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Posts de junho 2010

TÔ DEVENDO!

23 de junho de 2010 0

   Não é por querer, longe disso. Sei que tô devendo meus capítulos finais sobre Copa e cotidiano. Peço a compreensão de todos. Tô de mudança. Assim que me reestabelecer, termino a série, PROMETO!!

98: FÉ E ORAÇÃO: O TESTEMUNHO DO REPÓRTER!

15 de junho de 2010 1

Aquele ano se apresentava especial. Eu havia aparecido bastante, graças a Deus, nos meus trabalhos na Gaúcha AM. Como estagiário, ganhava experiência profissional ao passar por quase todos os espaços da emissora. Como produtor, repórter, narrador e, eventualmente, apresentador, me sentia cada dia mais a vontade no meio, no ramo, como se diz. Convencia-me, cada vez mais, que era isso mesmo que eu queria pra minha vida de jornalista.

Em 98, entrávamos na Copa da França como favoritos. Sentíamos o peso bom da responsabilidade de defender o título conquistado quatro anos antes. E não seria difícil prever tal tarefa. No grupo, nomes como Taffarel, Dunga e Bebeto, ainda davam o tom. Eram, sem dúvida, o alicerce, o suporte pra outros que começavam a se integrar ao ambiente da seleção brasileira numa disputa toda especial como é um Mundial. Na lateral dierita, Cafu assumia a vaga de Jorginho. César Sampaio ganhava uma das duas posições de volante. Ronaldo, agora com 22 anos, tinha a incumbência de ser o artilheiro na ausência de Romário. Esse um capítulo a parte. O “baixinho” como é conhecido, se lesionou e teve de ser cortado. Sua entrevista coletiva emocionou o país que, apreensivo, não sabia ao certo como ficaria o time sem a presença do cara que tinha decidido a campanha do tetra nos Estados Unidos.

Na rádio, só alegrias. Recebi a notícia de que estava sendo contratado. Uma baita notícia. Do tamanho das minhas aspirações. Golaço, golaço de placa! A responsabilidade seria maior. Maior também, se tornaria minha motivação pra buscar meus objetivos. Algo meio auto-ajuda, mas que sempre ajuda, com o perdão da redundância, da brincadeira. Iria, igualmente, pra minha primeira cobertura de Copa do Mundo. Mesmo que de forma indireta, aqui na nossa capital, mas participando de uma cobertura especial como essa. Manteria a minha veia de torcedor, só que agora, com outro foco, mais moderado, talvez. Fui escalado pra empunhar meu microfone, durante os jogos da seleção na França, dentro de uma casa de shows em Porto Alegre, Lá, a torcida seria grande. Telão, música, o som da rádio com a transmissão direto da Europa. Minhas intervenções se dariam na medida do necessário, de acordo com o que pediria o narrador. Teria de estar atento. Torcendo, mas atento, sempre!

Atento parece que é uma expressão que pode ser colocada pra definir nossa participação na Copa. Tomamos sustos desnecessários. Lembro da derrota pra Noruega, 2 x 1, na primeira fase. Perdemos, mas ficamos em primeiro, mesmo com a campanha manchada. Noruega? Faça-me o favor! Fomos bem nas oitavas. Atropelamos o Chile, 4 x 1. Nas quartas, confronto de tirar o fôlego com a Dinamarca. Vencemos por 3 x 2, mas pra variar, chegamos a sair perdendo e sofremos o empate pra só daí partir pra uma classificação.

Um jogo atrás do outro. Um sofrimento maior que o outro. Eu lá. Cumprindo minha missão. Relatando o empenho da torcida em ajudar o Brasil. Levando daqui de Porto Alegre, a corrente positiva lá pra França. Íamos passando de fase, a torcida ia aumentando. Assim como aumentava a ansiedade e a ideia de que estávamos próximos de mais uma final. Destino, outra alegria? Mais uma das boas? É…o tempo de frustrações tinha ficado pra trás. Ô coisa boa!! E de novo, a Holanda no caminho.

Nas semifinais, jogo encardido. Um empate sem gols que teimava a nos atormentar. Uma “nhaca”. A Holanda era forte. Bem mais do que na Copa anterior quando vencemos com aquele gol antológico do Branco, de falta. Mais técnicos, nos deram um trabalho…Ronaldo, sempre ele, abriu vantagem. Aos 46 do primeiro tempo. Quarenta e seis…precisava tanto?  E a gente tava quase lá. Faltava pouco, bem pouco pra mais uma decisão. Precisamente, três minutos. Três minutos que nos separavam do enfrentamento contra França ou Croácia. Eis que surge Patrick Kluivert. Ele esfria a festa. Azeda o carnaval já preparado. Leva a decisão pra prorrogação. Destino, cê ta de sacanagem!!, pensei em meio a transmissão. No tempo extra, nada de gols. Pênaltis, de novo na nossa estrada…

Nunca tinha visto nada igual. Olho pro lado. Umas 50, 60 pessoas de braços dados. Eu, inclusive. Tomado por uma energia que emanava do lugar, iniciei uma oração com todos em voz alta. Uma fé incrível na vitória. Algo, sem dúvida, histórico e inesquecível. Tanta energia junto, só podia render boa coisa! São Taffarel que o diga! Cocu e Ronald de Boer ficaram na saudade! Dois pênaltis defendidos. Dois!! E o Pedro Ernesto, bradando na Gaúcha:” O Brasil tá na final, final, final…”

Que loucura aquilo!! Inacreditável!! Eu testemunhando uma partida das mais marcantes na história de todas as Copas. Torcedor e repórter…Brasileiro, acima de tudo!

Próximo capítulo: Minha filha nasceu! É PENTA!!!

ANTECIPEI A CRÔNICA

13 de junho de 2010 0

Como podem perceber, antecipei a crônica que havia anunciado pra amanhã. No post abaixo. Leiam e divirtam-se!

94: SOU MOTORISTA! DÁ-LHE ÁGUA COM AÇÚCAR! ENFIM CAMPEÃO!!

13 de junho de 2010 2

Meu primeiro carro. Enfim, meu primeiro e aguardado carro. Minha mãe havia me dito que, próximo dos meus 18 anos, passaria o seu Fusca de estimação, pra mim. O Fusca, esse de estimação, era especial pra ela. Tinha sido comprado com muito, mas muito sacrifício. Sei o quanto ele representava. Sei do significado dele pra mãe. Mas ela quis me dar de presente. Aceitei, claro.

Já sabia dirigir. Tinha alguma dificuldade com o carro numa lomba. Por exemplo: Parar numa sinaleira como a da Quintino aqui em Porto Alegre era uma tortura. Suava frio. As mãos tremiam. Era algo mais forte que eu. Uma tarefa penosa. Eu vencia, superava. Mas como era difícil, meu Deus!

Mais uma Copa estava chegando. Eu, finalmente, encaminhava meu último ano no colégio. Tava de saco cheio, cansado daquilo. Queria mais. Queria, porque queria, ingressar logo na faculdade. Mas tinha de ter paciência. Muita, por sinal. Paciência que aprendi a ter com a seleção do Parreira. Nas eliminatórias, tamanha obviedade e teimosia quase haviam empurrado o Brasil pra longe da Copa nos Estados Unidos. Tinha que botar o Romário. Tinha que chamar o Romário! Precisava esperar até aquele último jogo contra o Uruguai? Era gostar de sofrer!! Romário calou a boca do Parreira, nos mandou pra Copa, mas sabíamos que seria difícil de buscar o tetra.

Meu Fusca. Agora meu. Verde abacate! Podem crer. Um verde diferente, bonito e que chamava a atenção, óbvio! Mas era meu. Direção esportiva, daquele modelo Panther, pequeninha, manja? Todo estiloso. Meu Fusca!! Como era bom treinar nele. Sem contar num poderoso rádio com toca-fita!! ÉÉÉ! Toca-fita. Ah, esqueci de dizer o ano do Fusca: 1974. Mais velho que eu. Um parceiraço. Contei nos dedos as poucas vezes que ele me deixou na mão. Era raro, bem raro mesmo!

Aquela Copa! Parreira havia definido o grupo que tentaria o quarto título mundial. Era preciso dar crédito. Nele, estava Romário. Camisa onze às costas! Romário e Bebeto, dupla de ataque que nenhuma outra seleção possuía.  Dando suporte a esses dois goleadores natos, um meio com Mauro Silva, com Dunga, com Zinho e Raí. Na defesa, Taffarel, Jorginho, Aldair, Márcio Santos e Leonardo.

Fomos bem na primeira fase. Ganhamos da Rússia e de Camarões e empatamos com a Suécia. No dia 4 de julho, independência norte-americana, confronto com os donos da festa. Estádio lotado, pressão e jogo complicado. Viva Romário! Viva Bebeto. Que viesse a Holanda.

Torcendo e praticando. Fiz alguma aulas de direção pra perder o pânico das lombas. Seis ou sete aulas, no máximo. Fiquei louco quando soube que não seria com o meu Fusca. Tinha de ser num Chevette da auto escola. Bah, não era a mesma coisa. Não era mesmo! Fui pra prova teórica. APROVADO! Faltava a prática. Eu, o Fusca e um instrutor. A hora da carteira se aproximava!

Que jogo foi aquele contra a Holanda. Inesquecível! Assim como aquele domingo em Porto Alegre. Gelado, tenso! Nossa cidade era aterrorizada pelo motim no Presídio Central. Um motim com desfecho trágico, num cenário digno de cinema. Um táxi estourando a porta de entrada do Plaza São Rafael, em pleno centro! Impensável. Inimaginável! Futebol e polícia! Cardápio cheio! Faltava passar a Suécia!

Fui pro meu teste final. Eu e o Fusca. Na rua, tudo certo. Dirigi com firmeza. Seguro, tal qual Taffarel no gol do Brasil. Precisava passar pela baliza. Estacionar…Suei frio, de novo. O cara, do lado de fora do carro, olhando e anotando. Olhando e anotando, olhando e anotando! Engatei a ré, entrei com cuidado na vaga…parei! O cara, o instrutor, bateu palma! Fez um sinal de positivo com o polegar!! APROVADO! Carteira à vista! Maioridade, motorista! Mais uma etapa vencida!

Na final da Copa americana, sentia um frio na barriga. O mesmo, ou talvez até pior, do quer o frio que me acometeu quando fui tirar a minha carteira de habilitação. Brasil e Itália! Repeteco de 70. Repeteco de 82. Nããão! De novo não. Destino, porque mais esse teste? O que que eu tinha feito pra passar por isso. Minha primeira final de Copa e contra a Itália! Justamente a Itália! Jogo chato, nervoso, de gols perdidos…de pênaltis! A primeira Copa da história que terminaria nos pênaltis. Nossa mãe!!

E lá estava Romário, Dunga. Lá estava Taffarel!! Uma defesa histórica e uma sorte tetra campeã!! Aquela bola do Baggio, craque deles, viajando por cima do gol, se perdendo no horizonte, foi a senha! Em transe, minha única reação foi cair de joelhos, no meio da sala e chorar!! Chorar bastante! A ponto de tomar um, dois copos de água com açúcar pra acalmar! Campeão do Mundo! Eu era campeão do Mundo, finalmente!! Obrigado destino. Desta vez, muito obrigado! Campeão e motorista! A festa foi a bordo do verde abacate! Em alto estilo, podem crer!

Amanhã: 98: Fé e Oração: O Testemunho do repórter!

FICOU PRA SEGUNDA, DIA 14.06

11 de junho de 2010 1

   Por motivo de força maior, correria e absoluta falta de tempo, coluna sobre a Copa e o cotidiano de 1994, fica pra segunda. SEGUNDA, dia 14.06. Sem falta!!

90: NÃO PEGARAM O CANIGGIA. ELIMINADO NA COPA, ELIMINADO NA VÁRZEA!

10 de junho de 2010 1

Bah! Nem tinha reparado. Juro! Não tinha mesmo! Já faz tanto tempo assim? Vinte anos! Meu Deus…vinte anos! Nem senti. Não mesmo. Parece que foi ontem. E foi num piscar de olhos, num estalar de dedos. Que é isso!

Mil novecentos e noventa. Fase que se iniciava. Experimentávamos, após décadas repressoras, o doce sabor da liberdade. Era um novo governo, um novo regime. Presidencialista. Um chefe da nação eleito pelo povo, de forma direta. As Diretas Já, tão gritadas pelos quatro cantos do país. Tão exigidas. Enfim, um Brasil livre, sem censura, sem frescura!

Meu time, o da turma do colégio, já jogava junto a pelo menos sete anos. Vínhamos crescendo juntos. Uma amizade que ultrapassava os limites da sala de aula. Éramos como irmãos mesmo! Um defendia o outro. Um brigava pelo outro. Entrávamos na adolescência. Com todas as dúvidas, as certezas, as inseguranças e porque não, as inconsequências que a idade revela. O pai de um dos meus amigos da aula, espécie de mentor da equipe, era proprietário de um sítio. Amplo, com açude, galinha, plantação de laranja, casa ampla e um gramado. Um campo de futebol sete!! Nosso recanto nos finais de semana. Nosso Maracanã. Lá jogávamos como se nos apresentássemos no templo maior do futebol. Éramos, sim, craques da bola. Tínhamos uniforme. Camisa branca, calção preto e meias brancas. Os números em laranja e o patrocínio estampado com o nome da empresa do pai do meu amigo. O nome do time: Maturano B. A escalação, no mínimo, exótica. Gorila, Aeckerle, Fábio, Stachlewski, Beto, Jair Galvão e James Quest. Adivinhem quem eu era??

Mês de junho. Copa da Itália. Mais um período de renovação na seleção brasileira. Telê, dois fracassos sucessivos, substituído por Sebastião Lazaroni. O famoso quem?? Até o esquema tinha mudado. Iríamos pra Itália com o europeu 3-5-2. Um com o tal do líbero e tudo. Inovação, hummm. Daria certo? Nossa trajetória de primeira fase incluiu vitórias magras e sem nenhum convencimento sobre Suécia, Costa Rica e Escócia. Ô futebolzinho comum esse!

No mesmo período do Mundial, o Maturano B jogava um campeonato na várzea. Campeonato de futebol sete, num campo próximo ao sítio do meu amigo. Jogos em dois, três finais de semana, senão me engano. Passamos com folga pela primeira fase. Ao contrário da seleção, ganhávamos e convencíamos.

Na Copa, as oitavas-de-final e um duelo pra lá de ruim. Argentina. Justo eles, atuais campeões do mundo. Porque eles? Não. O destino não vai me aplicar outra peça, imaginei. Ou vai. O jeito era encarar, não tinha volta.

Era sábado. Vinte e quatro de junho. Uma manhã fria. Não…gelada!! Um frio de rachar na Grande Porto Alegre. No campo embarrado, sofríamos na semifinal do campeonato. O Maturano B atuava cansado. Não sei o motivo. Desgastado. Lutamos muito. Mesmo criando muitas chances, sofremos um gol e acabamos eliminados. Tristes, irritados até, retornamos à sede. Ao sítio do meu amigo. Lá, depois de um almoço caprichado, uniríamos forças pra torcer pela seleção diante dos argentinos.

Lembro bem da cena. Amontoados na sala da casa do sítio, tv ligada, aquele bando, aquela gurizada cansada, alimentada, não desgrudava os olhos da tv. Só se ouvia passarinho piando, cachorro latindo e o vento forte na rua. Silêncio geral. Ninguém ousava respirar mais forte. E o Brasil nada. Como quase nada tinha sido sua participação na Copa. E a Argentina perigosa. Maradona, Caniggia. Que dupla infernal!! E o Maradona arranca. E o Maradona enfilera a seleção. Não vê Dunga, não vê ninguém…só vê o Caniggia se deslocar e o passe é um “mel na chupeta”. ” Faz Caniggia, faz esse”, deve ter pensado. Eu, daqui, também pensei. ” Não pegaram o Caniggia, não pegaram o Caniggia…”E ele dribla Taffarel…E ele nos manda pra casa nas oitavas.

Que final de semana aquele. Teria algo pior. O destino andava zoando comigo. Como era possível ter dado tudo errado num dia só?? Eliminado na Copa e eliminado na várzea!! Ninguém merece!!

Amanhã: 94: Sou motorista! Dá-lhe água com açúcar! Enfim, campeão!!

86: O PÊNALTI PERDIDO E A REUNIÃO DANÇANTE QUE EU NÃO FUI

09 de junho de 2010 0

   Ah sim. Aquela era uma semana realmente especial. Era mesmo! Afinal, aproximavam-se as férias do meio do ano e a minha turma estava em ebulição porque se aproximava igualmente o final daquela semana. Além do descanso, tínhamos pela frente, mais uma reunião dançante. É, as festas típicas da gurizada oitentista. Na casa de um dos amigos, nos reuníamos pra dançar, sábado a noite, de preferência as “lentas” e azarar as colegas que, por conta do escurinho proposital do ambiente, ficavam bem mais encorajadas a namorar. Um namoro inocente. Um selinho, se tanto, um abraço mais aconchegado. Sob a benção de “DONA”, música estourada do Roupa Nova, ou alguma balada do Scorpions. Bons tempos!

   No México, aquele ano de 86 nos dava a chance de vingar 82. A seleção brasileira, naturalmente, havia passado por um processo de renovação. Telê Santana mantinha-se a frente da equipe. Nomes como os de Júnior, Sócrates, Falcão e Zico ainda representavam muito. Sem, talvez, o mesmo brilho, a mesma intensidade de quatro anos antes. Mas estavam lá e isso nos tranquilizava. Sócrates já não era mais o capitão. Zico havia sido quase que alijado da carreira por uma entrada criminosa do bangüense Márcio Nunes em 85. Padecia com os joelhos lesionados. Nós padecíamos também.

   No meio destes veteranos, surgiam Branco, lateral campeão com o Fluminense, Édson, lateral destaque do Corinthians. Elzo, volante clássico do Atlético Mineiro. Müller, um dos eternos “Menudos” do Morumbi, lançado por Cilinho junto com Silas e Sidney. Ah e tinha um tal de Josimar. Este Telê convocou por boas atuações no Botafogo. Era um cara comprido, esguio. Lateral de vigor e um chute potentíssimo de direita. Josimar ganhou a posição de Édson ao longo da Copa e nos brindou com golaços de fazer jus ao favoritismo aplicado ao Brasil.

   Enquanto aguardávamos aquele sábado, planejando como seria a nossa reunião dançante, guris levando refri e gurias os salgadinhos, discutíamos como seria aquele jogo diante dos franceses. Estávamos maiores, entendíamos, ou pelo achávamos que entendíamos, mais de futebol. Era quartas-de-final. De novo, o Brasil na encruzilhada de uma Copa, contra uma seleção perigosa. Eu, na minha memória infantil, já havia deixado pra trás o trauma do Sarriá. Acreditava piamente que era sim, óbvio, a passagem do Brasil pelos franceses.

   E com Careca, artilheiro do Brasil num Mundial fantástico, isso ficava mais evidente. Foi dele nosso gol! E eu vibrei como nunca. Minha camisa oficial foi testemunha dessa vibração. Festa lá em casa. A família havia aumentado com a chegada da minha irmã. Era mais uma, mesmo que sem entender direito o que acontecia, a torcer. Eles tinham Platini. Um gênio. Cracaço!! Empate deles…com ele! Não! pensei. De novo não!! Sim, me respondeu o destino, sim, outra vez!! Soou tão verdadeira essa reposta, quando vi Zico, cambaleante, joelhos em frangalhos, bater aquele pênalti!! Zico, meu ídolo, o cara. Esse não podia errar. De jeito nenhum!! Não tinha como. Tinha sim. Bats. Esse foi o nome do golpe que eu levei. O goleiro francês, cabelos encaracolados, desgrenhados, saltou pra bola, como se salta pra salvar alguém. Zico, meu jogador preferido…errou!!

   Àquela altura eu já nem lembrava da reunião dançante. Nem lembrava que em pouco tempo estaria junto com meus amigos, colegas de aula, aproveitando o sábado. Eu só queria ganhar da França! E vem os pênaltis. Muitas dúvidas e incertezas. Era demais aquele sofrimento! De novo não!! Sim, mais uma vez me soprou o destino. Sim!! Sócrates, Júlio César. Vão chutar mal lá no México!! Até o Platini ajudou perdendo a cobrança dele!! Luis Fernández, o algoz. Nos mandou pra casa mais cedo…Puxa! Quando é que eu veria a seleção brasileira ser campeã? Era pedir muito?

   Atônito, bravo, com uma mistura de sentimentos, me arrumei, pra esquecer a frustração na festa. Na reunião dançante. Em frente ao prédio, pedi ao meu pai que ficasse esperando um pouco. Que esperasse eu dar uma olhada no ambiente pra dar tchau. Fui atá e entrada do prédio. Pisava com raiva, entristecido. Nem bem encontrei o portão, dei meia volta. Rápida, decidida! Entrei no carro…Meu pai, não entendeu nada. Só disse a ele que queria ir embora. Não tinha como ficar lá. Aqueles pênaltis ainda fritavam na minha cabeça…Assim como “Dona”, do Roupa Nova. Um mistura sem nexo, tal qual a eliminação do Brasil!

Amanhã: 90: Não pegaram o Caniggia. Eliminado na Copa, eliminado na várzea!

82: O ÍDOLO ZICO E O CHORO DO PAI

08 de junho de 2010 4

   Enquanto eu jogava bola com meus colegas do lado de cá da cerca do colégio, no pátio destinado aos alunos da pré escola, observava um burburinho em torno de um garoto do outro lado desta mesma cerca, no pátio dos “maiores”. Na mesma hora, aquela aglomeração me tirou a atenção do jogo e, curioso e inquieto, decidi largar a correria atrás da bola pra ver o que estava acontecendo.

   Rapidinho, cheguei a tal cerca e fiquei mais curioso ainda. O que seria aquilo? Porque tanta gurizada junta? Ah, não tive dúvida. Gritei perguntando o que era aquilo. O guri, centro das atenções, surge do meio do “bolinho” e me mostra o “xis da questão”. Nas mãos dele, algumas figurinhas do álbum da Copa da Espanha e uma delas, aquela que causava furor em todo mundo. A foto da seleção brasileira. Colorida, com os craques perfilados. Quase que um troféu naquelas mãos inocentes e fanáticas. Um símbolo praquela geração. Fiquei de boca aberta, confesso. Zico, Falcão, Sócrates, Éder, todos juntos, ali, a centímetros de distância dos meus olhos.

   Minha mãe, sabedora como sempre, do meu fanatismo por futebol, já havia confeccionado um tapete pra que eu utilizasse naquele ano no colégio. Nele, um boneco que representava o Zico e sua assinatura característica, marcante de tantas e tantas aparições na tela da tv. Aqui um parêntese. Era comum, nesta época, o recurso gráfico que a tv utilizava. A cada gol de um jogador da seleção, o autógrafo pintava na tela, assinando a obra de arte. Zico, pra mim, era o cara, por isso a homenagem no tapete.

   Enlouqueci com aquela foto. Fiquei mais fanático ainda. A Copa começaria em pouco tempo e eu tinha de ter uma figurinha também. Não foi fácil. Uma batalha diária de pressão e muitos e muitos pacotes se passaram até eu poder me exibir com a seleção brasileira nas mãos.

   O colégio já havia adiantado que, em dias de jogos do Brasil, liberaria os alunos sem problemas. Estaríamos todos prontos pra assistir aos jogos em casa, torcendo bastante. Comigo então, soava como música. A cada jogo do Brasil, uma festa, um ritual. Meu pai havia me presentado com a camisa oficial da seleção. Uma camisa linda, na minha avaliação, a melhor já usada pelo Brasil em todos os tempos. Era ruim alguém que quisesse fazer eu tirá-la do corpo. Nada disso! Camisa colocada, olho vidrado na tv. Eu, o pai e a mãe.

   Os jogos se desenrolavam com o Brasil patrolando os adversários. As fases decisivas da Copa da Espanha se aproximavam. Os noticiários que eu acompanhava, davam conta do favoritismo brasileiro pra conquistar o tetra. Aquilo me animava. Me deixava em polvorosa.

   Vem então, o dia 5 de julho de 1982. Estádio Sarriá, Barcelona. Quarenta e quatro mil pessoas, esperando pelo óbvio. Vitória, show brasileiro e classificação às semifinais. E bastava só um empate. Os italianos enfrentavam uma Copa arrastada, sem brilho. O contraste brasileiro evidenciava uma jornada tranquila. Em casa, eu e meu pai no sofá atentos. Minha mãe, bastante nervosa, circulava, sem prestar a atenção de forma mais contundente.

   E veio Paolo Rossi. Zero gol até então. Um Mundial apagado pro jovem atacante italiano. E foram um…dois…três terríveis golpes na minha torcida infantil. Quis o destino que meus ídolos sucumbissem a fome de gols de Rossi!! Quis o destino que o futebol burocrático superasse o futebol arte.

   No terceiro gol, 29 do segundo tempo, perdi a crença. Murchei. Apito final. Incrédulo, olho pro lado, não acreditando naquilo e vejo, meu pai, cabisbaixo enxugando as lágrimas. Um choro doloroso, compreensível. Nunca tinha visto meu pai chorar. Por nada, nada mesmo! Resignei-me…chorei também!

   Amanhã: 86: O pênalti perdido e reunião dançante que eu não fui

365 DIAS DEPOIS...

01 de junho de 2010 1

…aqui estou, lembrando do dia em que fui chamado pelo meu gerente, Renato Matte, na sua sala, e comunicado que a partir do dia primeiro de junho, seria eu o responsável por âncorar o bloco do esporte no Bom Dia Rio Grande, na RBS TV. Foi ontem parece! Foi tudo muito rápido, por sinal.

   Há exatamente um ano, iniciei uma nova etapa na minha carreira depois de tanto tempo a frente do TVCOM ESPORTES. Ser âncora de um programa na RBSTV é de uma responsabilidade muito grande. Requer todo o tipo de cuidado, atenção e dedicação. E no começo sofri bastante, confesso. Primeiro, porque nunca fui muito de acordar cedo. Nem nas vezes em que substituí a Duda Streb, encontrava tal facilidade. Era um mês só, nas férias dela, mas de dureza pra mim.

   Na medida em que assumi o horário, mudei minha rotina. Me adaptei a ela. Criei o hábito, saudável de acordar cedo. Madrugar, melhor dizendo. E é bom. O dia rende. Trabalhar nessa hora tem suas vantagens. As ideias estão fresquinhas na cabeça. Fluem. O desafio é diário. Levar informação com criatividade e credibilidade exige empenho. Não é fácil!

   O bom é saber que nestes primeiros 365 dias o retorno do telespectador tem sido altamente positivo. Nunca, claro, agradamos a todos. Nem Cristo conseguiu!! Mas este retorno que a gente tem nas ruas, nos contatos com quem nos assiste, diz tudo. É significante! Vamos lá, cheio de gás pra muito mais, tenham certeza!!