A saudade é eterna companheira de quem um dia resolveu sair de casa. Quando se está fora, é de quem ficou; quando se volta, de quem deixamos pelo mundo. Patrícia Bitencourt, de 21 anos, sabe bem disso. A estudante de Uruguaiana escolheu o México como destino de intercâmbio em 2008 e nunca mais foi a mesma.

Lembro como se fosse hoje eu preparando a minha viagem pro México, onde eu passaria todo o ano de 2008, através de um programa do Rotary. Eu estava feliz da vida porque sempre quis morar em um lugar diferente fora do país, só não imaginava que eu fosse mudar tanto assim com a experiência. Passei muito tempo me preparando pra o grande dia de me separar da minha família, sempre fui muito ligada a eles e sem dúvida nenhuma essa foi a parte que mais me fez aprender e entender coisas no meu intercâmbio.
Treinei muito a língua, mas não fiz cursinho. Quando eu tinha uns 16 anos, peguei uma gramática de jeito e fui estudar espanhol por livre e espontânea vontade, porque sempre gostei de linguagem. Fora isso, tudo que eu encontrava na internet de filme, novela ou seriado mexicanos, eu ouvia várias vezes e ia transcrevendo o que escutava até entender exatamente o que estava sendo dito e gravar bem a pronúncia das palavras. Quando cheguei lá, as pessoas ficaram espantadas porque eu me comunicava com muita clareza e até sotaque mexicano eu tinha.

Eu morava no norte do México, numa cidadezinha de 25 mil habitantes que nem aparecia no Google Earth: trata - se de Sabinas Hidalgo - hoje conhecida pela imprensa mundial como um núcleo de treinamento de narcotraficantes (quem diria). Sabinas está localizada à uma hora de carro da terceira maior cidade do país, Monterrey. E também à uma hora de carro está Nuevo Laredo (fronteira com o Texas).
Ao longo do ano morei com três diferentes famílias e tive muita sorte. Com a primeira delas, mantenho até hoje um laço muito forte, de família mesmo. Chamava (e ainda chamo) de pai, mãe, manos, tios e vó e nos devotamos um grande amor. Eles são como os brasileiros (e como a maioria dos latinos, penso eu): muito ligados às suas famílias. Acho que por esse motivo, me aceitaram não como uma "host daughter" que eu era, mas sim como uma "real daughter". Fico muito feliz por ter aprendido tanto convivendo com eles naquela terra estranha, e sempre menciono que há muito deles naquilo que eu sou hoje.
Além de batalhar horrores com a comida no começo e ter muita gastrite por causa da pimenta (você não imagina que mexicano coloca pimenta até no sorvete), me lembro da dificuldade que eu tive em aceitar as coisas que eram diferentes. Eles, como um povo super conservador principalmente em povoados pequenos como aquele, tinham regras rígidas para filhas mulheres, e claro, também se estendiam a mim. Então, perceba que quando eu tinha que voltar de uma festa à meia-noite eu ficava muito descontente. E esse é só um exemplo das coisas que eu, acho que pela imaturidade dos 18 anos, não conseguia entender. Claro que acatava ordens, mas com aquela cara de quem não gostou.
No final, eu aprendi a respeitar muito. Até pude enxergar que o México, em determinados pontos é, inclusive, melhor que o Brasil. Essa percepção, pra mim, significa um aprendizado que todas as pessoas do mundo todo deveriam ter: saber respeitar o que é diferente.
Pra quem tá indo se aventurar fora do país, entenda que não importa o lugar que você for, algumas coisas não mudam: você vai chorar muito de saudade da sua mamãe. No meu caso, isso se refletiu na minha saúde e eu tive um feliz ano de gripes e enfermidades uma atrás da outra, pura saudade.
Tenha em mãos sempre uma câmera fotográfica, não importa aonde vá; e mantenha um diário de bordo. Quando se completa seis meses fora, há muita vontade de voltar (em geral, todo o pessoal do programa teve/tem vontade de desistir nessa época), mas não abandone o barco porque a melhor parte o intercâmbio é o final. Esteja ciente de que, quando você voltar ao Brasil, terá um segundo choque de realidade: você vai achar que tudo aqui é estranho, vai flutuar na conversa dos seus amigos e seu pensamento estará por, cerca de um mês, bem longe daqui.
E principalmente, aproveite todos os instantes do seu intercâmbio. Porque depois só ficam a lembrança e a saudade. E que saudade enorme! Eu há muito quero voltar lá pra visitar, mas noticiam todos os dias muitos problemas com o narcotráfico local, especialmente na região onde eu vivi. Então, prefiro esperar a poeira baixar. Mas quando eu voltar lá na "minha terra" (como eu costumo dizer) vai ser, com certeza, muito emocionante. Meu intercâmbio é, até hoje, uma coisa que mexe muito comigo.
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