Terminam hoje quatro anos vitoriosos. Marcio Vogelsanger deixa a presidência do Joinville e Nereu Martinelli assume o clube. Assinando os últimos papéis como comandante tricolor, Vogelsanger disse na noite de ontem que a hora de parar chegou.
De 2008 até hoje, ele cuidou das contas telefônicas do JEC e de cada tijolo para a ampliação do centro de treinamento. Fez muito, acha que “poderia melhor algumas coisas” e se aprova com a nota sete. Vogelsanger contou como foi agir com a razão no meio de tantas emoções, levar a fama de pão-duro e tirar o JEC do fundo do poço e colocá-lo na Série B em tão pouco tempo. “Você só consegue economizar R$ 1 mil se cuidar de R$ 100.”

Já sente saudade de ser o presidente do Joinville?
Foi uma fase boa, uma fase bacana, mas tudo tem a sua hora. Foi bom, mas acho que está na hora de sair
Mas quando acordar amanhã sem a rotina de presidente, como vai ser?
Eu estava conversando com o Fontan (superintendente do JEC) que, da última vez em que fui presidente, fui duas vezes ao Ernestão após ter saído. Só lá descobri que não precisava mais ir. Como existia aquele compromisso diário, estava todos os dias no clube, vai ser um pouco estranho. Mas, como eu disse, tem de saber a hora de parar.
Se fosse dar uma nota de zero a dez pelo seu mandato, qual seria?
Olha, acho que pode ser sete. Porque algumas coisas ainda não foram feitas. Mas ainda é uma boa nota, já dava para passar de ano.
O que faltou para o dez?
Um pouco mais de estrutura. Faltou fazer mais um campo no centro de treinamento, falou o restaurante com uma choperia. Faltou alguma coisa de material esportivo, algo maior para entrar no mercado. Estamos no caminho, mas não conseguimos chegar lá ainda. Também achei que poderíamos chegar aos 10 mil sócios (o clube tem aproximadamente 8,5 mil). Algumas coisas foram boas, mas poderiam ter sido melhores.
Você sempre teve a fama de ser um presidente durão e até pão-duro. Isso é verdade?
É verdade, é um estilo. Acho que você só consegue economizar mil reais se se preocupar com 100 reais. Muitas vezes, as pessoas só pensam no grande, mas tem de se lembrar do pequeno também: conta telefônica, concentração a mais de jogadores, mordomias. O Joinville não teve bicho, por exemplo. Quando você administra algo em que o dinheiro não é seu, tem que cuidar melhor do que se fosse. Por isso, tenho essa fama de pão-duro. Disciplina e hierarquia são fundamentais.
Você chegava mesmo a cuidar até de conta telefônica?
Sim. Tanto que teve um funcionário que gastou demais e descontei do salário dele em três vezes. Em um mês, gastou R$ 300 ou R$ 400 e descontei em três vezes para não quebrar o cara.
E o funcionário não ficou chateado?
Não reclamou de nada. Na verdade, tem que agradecer que só ficou nisso.
No momentos difíceis, principalmente nas dispensas de técnicos, era você quem ia para a entrevista coletiva. Por que? Não tinha medo de desgastar a imagem de presidente?
Quem é presidente tem que tomar decisão, dar a última palavra. Você é o capitão do navio. Quem fica em cima do muro pode levar dois tiros: um de cada vizinho. Você tem que tomar uma decisão, pode até ser a errada, mas tem que tomar. Não achava justo passar isso para outro. Desde pequeno, fui criado numa família que tinha funcionários. Via meu pai sempre tomando decisões. Se eu receber um telefone hoje e eu não resolver, amanhã vou receber mais duas ou três ligações. Então, resolva o problema. Às vezes fingia ter certeza do que estava fazendo, mas tinha que tomar a decisão.
Aquele episódio envolvendo o Giba e o Eduardo (o técnico deixou o lateral no banco. Vogelsanger pediu que ele fosse escalado. Giba não aceitou e acabou demitido) demonstra bem a maneira enérgica com que você administrava o clube?
Acho que sim. Eles são todos funcionários. Acho que o futebol brasileiro está quebrando porque os técnicos se acham maiores que o presidente. No São Paulo, a diretoria interfere e acho que tem de interferir sim. Acho que aqui interferimos pouco. Se não tirar do time, eu tiro do grupo. E não foi só um dia que eu fui lá e pedi. Fiquei insistindo vários dias. Como aconteceu com o Edinho (Nazareth, técnico). Pedi para colocar o Edinho (atacante formado no clube). Eu pedi, e pedido de um presidente é uma ordem.
No caso do Edinho, tinha um empresário aqui para observá-lo, é isso?
Sim, um diretor do Inter estava aqui para ver o Edinho jogar. Na sexta-feira, conversei com o técnico. Ele só colocou o Edinho aos 20 minutos do segundo tempo num jogo que não valia nada.
Você estava assistindo ao jogo ao lado desse diretor?
Sim. No início do segundo tempo, quando viu que o Edinho não entrou, ele levantou e foi embora.
Nesses quatro anos, dá para escolher um momento mais feliz?
Foi o acesso, aquele jogo lá em Brasília. Foi o momento mais emocionante. Uma sensação indescritível.