinema e política do Oriente Médio.
No início, a maior dificuldade foi ter que falar nas aulas. A participação é muito valorizada aqui, e na maioria das cadeiras é preciso opinar ou perguntar pelo menos uma vez em cada aula. Pra mim isso foi bem complicado porque não tenho o hábito de falar nas aulas, e ainda por cima eu teria que falar em inglês na frente dos colegas, a grande maioria deles americanos. Mas no fim acabou não sendo tão traumático assim, e acho até que isso vai influenciar e aumentar a minha participação nas aulas quando eu voltar pro Brasil.
As aulas são muito puxadas, e o nível de leitura exigido é bastante grande. Durante esse semestre, eu li nove livros exigidos pelas cadeiras e mais quatro livros como pesquisa para os trabalhos finais do semestre. Então basicamente é necessário fazer o que é sugerido nas intermináveis palestras sobre "como vai ser o seu semestre": encarar os estudos como um trabalho de seis horas diárias. Além de todas essas leituras, uma das aulas ainda exige que eu faça um artigo de quatro páginas por semana, enquanto em outra cadeira eu tenho teste a cada duas semanas.
Também me envolvi com o jornal da Universidade, e fiz várias matérias interessantes cobrindo eventos. No início foi complicado escrever em inglês, tanto as matérias quanto os artigos. Parecia que eu não conseguia traduzir os meus pensamentos. Nas primeiras palestras e aulas, eu anotava um pouco em português e um pouco em inglês. Aos poucos, esse hábito foi sumindo e eu fui me sentindo mais confortável com a língua inglesa, além de aumentar bastante o meu vocabulário.
Infelizmente, pra alguém que vai passar só cinco meses aqui, uma carga de estudos tão pesada às vezes é prejudicial. Como eu preciso passar muitas horas por dia na biblioteca ou no quarto estudando, acabei não tendo a oportunidade de conhecer a cidade inteira (ainda). Por sorte, vou ter alguns dias aqui depois que as aulas acabarem, e daí vou tentar aproveitar a cidade de verdade. Ir embora de San Francisco sem ter explorado todos os lugares possíveis seria um desperdício.
Antes de vir, eu me lembro de discutir com meus pais a respeito do investimento que seria. A gente ficava se perguntando se valeria a pena o custo de passagem, moradia, alimentação, mensalidade (embora eu pague o valor de uma universidade privada, e não o valor daqui), livros, compras, etc. E eu imagino que essa seja uma dúvida na mente de qualquer pessoa que esteja pensando em viajar. Hoje, prestes a voltar para Porto Alegre, eu tenho certeza de que vir pra cá foi uma das melhores experiências da minha vida. E não porque eu não valorize o meu país ou a minha cidade, mas porque me fez perceber o quanto mais existe aí fora que nós, presos em nossas rotinas em um pedacinho do mundo, acabamos ignorando.
_____________________________________________
Assim como a a faculdade da Débora, quase todas as universidades espalhadas pelo país oferecem convênios com instituições pelo mundo. Fora em algumas situações específicas, os alunos normalmente não recebem bolsa para cursar o semestre ou ano no local escolhido, mas por conta da parceria ficam isentos das taxas cobradas aos alunos normais. É só procurar Centro de Mobilidade Acadêmica da sua universidade para se informar sobre as possibilidades.



Eu gostaria de saber quais são as maiores dificuldades passadas quando se resolve fazer faculdade ou um curso de graduação no exterior.
Estou cursando meu ensino médio e as expectativas são grandes em estudar um tempo fora; já andei pesquisando e optei pelos U.S.A. e até pelo site da Babbel tiro minhas dúvidas sobre o idioma. Seria bom algumas dicas para melhor adaptação!