
Mesmo sem ser votado, o plano de recuperação judicial apresentado pela direção da Busscar Ônibus foi o grande perdedor na assembleia de credores, ontem, no Centreventos Cau Hansen. A decisão do juiz Maurício Povoas, por meio de um assessor, de suspender a reunião quando se desenhava a derrota da proposta da companhia, às 17h31 – e definir que nova assembleia será realizada em até 60 dias – delineava-se ao longo da tarde. Isto acontecia à medida que advogados de principais credores cochichavam estratégias em conversas paralelas, em cantos do ambiente onde a discussão do plano aconteceria.
Agora, o tempo urge e o primeiro encontro deles já poderá ocorrer amanhã. “Quero começar a conversar já na quinta-feira”, diz Dicler de Assunção, advogado dos tios do presidente da empresa, Cláudio Nielson. Os tios e ex-sócios têm créditos de R$ 304 milhões.
A certeza de que seria necessário um novo texto ficou clara bem antes de a assembleia começar. Às 15h31, o novo advogado do Sindicato dos Mecânicos, contratado para a causa, André Toledo, de São Paulo, antecipava: “Vamos costurar um plano novo, envolvendo credores, devedores e sindicato de trabalhadores, em 30 dias, para a realização de nova assembleia em dois meses”.
A tese prevaleceu depois de Fernando Buffa, representante da empresa chinesa Shandong Heavy Machinery Group, ter mostrado disposição de investir na Busscar. Buffa explicou seus interesses. “Para nós, a aprovação ou a rejeição do plano, hoje (ontem), não interessa”. E foi o grande vencedor. Sorria, discretamente, comemorando quando do encerramento da reunião.
Antes de festejar, teve de se confrontar com funcionários exaltados da Busscar. Questionavam, aos berros: “Por que não apresentou proposta nestes seis meses em que a empresa está em processo de recuperação?” E desvencilhava-se de grupo de trabalhadores. Incentivados pelo gerente de informática da Busscar, Esbaldini Testoni, cercaram Dicler, Toledo e outros credores. Foi uma conversa na qual predominou o tom colérico de alguns, inconformados com a não votação. Bradavam: “Quem vai pagar os nossos salários? Temos de esperar por mais dois meses?” Até o presidente do sindicato, Evangelista dos Santos, foi insultado.
PROPOSTA CHINESA
De hoje em diante, há tempo para surgir a possibilidade de proposta concreta para salvar a Busscar. A viabilidade de os chineses aplicarem R$ 130 milhões pode se concretizar, ou não. Mas tem, até, a presença do secretário de Assuntos Estratégicos do governo do Estado na questão. Paulo César da Costa encaminhou ofício ao administrador judicial, Rainoldo Uessler, no dia 18 de maio, e já visitou o grupo asiático em busca de novos negócios para Santa Catarina.
Buffa é claro: se o projeto a ser mostrado não vingar, “os chineses farão a fábrica de carrocerias de ônibus em outra cidade catarinense. A decisão por SC está tomada. E o empreendimento pode ser em Joinville, Araquari, Blumenau, Brusque ou Lages”.
O clima emocional e de tensão foi crescendo à medida que mais demorava para começar a assembleia, o que só aconteceu às 16h01. Havia gente no Centreventos desde as 7h30 da manhã. O credenciamento só foi finalizado às 15h40. Parecia desrespeito.
A Busscar fez o que pôde para tentar evitar que os ex-sócios pudessem votar. E perdeu ao recorrer à Justiça. Ao fim, isto se tornou desnecessário porque sequer houve votação.
O novo advogado do Sindicato dos Mecânicos, com experiência em 70 processos de recuperação judicial, foi contundente, já às 14h38. “É necessário encontrar novo dono para a Busscar, e que se consiga governança corporativa adequada. Este é um dos três piores planos que já vi”.
Naturalmente, o advogado da Busscar, Euclides Ribeiro S. Junior, tinha outra visão dos fatos àquela hora: “A suspensão da assembleia não será boa e nem é do interesse da empresa”.
Pouco depois, às 15h05, os trabalhadores perderam a paciência e começaram a vaiar, pedindo pelo começo dos trabalhos. Esperariam por mais 56 minutos. E mal começou, a Novelis do Brasil foi fundo: “Este plano é um grande retrocesso. Desconto de 70% de nossos créditos é imoral. Queremos receber tudo, com juros e correção integral, mesmo que parceladamente”.
Daí em diante, os olhares de credores miravam na plateia incentivada por alguns e se preparando para o descontrole. Não por acaso, antes das 13 horas, o juiz Maurício Povoas pediu reforço policial. Foi oportuno. Ao final, Toledo esgueirou-se, escapando da fúria de funcionários inconformados. E, a passos largos, assustado, saiu do Centreventos.