Meses antes de morrer, já muito doente por muitos anos, meu pai, Francisco, recebeu homenagem da OAB. Era inédita a solenidade até então, já que pela primeira vez a diretoria da Ordem dos Advogados/SC se deslocou da capital do Estado até outra cidade, no caso Videira, aonde ele militou na profissão por mais de quatro décadas. Também tinha idade abaixo daquela estabelecida para ser jubilado. E recebeu a homenagem em vida, mas sem mais palavras, minha mãe escreveu, dez minutos antes da cerimônia, entre enfermeiros e ambulância que o levou até o Fórum da cidade, o discurso que faria em nome dele. Fez tanto sucesso que a OAB publicou em sua revista na época. E resume com propriedade o ofício escolhido pelo meu pai. E mais, sobre o gosto pela arte e cultura em geral que ele tinha e plantou em muita gente. Num momento em que vejo minha mãe passar por uma injustiça sem explicação, sobre a qual não posso e nem quero falar no momento, aqui vão suas inspiradas palavras proferidas naquele mês de abril de 1999, em Videira, minha cidade natal.
FRANCISCO WOSGRAUS é jubilado pela OAB.
Ivone Wosgraus profere discurso emocionado.
Francisco Wosgraus um dos homens mais inteligentes e brilhantes que tive o privilégio de conhecer e conviver, é hoje sombra querida do que foi. O advogado combativo, corajoso, trabalhador e falante, calou-se. Assim, sem avisar, fechou a porta e foi embora, deixando um cérebro confuso, e alma de criança num corpo velho. Virou filho tão amado como quando era marido, ou melhor muito mais, porque um filho amamos para sempre haja o que houver. Dói, falar em seu lugar, logo eu, a quem ele tudo ensinou. Levou-me carinhosamente, ao mundo da cultura. Ensinou-me o que é arte verdadeira, dirigiu-me para a boa literatura para que eu não me perdesse no caminho.
Ensinou-me olhar além das aparências, abstraindo para chegar até a essência. Poderia ter sido o que quisesse na vida, para isso tinha talento, inteligência, carisma e competência. Mas optou pela advocacia em Videira do que muito se orgulha. A cidade o conquistou, dando-lhe o direito de trabalhar e viver recluso como gostava, um verdadeiro "Lobo da Estepe". Inventou um modo de ganhar a vida sem disputas, atropelos e correrias. Despojado, parecia possuir um espírito velhíssimo que já havia visto tudo.
Foi um grande benfeitor do colégio Imaculada Conceição, bem como do Hospital Divino Salvador, conseguindo para este último através do então senador Konder Reis o primeiro aparelho de Raio-X. A empreendedora incansável Irmã Bonnavita, sempre o procurou quando necessitava, jamais sendo decepcionada. Embora não fosse frequentador da Igreja, era um grande amigo, um verdadeiro irmão a quem elas sabiam que podiam recorrer nas horas difíceis. Quando lhe sugeri que escrevesse, pois sabia tanto, respondeu: "Já escreveram livros demais".
Confesso que fiquei meio perdida. Acostumada a ser conduzida pelo marido iluminado, de repente sou obrigada a conduzi-lo, mostrar-lhe o caminho. Mas que caminho? O único e eterno caminho espiritual.
Tendo sido um dos raros Positivistas do Brasil, seguidor de Augusto Conte, coube a mim criar-lhe o hábito de rezar todas as noites antes de dormir.
Francisco Wosgraus é advogado e advogar foi sua vida, quanto mais desafios encontrava numa questão, mais animado ficava, levantando-se no meio da noite, até encontrar a solução. Se era rentável ou gratuita, não fazia diferença. Grande defensor da justiça, além de dar o exemplo cobrava postura digna de colegas e clientes, principalmente de jovens advogados para que respeitassem e protegessem a figura do juiz não pela pessoa, mas pelo que ele representava.
Que esta homenagem não seja só para ele, mas para todos os advogados e todos os membros dignos da Justiça, esteio deste país.
Ivone Wosgraus


