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10 jul16:59

Após videos de sexo entre adolescentes, Bom Retiro tira lições do choque

Pedro Chaves, Zero Hora

Quem chega a Bom Retiro do Sul não nota qualquer mudança. O Figueirão continua sendo o restaurante em que se encontra excelente comida caseira a preço justo. Curtir o sol nos belos gramados às margens da eclusa no Rio Taquari é sempre um bom programa. Essa aparente calmaria oculta uma comunidade em reconstrução mais de quatro meses depois de uma tempestade. Não uma daquelas que arrasam prédios e transbordam rios. E sim uma catástrofe peculiar da era da internet

O município de quase 12 mil habitantes, a 107 quilômetros da Capital, foi varrido, em fevereiro, pelas imagens de duas adolescentes em cenas de sexo com seus então namorados – um rapaz de 22 anos e um com menos de 18 anos. Disseminados inicialmente via bluetooth entre celulares de estudantes do Ensino Médio de uma escola da cidade, os vídeos tiveram um efeito devastador.

Epicentro do escândalo que abalou Bom Retiro do Sul, a escola foi quem primeiro reagiu, certamente favorecida pela experiência de 50 anos de atividade completados em 2010 e por contar com o irrestrito apoio da comunidade escolar. No esforço para readquirir sua tranquilidade, a primeira providência foi um encontro com familiares, decidido após a direção ter constatado que havia pais de alunos do Ensino Fundamental pedindo a seus filhos que conseguissem cópias dos vídeos.

Com a parceria do Conselho de Pais e Mestres, do Conselho Escolar e da Delegacia de Polícia, a escola reuniu mais de 300 pessoas para explicar a elas as implicações legais da cópia e distribuição de imagens, e alertá-las da necessidade de ficarem mais atentas às atividades diárias de seus filhos.

Depois, o delegado da cidade, Rodrigo Machado Reis, foi convidado para falar aos alunos dos turnos da manhã e da tarde e mostrou que, longe de ser uma brincadeira, a posse e a distribuição dos vídeos podem caracterizar crime passível de punição.

A situação serviu ainda para reforçar as normas de convivência (e as consequentes sanções e punições para quem as desobedeça) estabelecidas desde 2008 pela escola, com aprovação dos pais, entre as quais a que proíbe celulares em sala de aula. Encarar a realidade parece ter tido efeito sobre os alunos, que começaram a deletar as imagens de seus celulares e hoje estão mais próximos da direção e dos professores, a quem procuram para revelar seus problemas e buscar orientação.

Assim, ao que parece, a escola vai conseguir sair fortalecida da crise, com um relacionamento melhor entre pais, professores e alunos. E esta convivência será ainda mais proveitosa se forem liberados R$ 120 mil já provados no Orçamento Participativo do Estado para a reforma do ginásio da escola, onde as competições esportivas sempre reuniram a comunidade escolar.

A prefeitura, de início paralisada frente ao episódio inédito enfrentado, passou a agir. Através da Coordenadoria da Mulher, chefiada pela vice-prefeita Claudia Ribeiro Köhler, mobilizou-se junto ao Conselho Tutelar, ao Conselho dos Direitos da Criança e do Adolescente e ao Conselho da Mulher. Estão concluindo um projeto que pretende aproveitar o interesse dos jovens na produção de vídeos e estimulá-los a produzir imagens que mostrem, por exemplo, a história de famílias locais.

Silêncio entre os jovens envolvidos

Já as partes diretamente envolvidas, os adolescentes e seus pais, preferem manter o silêncio. Continuam vivendo e trabalhando em Bom Retiro. Uma das alunas segue frequentando as aulas do Ensino Médio. A outra, por enquanto, desistiu de estudar e tenta refazer sua vida dedicando-se ao novo emprego (o anterior, ela perdeu logo após o surgimento dos vídeos).

A cidade deu uma mostra de que está suficientemente forte para resistir às adversidades: a Delegacia da Polícia Civil concluiu os inquéritos e deve encaminhá-los ao Judiciário. Possibilidades de punição: três a oito anos de prisão para um rapaz de 22 anos e medida socioeducativa para uma adolescente. Agora, com os resultados concretos já disponíveis, o delegado voltará à escola para falar aos alunos do Ensino Médio noturno.

Passo a passo, Bom Retiro do Sul tenta retomar seus valores. O que aconteceu fez a cidade mudar. O esforço de todos é para que esta mudança seja para melhor.

Antes e depois
COMO FOI
- Dia 21 de fevereiro: no primeiro dia de aulas noturnas do Ensino Médio, uma adolescente de 16 anos é avisada por uma colega que há imagens suas em cenas de sexo com seu ex-namorado, também de 16 anos, circulando nos celulares dos demais estudantes. Ela procura a direção e é orientada a registrar queixa na polícia.
- Dia 4 de março: outra garota de 16 anos procura a polícia, orientada pela escola, para relatar que há vídeos circulando entre alunos que mostram cenas de sexo dela com seu ex-namorado de 22 anos.
COMO FICOU
- A investigação policial mostrou que, no primeiro caso, esteve envolvida uma outra adolescente que copiou o vídeo e passou a divulgá-lo. Ela será responsabilizada por isso.
- l No segundo caso, o rapaz de 22 anos responderá pela filmagem, mas não pela divulgação. Ele sofreu um acidente de moto e perdeu o celular com as cenas em frente a uma construção. Outros dois rapazes, também maiores, tiveram acesso ao aparelho, copiaram os vídeos e passaram a divulgá-los pela cidade. Eles serão denunciados pela divulgação
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