
A ideia de fazer intercâmbio depois que já se tem uma família formada assusta muita gente,mas para Aline Stefani e Renato Fagundes foi como uma necessidade.Nenhum dos dois conseguiu estudar fora do Brasil durante o Ensino Médio,e a vontade de viver essa experiência persistia até os dias de hoje.Foi então que os dois juízes do Trabalho resolveram que era a hora de realizar o sonho: eles se tornaram voluntários e abriram a casa onde moram com os dois filhos e a vida familiar para receber estudantes estrangeiros.A experiência foi tão gratificante que atualmente eles recebem o terceiro estudante.Fynn Conrad, um alemão de 16 anos que chegou no início de agosto, é o terceiro“filho com sotaque”da família.
Tudo começou em 2009,quando eles começaram a pesquisar na internet diversas organizações e programas que cadastrassem famílias voluntárias.
– Visitamos amigos que estavam recebendo intercambistas e descobrimos que não havia necessidade da reciprocidade,até porque as crianças eram pequenas na época (Artur, o mais velho, tem 13 anos hoje, e Martina, a mais nova, tem quatro).Todos se empolgaram com a ideia. Preenchemos uma ficha na internet e começamos o processo – conta a juíza.
Na documentação,eles falaram dos hábitos da família e sobre que tipo de jovem gostariam de receber. Tudo para evitar que o choque cultural pudesse causar conflitos insuperáveis.Além disso, os Fagundes ainda receberam a visita de uma psicóloga.
– A visita de alguém do programa é importante para que a família tire dúvidas e até para dar mais segurança para quem recebe. Assim fica claro que há toda uma estrutura por trás do jovem com quem eles conviverão por um ano ou seis meses – explica Ruy Temberg,coordenador daYouth For Understanding (YFU) Brasil, organização que envia brasileiros e recebe jovens de mais de 50 países todos os anos.
– No início,fiquei meio desconfortável.Era como se alguém estivesse nos avaliando,mas depois me tranquilizei. Afinal,eles têm que se certificar que tudo o que a família diz nos formulários é verdade,para a segurança dos adolescentes – comenta Aline.
Uma semana depois,os Fagundes receberam os primeiros perfis de adolescentes.Aí começou o dilema: era a hora de escolher qual daquelas caras sorridentes nas fotos conviveria com a família por um ano.
– Nos encantamos pelo perfil da Paulina Banzerus, uma alemã de 15 anos na época. A única “exigência” era que ela tinha de “ser” colorada, não importava o time para o qual ela torcesse na Alemanha – brinca o juiz do Trabalho. – O Fynn, por exemplo, já é até sócio do Inter e vai aos jogos comigo.
Quando surgem conflitos, é preciso ter paciência

A ideia de receber um jovem estrangeiro é justamente essa: integrar o adolescente na vida familiar e fazer com que a família possa ter uma experiência de intercâmbio sem precisar sair de casa.Na família Fagundes,a experiência deu tão certo que a filha mais nova do casal ficou confusa quando a primeira intercambista voltou para casa:
– Durante um tempão,a Martina ainda achava que a Paulina fosse voltar.E chamava o quarto vazio de“o quarto da Paulina”– conta Artur,13 anos.
Mas os conflitos com os jovens estrangeiros também surgem e por isso é muito importante ter paciência e conversar muito. Principalmente os cuidados com segurança,muitas vezes chocam os estudantes estrangeiros. Fynn, que mora em Berlim, na Alemanha, estranhou o fato de os pais gaúchos não permitirem que ele voltasse para a casa de ônibus das festas com os amigos.
– Assim como fazemos com nossos filhos,precisamos mostrar quais os limites e que certas coisas que eles fazem em casa são impraticáveis aqui. Nós somos os responsáveis por eles. Então,do mesmo jeito que eu não deixaria meu filho voltar de ônibus de uma festa às 3h,busco o Fynn das festas da escola,mesmo que ele ache a coisa mais exagerada do mundo – pondera Aline.
Manual para uma família hospedeira
✔ Paciência, capacidade de diálogo e interesse por outras culturas são fundamentais para receber um estudante de fora.
✔ Não é necessário ter filhos. Duas pessoas que vivem juntas, seja por laços afetivos ou sanguíneos, já podem se
candidatar.
✔ O consenso de todos os membros da família é muito importante para que a experiência seja bem sucedida.
✔ A casa precisa ter estrutura suficiente para receber mais uma pessoa. No entanto, não é indispensável que o jovem
tenha um quarto só para ele. Adolescentes do mesmo sexo podem dividir quarto.
✔ Os jovens não devem ser recebidos como hóspedes. Deve haver esforço dos dois lados para integrar o intercambista à vida familiar.
✔ Não é necessário reciprocidade, quem recebe não necessariamente precisa enviar um jovem.
Perfil dos jovens
✔ Idade de 15 a 18 anos
✔ Cursam o equivalente ao Ensino Médio no país de origem e devem frequentar a escola no Brasil de seis meses a um ano
✔ Bons alunos
✔ Devem seguir as regras
Deu vontade de receber um estrangeiro?
Veja alguns programas que cadastram famílias voluntárias:
AFS
YFU
Comentários recentes