Para realizar os sonhos dos filhos, os pais fazem de tudo. Até ficar um ano sem eles. Foi isso que a Silvia Guimarães, de Pelotas, fez em agosto deste ano. Apesar da choradeira e do medo, ela mandou a filha única de 15 anos, Paula Guimarães Marques, para os Estados Unidos. Hoje, a Silvia vai contar do turbilhão de sentimentos que toma conta de uma mãe antes do filho ir embora. Nas próximas semanas, ela vai seguir com a gente contando das descobertas da estudante em Austin, no Texas. Confere aí:
Paula (no centro, de casaco preto, atrás da menina de amarelo) em São Paulo com os outros brasileiros antes do embarque
"Minha filha saiu de casa há quatro meses, mais exatamente há 117 dias. Sim, mãe de intercambista conta os dias e não meses. A Paula pegou um avião para realizar o seu sonho mais ousado até então: ser uma brasileira fazendo high school nos EUA, morando em casa de família.
Na verdade este processo já vinha se desenrolando no mínimo há dois anos, quando ela percebeu que iria se formar no inglês e desejava dar o seu primeiro vôo para o mundo. Não sei onde é que eu estava com a cabeça quando concordei, foi exatamente assim que eu pensei na primeira semana que ela se foi.
Todo processo é demorado, tivemos todos os tramites facilitados pela agência que contratamos para organizar a saída dela, e durante um ano, tivemos contagens regressivas, reuniões com psicólogos, viagem para conseguir o visto. Enfim, tudo passou voando, mas a maior expectativa dava-se com relação a família. Quem iria aceitar o aplication da Paula? (aplication é uma espécie de formulário com várias perguntas pessoais, como se fosse um currículo sintetizado, que é enviado pela agência e fica à disposição das família que desejam receber intercambistas). Ela teve sorte, pois quatro meses antes da data prevista para seu embarque, uma família se habilitou para recebê-la, ou seja, alguém queria a minha Paula com eles. Mas isto não é muito comum, alguns intercambistas só sabem das suas famílias às vésperas da viagem.
Outra coisa que consideramos positiva neste processo foi que ela foi designada para uma cidade grande, que também não costuma ser comum, ela foi morar em Austin, no Texas, uma cidade três vezes maior que a nossa. Era tudo o que ela queria. Minhas angustias de certa forma se amainaram quando soube que a Paula seria a quarta intercambista recebida por esta mesma família, ou seja, eles já tinham experiência com a coisa, mas eu não. Nenhuma e isto pesa muito quando sua filha tem somente 15 anos.
Nas reuniões de preparo, encontrei outros pais, e outros filhos, descobri que eram muitos, e que eu não era a única mãe que chorava por antecipação. Sim, eu chorei muito mesmo ainda antes de ela ir e ela me consolava, acreditem. Eis que o dia 20 de agosto chegou, invariavelmente o dia sempre chega. E aí foi pra matar. Na véspera, eu dormi no quarto com ela, estávamos as duas muito ansiosas. Parecia algo surreal, eu ainda choro quando lembro disto.
Minha filhinha amada não ia mais estar ali na noite seguinte, eu não ia dar o beijo nosso de boa noite, não ia cheirar o pescocinho dela no outro dia de manhã, como eu sempre fazia quando era eu que a acordava. Ela simplesmente não estaria mais ali. E isso dói, ai como dói, e sei que com mães de mais filhos (que não é meu caso) dói igual, porque cada filho é único e deixa um vazio quando se vai.
Na hora que estava estipulada para ela adentrar pelo portão de embarque ela se foi, neste momento ninguém conseguiu falar, nem ela. Nos abraçamos forte, sem dizer nada, nadinha, e ela pegou o rumo do mundo, bem como dizia na camiseta que ela recebeu da agência: "Mundo aqui vou eu!!!!"
E ela foi, simplesmente ela foi e eu fiquei, meu marido ficou, todo mundo ficou, só ela foi... pro mundo."
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