Pular a barra do clicRBS e ir direto para o cabeçalho.
clicRBS
Nova busca - outros
Capa ZH ZH Blogs Assine agora

Posts na categoria "a vida de quem fica"

Os primeiros dias da Paula no Texas

27 de dezembro de 2010 3

Depois dos primeiros dias de desespero sem a filha única, Silvia Guimarães, a mãe da Paula, que está no Texas, se acostumou melhor com ideia de ter a filha longe.  Não que a saudade tenha diminuído drasticamente, mas depois de ver a felicidade dos filhos nas fotos e ouvir o ânimo na voz deles pelo telefone, os pais se tranquilizam e relaxam.  O tempo que sobra acaba servindo para fazer outras coisas, antes deixadas de lado.  Não, a saudade não diminui, mas se aprende a viver com ela. Até porque os pais têm de ser fortes para quando receberem a primeira ligação chorosa, que pode até demorar, mas sempre vem.

Acompanhe o relato da Silvia sobre as primeiras semanas sem a filha Paula, que está fazendo high school em Austin, nos EUA:


Paula (na esquerda) com a “irmã”, Heidi, e o “tio” em casa

“O mais difícil é voltar para casa sem eles, é encontrar a cama ainda desarrumada que eles deixaram. O quarto naquela bagunça tradicional (este levou um mês para eu organizar), é tirar o resto da roupa suja que ficou no cesto e lembrar que vai levar muito tempo até você ver as roupas deles penduradas no varal. É o banheiro que fica arrumado,  a casa que não tem mais coisas atiradas pelos cantos. É um prato a menos na mesa. É o banco do carona no carro que fica vazio…. É um rombo no seu coração, é um silêncio na casa, é o computador do lado do seu que não toca mais aquelas músicas doidas.

Tudo muda e, quando não se tem outros filhos, a gente volta toda a atenção e a frustração para o coitado do marido. Ele ouve tudo, o que quer e o que não quer. A pobre criatura tem que ter uma paciência de Jó e você nem percebe que ele também tá sofrendo, mas caladinho. Acho que esta é a única hora que mãe é egoísta. Me perdoem os pais, mas não dá pra ser diferente.

E aí passa um mês, e você tá ali, comendo, dormindo, falando com a filha uma vez na semana e achando ótimo, porque sobrou dinheiro na conta. Depois de tanto tempo, sobrou tempo para você, sobrou tempo pro casal, e vocês começam a viajar mais, a sair mais para comer fora, a ver outras pessoas mais vezes. Você começa a viver e achar que a vida é bela, e que tudo é lindo e que você tem um filhote maravilhoso que teve coragem de bater as asas e voar pra bem longe do ninho e você proporcionou isto.

Você se empenhou para isto! E agora a filhota tá lá, feliz, na rotina dela, com as outras amigas dela. Até a hora em que ela liga chorando e, então, você apóia, dá força e diz que ela é forte, é linda é inteligente e que isto tudo vai passar e vai ficar uma lição de vida maravilhosa. E, por incrível que pareça, você não despenca, não chora nem faz feio. Nesta hora você é exatamente aquilo que ela espera de você: o seu porto seguro, o lugar pra onde ela sabe que vai voltar.

A saudade é enorme e aumenta a cada dia que passa. Mas, ainda assim, tudo é muito lindo e muito válido e a gente já está planejando a festa do retorno dela, com tudo o que tem direito. Só que antes disso, temos de sobreviver ao Natal, ao Ano Novo, à Páscoa, às férias e ao próximo dia das mães sem ela. Me correspondo uma vez por mês com Mary, a host mom dela. Eu a amo desde o primeiro dia, pelo carinho e atenção que tem dado a minha filha. Já enviei presentes para eles e arroz e feijão para a Paula, afinal, ela sente saudade das nossas comidas daqui.

E se eu ainda choro?  Mas é claro, quando eu cheiro a blusa dela que eu deixei sem lavar para ficar com o cheirinho dela (você faz isso sim…), só não me desespero. Na verdade, eu choramingo, e só um pouquinho. E olhem que ela andou se machucando por lá, torceu o pé e está usando uma bota por um mês, deve tirar nas vésperas do Natal e o seguro pagou tudo. Por favor, não deixem de fazer o seguro, é fundamental para a segurança da saúde de seu filho no exterior!

Paula de pé machucado com o irmão americano, o Charles

Homesick.

Guardem esta palavra. No literal:  doença de casa. Mas é como se chama saudade de casa em inglês. Todo intercambista sabe no coração o significado dela e a família do intercambista também. Coloquei a Paulinha no avião e sei que vou buscá-la de volta, minha filhotinha, que vai voltar de lá, com ares de mulher e mais dona da vida dela.
É por isso que eu concordei em deixar ela fazer este intercâmbio, só que naquela primeira semana sem ela, eu não lembrava disso.”


"Mundo aqui vou eu"

16 de dezembro de 2010 1

Para realizar os sonhos dos filhos, os pais fazem de tudo. Até ficar um ano sem eles. Foi isso que a Silvia Guimarães, de Pelotas, fez em agosto deste ano. Apesar da choradeira e do medo, ela mandou a filha única de 15 anos, Paula Guimarães Marques, para os Estados Unidos. Hoje, a Silvia vai contar do turbilhão de sentimentos que toma conta de uma mãe antes do filho ir embora. Nas próximas semanas, ela vai seguir com a gente contando das descobertas da estudante em Austin, no Texas. Confere aí:


Paula (no centro, de casaco preto, atrás da menina de amarelo) em São Paulo com os outros brasileiros antes do embarque

“Minha filha saiu de casa há quatro meses, mais exatamente há 117 dias. Sim, mãe de intercambista conta os dias e não meses. A Paula pegou um avião para realizar o seu sonho mais ousado até então: ser uma brasileira fazendo high school nos EUA, morando em casa de família.

Na verdade este processo já vinha se desenrolando no mínimo  há dois anos, quando ela percebeu que iria se formar no inglês e desejava dar o seu primeiro vôo para o mundo. Não sei onde é que eu estava com a cabeça quando concordei, foi exatamente assim que eu pensei na primeira semana que ela se foi.

Todo processo é demorado, tivemos todos os tramites facilitados pela agência que contratamos para organizar a saída dela, e durante um ano, tivemos contagens regressivas, reuniões com psicólogos, viagem para conseguir o visto. Enfim, tudo passou voando, mas a maior expectativa dava-se com relação a família. Quem iria aceitar o aplication da Paula? (aplication é uma espécie de formulário com várias perguntas pessoais, como se fosse um currículo sintetizado, que é enviado pela agência e  fica à disposição das família que desejam receber intercambistas). Ela teve sorte, pois quatro meses antes da data prevista para seu embarque, uma família se habilitou para recebê-la, ou seja, alguém queria a minha Paula com eles. Mas isto não é muito comum, alguns intercambistas só sabem das suas famílias às vésperas da viagem.

Outra coisa que consideramos positiva neste processo foi que ela foi designada para uma cidade grande, que também não costuma ser comum, ela foi morar em Austin, no Texas, uma cidade três vezes maior que a nossa. Era tudo o que ela queria. Minhas angustias de certa forma se amainaram quando soube que a Paula seria a quarta intercambista recebida por esta mesma família, ou seja, eles já tinham experiência com a coisa, mas eu não. Nenhuma e isto pesa muito quando sua filha tem somente 15 anos.

Nas reuniões de preparo, encontrei outros pais, e outros filhos, descobri que eram muitos, e que eu não era a única mãe que chorava por antecipação.  Sim, eu chorei muito mesmo ainda antes de ela ir e ela me consolava, acreditem. Eis que o dia 20 de agosto chegou, invariavelmente o dia sempre chega.  E aí foi pra matar. Na véspera, eu dormi no quarto com ela, estávamos as duas muito ansiosas. Parecia algo surreal, eu ainda choro quando lembro disto.

Minha filhinha amada não ia mais estar ali na noite seguinte, eu não ia dar o beijo nosso de boa noite, não ia cheirar o pescocinho dela no outro dia de manhã, como eu sempre fazia quando era eu que a acordava. Ela simplesmente não estaria mais ali. E isso dói, ai como dói, e sei que com mães de mais filhos (que não é meu caso) dói igual, porque cada filho é único e deixa um vazio quando se vai.

Na hora que estava estipulada para ela adentrar pelo portão de embarque ela se foi, neste momento ninguém conseguiu falar, nem ela. Nos abraçamos forte, sem dizer nada, nadinha, e ela pegou o rumo do mundo, bem como dizia na camiseta que ela recebeu da agência: “Mundo aqui vou eu!!!!”

E ela foi, simplesmente ela foi e eu fiquei, meu marido ficou, todo mundo ficou, só ela foi… pro mundo.”

O que os pais não fazem pelos filhos?

14 de dezembro de 2010 0

No último post, falei que alguns pais iriam relatar a experiência do intercâmbio pelo lado de quem mais sofre com a saudade. Nossa primeira colaboradora é a Denise Gomes Simanke, mãe da Natália, de 23 anos.  A sua filha única da servidora pública vai cursar um semestre de jornalismo na faculdade de Bamberg, na Alemanha.  No meio de toda a correria antes do embarque da filha, ela escreveu pra gente:

“Minha filha, Natália, sempre manifestou o desejo de fazer intercâmbio desde o ingresso na Faculdade de Comunicação. Há dois semestres estava pretendendo que isso acontecesse, no entanto, alguns compromissos adiaram a experiência.

Dia 18 de dezembro, ela embarcará para um semestre na Alemanha. A proximidade da ida suscita muitos sentimentos. Perceber que a filha cresceu e pode dar conta da sua vida longe da família; que o intercâmbio no exterior pode fazer diferença na trajetória de sua vida acadêmica e profissional; que é uma experiência única de relação com outra cultura. E, por outro lado, receio por ela ir para longe, por um tempo, que para mim, será longo.

Essas reflexões me assaltam a todo o momento na corrida contra o tempo, com tantas coisas para serem resolvidas antes da viagem. Contudo, é um desejo dela que está se realizando, e o que uma mãe não faz para tal?”

.

Outros pais interessados em contribuir para contar o intercâmbio pelo lado de quem fica podem entrar em contato pelo bruna.amaral@zerohora.com.br. Faremos o possível para publicar o máximo de relatos.


E como fica a vida de quem fica?

13 de dezembro de 2010 0

O último abraço no Diego, meu irmão mais novo, antes dele embarcar para a Bélgica, em 2004

Não tenho filhos. Não posso falar com propriedade de quais são as preocupações e angústias de ter seus ‘pequenos’ longe por um bom tempo. Para falar a verdade, sou daquele tipo de filho bem desprendido, sem muito dó nem piedade. As oportunidades aparecem e lá vou eu. Sem pensar duas vezes. Minha mãe já diz até que fica mais preocupada quando estou por aqui, do que quando estou longe. Eu não tenho filhos, mas conheço um pouquinho do aperto deixado no coração de quem fica.

Voltei em julho de 2004 da minha primeira experiência longa no exterior. Um ano na Alemanha. Na verdade, foram dez meses, que, depois da adaptação, passaram rápido como dez dias. Pra mim, óbvio.

No meio de toda a confusão de sentimentos de querer voltar para o Brasil e ficar em Düsseldorf, acompanhei o processo de intercâmbio do meu irmão, o Diego.  Ele estudava francês na escola e queria aperfeiçoar os conhecimentos. É, depois que um dos filhos se vai, os pais estão perdidos. A empolgação contagia. Lembro bem de achar tudo aquilo o máximo: “nossa, meu irmão vai pra Bélgica!”.

No calor da hora, não devo ter me dado conta que aquilo significaria seis meses na minha vida longe do meu irmão. Mas como assim, logo eu que tinha passado tanto tempo longe pensando uma coisa dessas? As pessoas podem dizer o que quiserem, mas existe uma diferença abissal entre a saudade de quem fica e a de quem vai. Os que vão têm meses de toda uma vida nova pela frente. São descobertas diárias, pequenos detalhes de uma rotina desconhecida a compartilhar para preencher até os fins de tarde de domingo. Pros que ficam, sobra a vida de sempre, mas com um quarto vazio, com um lugar vago na mesa de jantar.

Parece um grande dramalhão, né? Mas nos primeiros dias é assim, uma pequena tragédia, uma sensação estranha de vazio, que passa, mas faz parte do processo. Digo todas essas coisas, porque mesmo que eu, que recém tinha passado por tudo isso, não me contive no último abraço no meu irmão no aeroporto.  Deu aquele aperto, aquela vontade de dizer “ai, fica”. Porque, no fundo, eu tinha a certeza de que aqueles seis meses seriam muito mais longos para mim do que para ele.

Pensando nisso tudo, procurando um jeito de fazer o tempo de quem não vai passar mais rápido, convidei alguns alguns pais para contar como fica a vida de quem fica.

Aguardem.