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Contar feriados, uma preferência nacional

18 de abril de 2015 1

Vamos falar de sombra e água fresca? Ou vamos falar de produtividade? Sim, vamos falar de ambas as coisas. Há uma relação simbiótica entre elas, ainda que antagônicas ao primeiro olhar.

loetz
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As duas situações são: a preferência nacional em contar os dias de feriados (e de feriadões, claro) que o calendário marca; e de que o trabalho bem-feito conduz à prosperidade pessoal e coletiva. No primeiro caso, a busca por sombra e água fresca nos move, ainda em dezembro de qualquer ano, mirando as possíveis folgas do ano seguinte. É assim a cabeça das pessoas nestes trópicos ensolarados e de calor intenso durante meses a fio. A mente nos programa: vá à praia!

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É assim em fevereiro-março, no Carnaval. É assim, também, em abril, no feriado de Tiradentes, e, logo na sequência, no emblemático Dia do Trabalho, em 1º de maio. Outras datas, em meses subsequentes, especialmente na primavera e no verão, sugerem esta mesma ideia de contemplação: bebida no copo a admirar paisagens e gente ao redor. Todos nós nos enxergamos dedicados ao relaxamento, na perspectiva de que o ócio criativo libere energias para melhorar a produtividade na semana seguinte às folgas.

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Nesta semana que começa, veremos este comportamento se repetir. A data de morte de um patriota, Tiradentes, lembrada nesta terça, dia 21, será motivo para levar milhões de pessoas às estradas já a partir deste sábado, dia 18. Quatro dias sem trabalhar! Todos gostam. Pessoal do chão de fábrica e de áreas administrativas. Lideranças e empresários também. O olhar predominante é esse. Algo errado nisso? Lógico que não, mas é fundamental termos a consciência de que sem trabalho duro, nenhuma sociedade, nenhuma nação progrediu até hoje.

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Executivos de empresas dos mais diferentes tipos de negócio são líderes se conseguem extrair de seu grupo o melhor de cada um, sem deixá-los doentes por causa do estresse.

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A queixa mais comum dos empresários é bem conhecida: há feriados demais no Brasil. O custo disso soma bilhões de reais por ano ao País. E com as “emendadas”, as paralisações das atividades sugam tempo que poderia ser empregado na formação maior de riqueza.

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O argumento é pertinente. Mas é preciso refletir. Estamos em 2015, num período em que várias empresas reduzem jornada de trabalho porque o mercado se retraiu. Esta retração implica menos dias de trabalho por mês. Esta circunstância “organiza” a equação por causa, mesmo, da conjuntura econômica desfavorável. Por um momento, as visões distintas entre o que quer o empresário e a prática secular entronizada no cotidiano de se esperar ansiosamente por feriados e feriadões se unem. A causa é comum. Mas não é boa, porque acontece em tempos de dificuldades.

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O ideal dos mundos seria que os trabalhadores não precisassem pensar, antecipadamente, em folgas. Acreditar nessa posibilidade, só quando formos mais bem preparados educacionalmente, com efeitos positivos sobre renda crescente e melhor desempenho profissional. Longa jornada esta.

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Há duas culturas se digladiando dentro de nós, como sociedade. A do capitalismo, a exigir cada vez mais competências e resultados; e a da noção de que a vida não deve ser só direcionada ao trabalho. Num mundo supertecnológico e dominado pela certeza de que o tempo é escasso para todas as demandas diárias, conciliar as duas coisas tornou-se praticamente imperioso.

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Enquanto nada muda, vamos trabalhar. E curtir o barulho do mar, do tilintar de copos, a espreitar gente nas areias quentes das praias, fingindo que não tememos a conta do cartão de crédito no outro mês.

Comentários (1)

  • Denis Beck diz: 20 de abril de 2015

    Bem, ao que parece aos arautos do lucro do capitalismo, sonhar com a diminuição dos feriados, é ligada a retirada de direitos dos trabalhadores, tudo pela busca da produtividade e da competitividade, palavrinhas mágicas que aumentam os lucros de poucos, em detrimento do suor do rosto de muitos. Vocês querem cada vez mais baratear os seus custos, socializar o trabalho e o suor, privatizar o lucro nem é mencionado, apenas socializar o que não lhes interessa, não é? Então vale a pena “privatizar mais”, “terceirizar mais”, salários menores e jornadas de trabalho maiores, tudo por uma nação próspera? Ou por um bolso privado próspero?

    Dificilmente vocês vão liberar meu comentário, esperem pela regulamentação da mídia. haha

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