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O policial dos policiais

Herói outsider, figura carismática, justiceiro solitário, o policial nova-iorquino Frank Serpico influenciou muitos de seus contemporâneos. Mais: seu exemplo foi forte e edificante, ajudando a conter a corrupção e dando um novo formato à polícia americana. Seu estilo único e singular inspirou um livro (escrito por Peter Maas), um filme (dirigido por Sidney Lumet e protagonizado por Al Pacino) e uma série televisiva (com David Birney no papel principal).

Criado por Robert E. Collins, o seriado Serpico passou a ser apresentado a partir de setembro de 1976 pela rede NBC ¿ no Brasil era exibido pela Rede Bandeirantes. Ao contrário do filme e principalmente do livro, que mostravam um Serpico intelectualmente curioso e pessoalmente atormentado, o seriado trazia uma leitura mais linear do personagem, pouco se detendo em inquietações filosóficas. Escolhido como protagonista, David Birney era um nome conhecido da televisão americana, com participações em seriados como Police Woman, Cannon e Casal McMillan. Tom Ewell completava o elenco.

Apesar de um início promissor, o seriado não teve sorte. Sem muito sucesso de audiência, Serpico, a série, durou apenas uma temporada, dividida em 15 episódios.

UM HERÓI DE VERDADE

O verdadeiro Frank Serpico nasceu em Nova York em 1936. Aos 18 anos, alistou-se no Exército americano, passando dois anos na Coreia. Em 1959, Serpico entrou para a polícia de Nova York, tornando-se rapidamente um dos principais investigadores de sua geração. Insatisfeito com o excesso de corrupção dentro da própria polícia, Serpico passou a denunciar os casos, primeiro numa comissão interna e, posteriormente, em reportagens jornalísticas. Perseguido pelos próprios colegas, Serpico foi baleado numa emboscada em maio de 1971. Aposentado um ano depois, recebeu a Medalha de Honra da polícia de Nova York e retirou-se para um exílio voluntário na Suíça.

Na semana passada, Serpico foi tema de uma extensa matéria do The New York Times. Aos 73 anos, casado com uma professora, cercado de cachorros, ele leva uma vida pacata e reclusa em um sítio em Harlemville, Nova York.

(Coluna publicada em 31/1/2010)

Agonia de um festival

Há exatas três décadas, a Globo tentou reviver o clima dos grandes festivais dos anos 1960 e idealizou um evento que recuperasse o impacto popular e a importância musical daquela época. Como os tempos eram outros, o Festival da Nova Música Popular Brasileira ¿ MPB 80 não teve um alcance tão grande como havia sido esperado, mas ainda assim ajudou a revelar ¿ ou confirmar ¿ novos talentos como Oswaldo Montenegro, Amelinha, Eduardo Dussek (na época, Dusek), Gang 90 e as Absurdetes, Joyce e Jessé.

Dirigido por Walter Lacet e com produção musical de Guto Graça Mello e J.C. Botezelli (o Pelão, nome histórico da MPB), o festival estreou no dia 14 de março de 1980, sendo apresentado nas noites de sexta-feira pela Rede Globo. No início, houve pré-seleção dirigida, que elegeu 60 finalistas entre 16 mil compositores e 20.183 músicas inscritas. O júri era formado por 200 profissionais das mais diversas áreas, como músicos, críticos, jornalistas e DJs.

Algumas músicas se transformaram em sucessos instantâneos como Foi Deus quem fez Você, interpretada por Amelinha, que atingiu a marca de 300 mil discos vendidos. Além dessa, caíram na boca do povo hits como A Massa (de Raimundo Sodré), Porto Solidão (de Jessé), Clareana (de Joyce) e Nostradamus (de Eduardo Dusek).

A grande vencedora foi Agonia, de Mongol, interpretada por Oswaldo Montenegro. A finalíssima, realizada no Maracanãzinho, no dia 23 de agosto, reuniu um público de aproximadamente 30 mil pessoas e reviveu em parte o clima dos antigos festivais, com disputas de torcidas e muitas vaias.

Três coisas curiosas

1 - Entre os apresentadores das eliminatórias do festival, estavam Christiane Torloni, Glória Maria, Luiz Carlos Miele, Marcos Hummel, Nelson Motta e Paula Saldanha.

2 - No ano seguinte, a Globo voltou a investir numa nova edição. Contando com o apoio de um patrocinador o festival passou a se chamar MPB-Shell.

3 - Houve ainda novas tentativas, como o MPB-Shell 1982, o Festival dos Festivais (1985) e o Festival da Música Brasileira (2000), mas nenhum repetiu o êxito da primeira edição.

(Coluna publicada em 24/1/2010)

Um esquadrão prafrentex

Com os EUA pegando fogo, protestos contra a guerra do Vietnã tomando as ruas e intensas manifestações sociais e culturais, a TV não poderia ficar para trás naqueles dias contraculturais. Uma das apostas foi The Mod Squad, seriado moderno e ousado que colocava a televisão em sintonia com aqueles tempos revolucionários.

The Mod Squad passou a ser exibida a partir de setembro de 1968 pela ABC. Para atrair o público jovem, o elenco não trazia apenas um mas três protagonistas: um branco (Michael Cole), um negro (Clarence Williams III) e uma loira (Peggy Lipton). O trio era comandado pelo capitão Adam Greer (Tige Andrews).

A trama girava nas investigações realizadas pelos três. E como eles transformaram em detetives? Na verdade, eles não tiveram opção. Ou viravam informantes, integrantes de uma equipe que trabalharia undercover, ou seriam presos. Serviço aceito, eles passaram a frequentar ambientes basicamente ligados à criminalidade juvenil e às drogas.

Pelo apelo diferenciado, a série fez sucesso na primeira temporada. Porém, nas seguintes, a temática tornou-se repetitiva e a audiência diminuiu. A série foi encerrada em agosto de 1973 depois de 123 episódios. Uma nova adaptação, The Return of Mod Squad, foi feita em 1979. Um longa foi lançado em 1999 com Giovanni Ribisi, Omar Epps, Claire Danes e Dennis Farina no elenco.

Três coisas curiosas

1 - The Mod Squad foi livremente baseado nos relatos de Bud Ruskin, produtor e roteirista que no final dos anos 1950 havia trabalhado em um esquadrão de policiais disfarçados que se infiltravam em investigações sobre narcóticos.

2 - Peggy Lipton foi namorada de Paul McCartney e mulher de Quincy Jones.

3 -  No Brasil, a série foi exibida pela extinta Rede Tupi, mais ou menos na mesma época em que era exibida nos Estados Unidos.

(Coluna publicada em 17/01/2010)

Das breguices que a gente gosta

O golfinho camarada

Versão aquática de Lassie, Flipper foi um seriado americano dos anos 1960 em que o protagonista era um golfinho ¿ mais simpático e inteligente do que a maioria dos humanos com os quais era obrigado a contracenar. Criado pela rede NBC, Flipper passou a ser exibido a partir de setembro de 1964. A ideia original vinha de um filme lançado um ano antes.

O criador era o produtor Ivan Tors, um húngaro nascido em 1916 e que, na década de 1950, havia se mudado para os Estados Unidos. No novo país, Tors destacou-se como roteirista e diretor de telefilmes de ficção científica e, antes de Flipper, havia obtido sucesso com uma série de televisão chamada Sea Hunt, que no Brasil ficou conhecida como Aventuras Submarinas, estrelada pelo ator Lloyd Bridges.

No seriado, Flipper vivia no Coral Key Park, uma reserva marinha na Flórida. Lá, ele tinha a companhia do viúvo Porter Ricks (interpretado por Brian Kelly) e seus dois filhos: Sandy (Luke Halpin), 15 anos, e Bud (Tommy Norden), 10. Muito antes de qualquer debate a respeito da consciência ecológica, o quarteto lutava pela preservação enfrentando os inimigos da natureza. Nas horas vagas, o combativo cetáceo ainda ajudava o trio a resolver casos policiais que ocorriam no local. A partir da segunda temporada, todos teriam a companhia feminina de Ulla Norstrand (Ulla Stromstedt), uma oceanógrafa contratada para trabalhar ao lado de Ricks.

A produção cara fez com que a série durasse apenas três temporadas, num total de 85 episódios, sendo cancelada em setembro de 1967.

Cinco coisas curiosas

> Embora desse a impressão de se tratar de um golfinho-macho, Flipper era interpretado por golfinhos-fêmeas. Suzy foi a que mais atuou, mas também houve outras fêmeas chamadas Patty, Kathy, Scotty e Tutuca.

> O seriado se destacou pela exuberante paisagem da Flórida, além de criativas imagens subaquáticas.

> O fenômeno Flipper deu origem a produtos como lancheiras, livros, discos, quadrinhos, álbuns de figurinhas, talheres e quebra-cabeças, além de dezenas de brinquedos aquáticos.

> Após o sucesso de Flipper e também de Daktari, Ivan Tors se tornou um conhecido defensor dos animais.

> Flipper, o seriado, inspirou a realização de outras produções sobre os golfinhos, como o filme Flipper, de 2005.

(Coluna publicada em 10/01/2010)

Uma apimentada salada de frutas

Muito antes da Mulher Melancia e de outras versões frutífero-femininas, um programa de televisão já era pioneiro na genial ideia de misturar frutas ao erotismo. Comandado por Luiz Carlos Miele, um dos grandes nomes da bossa nova, Cocktail foi uma das atrações lançadas para marcar a atuação no SBT.

Apresentado entre agosto de 1991 e agosto de 1992, Cocktail era anacrônico desde o primeiro minuto, a começar por um cenário que imitava um transatlântico. A inspiração para Cocktail vinha de um programa italiano, Colpo Grosso. A versão brasileira tinha jogos, que tinham como objetivo o strip-tease de belas mulheres representando uma fruta cada uma ¿ as chamadas garotas Tim-Tim. No final, uma outra garota fazia um strip-tease quase que completo, porém sem exibição genital.

Mesmo que dedicado a um público adulto, o programa acabou fazendo sucesso com a garotada, excitada com mulheres tão à vontade no horário das 22h. E apesar dos altos índices de audiência, o SBT optou por retirar a atração do ar depois de sofrer pressão de diversos grupos, inclusive de um chamado O Amanhã dos Nossos Filhos.

Canoa furada

Quando entrou no barco de Cocktail, Luiz Carlos Miele (nascido em São Paulo, em 1938), já era um nome experiente do showbiz brasileiro. Havia sido pioneiro na televisão e trazia no currículo trabalhos com Elis Regina, Roberto Carlos, Wilson Simonal, Pery Ribeiro, Sarah Vaughan, Sérgio Mendes, Lennie Dale e Ronaldo Bôscoli. Assim, não foi por ingenuidade que Miele resolveu emprestar todo seu prestígio a um programa que não primava pelo refinamento. Miele deve ter ganho um bom dinheiro de Sílvio Santos, mas nem essa compensação foi capaz de evitar que ele se arrependesse pouco tempo depois.

(Coluna publicada em 3/1/2010)

Família muito ouriçada

Catorze anos antes de ganhar uma segunda versão ¿ mantendo-se no ar até hoje e consolidando-se como um dos programas mais importantes da TV brasileira ¿, A Grande Família teve um teste de reencontro. A única apresentação foi há exatos 22 anos, no Natal de 1987, quando a Globo reuniu os sete integrantes do elenco inicial, exibida entre 1972 e 1975, para o especial O Natal da Grande Família. O programa mostrava como estava a família 12 anos depois, com o nascimento dos netos de Lineu (Jorge Dória) e Nenê (Eloísa Mafalda).

A ideia de reeditar o programa partiu de Paulo Afonso Grisolli, que havia sido um dos diretores da série nos anos 1970. Como os três roteiristas originais, Paulo Pontes, Armando Costa e Oduvaldo Vianna Filho, já haviam morrido, o roteiro foi entregue a Marcílio Moraes. Ele e a pesquisadora Marília Garcia reviram os episódios da primeira fase e readaptaram às questões importantes da época, como a inflação, a abertura democrática e a mudança de costumes.

Assim, na nova versão, a família ficava maior ¿ ganhando genros, noras e muitos netos ¿ e, como toda a classe média daquele período, mais pobre, com seus integrantes sendo obrigados novamente a morar juntos.

O episódio contava com Osmar Prado (Júnior, o filho mais velho), os falecidos Luiz Armando Queiroz (Tuco), Brandão Filho (Seu Flô) e Paulo Araújo (Agostinho), além de Maria Cristina Nunes (Bebel). O elenco se completava com três novos personagens: Pedro Cardoso (segundo marido de Bebel), Denise Bandeira (esposa de Júnior) e Aída Lerner (esposa de Tuco).

Três coisas curiosas

> A música-tema foi interpretada por Beth Carvalho, a mesma que cantava o tema na série original. Na nova versão a gravação é de Dudu Nobre.

> Pedro Cardoso, que aparecia no especial como o segundo marido de Bebel que, então, estava separada de Agostinho, viria a ser o escolhido para ser o próprio Agostinho na nova versão do seriado.

> Apesar da boa repercussão, o programa teve um baixo índice de audiência, o que fez como que a ideia de recriá-lo como seriado fosse abandonada.

(Coluna publicada em 27/12/2009)

Três detetives em jogo

O ator Gene Barry, que morreu no último dia nove, aos 90 anos, foi muito lembrado em seu obituário por seu papel em Bat Masterson, mas o veterano ator também teve atuação destacada em outro importante seriado dos anos 1960.

The Name of The Game (literalmente, O Nome do Jogo, mas que no Brasil ganhou o inexplicável título de Os Audaciosos) foi um seriado exibido pela rede NBC (no Brasil, fazia parte do pacote apresentado pela extinta Rede Tupi).

Baseada em Fame is The Name of the Game, filme feito para a TV em 1966, com Franciosa no papel principal e direção de Stuart Rosenberg, a série tinha três protagonistas, todos trabalhando para uma revista. A cada semana, o mesmo Tony Franciosa (Jeff Dillon), Robert Stack (Dan Farrell) e Gene Barry (Glenn Howard) se revezavam no papel de astro principal, encarregado de solucionar o caso policial que investigavam. Como os três não se cruzavam, a estreante Susan Saint James (interpretando a assistente Peggy Maxwell) era designada para fazer a ponte entre o trio.

Apresentado originalmente nos Estados Unidos, entre 20 de setembro de 1968 e 19 de março de 1971, Os Audaciosos teve, no total, 76 episódios de 90 minutos cada. Apesar do sucesso de público, a série precisou ser abandonada provavelmente pelo excesso de gastos. Uma matéria da TV Guide de 1969 estimou que os episódios estavam entre os mais caros da TV americana, custando US$ 400 mil cada um.

Antes que o seriado chegasse ao fim, Tony Franciosa pediu demissão, trabalhando em apenas três episódios da última temporada. Para substituí-lo, foram selecionados três outros atores ¿ Robert Culp (como Paul Tyler), Peter Falk (como Lewis Corbett) e Robert Wagner (como David Corey).

Barry & Spielberg

Além da trama inteligente e do charme dos personagens principais, a série também funcionou para revelar novos roteiristas e diretores que depois alcançaram grande sucesso, como Steve Bochco, Marvin Chomsky, Leo Penn e Steven Spielberg. O episódio LA 2017 ¿ sobre como seria viver na cidade californiana daqui a oito anos ¿ foi um dos primeiros trabalhos de Spielberg. O distópico episódio de ficção científica, escrito por Philip Wylie e com Gene Barry como protagonista, mostra o personagem principal sendo caçado numa Los Angeles totalmente poluída em que um governo fascista obriga a população a morar em bunkers subterrâneos para sobreviver à poluição.

(Coluna publicada em 20/12/2009)

Em busca das raízes

Um dos maiores escritores americanos do século passado vai em busca de seus antepassados e acaba construindo um dos mais amplos e detalhados painéis da vida americana. Este é o resumo de Raízes, relato feito pelo escritor Alex Haley publicado em 1976, misturando romance com relato histórico e reconstruindo a vida de seus ancestrais a partir da chegada de Kunta Kinte aos Estados Unidos. Em 1767, Kunta Kinte havia sido capturado em Gâmbia, na África ocidental, e trazido à força para a América dentro de um navio negreiro. No novo país, Kunta Kinte fora vendido como escravo para fazendeiros de Maryland.

O livro deu origem à série de mesmo nome (Roots, no original), um dos maiores fenômenos de audiência da TV nos Estados Unidos. Exibida em uma semana nos EUA, entre 23 e 30 de janeiro de 1977 ¿ e pouco tempo depois lançada no Brasil ¿, Raízes alcançou índices impressionantes: o último capítulo teve um público estimado de 130 milhões de pessoas.

Além disso, a série reuniu um dos maiores elencos de consagrados atores negros dos Estados Unidos como Ben Vereen, LeVar Burton, Louis Gossett, Jr., Leslie Uggams e Georg Stanford Brown. Raízes também extrapolou os limites televisivos, despertando na população interesse em nomes de origem africana. Um exemplo: Kizzy (personagem interpretada por Leslie Uggams) tornou-se um nome comum para recém-nascidas.

Raízes foi dirigida por Marvin J. Chomsky, John Erman, David Greene e Gilbert Moses, e produzida por Stan Margulies. A trilha sonora, também de grande sucesso, foi composta por Quincy Jones. No total, a série recebeu 36 indicações para o Prêmio Emmy, dos quais conquistou nove, além de vencer um Globo de Ouro.

No Brasil, a série foi exibida pela Rede Globo no final dos anos 1970, e reprisada pelo SBT na década seguinte.

Na guerra contra o tédio

Mesmo com uma obra curta, Alex Haley acabou se tornando um dos nomes mais importantes da literatura americana.

> Nascido em Ithaca, em agosto de 1921, Alexander Murray Palmer Haley era de uma família de classe média. Quando completou 18 anos, alistou-se na Marinha, lutando na II Guerra, mas desse período não trouxe nenhuma recordação maior.

> Anos depois, em um de seus escritos, Haley lembraria que, durante a guerra, o maior inimigo que ele e sua equipe enfrentaram durante as longas viagens marítimas não foram os japoneses, mas o tédio.

> Na década de 1950, trabalharia como jornalista, atuando como repórter da Playboy e ganhando destaque ao fazer entrevista com nomes importantes da cultura e da política americana como Sammy Davis Jr., Martin Luther King, Miles Davis, Quincy Jones e Muhammad Ali. Além de Raízes, outro importante livro deixado por Haley foram as memórias do líder negro Malcolm X.

> Haley morreu em fevereiro de 1992 em Seattle, Washington, de um ataque cardíaco. Foi enterrado ao lado de sua casa de infância em Henning, Tennessee.

(Coluna publicada em 13/12/2009)

Crimes no papel

Agatha Christie era a inspiração, mas Jessica Fletcher não ficava apenas nos gabinetes, tomando chá e escrevendo complicadas histórias policias. Ela ia à luta e ajudava a desvendar os casos. Essa era a trama central de Assassinato por Escrito (Murder She Wrote), seriado americano que acompanhava as aventuras de uma professora aposentada que depois de ficar viúva se torna uma escritora de sucesso e, nas horas vagas, colaborava com a polícia.

Jessica, intepretada magnificamente pela simpática Angela Lansbury, vivia na cidade fictícia de Cabot Cove, no Maine, Estados Unidos, mas sua disponibilidade e seu raciocínio apurado faziam com que ela se envolvesse em investigações de roubos, fraudes e assassinatos. Como o perfil da investigadora não estimulava o uso de violência e de cenas de ação, o ritmo de Assassinato por Escrito era outro, privilegiando a intuição e as conclusões inteligentes.

O título do seriado fazia referência a Murder, She Said, uma adaptação de um romance de Agatha Christie. Com roteiros de Richard Levinson e William Link, a série estreou em setembro de 1984 e logo se transformou num fenômeno de audiência nos Estados Unidos.

Produzida pela rede CBS, em parceria com a Universal TV, Assassinato por Escrito foi uma das mais longas séries de ficção policial, durando 12 temporadas num total de 264 episódios. Com o reconhecimento obtido, Angela Lansbury também se transformou em uma das atrizes mais bem pagas da televisão americana.

Uma atriz de recordes

Muito do charme do seriado se deve ao carisma de Angela Lansbury, simpática atriz veterana ¿ espécie de Eva Todor dos americanos ¿ com uma série de (bons) serviços prestados à televisão, ao cinema e ao teatro. Nascida em Londres, na Inglaterra, em outubro de 1925, Angela começou sua carreira artística em seu país Natal em 1944, transferindo-se pouco depois para os Estados Unidos, onde tornou-se cidadã americana em 1951. Em mais de seis décadas de carreira, Angela participou de mais de uma centena de filmes. Com Assassinato por Escrito, seu grande sucesso, ela bateu um recorde positivo ¿ 12 indicações ao Emmy como Melhor Atriz em Série Dramática ¿, e um negativo: nunca venceu.

(Coluna publicada em 6/12/2009)

Aprendiz de feiticeiro

Um feiticeiro de 1600 anos ¿ mas com aparência de um simpático velhinho de não mais de 80 ¿ pretende se aposentar, mas antes gostaria de passar seus conhecimentos a um jovem seguidor. Correndo o risco de ser perseguido ou hostilizado, o bruxo opta por um disfarce e por uma maneira, digamos assim, mais sutil de repassar os ensinamentos. Assim, o bruxo transforma-se em mecânico e vai viver numa pequena oficina onde poderá preparar seu sucessor: um jovem e atrapalhado aprendiz.

Esta é a trama central de Mr. Merlin (no Brasil, Merlin, o Mago), sitcom do começo dos anos 80 que misturava comédia com pequenas reflexões filosóficas.

O seriado era protagonizado pelo veterano Barnard Hughes. Após adotar um novo nome, Max Merlin, ele escolhera São Francisco, na Califórnia, como seu novo lar. Lá ele iria conhecer Zachary Rogers (Clark Brandon), seu ajudante para serviços mecânicos. Quando certo dia, Zachary consegue arrancar uma alavanca de uma balde de cimento é revelado que, na verdade, aquela era a famosa espada Excalibur do Rei Arthur.

A partir desse ¿aviso¿ dos céus, Merlin confessa sua verdadeira identidade. Porém, o aprendizado não é nada fácil, pois o milenar feiticeiro teria dificuldades em mostrar ao jovem discípulo todos os segredos de sua magia. Até porque, como havia uma ¿moral da história¿, a fantasia e os segredos mágicos deveriam servir também como alerta e conselhos para as novas gerações.

Com roteiros de Larry Rosen, Larry Tucker e Tom Chehak, Mr. Merlin tinha na direção Harry Winer, James Frawley e Bill Bixby (o ator que interpretava Hulk quando o monstro verde estava calmo). A temporada teve relativo sucesso, porém foi curta, durando menos de um ano (de outubro de 1981 a setembro de 1982) num total de 22 episódios.

O bom velhinho

O rosto do bruxo era dado por Barnard Hughes, veterano ator americano com forte atuação no cinema, no teatro e na TV. Nascido em julho de 1915 em Nova York, Bernard Kiernan Aloysius Hughes ¿ ele mudou o ¿E¿ em seu primeiro nome para um ¿A¿ a conselho de uma numeróloga - começou fazendo teatro em sua cidade natal. Mesmo sendo um especialista em Shakespeare e tendo participado de mais de 400 peças só foi se transformar em um nome conhecido pelo público já com quase 50 anos, quando passou a fazer pequenos papéis em seriados como Naked City, All in the Family, Route 66 e Cannon. Hughes morreu no dia 16 de julho de 2006, cinco dias antes de completar 91 anos.

(Coluna publicada em 29/11/2009)

É tudo verdade

Esse vídeo genial - que mostra como os Beatles seriam vistos daqui a mil anos - deixa na gente a impressão de que todos os documentários que se vê na TV estão nos enganando. Dica do meu amigo @dgdgd.

O preto que satisfaz

Por décadas a chanchada reinou no cinema brasileiro, formando gerações de espectadores e dando ao Brasil o que mais próximo houve de uma indústria cinematográfica. Depois dos anos 60, os filmes do gênero escassearam, até serem transformados numa versão - digamos assim - mais erótica: a pornochanchada. Parte do charme e da ingenuidade daquelas comédias serviram de inspiração para Feijão Maravilha, novela escrita por Bráulio Pedroso e apresentada pela Rede Globo no final da década de 70.

Exibida entre março e agosto de 1979, Feijão Maravilha tinha uma trama central que se passava no Hotel Internacional, no Rio de Janeiro. Lá, a recepcionista Eliana (Lucélia Santos) e o trambiqueiro Anselmo (Stepan Nercessian) se envolviam em confusões, perseguições e desencontros. Se a história estava centrada em dois jovens, o enredo crescia quando entravam em cena os personagens veteranos. Dessa maneira, o caldo deste Feijão Maravilha ficava mais saboroso com as histórias paralelas e as homenagem aos artistas que revolucionaram o cinema brasileiro, como Grande Otelo (Benevides), José Lewgoy (como o mafioso Ambrósio, em que voltava a interpretar um vilão como na época dos filmes da Atlântida), Ivon Curi (como o príncipe árabe Rachid) e Olney Cazarré (cujo personagem era inspirado em Oscarito), além de Eliana Macedo, Adelaide Chiozzo, Anselmo Duarte e Mara Rúbia.

Já que a trama aceitava qualquer ideia, o jeito era torná-la a mais maluca possível, colocando lado a lado bandidos e vedetes, cantores e sheiks, humoristas e jogadores de futebol. Nesta mistura, um dos destaques foi o número de participações especiais, aí incluídos o galã Francisco Cuoco, os comediantes Chico Anysio e Jô Soares, e os jogadores Zico e Sócrates.

Feijão gigantesco

Outro destaque em Feijão Maravilha foi a vinheta de apresentação. O tema era a canção O Preto que Satisfaz, composição de Gonzaguinha interpretada por As Frenéticas, e na abertura foi utilizada uma técnica de sobreposição de imagens de maquetes e chromakey. O cenário trazia a reprodução gigantesca de alimentos e utensílios de cozinha. Assim, um grupo formado por um chef de cozinha e por belas cozinheiras dançava e interagia com objetos como grãos de feijão, dentes de alho, caixas de fósforos, talheres e panelas.

VISITA CÉLEBRE

Zico e Sócrates foram alguns dos convidados especiais da novela, contracenando com José Lewgoy e Grande Otelo

*

Deu amnésia no Jogo da Memória. A coluna não lembrou que David McCallum, o personagem da semana passada, continua na ativa, interpretando Donald ¿Ducky¿ Mallard no seriado NCIS no canal AXN.

(Coluna publicada em 22/11/2009)

Invisível e previsível

Jogo da Memória segue na linha de seriados invisíveis e, uma semana depois de ter falado sobre Gemini Man, vai de O Homem Invisível, outro seriado de vida efêmera, mas que marcou pelo menos uma geração de fãs nos anos 1970.

A versão de O Homem Invisível lançada em 1975 tinha um antecessor famoso: um seriado com o mesmo nome produzido em 1958. Ambos eram inspirados na história clássica de ficção científica de H.G. Wells, o Homem Invisível.

Como sempre, a trama era previsível. Por que ele havia ficado invisível? Ora, como sempre, o cientista, no caso, o Dr. Daniel Westin, era vítima de uma experiência. Quando trabalhava em uma fórmula que tornava objetos invisíveis, Westin descobre que poderia tornar invisível a si próprio, mas ¿ também como sempre ¿ com essa grande descoberta vinha uma maldição: no caso, o interesse do governo em usar a técnica para fins militares. Pacifista que era, Westin resolve memorizar a fórmula, destruir o equipamento, tornar-se invisível e fugir.

Apesar da previsibilidade da trama, O Homem Invisível foi inovador nos efeitos especiais. Se na versão original, o protagonista perdia totalmente a visibilidade, sendo obrigado a viver envolto em bandagens. Na versão mais recente, o cientista, interpretado por David McCallum, não precisava de bandagens, podendo utilizar uma máscara de silicone e luvas especiais que imitavam a pele humana. Bastava ele se ¿despir¿ para ficar invisível.

Escrito por Steven Bochco ¿ roteirista respeitado com trabalhos em Columbo, Ironside e Hill Street Blues ¿, O Homem Invisível estreou em setembro de 1975 e durou apenas 12 episódios, sendo cancelado quatro meses depois. Curiosamente, no Brasil a receptividade foi boa, o que garantiu ao seriado sucessivas reprises pelas redes Globo, Manchete e Record.

O rosto sem a máscara

> Quando estava visível, o Dr. Daniel Westin tinha a cara de David McCallum, um dos nomes mais conhecidos da televisão nos anos 1960 e 1970.

> Nascido em setembro de 1933, em Glasgow, na Escócia, era filho de violinista e de uma violoncelista da Orquestra Filarmônica de Londres.

> Quando criança, David chegou a estudar oboé, mas já na adolescência passou para a Academia Real de Arte Dramática.

> Seus primeiros filmes foram no Reino Unido. Tornou-se conhecido como o agente Illya Kuryakin de O Agente da Uncle (1964).

> David participou de seriados como Esquadrão Classe A, Casal 20, Law & Order e Sex and the City.

> Atualmente, aos 76 anos, David está fora da TV. Vive com a mulher, Katherine, em Long Island e se dedica a trabalhos comunitários e a jogar golfe.

(Coluna publicada em 15/11/2009)

Invisível porque não era visto

Poucas estratégias de marketing ajudaram tanto na divulgação dos relógios digitais quanto o seriado Gemini Man. Afinal, quem tinha por volta de 10 anos em 1976 e começava a se deslumbrar com o surgimento dos primeiros relógios digitais que vinham para substituir os analógicos poderia acreditar que o aparelho lhe daria uma vantagem a mais: a invisibilidade. Mas foi só o que ficou de um seriado pouco lembrado mais de três décadas depois de sua estreia.

Em Gemini Man, a invisibilidade era tratada como um superpoder que, aparentemente, parecia ser uma dádiva, mas que, na verdade, transformava-se em maldição. A trama começa quando Sam Casey (Ben Murphy), um mergulhador especializado em resgates submarinos, é enviado numa missão para recuperar uma cápsula que contém uma arma secreta. Entre os envolvidos no resgate está um sabotador contratado para explodir a cápsula. Com a explosão, Casey é atingido pela radiação e, no hospital, descobre que sua estrutura molecular fora seriamente afetada. A partir de então, Casey passa a ser invisível para as demais pessoas.

Auxiliado por uma cientista, a Dra. Abby Lawrence (Katherine Crawford), Casey consegue reverter o problema depois que ela inventa uma espécie de relógio digital que lhe devolve a visibilidade. Dessa maneira, a invisibilidade passaria a ser opcional. Bastaria que Casey apertasse um botão do relógio e, durante 15 minutos diários, poderia voltar a ficar invisível. Se abusasse do tempo, sua invisibilidade seria permanente.

O absurdo da trama e a pouca empatia dos atores fez com que Gemini Man tivesse uma vida breve. Lançado em maio de 1976, o seriado foi cancelado depois de apenas 11 episódios ¿ a audiência era tão baixa que os produtores nem esperaram a exibição de todos, optando por uma interrupção no sexto capítulo. O restante só foi exibido anos depois, quando o seriado virou cult e passou a ser reprisado.

QUEM É ELE

Mesmo com uma carreira longa e cheia de participações, Ben Murphy nunca conseguiu se transformar em um nome de primeira linha da televisão americana.

Nascido Benjamin E. Murphy, em março de 1942, no Arkansas, ele começou na década de 1960 fazendo pequenos papéis em seriados como O Rei dos Ladrões e O Homem de Virgínia. Sua vida melhoraria ao tornar-se protagonista de Smith e Jones, um seriado de faroeste que obteve grande sucesso no início da década de 1970, mas que logo entrou em declínio após a morte repentina de um dos protagonistas, Pete Duel, em 1971.

Gemini Man seria a segunda chance de Murphy fazer sucesso, mas dessa vez foi o seriado que não agradou ao público. Depois disso, Murphy voltou a fazer pequenas participações, porém ampliando o número de seriados.

Nas últimas três décadas ele pôde ser visto em O Barco do Amor, A Ilha da Fantasia, The Mod Squad, Além da Imaginação e muitos outros.

Aos 67 anos, Murphy teve atuação ainda em seriados recentes, como JAG e Cold Case.

(Coluna publicada em 8/11/2009)

O ritmo impecável de Tony Bennet

Com um certo atraso, reproduzo aqui o texto que fiz para Zero Hora sobre o show de Tony Bennett, em outubro.

Um Tony Bennett envolvente e vibrante abriu na noite de quarta-feira, no Teatro do Sesi, a etapa de sua nova turnê brasileira, que daqui seguirá para Brasília (hoje), Salvador (amanhã), São Paulo (dias 26 e 27), Rio de Janeiro (dia 29) e Recife (dia 31). Precedido pela herdeira musical, Antonia Bennett ¿ que abriu o espetáculo com 15 minutos para apresentar em quatro músicas suas credenciais ao público ¿, Tony Bennett entrou em cena aplaudido de pé. E o que se viu nos 90 minutos seguintes de um show enxuto, objetivo e emocionante foi a compensação de uma aguardada espera.

De uma elegância sóbria que se contrapunha a um repertório explosivo, Bennett recordou quase todas as fases de seus mais de 60 anos de carreira, privilegiando clássicos consagrados que marcaram o cenário musical no século 20, como The Good Life, For Once in My Life, The Way You Look Tonight e a confirmadíssima I Left My Heart in San Francisco.

Representante de uma linhagem que inclui Frank Sinatra, Sammy Davis Jr. e Bing Crosby, Tony Bennett é um artista superlativo, que já gravou mais de 70 discos, vendeu mais de 50 milhões de álbuns em todo o mundo, recebeu 15 prêmios Grammy, inclusive o prestigiado Grammy Lifetime Achievement Award. Líder generoso, que se renova no convívio com os parceiros musicais, Bennett sabe abrir espaço para solos de todos os seus instrumentistas, um quarteto formado por Lee Musiker (piano), Gray Sargent (guitarra), Harold Jones (bateria) e Marshall Wood (baixo). Se soltou o vozeirão em Watch What Happens ¿ de Michel Legrand, já gravada por Elis Regina e Sérgio Mendes ¿, Bennett soube ser sofisticado e suave quando emendou a country Cold, Cold Heart com a suingante Speak Low ¿ em que o contrabaixo de Marshall Wood dá o andamento ¿, além da gershwiniana I Got Rhythm, com Gray Sargent fazendo um citação de Aquarela do Brasil, a primeira das muitas que o músico faria em homenagem à música brasileira.

Logo a seguir, Tony Pai e Tonia Filha passam a dividir o microfone em I¿ve Got My Love to Keep me Warm, momento único em que os dois ficam em cena, pois imediatamente depois o patriarca reassume sozinho o comando da noite. Se é econômico nos gestos, na lentidão do caminhar e na charmosa coreografia desajeitada ¿ rara exceção é quando se permite uma brincadeira à la Michael Jackson na versão abolerada de The Shadow of your Smile ¿, Bennett mostra tudo o que sabe quando abre a boca. A disciplina e a rígida formação, aperfeiçoada em aulas de canto lírico, deram a Tony Bennett a segurança para chegar aos 83 anos em plena forma, segurando até uma versão à capela, sem microfone, de Fly me to the Moon. Entre tantos, esse foi o ponto alto de uma noite em que um artista confirmou, como canta em The Best Is Yet to Come, que o melhor ainda está por vir.

Deus e o diabo na televisão

Mestre do cinema brasileiro, Glauber Rocha (1939 ¿ 1981) flertou no final da vida com a TV. Foi um relacionamento rápido e conturbado ¿ como costumavam ser os relacionamentos do cineasta baiano ¿ mas que acabou tendo uma importância grande como retrato de uma época.

A fase é a do final dos anos 1970, quando a abertura política prometida pela ditadura militar começava a se confirmar, e os aeroportos lotavam para receber Fernando Gabeira, Vladimir Palmeira, Leonel Brizola e Miguel Arraes. Embalada pelos novos ares democráticos, a TV Tupi partia para a guerrilha televisiva, colocando no ar um programa sem pé nem cabeça, mas que iria influenciar a TV brasileira. Para comandar Abertura, programa semanal de entrevistas dirigido por Fernando Barbosa Lima, foi convidado Glauber Rocha.

Como a figura do entrevistador era maior do que o programa, Abertura era Glauber Rocha. Polêmico e falastrão, o cineasta exercitava toda sua verve: falava pelos cotovelos, emitia suas opiniões virulentas, atacava inimigos, fazia perguntas sem se preocupar em ouvir as respostas e organizava improvisadas enquetes nas ruas. Tudo isso com uma (nervosa) câmera na mão e (muitas) ideias na cabeça. Glauber mostrava-se coerente com a linha performática criada por ele mesmo em seu documentário Di Glauber, filme sobre o enterro de Di Cavalcanti em que o cineasta se apresentava por inteiro diante da câmera.

Nessa viagem autocentrada, Glauber bateu todos os recordes ao entrevistar o seu psicanalista, Eduardo Mascarenhas, pedindo que ele falasse sobre seu cliente mais famoso, o próprio Glauber. Puro Cinema Novo.

Um mestre atrás das câmeras

Por trás da ousadia de Abertura, estava o cérebro de Fernando Barbosa Lima, um dos grandes nomes na evolução da televisão brasileira. Filho de Barbosa Lima Sobrinho, Fernando teve uma trajetória marcada pela audácia e pela inovação, produzindo mais de uma centena de programas. Entre eles, o Jornal de Vanguarda, O Advogado do Diabo, Sem Censura, Canal Livre, Conexão Internacional e Cara a Cara com Marília Gabriela.

Numa carreira de mais de cinco décadas, Fernando Barbosa Lima não se destacou apenas como diretor de programas, mas também por ter comandado emissoras como a TV Excelsior, a TV Bandeirantes, a Rede Manchete e a TVE do Rio de Janeiro por três vezes. Nos últimos anos de vida, produziu uma série de DVDs sobre Grandes Brasileiros, em que biografou nomes da vida pública do país como Tancredo Neves e Darcy Ribeiro. Morreu em setembro de 2008, aos 74 anos.

Marionetes do futuro

Nos anos 1960, o que havia de mais original e criativo na TV em matéria de ficção científica era o que estava sendo feito com bonecos de madeira. As marionetes da série Os Thunderbirds ¿ com suas caras quadradas e suas perucas malfeitas ¿ enfrentavam ataques a usinas nucleares, explosões em navios, acidentes aéreos e outras catástrofes.

Exibida no Brasil pelas redes Globo e Tupi a partir do final da década de 1960, a série era dividida em episódios de uma hora. No total, foram 32. A ação se passava no distante ano de 2063, e a trama girava em torno do magnata Jeff Tracy, um ex-astronauta que perdeu a mulher em um trágico acidente. Jeff morava em uma linda mansão numa ilha do Pacífico e de lá comandava a organização secreta conhecida por International Rescue, criada para ajudar as pessoas em perigo, com equipamentos de tecnologia avançada. Com ele, estavam o gênio científico Homero Newton 3, o Brains, além dos cinco filhos do milionário: Alan, John, Scott, Gordon e Virgil ¿ todos com nomes dos primeiros astronautas americanos.

Como os efeitos especiais da época ainda eram toscos, sobrava criatividade na hora de colocar os bonecos no trabalho. Gravados nos estúdios da A.P. Filmes, no norte da Inglaterra, os episódios de Os Thunderbirds foram criados pelos produtores Gerry Anderson e Arthur Provis. No estúdio, os peritos utilizavam uma técnica desenvolvida por Anderson conhecida como Supermarionation. As marionetes eram manipuladas por pequenos sistemas eletrônicos instalados em seus corpos de madeira. Um detalhe divertido que acabou se transformando numa das graças do programa era que dependendo da iluminação da cena eram mostrados os fios de náilon usados pelos manipuladores.

Mesmo com todo o sucesso ¿ no total foi vendida para 65 países ¿, a série foi produzida por apenas 15 meses, deixando de ser feita em dezembro de 1966.

OS CINCO THUNDERBIRDS

  1. Thunderbird 1: Foguete que podia alcançar a espantosa velocidade de 12 mil quilômetros por hora. Era pilotado por Scott Tracy.
  2. Thunderbird 2: Espécie de cargueiro aéreo utilizado para transportar os equipamentos pesados. Era pilotada por Virgil Tracy.
  3. Thunderbird 3: Nave usada para resgates espaciais. Era pilotada por Alan Tracy.
  4. Thunderbird 4: Nave usada para resgates submarinos. Era pilotada por Gordon Tracy.
  5. Thunderbird 5: Espécie de satélite que monitorava toda a superfície da Terra e captava as mensagens de socorro. Era pilotado por John Tracy.

Lembrando o Agente 86

Seriado que está no patrimônio afetivo de milhões de fãs, Agente 86 ¿ no original Get Smart ¿ continua sendo um clássico mais de quatro décadas depois de sua estreia. Veja a seguir 14 pontos curiosos da série:

1) No Brasil, Get Smart recebeu o nome de Agente 86. Em Portugal, Olho Vivo.

2) Don Adams foi escolhido para o papel depois de ter se destacado no The Bill Dana Show, programa de humor em que ele interpretava um atrapalhado detetive de hotel.

3) Barbara Feldon, a agente 99, começou a carreira artística como modelo, chamando a atenção do público em um comercial da Revlon.

4) Além do trabalho de modelo, Barbara Feldon venceu um programa televisivo de perguntas e respostas. O tema que defendeu era a vida e a obra de William Shakespeare.

5) O longa que deu origem a série foi produzido em preto e branco.

6) No primeiro episódio, já foram mostradas duas invenções clássicas: o sapato-fone e o cone-do-silêncio.

7) Agente 86 foi recusado pelos executivos da Rede ABC. A justificativa deve-se ao fato de estar prevista a explosão da Estátua da Liberdade em um dos episódios.

8) Com a recusa da ABC, o seriado acabou sendo adquirido pela Rede NBC. A única determinação da nova emissora era que Agente 86 fosse feito a cores.

9) Na temporada de 1969, os protagonistas casaram-se e tiveram filhos gêmeos.

10) Nas cinco temporadas, o programa recebeu sete prêmios Emmy.

11) Agente 86 deu origem a um longa. The Nude Bomb (A Bomba que Desnuda), de 1980, que foi um fracasso de bilheteria.

12) A clássica abertura dos episódios que mostra Don Adams atravessando portas que se abrem e fecham gravada nos Estudios Disney.

13) O conversível vermelho dirigido por Don Adams na abertura do seriado era um 1965 Sunbeam Tiger Mark I.

14) Robert Karvelas, que interpretava o aparvalhado Larabee, era primo de Don Adams.

Eles davam show!

Elenco de bonecos criados para alguns quadros de Vila Sésamo (nos Estados Unidos, Sesame Street), os muppets tornaram-se um sucesso imediato e avassalador ganhando na década de 1970 um programa só para eles: o Muppet Show.

Exibido a partir de setembro de 1976, o seriado tinha meia hora de duração. Era conduzido por Kermit the Frog, no Brasil, Caco, o Sapo, um simpático, divertido e atrapalhado boneco verde que servia como apresentador das atrações. Além de Caco compunham o elenco de bonecos figuras como Fozzie, um urso metido a comediante que fazia tudo para entrar no mundo dos espetáculos, e Miss Piggy, uma bela e sensual porquinha apaixonada por Caco.

Original e anárquico, Muppet Show fazia uma sátira aos programas de auditório e espetáculos de vaudeville. Embora voltado para o público infantil, o programa era admirado pelos adultos pelo humor inteligente e pela ironia com que tratava artistas, fãs e produtores que fazem parte do showbiz. Fenômeno de audiência, o Muppet Show passou a atrair artistas que se ofereciam para fazer participações especiais no programa (confira alguns deles na lista abaixo).

Apresentado até 1981, o Muppet Show teve no total 120 episódios. O seriado deu origem aos longa-metragens Muppets, o Filme (1979), seguido por A Grande Farra dos Muppets (1981) e Os Muppets Conquistam Nova York (1983).

O pai dos bonecos

Os Muppets só chegaram aos Estados Unidos depois de estrearem na Inglaterra. Foi lá que Jim Henson, o criador dos bonecos, recebeu apoio para produzir a atração. Nascido em 1936, em Leland, Mississipi, Henson cresceu em Maryland, onde, na adolescência, trabalhou em uma emissora de TV manipulando bonecos em um programa infantil. Já no começo, Henson e um amigo criaram um boneco, o rato francês Pierre. Bem recebido pelo público, os bonecos transformaram-se em atração, e Henson foi contratado pela emissora ABC para comandar o programa Sam and Friends (Sam e Seus Amigos). A atração durou seis anos, e logo Henson se engajaria em Vila Sésamo, que serviria como trampolim para o Muppet Show.

Depois de 1981, Henson afastou-se do Muppet Show, mas não dos bonecos. Em 1983, ele iniciou a série Fraggle Rock, a Rocha Encantada. Em 1986, ao lado da Lucasfilm, de George Lucas, lançou Labirinto, A Magia do Tempo. E em 1990, preparava-se para uma parceria com a Disney. Infelizmente, não teve tempo. Morreu naquele mesmo ano, vítima de uma pneumonia.

CONVIDADOS ESPECIAIS

- Charles Aznavour

- Candice Bergen

- Vincent Price

- Steve Martin

- Madeline Kahn

- George Burns

- Rudolf Nureyev

- Elton John

- Peter Sellers

- Alice Cooper

- Harry Belafonte

- Sylvester Stallone

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- Liza Minnelli

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- Brooke Shields

- Paul Simon

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