Depois dos primeiros dias de desespero sem a filha única, Silvia Guimarães, a mãe da Paula, que está no Texas, se acostumou melhor com ideia de ter a filha longe. Não que a saudade tenha diminuído drasticamente, mas depois de ver a felicidade dos filhos nas fotos e ouvir o ânimo na voz deles pelo telefone, os pais se tranquilizam e relaxam. O tempo que sobra acaba servindo para fazer outras coisas, antes deixadas de lado. Não, a saudade não diminui, mas se aprende a viver com ela. Até porque os pais têm de ser fortes para quando receberem a primeira ligação chorosa, que pode até demorar, mas sempre vem.
Acompanhe o relato da Silvia sobre as primeiras semanas sem a filha Paula, que está fazendo high school em Austin, nos EUA:
Paula (na esquerda) com a "irmã", Heidi, e o "tio" em casa
"O mais difícil é voltar para casa sem eles, é encontrar a cama ainda desarrumada que eles deixaram. O quarto naquela bagunça tradicional (este levou um mês para eu organizar), é tirar o resto da roupa suja que ficou no cesto e lembrar que vai levar muito tempo até você ver as roupas deles penduradas no varal. É o banheiro que fica arrumado, a casa que não tem mais coisas atiradas pelos cantos. É um prato a menos na mesa. É o banco do carona no carro que fica vazio.... É um rombo no seu coração, é um silêncio na casa, é o computador do lado do seu que não toca mais aquelas músicas doidas.
Tudo muda e, quando não se tem outros filhos, a gente volta toda a atenção e a frustração para o coitado do marido. Ele ouve tudo, o que quer e o que não quer. A pobre criatura tem que ter uma paciência de Jó e você nem percebe que ele também tá sofrendo, mas caladinho. Acho que esta é a única hora que mãe é egoísta. Me perdoem os pais, mas não dá pra ser diferente.
E aí passa um mês, e você tá ali, comendo, dormindo, falando com a filha uma vez na semana e achando ótimo, porque sobrou dinheiro na conta. Depois de tanto tempo, sobrou tempo para você, sobrou tempo pro casal, e vocês começam a viajar mais, a sair mais para comer fora, a ver outras pessoas mais vezes. Você começa a viver e achar que a vida é bela, e que tudo é lindo e que você tem um filhote maravilhoso que teve coragem de bater as asas e voar pra bem longe do ninho e você proporcionou isto.
Você se empenhou para isto! E agora a filhota tá lá, feliz, na rotina dela, com as outras amigas dela. Até a hora em que ela liga chorando e, então, você apóia, dá força e diz que ela é forte, é linda é inteligente e que isto tudo vai passar e vai ficar uma lição de vida maravilhosa. E, por incrível que pareça, você não despenca, não chora nem faz feio. Nesta hora você é exatamente aquilo que ela espera de você: o seu porto seguro, o lugar pra onde ela sabe que vai voltar.
A saudade é enorme e aumenta a cada dia que passa. Mas, ainda assim, tudo é muito lindo e muito válido e a gente já está planejando a festa do retorno dela, com tudo o que tem direito. Só que antes disso, temos de sobreviver ao Natal, ao Ano Novo, à Páscoa, às férias e ao próximo dia das mães sem ela. Me correspondo uma vez por mês com Mary, a host mom dela. Eu a amo desde o primeiro dia, pelo carinho e atenção que tem dado a minha filha. Já enviei presentes para eles e arroz e feijão para a Paula, afinal, ela sente saudade das nossas comidas daqui.
E se eu ainda choro? Mas é claro, quando eu cheiro a blusa dela que eu deixei sem lavar para ficar com o cheirinho dela (você faz isso sim...), só não me desespero. Na verdade, eu choramingo, e só um pouquinho. E olhem que ela andou se machucando por lá, torceu o pé e está usando uma bota por um mês, deve tirar nas vésperas do Natal e o seguro pagou tudo. Por favor, não deixem de fazer o seguro, é fundamental para a segurança da saúde de seu filho no exterior!
Homesick.
Guardem esta palavra. No literal: doença de casa. Mas é como se chama saudade de casa em inglês. Todo intercambista sabe no coração o significado dela e a família do intercambista também. Coloquei a Paulinha no avião e sei que vou buscá-la de volta, minha filhotinha, que vai voltar de lá, com ares de mulher e mais dona da vida dela.
É por isso que eu concordei em deixar ela fazer este intercâmbio, só que naquela primeira semana sem ela, eu não lembrava disso."







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