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O sambista barroco

04 de agosto de 2009 1

Foto de Tadeu Vilani/Zero HoraHolofotes – aquela em que a letra de Waly Salomão e de Antônio Cícero fala “Eu lhe ofereço / Essas coisas que enumero / Quando fantasio / É quando sou mais sincero” – ilumina a abertura do show para que em seguida João Bosco emende com a debochada Incompatibilidade de Gênios e com a primeira homenagem a Elis Regina na interpretação de Bala com Bala.

Assim o mais percussivo dos cantores brasileiros abriu o mais aguardado show da temporada do Festival de Inverno, na noite de sexta-feira, no Teatro do Bourbon Country, na Capital. Transformando a garganta numa orquestra de tambores que garantia a base rítmica para seus improvisos, João Bosco, em pouco mais de duas horas, construiu um repertório diversificado em cima de sambas, boleros e lundus.

Fazendo com elaboração e estudo o que Clementina de Jesus fazia de modo intuitivo – ao criar uma nova linguagem musical a partir de monossílabos –, o músico seguiu esbanjando seu amplo estojo de recursos nas brincadeiras vocais de Odilê Odilá (parceria com Martinho da Vila) e O Ronco da Cuíca. Já na metade do espetáculo, o sambista polirrítmico dá lugar ao suave jazzista na interpretação da primeira música que não carregava sua assinatura, Tarde (de Milton Nascimento e Márcio Borges). Generoso ao abrir espaços para os solos do trio que o acompanha – Nelson Faria (guitarra), Ney Conceição (baixo) e Kiko Freitas (bateria) – João Bosco elevou ainda mais o clima romântico na ralentada Desenho de Giz (em que pergunta “Quem pode querer ser feliz se não foi por amor?”) e na etérea Lígia, buscada no repertório de Tom Jobim.

Daí até o final – com direito a cinco bis, aí incluídas Memória da Pele, A Paz, Trem Azul e a indefectível Papel Machê –, João Bosco retomou o fio da meada com sambas em que exaltou Dorival Caymmi, Silas de Oliveira (Nação) e Moacir Santos (Maracatu, Nação do Amor) até desaguar em O Bêbado e a Equilibrista, nova homenagem a Elis Regina, precedida por uma citação de Smile.

Foi com a derradeira Linha de Passe que a inventividade desse sambista barroco (nascido no interior de Minas Gerais, mas forjado nas parcerias com Vinicius de Moraes e com Aldir Blanc no Rio de Janeiro) ganhou a melhor forma. No canto final, quando com a sobreposição de versos como “Há um diz que tem e no balaio tem também / Um som bordão bordando o som, dedão, violação / Diz um diz que viu e no balaio viu também / Um pega lá no toma-lá-dá-cá do samba”, João Bosco parafraseia Vinicius de Moraes e se transforma no branco mais preto do Brasil, na linha direta dos afrossambas de Baden Powell. Saravá, mestre!

(Texto publicado na Zero Hora de 3/8/2009.)

Postado por Márcio Pinheiro