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"Joinville perde seu principal interlocutor", analisa Cláudio Loetz

10 de maio de 2015 1

lhsloetz


Um nome para a história

Testemunhei que a morte do senador Luiz Henrique da Silveira foi tema de conversas nos corredores do aeroporto de Congonhas, em São Paulo,na tarde de domingo, em pleno Dia das Mães. O assunto dividiu a atenção com os comentários de torcedores, que voltavam do Rio de Janeiro, onde o JEC, na véspera, tinha perdido o primeiro jogo do Brasileirão, na sua volta à Série A. Para muitos empresários, LHS, por vezes, foi exatamente isso _ ou quase: uma mãe.

O mundo empresarial catarinense perdeu um de seus mais relevantes interlocutores da cena política. Certamente, o mais influente da história dos últimos 40 anos. Eleitoralmente, ainda mais importante do que o tão proclamado Jorge Konder Bornhausen. Este, sim, um nome inteiramente dedicado apenas aos bastidores. LHS viveu para e com o poder nas mãos, no cérebro e na alma. A obsessão pelo poder era a sua vitamina.

:: Prefeito e políticos de Joinville prestam homenagens a LHS

Teve três causas principais, as quais defendeu veementemente nos últimos 20 anos: a descentralização administrativa, que implementou no governo de SC a ferro e fogo e contra todos os críticos a maldizerem o fisiologismo. Clamou por um redesenho do pacto federativo, pregando mais justa distribuição de tributos entre a União, os Estados e os municípios. E, claro, a paixão pela cultura. Essencialmente, pela dança.

Ganhou quase todas as disputas. A mais sentida derrota ocorreu na eleição para prefeito de Joinville, na década de 1990. Quando as urnas consagraram o então empresário Wittich Freitag, LHS ficou desconcertado. Na entrevista convocada para explicar o resultado, irritou-se, aos brados, com um radialista considerado mais do que um simples adversário. Ter LHS do outro lado do balcão nunca foi agradável para ninguém.
Ao vencer a disputa para governador pela primeira vez em 2002 (numa jornada épica e inacreditável para 99% dos seus próprios correligionários), o partido e os amigos fiéis de vida e de campanha promoveram um jantar em sua homenagem no restaurante Rudnick, no distrito de Pirabeiraba, em Joinville. Quando LHS chegou, um séquito de seguranças o acompanhava. Notava-se logo: era o dono do pedaço. Sorria com o ar dos vitoriosos inquestionáveis, aqueles que derrotaram todos os imponderáveis. Um campeão. Imperial na postura.

Foi muito melhor parlamentar do que executivo, apesar de ter deixado legado que sobrevive até hoje. Viveu intensamente as duas experiências. Como deputado estadual, deputado federal e senador. E também como prefeito de Joinville por três vezes, e como governador de Santa Catarina por duas vezes.

Sua capacidade de trabalho, a determinação revelada a cada dia e a persistência na busca da concretização das suas convicções fez dele um político diferenciado. Foi inspiração para muita gente. Era um nome muito procurado por quem queria uma opinião sobre como chegar aos escaninhos de Brasília. Antes, enquanto dirigiu os destinos da população catarinense, foi condutor de ideias administrativas de difícil implementação. Insistiu nelas com teimosia. A mais emblemática atende pelo nome de descentralização, sua marca indestrutível como gestor.

Em funções executivas, e por força de sua indiscutível capacidade de articulação, teve lampejos iluminados. Muito bem relacionado nacional e internacionalmente, ajudou a convencer o megaempresário italiano Fabio Perini a fincar, no meio do mato, o que hoje é o mais moderno complexo multissetorial do Brasil, o Perini Business Park.

Sonhou e criou o Centreventos Cau Hansen. Uma obra feita às pressas, que cumpre o papel de abrigar o Bolshoi e sediar, anualmente, o consolidado Festival de Dança. Na qualidade de governador, promoveu o crescimento dos negócios, com programas como o Prodec e o Proemprego, ainda necessários à política fiscal de atratividade do Estado na captação de investimentos externos, ou de companhias de outras regiões do País.

Em Joinville, grande parcela da população sempre o reconduziu a novos mandatos. Tinha a aura de um político carismático, envolvente, motivador. O povo o via como um líder que trabalhava para melhorar o dia a dia de todos. Pena que durante tantos anos com a caneta na mão não teve a sabedoria de compreender que a cidade precisava (e precisa) de obras essenciais para a efetiva melhoria da qualidade de vida.

Obras viárias e um hospital novo. São dois problemas a desafiar, em 2015, os atuais donos do poder. O anúncio de sua morte mudou a agenda dominical de muita gente. Trouxe a Joinville, numa noite fria de outono, centenas de personalidades da política e do mundo empresarial. Luiz Henrique merece ser estudado com profundidade pela academia e ter capítulo à parte nos livros de história de Santa Catarina. O historiador Raymundo Faoro gostaria de ter escrito algo sobre a trajetória de LHS.

 

Comentários (1)

  • Giovani diz: 11 de maio de 2015

    Nosso estado fica órfão e falido politicamente, pois o maior e melhor de todos não se faz ais presente no s corredores do poder para nos representar e enfrentar tudo e todos pelo bem de Santa Catarina.

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