Prestes a completar um ano, a Lei de Acesso à Informação continua sendo ignorada pelos principais órgãos do Estado quando o assunto é a divulgação de salários nominais.
Enquanto instituições federais dão o exemplo e levam a transparência ao limite, sem omitir a identidade de quem é pago com o dinheiro do contribuinte, no Rio Grande do Sul os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário seguem resistentes.
A nova legislação entrou em vigor em maio de 2012 e já nos primeiros meses desencadeou mudanças no país. A União e o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiram tomar a frente e abrir os contracheques de seus servidores, sem restrições. Outros órgãos seguiram o exemplo.
Mas o efeito dominó parece ter afundado nas águas pardas do Rio Mampituba. Embora órgãos estaduais como Assembleia Legislativa, Tribunal de Justiça (TJ) e Palácio Piratini tenham disponibilizado aos gaúchos os valores gastos com o quadro funcional, as listas publicadas em sites e portais são genéricas. No lugar dos nomes dos beneficiados, mantidos em sigilo, aparecem códigos ou, no máximo, cargos.
O mesmo vale para o Ministério Público e o Tribunal de Contas do Estado. A principal justificativa é a garantia de privacidade aos envolvidos. O problema é que o argumento caiu por terra com uma decisão do Supremo e vem sendo contestado por especialistas.
Secretário-geral da ONG Contas Abertas, o economista Gil Castello Branco cita dados concretos para fundamentar a briga por mais transparência. Segundo ele, as despesas com pessoal nos três poderes representam nada menos do que 14% do PIB brasileiro.Além disso, são 9,4 milhões de servidores públicos, pagos por governos de todas esferas.
A resistência encontrada aqui, segundo a secretária executiva do Fórum de Direito de Acesso a Informações Públicas, Marina Iemini Atoji, pode estar relacionada à regulamentação da lei Lei Estadual 13.507/2010, que veda a identificação pessoal dos beneficiários, considerada "vaga" por ela.
_ Falar em preservar a privacidade é desculpa. O próprio STF já demonstrou que divulgar os nomes não vai comprometer a segurança de ninguém. Então por que a resistência? Transparência pela metade é o mesmo que nada _ conclui Marina.
Decisão do CNJ ampliou a pressão sobre tribunal
Entre os órgãos estaduais contrários à publicação dos salários com os nomes, o caso mais controverso é o do Tribunal de Justiça (TJ). No dia 7, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou que a Corte gaúcha divulgasse os valores pagos a cada magistrado e servidor.
O impasse começou no ano passado, quando o CNJ deu prazo para que os tribunais brasileiros se adaptassem à nova regra. Em agosto, a entidade chegou a pedir explicações ao órgão do Rio Grande do Sul. Desde então, o TJ se vale de uma lei estadual que veda a identificação dos beneficiários para manter em sigilo as identidades.
Agora, o CNJ voltou a exigir a disponibilização, mas o TJ deu outra interpretação à decisão. A situação levou o relator da ação, Silvio da Rocha, a emitir nota reafirmando que a transparência deve ser ampla.
Na ocasião, o juiz-assessor da Presidência do TJ, Leandro Figueira Martins, disse a ZH que não pretendia polemizar "via notas e via imprensa".
PRINCIPAIS ÓRGÃOS QUE NÃO DIVULGAM NOMES E SALÁRIOS NO RIO GRANDE DO SUL
Governo do Estado do RS
Assembleia Legislativa do RS
Tribunal de Justiça do RS
Ministério Público do RS
Tribunal de Contas do Estado (TCE)
Câmara de Vereadores de Porto Alegre
Tribunal de Justiça Militar do RS
PRINCIPAIS ÓRGÃOS QUE DIVULGAM NOMES E SALÁRIOS, NO PAÍS E NO RIO GRANDE DO SUL
GOVERNO FEDERAL
Por determinação da presidente Dilma Rousseff, a União abriu em junho de 2012 os contracheques completos e nominais de 1 milhão de servidores federais na internet, incluindo funcionários civis e militares. É possível inclusive ver os jetons recebidos por ministros.
SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL
Por unanimidade, em maio de 2012, a mais alta Corte brasileira decidiu dar o exemplo e publicar os salários nominais de ministros e servidores em seu site, em atenção à Lei de Acesso à Informação. Os dados incluem vencimentos e vantagens, auxílios e benefícios.
TRIBUNAL SUPERIOR DO TRABALHO
Desde julho de 2012, a relação de salários nominais (de servidores ativos e inativos e de ministros) está disponível no site do TST. É possível saber em detalhes quanto cada um ganha em vantagens eventuais e indenizações. O site também informa os valores pagos em diárias.
CÂMARA DOS DEPUTADOS
Desde outubro de 2012, disponibiliza a consulta nominal aos salários dos servidores, mas o sistema oferece restrições. Para acessar os dados, o usuário do sistema é obrigado a preencher um formulário virtual com nome, CPF e endereço.
SENADO
Como a Câmara, oferece desde 2012 a consulta nominal aos salários dos funcionários, porém com restrições. Para acessar os dados de um deles e saber quanto ganha, é preciso preencher um formulário virtual com nome, CPF e endereço.
MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL
No Portal da Transparência do MPF (www.transparencia.mpf.gov.br), é possível acessar os salários nominais sem restrições e verificar todos os valores pagos, em detalhes, e a função exercida pelo servidor pesquisado.
MINISTÉRIO PÚBLICO DE CONTAS
Decidiu divulgar os contracheques nominais de julho de 2012 em seu site. A lista inclui valores recebidos pelo procurador e pelos três adjuntos. O documento segue à disposição para consultas, mas, desde então, não foi atualizado. O órgão afirma já ter providenciado atualização.
PREFEITURA DE SÃO PAULO
Com 155 mil funcionários, foi uma das pioneiras na divulgação nominal, antes mesmo da Lei de Acesso à Informação. Com dois cliques é possível chegar ao campo de busca por servidores. Estão disponíveis informações como remuneração básica, gratificações e renda bruta.
PREFEITURA DE PORTO ALEGRE
O prefeito José Fortunati assinou em junho de 2012 a ordem de serviço para a publicação dos dados no portal da prefeitura. Servidores entraram na Justiça, mas a Procuradoria-Geral do municípios recorreu ao STF e ganhou. Os dados seguem abertos.
O QUE DIZ A LEI DE ACESSO À INFORMAÇÃO
Em vigor desde maio, exige que os órgãos públicos divulguem dados oficiais de forma transparente e ativa, incluindo gastos com folha de pagamento.