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Um fenômeno sociológico

10 de abril de 2015 0

A história nos conta curiosidades do cotidiano no plano da economia. Não, não falo de folclore. Nem de declarações esquisitas de autoridades de plantão. Nem de microideias em tempos de enormes transformações no contexto macro. Refiro-me a fatos que ocorrem na vida real.

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Há praticamente três décadas, com o processo inflacionário correndo solto num patamar mensal recorrente de dois dígitos, surgiu à época a figura caricata dos fiscais do Sarney. Hoje, esta situação é absolutamente impensável. As pessoas estão mais a fim de fiscalizar atos dos políticos do que procurar quem não engorda bois. Ou maquia mercadorias. O ponto de convergência é único, a nos lembrar, hoje, dos tristes trópicos dos anos 80. Revivemos – com todas as diferenciações inerentes a períodos e índices – o sentimento de que a alta dos preços esvazia o poder de compra, de novo.

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O fato objetivo de percepção inflacionária, na atualidade, atende inclusive por um produto essencial e de forte carga simbólica: o pãozinho nosso de cada café da manhã. Com o preço da farinha de trigo subindo aproximadamente 13%, em média, desde o começo do ano, é claro que os donos de padarias têm de se preocupar.

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Até porque outros insumos ainda mais relevantes na composição de custos da atividade aumentaram muito de preço. O exemplo mais nítido é o da energia, que inchou demais as despesas operacionais das panificadoras. O repasse desses custos só é viável se se der em fatias. É o que, em muitos locais, se faz para recompor margens. Sempre com o cuidado de não extrapolar, para evitar chiadeira de clientes.

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Pessoas de todas as classes socioeconômicas comem seus sagrados pãezinhos. Isso faz parte da cultura do brasileiro. Está em nossa raiz antropológica e em nossa matriz culinária. Na prática, os consumidores estão levando das padarias menor quantidade de pães para casa. Pensamos ser este apenas um movimento de curta duração. À medida
que o ambiente econômico se tornar mais nítido, a maioria esmagadora voltará a conviver com os mesmos pãezinhos de antes.

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A observação é pertinente e surge de afirmação do ex-presidente e atual vice-presidente do sindicato patronal do setor, Norberto Viana. Tem como origem a efetiva sensação de perda de renda por parte dos trabalhadores. Inegável, mas tendencialmente passageiro. Algo para meses; não para dois ou mais anos.

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Há, no embalo das vivências cotidianas com o dinheiro, um fenômeno clássico constante em manuais nos cursos de economia: a troca de produtos e marcas mais caras por outras mais em conta. Até no caso dos pãezinhos, constata-se fato recentíssimo, totalmente novo, novíssimo, a desafiar empreendedores. Está em curso uma transformação de hábitos. Os estabelecimentos de panificação mais sofisticados, com produtos mais bem elaborados e de valor agregado maior, identificam um fenômeno improvável de acontecer há menos de meio ano. Eles estão perdendo clientes para concorrentes que entregam os itens básicos e, lógico, cobram menos por isso.

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Por isso tudo, não interessa aqui (ou interessa marginalmente) refletir sobre o preço do pão em si. Mas, sim, a respeito do que esta novidade comportamental pode significar sociologicamente.

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